Hiroshima
*
Por Manoel de Andrade
Hiroshima,
Hiroshima
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.
Farol
de luz no estuário
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.
Verão
de quarenta e cinco
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.
Surge
o Sol, se abre o dia
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.
Teus
colibris revoavam
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.
O
arroz na água e na espiga
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.
Vidas…
teu rosto eram vidas
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.
Folguedos,
danças, cantigas
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.
As
horas cruzavam o dia
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.
De
repente nos teus ares
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.
O
beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.
No
céu… um avião se afasta
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e a cidade destruída.
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e a cidade destruída.
Quem
eras tu, Hiroshima
naquele dia distante…?
naquele dia distante…?
Eras
sonhos e esperanças
incendiados num instante…
incendiados num instante…
Quantos
projetos de vida
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.
Eras
filhote no ninho
eras fruto no pomar
canteiro de brancas rosas
e toda a vida a cantar.
eras fruto no pomar
canteiro de brancas rosas
e toda a vida a cantar.
Eras
mãe, eras criança
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente
Por
que Hiroshima, por quê…?
o punhal de fogo, a explosão…?
Por que cem mil corações
ardendo sem compaixão…?
o punhal de fogo, a explosão…?
Por que cem mil corações
ardendo sem compaixão…?
Tua
inocência cremada
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.
Teu
sangue vive na história
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas, na memória
na dor dos sobreviventes.
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas, na memória
na dor dos sobreviventes.
Quem
previu tua agonia?
Quem explodiu tua paz?
Quem tatuou nos teus lábios
as palavras: nunca mais!?
Quem explodiu tua paz?
Quem tatuou nos teus lábios
as palavras: nunca mais!?
Comandantes,
comandados…
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?
Por
tanta dor, rogo a Deus
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.
Hiroshima,
flor da vida,
semente, ressurreição.
Fênix, face renascida.
PAZ, santuário, canção.
semente, ressurreição.
Fênix, face renascida.
PAZ, santuário, canção.
* Escritor, historiador, geógrafo, advogado e professor.
Que tragédia tão maravilhosamente lembrada. Quanta força tem esse poema! Parabéns, Manoel de Andrade!
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