terça-feira, 22 de agosto de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, quatro meses e vinte e cinco dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Amigos e ocasiões.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, crônica, “Ajuste poético”.

Coluna Do real ao surreal Eduardo Oliveira Freire, crônica, “Foco”.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, “Operação Leão do Norte”.

Coluna Direto do ArquivoCaco Pontes, poema, “Calhas da roda”.

Coluna Porta Aberta – Harry Wiese, crônica, “Tanatologia, a ciência da morte”.


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Livros que recomendo:


Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Amigos e ocasiões


A amizade é um fenômeno mal compreendido e, por isso, gera inúmeros equívocos e decepções. Muitos, por exemplo, que acham que têm “um milhão de amigos”, não raro não têm nenhum. Outros tantos, que julgam não contar com nenhum, os têm em profusão.

Esse sentimento benigno é, e deve ser sempre, absolutamente espontâneo. Não se prende a qualquer compromisso, regra ou obrigação. Nasce à nossa revelia, como o sol num dia de céu azul de primavera, como as chuvas de verão, como as quatro estações do ano e assim por diante. E quando acaba, o faz da mesma forma. Ou seja, espontaneamente, de mansinho, sem nenhum alarde ou drama e sem deixar ressentimentos no seu rastro.

Não somos amigos de alguém porque o escolhemos ou porque desejemos isso. E a recíproca, claro, é verdadeira. Não se trata de ato de vontade, de escolha, de apuração, em outra pessoa, de virtudes que julguemos que ela possua (e que raramente, de fato, tem).

Há quem confunda, amiúde, amizade com admiração. Não são, todavia, coisas iguais. Ao contrário, são muito distintas e com características bem definidas. Posso, por exemplo, admirar profundamente determinada pessoa e, no entanto... não ter a menor afinidade com ela e não desejar nenhum tipo de relacionamento com a mesma. Ou posso ser admirado por ela, mas “nossos santos” não se cruzarem.

Acho, por isso, uma bobagem sem tamanho a tentativa de alguns de “testarem” amizades. Se elas precisarem de algum teste para serem comprovadas é porque não existem, nunca existiram e jamais existirão. Por que? Porque estará rompida sua característica fundamental: a irrestrita confiança mútua. Quem testa é porque não confia. E quem não confia em mim (mereça eu confiança ou não), não é e jamais pode ser meu amigo. E ponto final.

O site de relacionamentos Orkut no passado e o Facebook agora ensinaram-me muitas coisas a esse propósito. Ajudaram-me, por exemplo, a distinguir quem me dedicava (e me dedica), de fato, genuína amizade e quem apenas desejava (e deseja) um “correspondente” assíduo, sofisticado, que escreva maravilhosas (e hipócritas) mensagens laudatórias, que lhe massageiem o ego.

Felizmente, pelo menos no meu círculo de amigos, essas pessoas são poucas. Ou, na verdade, eram, pois, os que queriam um “admirador”, e não um amigo, romperam imediatamente esse vínculo informal que tinham comigo (foram mais de cem nos últimos dias os que agiram assim). Classificaram-me de “fantasma” (Deus do céu, será que morri e esqueceram de me avisar?!) e (usando um termo típico de informática) “me deletaram”.

Azar deles! Não entenderam que, para se “ter” amigos, é preciso, antes de tudo, “ser” amigo. Claro que nunca foram e que jamais serão. Devo ficar aflito por isso? De forma alguma! Essas pessoas infringiram uma das únicas e mais importantes regras informais da amizade: a da não exigência. Não se pode, em circunstância alguma, exigir o que quer que seja de alguém que achamos que seja nosso amigo. E vice-versa. Tudo tem que ser sempre natural, espontâneo, sem interesses e nem testes e muito menos obrigações prévias.

Li, recentemente, pitoresco texto de Mário de Andrade a esse propósito, que partilho com você, paciente leitor. O autor de “Macunaíma” afirma, em determinado trecho: “Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras”.

Só não concordo com Mário de Andrade quanto ao dia da semana de sua preferência. No mais... Da minha parte, desde os tempos de namoro (e isso já faz muuuuito tempo), prefiro as quintas-feiras. Era nelas que passava momentos inolvidáveis com minha eterna amada (hoje minha esposa), de olho nos sábados e domingos. Eram esses os três dias que, na época, os pais consideravam “adequados” para se namorar. E sempre sob sua diligente supervisão.

Eram outros tempos, claro. Não havia o tal do “ficar”, tão do gosto da mocidade de hoje. Eram, isso sim, namoros “comportados”, vigiados zelosamente por alguém da família, via de regra algum irmão mais novo da namorada (que subornávamos desavergonhadamente, para que nos desse trégua e nos deixasse a sós por alguns preciosos minutinhos que fossem).

Hoje, logo no primeiro encontro, após trocar não mais do que meia dúzia de palavras, lá vai o casal para algum motel, gozar das delícias do sexo. Ou seja, “a entrada” da refeição passou a ser substituída: é, agora, o próprio banquete (e vice-versa).

Os namorados romperam o que havia de melhor no namoro, que era o mistério, a imaginação, a mútua conquista, tarefa que exigia paciência que se rivalizasse com a do patriarca bíblico Jó. Mas quando se chegava aos finalmente... Era um delírio! Era o transporte do céu para a terra!

Naquele tempo, tocar, mesmo que de leve, como que sem querer, os seios da garota, era uma façanha heroica! E o beijo... Nem é bom falar! A garotada, hoje, ri, com ar de superioridade, quando isso vem à baila. Mal sabe o que está perdendo com sua afoiteza! Por isso, por causa daquele exercício de controle e de paciência que mantínhamos (ou também por isso), os casamentos que resultavam desses namoros eram para a vida toda. Hoje...

Bem, o assunto tratado não era bem este. Mas como todo conto exige novo ponto... E essa história de que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos é coisa de quem, de fato, não tem a mínima noção do que são amizades. Como Mário de Andrade, portanto, também tenho horror às grandes ocasiões. Mas continuo preferindo as quintas-feiras...

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ajuste Poético


* Por Evelyne Furtado
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- Por favor, onde fica o ponto entre a ingenuidade e a descrença total? Preciso urgentemente encontrá-lo. Não quero vagar de um extremo ao outro. Há de existir algo no meio do caminho. Não desejo uma mudança tão radical. Deve ser por isso que caio e levanto no mesmo lugar.

É verdade que já dei alguns passos em outra direção, mas outro dia me ouvi apelando para que alguém me dissesse que vale a pena insistir.

Tem sido assim de uns tempos para cá: A vida mostrando a língua e eu fingindo não ver ou um sonho atrás do outro na fila do despertar.

Acho que essa aura de candura já não me cai bem. Tenho para mim que as roupas também não estão adequadas. Às vezes sinto o desconforto do organdi na pele de menina bem comportada que detestava usar aquele vestido azul marinho.

Em outras lembro o jeans que apertava demais. Alguns vestidos estão muito curtos; outros arrastam a poeira de duzentos anos atrás.

Estou consciente de minha inadequação, mas sem toda coragem para mudar. Mesmo as minhas palavras precisam de ajustes, pois teimam permanecerem na irresponsabilidade poética andando por aí sem documentos, nem regras gramaticais. Umas sem estilo, mas muito queridas por mim, minhas palavras são.

Por isso repito a pergunta com a qual iniciei esse pequeno texto. Existe realmente esse lugar? Se existe aproveite e me diga com que roupa devo chegar.


* Poetisa, cronista e psicóloga de Natal/RN.


Foco


* Por Eduardo Oliveira Freire


Ultimamente, ouço várias vezes esta palavra. Até concordo em focar, pois a vida é diversa e ninguém consegue assimilar tanta coisa ao mesmo tempo.

Viver sem foco é como um barco à deriva.

Porém, o que tenho receio é as pessoas confundirem focar com ser obcecado e obsessivo, levando a uma patologia ou uma insensibilidade em relação aos outros.

Em muitas ocasiões, precisa-se desfocar para curtir as coisas simples da vida, as quais são fundamentais para viver.

O que acabei de dizer pode ser clichê, mas, é uma verdade verdadeira.


* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/


Foto – Policiais e Bombeiros, com o slogan “Vitória”, “Vitória”!!!

Operação Leão do Norte”

* Por José Calvino


Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições
De morrer pela pátria e viver sem razão”
(Geraldo Vandré)


A “Operação Leão do Norte”, mostra que a Polícia Militar é considerada força auxiliar, uma reserva do Exército, organizada com base na hierarquia e na disciplina. Subordina-se diretamente ao Governador do Estado. São proibidas quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores, quanto às de caráter reivindicatório. Os princípios democráticos em qualquer nação livre baseiam-se no senso de justiça de todas as instituições de governo, entre as quais deve existir respeito mútuo.


Cadê a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de número 300-A de 2008, que trata da unificação dos salários dos policiais em todos estados do Brasil?


Entretanto, no dia 27 de abril, no Centro do Recife, o governo Paulo Câmara conseguiu enganar os representantes das associações dos policiais e bombeiros, que aceitaram a proposta do executivo estadual de reajuste que afirma equivocadamente, que haverá ganho real de 20%. O não cumprimento, policiais e bombeiros da Polícia Militar fizeram uma passeata na sexta-feira 09 do corrente mês, logo, logo, foi preso o presidente da Associação dos Cabos e Soldados da PM e BM de Pernambuco.


A “Operação Leão do Norte”, (sic) ficará a cargo de um General de Brigada. A ação foi solicitada pelo governador de Pernambuco, Paulo Câmara, e autorizada pelo presidente da República , Michel Temer.


Militares das Forças Armadas já estão nas ruas do Grande Recife. (sic) Serão deslocados tropas das Forças Armadas para atuar também em 14 municípios. Eles estão exercendo atividades de competência da Polícia Militar. Nunca visto, nem na perversa ditadura militar. Um absurdo!


Nota - (sic) Líderes grevistas, Alberisson Carlos e Nadelson são excluídos da Polícia Militar de Pernambuco. Eram presidente e vice da Associação dos Cabos e Soldados.

* Escritor e teatrólogo.


Calhas da roda


* Por Caco Pontes

tem que ser poeta
pode até ser fingidor
mas tem que ser
de fato, poeta
sem precisar fingir
a própria dor
Muitos se dizem
milhares só sentem
quanto mais simples
o poema
maior tornar-se-á
o dilema
Então só permanece
quem veio pra ficar
pois desistir é fácil
perante o senhor
que com palavras
seus erros
justificará.


* Poeta
Tanatologia, a ciência da morte


* Por Harry Wiese


À minha mãe in memoriam!

Nem sempre se pode escrever textos lindos que retratam situações e momentos felizes e bons. Às vezes somos surpreendidos por circunstâncias inesperadas e não sabemos tratar muito bem delas. Então é tempo de escrever diferente e que pode não agradar.
Do quarto do hospital vejo o cemitério, que fica à esquerda e logo acima da igreja. Meus pensamentos param ali e começo a refletir sobre a vida e a morte.
Lembro-me das leituras sobre tanatologia, que é a teoria ou o estudo científico da morte, suas causas e fenômenos a ela relacionados; ou o estudo dos mecanismos psicológicos para superar os efeitos da morte na mente humana. Conhecer esses fatos é fundamental para ter mais propriedade para se relacionar com eles.
Pois é, são assim as circunstâncias do mundo. Quando se está em estado de tristeza, reflexão e sensibilidade profunda, as ideias, quando afloram, levam-nos a reflexões, muitas vezes, destituídas de racionalidade. A morte, “a indesejada das gentes”, como disse Manuel Bandeira, assume seu poder e provoca consequências inexplicáveis.
Incrível! No cemitério, os mortos dormem em paz! Os vivos estão no hospital, cuidando e visitando os doentes. Também estão na igreja, logo caminharão sobre o tapete colorido, feito de madrugada. Vejo-o daqui: é Corpus Christi!
Sim, os mortos estão sós, mas há uma história enterrada em cada túmulo. Cabe aos vivos contá-la, pelo menos parte dela, se assim o desejarem e puderem. E o resultado se chama história recuperada, uma forma de vida diferente. Caso contrário, a existência, aos poucos, se resumirá a duas datas: a do nascimento e a da morte, na lápide exposta.
O ser humano, disse-me uma amiga, sem se ater a razões científicas, tem um nascimento e várias mortes. Vou descrevê-las. A primeira morte é a morte física. O ser humano dá o último suspiro, mas ainda o corpo está presente: é o velório, com desespero, choro, rezas e lamentações. A segunda, vem logo depois. O corpo é levado à sepultura, ou ao crematório. Desaparece da presença de familiares e amigos. É o luto, a saudade e as lembranças em estado de perpetuação, mas o tempo é parceiro e se encarrega da suavização do sofrimento. A terceira e última morte é quando se pronuncia pela última vez o nome da pessoa. Quando isso acontece, as lembranças e o nome não existem mais. É o momento da ausência absoluta, como não tivesse existido.
Mas a humanidade com suas ações criativas e benevolentes, para retardar a última morte, criou leis e decretos e o nome das pessoas são expostas em placas de ruas, pontes, prédios, praças e escolas. Desconfortável é ver as placas dos mortos-vivos e não saber quem eram, o que fizeram; em suma: a história contada e não aprendida. Sorte têm os vivos e os mortos, que possuem registros em textos históricos, guardados em compêndios e enciclopédias, que os mantêm com perspectiva de vida longa. Pena que nem todos têm este privilégio, mas deviam tê-lo, pois todos são sujeitos da História, com direitos e possibilidades iguais.
Paro de viajar pelo mundo do pensamento e volto a olhar para o cemitério que vejo da janela de um quarto de hospital. Da igreja ouço o canto triste ao Senhor morto. Sim, as flores multicoloridas na necrópole também estão mortas. Todas as flores estão mortas. Parece-me que a legislação não permite levar flores vivas: rosas, dálias, lírios e crisântemos. Prevenção. Fica até melhor: flores mortas combinam mais com pessoas mortas. Simbiose perfeita, nada a reclamar. No passado, quando as sepulturas eram de chão batido, plantavam-se lírios e cravos sobre elas e o perfume exalava para além dos limites do campo-santo. Eram as badaladas flores dos cemitérios. Em momentos pouco nobres, na calada das noites, houve colheitas clandestinas e as flores dos mortos felicitavam os vivos.
Sei que a tanatologia é a ciência que estuda a morte e explica as fases de luto e tudo o que se relaciona em ele; mas tem dificuldade em explicar certas circunstâncias muito individuais, como dizia minha mãe: “Quanto maior o amor em vida, maior a dor na morte!” É isso! Desculpem-me pela crônica triste, porque às vezes somos surpreendidos por circunstâncias inesperadas e não sabemos tratar muito bem delas. Então é tempo de escrever diferente e que pode não agradar.
Agora me lembro do final de uma música de Oswaldo Montenegro, que parodio assim: “E que a minha tristeza seja perdoada/ Porque metade de mim é amor/ E a outra metade... também.


* Harry Wiese é escritor que reside em Ibirama - SC. É autor de vários livros, dentre eles A sétima caverna, romance premiado pela Academia Catarinense de Letras.