terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, oito meses e sete dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Os contundentes diários secretos de Humberto de Campos.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica, “Chegou dezembro”.

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, trecho de livro, “O frustrado”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, crônica, “Olhos devoradores’”.

Coluna Porta Aberta – Maria Eugênia Amaral, crônica, “Um doce vilão!”.

Coluna Porta Aberta – Fausto Brignol, artigo, “Cuba”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbert Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

 


Os contundentes diários secretos de Humberto de Campos



O escritor russo Fiodor Dostoiévski declarou, em determinada ocasião: “Nas lembranças de cada homem há coisas que ele não revelará para todos, mas apenas para seus amigos. Há outras coisas que ele não revelará nem para seus amigos, mas apenas para si próprio, e ainda somente com a promessa de manter em segredo”. Ou seja, há idéias, fatos e comportamentos, sobretudo vícios, preferências tidas como imorais, taras etc. que gostaríamos que jamais viessem à baila, caso os tenhamos. A razão é óbvia. Se fossem (ou se venham a ser) divulgadas, essas coisas secretas que ansiamos em conservar para sempre em segredo, maculariam (ou macularão) nossa imagem. Para que a divulgação não aconteça, principalmente após nossa morte, manda a prudência que não reste a mínima prova de nada disso: nem carta, nem bilhete, nem e-mail, nem diário, nem rascunho de algum texto que tenhamos nos arrependido de iniciar, nem fotos, nem vídeos etc.etc.etc. Ou seja, nada. Rigorosamente nada.

Ainda assim, nunca haverá garantia absoluta de que aquilo que tenhamos nos empenhado tanto para permanecer secreto (como um romance extraconjugal, ou algum caso de homossexualismo, ou mesmo um crime cuja autoria jamais foi descoberta, entre tantas e tantas coisas), permanecerá para todo o sempre em segredo. Para que isso ocorra o ideal é não fazer e não pensar nada de errado. Porém se o fizer, jamais confidenciar isso a ninguém, nem à pessoa em que depositar a mais irrestrita confiança, seja ela quem for. Miguel de Cervantes escreveu a esse propósito: “Tolo e muito tolo é aquele que, ao revelar um segredo a outra pessoa, pede-lhe encarecidamente que não o conte a ninguém”. Maliciosamente ou não, deliberadamente ou por acaso, essa revelação certamente será partilhada com uma ou com milhares de pessoas, sabe-se lá quantas.

Humberto de Campos certamente tinha consciência de tudo isso ao escrever seus diários. Ele começou a escrevê-los, posto que não com regularidade, antes de se tornar o jornalista, escritor e político famoso em que se tornou, ou seja, ao longo da década de 1910, mais especificamente em 1915. Interrompeu-os em 1917 e retomou-os somente depois de diagnosticada sua doença, nos seis últimos anos de vida, entre 1928 e 1934. A partir de então, escreveu-os com absoluta assiduidade, até oito dias antes de morrer. Ao pressentir a proximidade da morte, poderia tê-los destruído, dado o conteúdo sumamente polêmico desses registros diários. Não os destruiu. Por que? Talvez só ele soubesse o motivo. Não se diga, no entanto, que não soubesse que as observações que fez nesses volumes tão íntimos, iriam causar polêmicas e gerar inimizades “post-mortem”. Ele sabia disso. Tanto sabia que deixou instruções escritas para que esses “diários secretos” fossem publicados apenas quinze anos depois de sua morte. Ou seja, somente a partir de 1949.

Quem adquiriu os direitos comerciais para a publicação desse material respeitou esse prazo. Aliás, foi muito além dos quinze anos exigidos por Humberto de Campos. Publicou-o, a princípio em forma de fascículos e, posteriormente, em livro, só em 1954. Ou seja, vinte anos depois da morte do escritor. E esses diários secretos caíram como uma “bomba” de altíssima potência nos meios literários, culturais e políticos do Brasil de então, repercutindo, inclusive, por mais de uma década. Os registros e impressões pessoais de Humberto de Campos trouxeram revelações e opiniões bombásticas sobre inúmeros figurões da República, quer do meio cultural, quer do literário, quer do político etc.etc.etc. Raras personalidades públicas foram poupadas. Nem mesmo Machado de Assis, que o jornalista maranhense jurava venerar e reverenciar, escapou de suas observações ferinas. Vários de seus amigos íntimos, a quem Humberto de Campos devia gratidão pela ajuda que lhe prestaram, como Olavo Bilac, por exemplo, foram ironizados e ridicularizados. O então presidente Getúlio Vargas, que se confessava admirador incondicional do jornalista e escritor maranhense, foi um dos alvos preferenciais de seu escárnio.

A organização jornalística que adquiriu os direitos de publicação dos diários de Humberto de Campos, foi a Empresa Gráfica Cruzeiro S. A., fundada em 1928 (ano em que ele “descobriu” sua doença), pelo jornalista português Carlos Malheiro Dias. Anos depois, ela seria adquirida por Assis Chateaubriand e incorporada ao conglomerado de mídias (jornais, revistas, rádios e duas emissoras de televisão) conhecido como “Diários Associados”. O carro chefe, tanto da empresa original, quanto da que a adquiriu era a revista semanal “O Cruzeiro”, de circulação nacional, que por muitos anos foi líder desse setor jornalístico.

Ressalte-se que os “Diários secretos” de Humberto de Campos não contêm só críticas e observações mordazes aos figurões seus contemporâneos, amigos ou inimigos, indiferentemente. O último registro que fez, em 27 de novembro de 1934, foi comovente. Foi uma das mais belas e pungentes manifestações públicas de amizade que alguém já fez. O alvo desse seu registro foi seu grande amigo Coelho Neto, que havia morrido dias antes. Humberto de Campos encerrou assim sua mensagem ao seu ilustre colega de letras e de Academia, que considerava como a um irmão: “Despeço-me! E deixo que as lágrimas me corram pelo rosto, e que os soluços me tomem o fôlego, profundamente comovido. E mando à sua casa uma braçada de cravos vermelhos para o seu caixão”.

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk                   
Chegou dezembro

* Por Evelyne Furtado


Em dezembro meu olhar se volta inteiro ao que foi ontem e ao que será amanhã, janeiro.

Dias quentes nos quais abraço a quem vejo e mesmo a quem não vejo sinto tão perto, tão dentro.

Escorre o sol em minha pele seivando palavras que expressem a vontade de um amor incandescente no qual insisto em crer. E creio.

Vale a pena renovar o desejo a cada dezembro.

Domando a ansiedade, própria do mês corrente, como se o mundo disparasse para acabar ali na frente, sigo querendo acertar meus passos com a vida antes que outro ano se faça presente.

Adiarei, entretanto, suas exigências. Deixarei para amanhã as compras às quais me entregarei de qualquer jeito. Certamente esquecerei alguém e morrerei de aflição por alguns segundos no Natal.

Reprisarei alguns votos monotonamente. Evitarei o trânsito e a tristeza loucamente. Esquivar-me-ei de pessoas em shopping centers. Mas desejarei amar enormemente.

Com todos os transtornos e tropeços; com os calores e as saudades que se acentuam mês adentro, ainda assim, aqueço a esperança ao céu de dezembro.


* Poetisa e cronista de Natal/RN.
O frustrado

*Por José Calvino
  

Se eu fosse adulador
não viveria às portas
da loucura ou da miséria;
eu viveria na mansão Tibérica:
Do ódio, da paixão e da porfia.
Sem o meu sangue, vivesse
a covardia de bajular
o lodo da matéria;
eu extrairia a principal artéria
e esse sangue covarde morreria;
se eu vivesse atrás dessa gentalha,
eu venceria as principais batalhas melhor que Aníbal, César e Cipião.
Mas como nada disso sei fazer;
sou um frustrado e vivo a padecer...
Sem escalar o Monte de Sião.

Nota – Extraído do livro: “O grande comandante”, p. 103 – ed. 1981.


*Escritor, poeta e teatrólogo pernambucano.
Olhos devoradores

* Por Eduardo Oliveira Freire


Não sei o motivo, mas, meus olhos tornam-se bocas famintas e devoram tudo que encontram.

Quando voltam ao normal, só vejo ruínas. Além, de sentir um vazio terrível. É estranho, já que, ao mesmo tempo, sinto-me empanzinado.

Resolvi me refugiar para um lugar bem distante da civilização.

Na imensidão das dunas e do mar, meus olhos devoradores tornam-se insignificantes.

Na solidão, encontrei a paz e o vazio-abismo adormeceu dentro de mim.

Bem, pelo menos, por enquanto...

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/


Um doce vilão!

* Por Maria Eugênia Amaral


Senta que lá vem história... Crianças que nasceram no século passado aqui pelas bandas do Centro-Oeste corriam muito e por toda parte ─ em quintais, em ruas, em trilhas e nos recreios. E precisavam de um bom combustível para tanta atividade. Usando-me confortavelmente como parâmetro: eu era movida a rapaduras, bolos e pães caseiros. E era, inacreditavelmente, magra.

Atualmente as crianças não correm tanto. Há pouco espaço entre o sofá e a TV. Hoje, quem anda pra valer são seus avatares em jogos online. Como correm para a caça de pokémons! E o combustível também mudou drasticamente: bytes para o avatar; biscoitos, chocolates e refrigerantes para quem, sentado, manipula o celular. Pouca atividade física e muita guloseima industrializada. Agora basta somar os dois para obter o resultado: obesidade. Foi-se o tempo em que criança rechonchuda era bonitinha... E a história começa a preocupar, com o considerável aumento do risco de hipertensão arterial infantil (que até recentemente era coisa exclusiva de adultos).

Alarmantemente, avós, tias e mães (e o lado masculino da família também) colocam refrigerantes em mamadeiras. Já presenciei várias vezes esse ato insano ─ ou talvez ingênuo, por simples desinformação. No Brasil algumas mudanças são mais lentas do que outras. Mas, quem sabe, não copiaremos rapidinho os novos hábitos que estão sendo adotados lá fora? Em 22 de agosto de 2016, cerca de três meses atrás, a Associação Americana do Coração (American Heart Association, nos EUA) emitiu uma nota recomendando enfaticamente que “bebês e crianças com menos de dois anos não devem comer nenhum alimento com adição de açúcar”. Veja bem: NENHUM AÇÚCAR ADICIONADO. Ou seja, alimentos adocicados pela própria natureza são permitidos, como frutas. E a Associação vai além: “Já as crianças maiores devem ingerir açúcar adicionado somente em uma quantidade equivalente a, no máximo, 100 calorias por dia”. Ou seja, para maiores de dois anos de idade, o limite está em torno de 25 gramas de açúcar diários (menos de seis colheres de chá). Uau! Já vi muito achocolatado familiar por aqui com muito mais do que isso em cada porção.

As recomendações frisam também que tais restrições são cruciais nos primeiros anos de vida: “Essa idade é particularmente importante porque é quando as crianças desenvolvem suas preferências de sabores”.

Bom senso à mesa. Vida saudável, quem diria, não precisa ─ e nem deve ─ ser tão doce!


* Escritora.
Cuba


* Por Fausto Brignol


No dia 26 de novembro de 1956, o iate Granma, com capacidade para 25 pessoas, partiu do México e efetuou uma travessia de dois mil quilômetros até Cuba, transportando 82 homens, além de 2 canhões, 35 fuzis com mira telescópica, 55 fuzis de assalto, 3 metralhadoras, 50 pistolas, munições e mantimentos.

Tudo se perdeu na chegada à ilha. Enfrentando tempestades e sendo atacados pelas tropas de Fulgêncio Batista, escaparam somente 16 guerrilheiros, entre eles, Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raúl Castro. Iniciava-se a revolução cubana com um punhado de homens quase desarmados e sem mantimentos. Refugiaram-se na Sierra Maestra e ali começou a luta com o apoio do Movimento 26 de Julho (mais tarde Partido Comunista Cubano) e, principalmente, do povo cubano. Em 1959 a revolução cubana foi vitoriosa.

60 anos depois, Fidel Castro inicia uma jornada para a revolução da eternidade. Cuba fica órfã daquele que conseguiu restituir-lhe a dignidade. A partir de 1959, Cuba teve quatro presidentes da República: Manuel Urrutia, de janeiro de 1959 a julho de 1959; Osvaldo Dorticós, de julho de 1959 a 1975; Fidel Castro, de 1976 a 2006 e Raúl Castro, desde 2006.

Antes da revolução, Cuba era o paraíso das multinacionais, dos empresários e banqueiros. Lembrava o Brasil de hoje: o quintal favorito dos Estados Unidos. Após a revolução, paulatinamente o povo foi readquirindo os seus direitos. Fez-se a reforma agrária e a reforma urbana, o sistema de ensino é gratuito desde o primeiro ano e até a formação universitária; a saúde é gratuita em todos os postos e hospitais; todos têm emprego e moradia, o nível de alfabetização é o maior das Américas, restando somente 4% de analfabetos.

A Cuba de Fidel ajudou os movimentos independentistas não só na América Latina, como na África, notadamente Angola e Moçambique. Certa vez, perguntado por um jornalista estrangeiro sobre quais eram as riquezas de Cuba, Fidel respondeu que a principal riqueza cubana é o seu povo.

Médicos cubanos estão em todos os lugares do mundo, a medicina de Cuba provavelmente seja a mais respeitada do mundo. Foi o primeiro país a descobrir a vacina contra a hepatite C e contra o câncer de pulmão; o primeiro país a bloquear o HIV, através de vacinas que imunizam filhos de portadores da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. 

Cuba é uma potência em todos os esportes, com a exceção, talvez do futebol: os cubanos preferem jogar xadrez. Cuba desenvolveu-se em todos os setores, não somente na ciência, na educação e nos esportes. As artes, em Cuba, são uma referência para aqueles que desejam luz, mais luz. Apesar do bloqueio econômico promovido pelos invejosos países capitalistas, Cuba é livre. Morreu Fidel, viva Cuba!

* Jornalista e escritor