domingo, 25 de setembro de 2016

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, cinco meses e vinte e oito dias de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – Sementes ao Acaso.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Não se levando a sério”.

Coluna Direto do Arquivo – Nei Duclós, crônica, “Ler com prazer”.

Coluna Clássicos – Alexander Puchkin, poema, “Aos meus amigos”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, crônica, “Acordo judicial dos kaingang: nunca mais haverá vagina em Chapecó”.

Coluna Porta Aberta – Pedro Du Bois, poema, “Nascer”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.




Sementes ao Acaso

  
O homem evoluído, aquele que tem consciência do seu papel no mundo e se empenha na sua realização (raridade em todos os tempos), sem esperar qualquer vantagem material, é, sobretudo, generoso. A evolução da espécie humana deve tudo a essas pessoas abnegadas, que surgem, em maior ou menor número, a cada geração, determinando saltos evolutivos desse estranho e precioso animal que pensa (ou pelo menos conta com essa capacidade), mas que nem sempre dá um sentido positivo ao pensamento.

Tais indivíduos são os responsáveis pelas descobertas científicas, pelo desenvolvimento das artes, pela Justiça, pela organização política e social, pelos sistemas econômicos e pela geração e veiculação de idéias, entre outras coisas. Sua característica marcante é a generosidade. Semeiam inteligência e princípios incansavelmente, sem sequer atentar para o "solo" onde as sementes irão cair. Dão oportunidade a todos os que queiram usufruir de sua ação, sem nenhuma espécie de preconceito ou discriminação.

A propósito desses abnegados semeadores de ideais, que raramente (ou nunca) colhem aquilo que semearam, e se o fazem, jamais é em proveito próprio, o padre Antônio Vieira (um desses seres raros e preciosos que iluminaram os caminhos da humanidade) fez uma profunda reflexão, em um dos seus inesquecíveis sermões, que atravessaram três séculos, por sua forma e conteúdo serem primorosos. Constata o erudito sacerdote: "Nas outras artes, tudo é arte; na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geografia tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte: caia onde cair".

Por isso, os homens criativos, que têm algo a acrescentar às suas comunidades, desde seu restrito e particular núcleo familiar à própria e gigantesca família humana, precisam contar não com uma, duas, cinco, dez ou cem "sementes". Devem ter milhares delas, para espalhar por todas as partes.

Jesus Cristo, em uma de suas mais profundas parábolas, tratou desse tema. Destacou as dificuldades das mensagens espalhadas frutificarem, em virtude do "solo" (no caso a mente das pessoas que são alvos do que se pretende semear) muitas vezes não ser propício.

Os tíbios, os egoístas e os acomodados, mesmo que semeiem ideais, quase sempre fracassam. E o insucesso deve-se à insuficiência de sementes. Basta que estas caiam em lugar errado para que seu empenho acabe sendo vão. Desistem. Ou querem colher frutos pessoais mesmo onde estes não existam e sejam impossíveis de existir. Dão-se por satisfeitos em semear ao léu, mesmo na ausência de resultados, como se desempenhassem uma obrigação e não se tratasse de uma dádiva espontânea ao mundo.

O semeador, da parábola de Cristo, lançou primeiro sua semente por entre as pedras. Mesmo tendo germinado, a planta embrionária não tinha como fixar raízes, dada a rigidez do solo. Não havia humus. Inexistia a umidade. Faltavam, portanto, o alimento e a água. Dessa forma, ou os pássaros devoraram o que foi semeado, ou o sol crestou a semente, a inutilizando.

A segunda foi lançada sobre a areia, em meio a urzes. Germinou, fixou raízes, mas estas não tinham firmeza. Um simples vento arrancou a planta em formação, matando-a ou as ervas daninhas sufocaram-na. A terceira semente, no entanto, caiu em terra fértil. Germinou, radicou-se, desenvolveu-se, cresceu e frutificou.

Assim são as mensagens espalhadas pelos idealistas. Têm que ser múltiplas e semeadas incansavelmente. Mesmo assim há riscos de nenhuma delas vingar. Compete ao semeador tentar, tentar e tentar indefinidamente, enquanto viver. Persistir na persistência. Nunca se fazer de difícil ou se deixar cegar pela vaidade. Não se prender a idéias preconcebidas ou a dogmas cristalizados. Precisa exercitar, sem cessar, a liberdade de pensar e de expressar seus pensamentos. Tem que proceder a constante autocrítica e saber mudar de rumo ao constatar equívocos.

O físico Albert Einstein afirmou, em seu livro "Como Vejo o Mundo": "É a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e embrutecimento". Sua condição é tão abjeta por ausência de líderes esclarecidos, de semeadores persistentes, de mestres perseverantes. A espécie carece de um número maior de pessoas "boas", altruístas, perspicazes e sobretudo abnegadas.

Platão, em seus "Diálogos", enfatizou: "O bem não é essência, mas excede em muito a essência em dignidade e poder". Não são os aparentemente poderosos que a humanidade reverencia através dos séculos. Guerreiros como Alexandre, Júlio César, Átila ou Napoleão são lembrados, é verdade, mas apenas pelo terror e morte que espalharam. A reverência, no entanto, é destinada a humildes semeadores. Como Sidarta Gauthama... Como Jesus Cristo... Como Maomé... Como São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá, entre outros...

      
Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk


Não se levando a sério


* Por Pedro J. Bondaczuk


As pessoas que lidam com idéias (e me incluo entre elas), escritores, jornalistas, filósofos etc., a pretexto de serem “realistas”, não raro perdem o pé da realidade e, sem que sequer se dêem conta, se sentem infalíveis e donas da verdade. “De qual?”, pergunto. Afinal, existem várias delas e na única que é absoluta, muitos insensatos não acreditam: Deus. Com essa atitude, os que agem dessa maneira (a imensa maioria) tornam-se pedantes e chatos. Em determinados instantes das suas vidas, são até dogmáticos e, não raro, descambam para uma arrogância e presunção contundentes, beirando à megalomania.

Estas pessoas (melhor diria, nós) deveriam, isto sim, fazer constante autocrítica, se possível, diariamente. Precisariam refletir com profundidade sobre seus valores, para determinar se são adequados;  reciclar os seus conceitos e dar menos importância (o melhor é que não dessem nenhuma) a si próprios. Se possível, o ideal seria que rissem, ao menos de vez em quando, dos próprios defeitos. Não, claro, sem tentar remediá-los. 

Há escritores que fazem isso – citaria, entre estes, o norte-americano Kurt Vonnegut –
mas que caem em um outro extremo: o auto-linchamento. Isso é desnecessário. Afinal, como diz a sabedoria popular, “a virtude está no meio”. O escritor e teatrólogo Vaclav Havel – que se tornou o primeiro presidente da República Checa depois que esta se separou da Eslováquia e deixou de ser comunista – advertiu, num dos seus textos: “Quem se leva a sério demais corre o risco de parecer ridículo; quem sempre consegue rir de si mesmo, não”. E você, paciente leitor, consegue? Ou se julga invulnerável a críticas e digno de reverência? Pense nisso.

“Descobri” Kurt Vonnegut há doze anos. Fiquei fascinado pelo seu estilo, de um humor cáustico e um senso crítico aguçado, e por sua habilidade em criar personagens marcantes e enredos insólitos. Antes de mergulhar na sua obra, procurei saber um pouco da sua vida. O escritor nasceu em Indianápolis, no Estado de Indiana, nos Estados Unidos, em 11 de novembro de 1922, em uma família de descendência germânica.

Engajou-se, como voluntário, nas forças aliadas, como combatente na Segunda Guerra Mundial. Terminou prisioneiro dos nazistas, conhecendo, de perto, por senti-los na própria carne, os horrores de um campo de concentração. Ao voltar para casa, formou-se em Antropologia e começou a escrever. É, hoje, um dos escritores mais prolíficos da sua geração, a mesma que produziu, entre outros, nomes como Norman Mailer, Gore Vidal, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, entre tantos e tantos outros. Escreveu 30 romances (como “Matadouro Cinco”, “Wocus Pocus”, “Player Piano”, “Cat’s craddle”, “Galápagos”, “Um homem sem pátria” etc.), além de peças de teatro e vários ensaios, nos quais, sem dó e nem piedade, achincalha a própria obra. Dos seus livros de não-ficção, destacam-se “Welcome to the Mopnkey House”, “Wampeters, Forma & Granfallons” e “Palm Sunday”.

Vários dos seus personagens (diria a maioria) são desequilibrados, infelizes, feixes de conflitos psicológicos, sentimentais e morais; alcoólatras (como ele) e viciados em drogas. Em 1984, o escritor tomou uma overdose de pílulas e de álcool e quase morreu. Foi socorrido a tempo e logo se recuperou. Mas não se sabe, até hoje, se exagerou, acidentalmente, na dose ou se, de fato, tentou o suicídio. A segunda hipótese é a mais provável.          

Um dos seus textos mais instigantes, que tive o capricho de anotar, pelo tanto de verdade que contém, não é em prosa, mas em versos. Vonnegut escreve:

“O tigre tem que caçar,
o pássaro tem que voar;
o homem tem que sentar e pensar: “Por que, por que, por que?
O tigre tem que dormir,
o pássaro tem que aterrissar;
o homem tem que se dizer que entende alguma coisa”.

Mas será que entende? Creio que muito pouco ou quase nada!

Todavia, não é a esse “riso” escrachado e doentio que me refiro. Defendo, apenas, que não devemos nos levar muito a sério. Que admitamos a possibilidade de estarmos errados no que cremos e defendemos com tanta ênfase e paixão. Que saibamos da possibilidade de não sermos exatamente aquilo que acreditamos e não tenhamos pudor em expor nossa incoerência, nossa imperfeição e nossas vulnerabilidades. E que tenhamos a coragem não somente de admitir essas fraquezas, mas até de rir delas. Quem sabe, dessa maneira, consigamos nos aproximar, um pouquinho que seja, da sonhada perfeição.

O filósofo estóico Epicteto – que nasceu na Frigia (em 55 da nossa era), mas que até 94 ensinou na Roma antiga (primeiro como escravo e depois como homem livre, que, inclusive, foi mestre de Marco Aurélio, o autor das “Meditações” e que morreu no ano 135) – constatou: “Para que o homem fosse perfeito, seria bastante lhe tirar duas coisas: a presunção e a desconfiança”.  Suprimir estes dois comportamentos, porém, é que são elas. Mesmo que não nos apercebamos, somos profunda, doentia e patologicamente presunçosos e desconfiados! E perfeição, dessa forma... nem pensar!!!


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
   


Ler com prazer


* Por Nei Duclós 



Se você não tem biblioteca na maior parte do território urbano do país e se você chega numa livraria e só são destacados os livros descartáveis, e se essa situação ultrapassa as duas décadas, então você está formando gerações de analfabetos, por mais que falem em analfabetos funcionais. Quem sabe ler e não entende o que lê não é alfabetizado, ponto. Quem só procura livro para esquecer no dia seguinte está perdendo seu tempo com leituras sem sentido. Todo aprendizado é árduo e talvez esse seja o maior equívoco do cultivo da leitura: para evitar que os jovens se aborreçam com os livros tornados obrigatórios, achar que o período de aula deva se transformar num recreio.

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta.

A barreira maior entre uma formação completa e a situação em que todos fingem ensinar ou aprender é a indiferença. No filme Elefante, de Gus Van Sant (título que se reporta à fábula oriental de quatro cegos que tentam adivinhar o bicho tocando apenas uma parte dele), vemos o que faz a indiferença nutrida pela impessoalidade do ambiente estudantil. A ausência dos adultos nos problemas chaves da adolescência, a omissão diante de uma vida confinada ao luxo, geram massacres não compreendidos em suas causas. Tateamos o problema com nossas mãos cegas, enquanto se despejam na vida adulta milhões de pessoas sem a companhia fundamental do livro. Pelo menos, do livro inesquecível, o amigo certo para esta vida complicada.

Hoje existe uma tendência de tentar preservar as crianças de situações duras na hora de pegar os livros. Revi um dia desses, graças à Internet, o texto da minha primeira leitura, O Pequeno Lorde, de Frances H. Burnett O pai do narrador-criança morre no início da história! Nesse caso, não há concessões para a criança que vai pegar o livro. Falar com franqueza, não tentar iludir com expedientes marotos, é a maneira mais sólida de conquistar leitores. Deve haver um sentido para ficar horas do dia em frente às palavras. Não será colocando a grande aventura de estar vivo para debaixo do tapete, ou mentir sobre nossos destinos, que vamos conseguir algum resultado.

O mal do livro obrigatório é que limita a mobilidade de quem procura o que ler. Deveria ser liberada a busca pela leitura mais adequada (claro que com acompanhamento). Gostar de ler significa encontrar no livro algo que prenda a atenção e emocione. Se isso não for feito na escola, o novo leitor será presa fácil dos livros descartáveis. Pois ele vai procurar o prazer negado na aula, o prazer que nada tem a ver com aprendizado lúdico, mas com a legítima vontade de aprender que trazemos do berço. Não se lê com prazer quando somos forçados a engolir pedreiras literárias nos verdes anos. Ou quando somos levados a brincar de aprender na hora da primeira dificuldade.

* Autor de três livros de poesia: “Outubro” (1975), “No meio da rua” (1979) e “No mar, Veremos” (2001); e de um romance: “Universo Baldio” (2004). Jornalista desde 1970 e bacharel em História. Trabalha atualmente em Florianópolis, onde é editor-executivo de duas revistas.





Aos meus amigos


* Por Alexander Puchkin


Os deuses ainda vos dão
Dias e noites de alegria,
E amáveis moças vos estão
A examinar com simpatia.

Folgai, cantai, ficai a fruir
A noite, amigos, passageira,
E a vosso prazer sem canseira
Hei-de, entre lágrimas, sorrir.


* Romancista e poeta russo da era romântica que é considerado por muitos como o maior poeta russo e fundador da moderna literatura russa. 
Acordo judicial dos kaingang: nunca mais haverá vagina em Chapecó


* Por José Ribamar Bessa Freire


O Diário do Iguaçu de Chapecó (SC) acabou sendo vítima de seu próprio veneno. Vejam só a manchete chocante da edição de 3 de maio de 2016, cuja foto de capa circulou nas redes sociais: "GERÊNCIA DE SAÚDE AFIRMA QUE NÃO VAI FALTAR VAGINA". A pergunta que se impõe é: foi erro de revisão, incompetência, sabotagem ou sacanagem?

A mesma pergunta pode ter sido feita quinze anos antes pelos índios quando leram no mesmo jornal matéria igualmente surpreendente, em janeiro de 2001, ilustrada com uma charge. É a entrevista com o vereador Amarildo Sperandio, então do PFL (vixe, vixe), que afirmou ser "um absurdo os índios quererem mais terra, se não produzem". Ignorante, alegou que "muitos na reserva de Toldo Chimbangue, louros e de olhos claros, não são indígenas autênticos". A charge assinada por Alex Carlos mostra um "homem branco" armado com um machado, que ameaça um kaingang:

- "Já que índio quer terra, vou dar sete palmos de terra pro índio".

Diante da morte anunciada, no outro quadrinho o índio foge, deixando cair um celular, como "prova" da "falsa identidade" dos Kaingang da região. Está implícito que a terra assim desocupada pelos "falsos índios" pode ser invadida pelas "classes produtoras" que respiram, enfim, aliviadas.

A incitação ao crime levou os Kaingang a procurar o Ministério Público Federal (MPF) que processou o jornal. Mas o Poder Judiciário local fez o que se costuma fazer na primeira instância: julgou a ação improcedente. Afinal, se você abrir a cabeça de um juiz vai encontrar lá dentro, quase sempre, fé em preconceitos, a mesma fé que existe na cachola de um jornalista, ou o plural aumentado de fé, que é fé de mais. Juiz e jornalista estudam na mesma escola, assistem os mesmos programas de tv, leem o mesmo jornal e compartilham a mesma desinformação intolerante sobre as culturas indígenas.

Danos morais

O MPF, porém, recorreu ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, que fez justiça e condenou os acusados a pagarem R$ 100 mil aos Kaingang por danos morais coletivos causados pelas matérias racistas. Os réus interpuseram recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que se arrastaram nos últimos doze anos, mas nenhum deles foi admitido. O caso transitou em julgado. Com a condenação definitiva em abril de 2016, o MPF ajuizou ação para os condenados pagarem R$ 850,00 de indenização em valores atualizados, com juros, honorários e multas.

O Diário do Iguaçu, tabloide colorido criado em 1997, com tiragem de 10 mil exemplares diários, feito por 130 trabalhadores diretos e terceirizados, alegou impossibilidade de efetuar o pagamento, sob o risco de falir como O Iguaçu, seu antecessor, o que não é uma  boa notícia. Trata-se do principal veículo impresso do interior de Santa Catarina, com correspondentes e sucursais nas principais cidades da região, vários cadernos temáticos que cumprem uma função educativa e são usados nas escolas.

O cacique da Terra Indígena Toldo Chimbangue, Idalino Fernandes, deu provas de sabedoria e não deixou o jornal morrer:

- “Eles disseram que se fossem pagar em dinheiro, teriam que fechar o jornal. Eu disse: nós não queremos dinheiro, queremos que vocês contribuam com a comunidade, informando as pessoas para que elas saibam os absurdos que vocês falaram. Precisamos também de pessoas formadas em Direito e Pedagogia. Isso é mais importante que dinheiro”.

A indenização

Da negociação entre as partes, nasceu um acordo interessante. O jornal custeia estudantes indígenas na Universidade Comunitária Regional de Chapecó (UnoChapecó) em vagas nos cursos de agronomia, direito e enfermagem, além de uma turma de 20 a 30 professores indígenas num curso de pós-graduação em Educação Intercultural: Metodologias de Ensino na Educação Básica. O pagamento do jornal à Universidade será feito através de permuta com a cessão de espaço.

Além disso, o Diário do Iguaçu fica devendo ainda R$ 390 mil para saldar toda a dívida. Os Kaingang aceitaram que o resto seja pago também por meio de cessão de espaço. Durante cinco anos, o jornal vai publicar informativos, artigos, notas e quaisquer outras publicações de interesse dos índios, solicitadas pelo cacique Idalino. De repente, pela primeira vez na história do país, um jornal pode publicar uma coluna bilíngue português x kaingang, valorizando a língua, furando o bloqueio do racismo e dando maior visibilidade aos índios.

O inédito acordo judicial permite que os Kaingang usem mais um instrumento para combater a ignorância, a barbárie e o preconceito, que já foram responsáveis por muitas mortes, incluindo a de Vítor Pinto, uma criança Kaingang de dois anos, da Aldeia Kondá, comunidade indígena de Chapecó, degolada em dezembro passado no colo de sua mãe quando ela vendia artesanato no litoral catarinense. O Procurador da República de Chapecó (SC), Carlos Humberto Prola, considera que "o acordo é importante pela autonomia que os indígenas terão na gestão do espaço no jornal".

O cacique Idalino concorda, argumentando que "o preconceito era muito forte, a maioria da população de Chapecó era contra a gente sem falar nos vereadores, que sempre faziam discursos contrários". Depois da decisão do TRF, as manifestações racistas dos vereadores cessaram, ao menos publicamente, informa nota do Conselho Indigenista Missionário (CIMI-Sul).

Troca de letra

As manifestações racistas ocuparam as páginas do jornal durante todo o tempo em que o processo transitou nos tribunais. O Sindicato dos Professores de Santa Catarina repudiou publicamente outra charge publicada em 09 de agosto de 2012, que discrimina alunos cotistas das universidades federais, acusando o Diário do Iguaçu de não apurar os fatos para informar com imparcialidade. A nota conclui:

- "Um veículo tendencioso e preconceituoso não deveria fazer parte da leitura diária dos catarinenses. Esperamos que a direção desse Jornal se retrate, pois pais, alunos e professores de Chapecó e região estão revoltados pela desqualificação da escola pública apresentada na referida Charge. Esperamos ainda que o Jornal não volte a tratar de qualquer questão de forma discriminatória e desrespeitosa".

Ah, e a falta de vagina? Pesquisa feita por Riomar Bruno revela que a manchete verdadeira do jornal foi outra, mas alguém a adulterou com uma caneta, transformando a letra "c" de vacina na letra "g", tirou uma foto e publicou no facebook. Mas nem por isso as vacinas deixaram de ser vacinas da mesma forma que os kaingang continuam kaingang, independente das adulterações feitas. De qualquer forma, com a decisão judicial, suspeito que depois disso não haverá mais vagina em Chapecó.

P.S. - Agradeço a Natalie Unterstell pela informação sobre o andamento e resultado do processo movido pelos Kaingang.

* Jornalista, professor e historiador.


Nascer


* Por Pedro Du Bois


Ter o leite
negado ao filho
na dor do peito
o parto
partido
o leite negado crime
ao filho trôpego
partindo o corpo
o leite negado ao filho
rasgado ventre
chorado no nascimento
o leite ao filho negado
reproduzido na cena
de vir ao mundo
no susto elementar
do corpo antecedido
na dor no peito
o leite dado ao filho
destrancado corpo
no nascimento
em que dói o peito.

* Poeta, autor dos livros “Brevidades” e “Tânia”, lançados através do Projeto Passo Fundo – blog HTTP://pedrodubois.blogspot.com.br