quinta-feira, 21 de junho de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, dois meses e vinte e três dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Quando é a mente que nos trai.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Quando a biografia se impõe”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica humorística John in the sky”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto, “O homem com medo”.

Coluna Porta AbertaMarleuza Machado, poema, “Autorretrato”.

Coluna Porta AbertaFernanda de Aragão, crônica de esporte, “A cambalhota de Milad Mohammadi”.


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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!

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CITAÇÃO DO DIA:

Minha matéria 

O tempo é a minha matéria,
o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade).




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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - Quando é a mente que nos trai


Quando é a mente que nos trai


A nossa mente, não raro, nos prega peças incríveis, ou nos apronta surpresas que nos maravilham e nos deixam atônitos, ou nos trai sem a menor cerimônia e nos derruba, arrasa e aniquila. Por mais que julguemos nos conhecer, na verdade somos desconhecidos para nós mesmos, completos estranhos, sabemos pouco ou nada a nosso respeito. Isso chega a ser assustador.

Muitos dos nossos talentos e aptidões permanecem trancados a sete chaves em substratos profundos do nosso cérebro, que quase sempre nos são inacessíveis pela vida toda. Pode ocorrer, no entanto, de, sem qualquer aviso prévio, assim, de surpresa, tudo isso emergir, com força, para o consciente e nos transformar (para melhor ou para pior).

Conheço casos (e não poucos) de pessoas que passaram a vida toda detestando poesia, achando que se tratava de coisa de “maricas”. Aos 60 anos, ou mais, todavia, surpreenderam-se compondo versos de grande força expressiva e muita sensibilidade e muitos se transformaram, até, em refinados e prolíficos poetas. Por que isso acontece? Mistério! Mas nossa mente nem sempre (diria, quase nunca) é tão benigna e generosa nas surpresas que, amiúde, nos apronta.

Cabe, aqui, um questionamento. Como se sente, digamos, um artista plástico, um pintor consagrado, premiado em várias bienais, aplaudido e acatado pela crítica e pelo público, com suas telas vendendo aos montões e com sua cotação subindo de ano para ano, que, subitamente, sem nenhum motivo ou razão, perca a habilidade de pintar? Conheço muitos casos assim.

O sujeito atingido por tal desgraça, por melhor que seja sua estrutura mental, sobretudo psicológica, certamente irá “pirar”. Não compreenderia, jamais, o que lhe aconteceu e, frustrado e infeliz, iria procurar explicações (que não encontraria) até o último dos seus dias. Eu piraria de vez se me acontecesse algo sequer parecido.

Essa mesma perda de talento, este sumiço das nossas maiores aptidões pode acontecer com qualquer um, artista ou não. Pode ocorrer com um compositor, um escultor, um bailarino, um intérprete, um escritor ou um ator. Nunca duvidem disso e se precavenham (se puderem).

Esse, aliás, é o enredo do romance de um dos homens de letras mais admirados, festejados e premiados da atualidade, o norte-americano Philip Roth – candidatíssimo há pelo menos treze anos ao Prêmio Nobel de Literatura – intitulado “A humilhação”.

O livro, grande sucesso de vendas nos Estados Unidos, foi lançado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. Destaque-se a primorosa tradução de Paulo Henriques Britto (raramente os tradutores são mencionados pelos críticos, a não ser quando fazem péssimo trabalho, que não é o caso).

O personagem central de “A humilhação”, ao redor do qual toda a história (logicamente) gira é Simon Axler. Trata-se de um consagrado ator de teatro, tido e havido como dos melhores na arte de representar, ganhador, por merecimento, de inúmeros prêmios que, aos 65 anos de idade, subitamente, constata, e em pleno palco, que não sabe mais atuar.

Esquece as falas, entra em cena na hora errada, “recita” os diálogos sem nenhuma naturalidade e se movimenta de forma desastrada e incompetente, pior do que os piores amadores. A princípio, pensa que essa experiência desastrosa foi fruto, apenas, de uma noite ruim. Mas, nos dias seguintes, sua performance, que já era ridícula, piora muito e descamba para o patético. A realidade que se lhe apresenta é uma só: não sabe mais representar.

A partir daí, sua vida se torna um inferno. Simon vê ruir uma carreira que construiu com tanto esforço e dedicação. É vaiado e ridicularizado pelo público. O diretor retira-o da peça, depois de desmoralizá-lo e humilhá-lo, diante de todo o elenco. Com a débâcle profissional – e como desgraça pouca é bobagem – tudo ao seu redor desmorona.

A mulher que ama, e que lhe jurava eterno amor, o abandona. E seu agente não consegue convencê-lo a retornar ao palco, em outras peças. Seu desespero cresce e a autoconfiança despenca a zero. Simon só vê uma saída para tamanho desastre existencial: o suicídio. Pôr fim à própria vida torna-se obsessão para ele.

É quando o outrora bem-sucedido e agora fracassado ator interna-se numa clínica psiquiátrica. Bem, todavia, mais do que isso não vou lhes contar. Se quiserem saber como “A humilhação” termina, comprem e leiam o livro, ora bolas.

Quanto ao autor, Philip Roth, tudo o que eu escrever a seu respeito será ainda muito pouco. Os amantes de literatura, certamente, devem ter lido muitos dos seus livros, como “O complexo de Portnoy” (1969), a trilogia de novelas “Pastoral americana” (1997), “Casei com um comunista” (1998) e “A mancha humana” (2000) e muitos outros.

Philip Roth é, sem dúvida, um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. Gosto, sobretudo, do seu estilo coloquial, do seu humor, às vezes ácido e da sua capacidade de penetrar no âmago da alma humana e de lá extrair expectativas e angústias que sequer se suspeita que existam.

Em 1998, ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção, com a novela “Pastoral americana”, e mais outras vinte premiações, antes e depois, só de lambuja. O que é lícito de se esperar de um grande ficcionista? Um grande romance, claro! É isto o que “A humilhação” é: um livro para ser lido num só sopro, posto que “sentido na pele”.


Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Quando a biografia se impõe - Pedro J. Bondaczuk


Quando a biografia se impõe


* Por Pedro J. Bondaczuk


Quais os critérios adotados pelos escritores ao se disporem a redigir a biografia de alguma personalidade? Se você fosse biografar alguém, hoje, quem biografaria? Por que? Por ser contratado pela família para fazer isso? Por dinheiro apenas? Eu não faria essa opção. Não, pelo menos, por esse motivo.

O primeiro critério para escolher alguém a ser biografado, sem dúvida (pelo menos dos escritores sérios e que respeitam a inteligência dos seus leitores), é o fato dele ser figura conhecida (para o bem ou para o mal). Ninguém se propõe a biografar quem seja obscuro e não tenha se destacado em nenhum aspecto ao longo da sua vida.

Ou seja, para ser biografado, antes de tudo, o sujeito deve ser uma “personalidade”. A menos que se trate de alguma (rara) figura exemplar, que mesmo havendo feito coisas extraordinárias, haja sido injustiçada e permanecido na obscuridade. Claro que este não é o único critério, mas é o principal.

Há praticamente consenso, hoje em dia, entre os amantes de literatura, sobre a relevância de Franz Kafka para as letras não somente europeias, mas mundiais. Mesmo os que não gostem dele, ou não tenham lido nada do que escreveu, ou só tenham ouvido falar dele de passagem, admitem sua importância.

É personalidade, mesmo passados quase 88 anos da sua morte. Portanto, é um sujeito que tem tudo para ser biografado. E foi. Só que, jamais, por algum escritor da sua pátria de nascimento, a atual República Checa. É aquela velha história do “santo de casa”, que por mais venerado que seja, para os que convivem com ele, “não faz milagres”.

Agora essa omissão foi sanada. O filólogo checo, Josep Cernak, lançou, hás algum tempo, em Praga, do livro “A luta por escrever: sobre o compromisso vital de Franz Kafka”. Trata-se de meticulosa biografia do autor de “O processo” (entre tantos outros livros, vendidos aos borbotões mundo afora, mas que morreu na miséria, vítima de tuberculose, em Viena, em 1924).

Finalmente, foi feita justiça na República Checa ao que foi, provavelmente, seu escritor mais importante em todos os tempos mas que, dadas determinadas circunstâncias, é pouco conhecido, praticamente um estranho, em seu país natal.

Quando Kafka nasceu, é bom que se frise, não existia, ainda, sequer o quer viria a se transformar na federação da Checoslováquia. Seu território pertencia ao Império Austro-Húngaro. Ademais, o célebre escritor tinha outro complicador, que fazia com que fosse, digamos, “impermeável” aos conterrâneos: só escrevia em alemão, idioma falado em boa parte da comunidade judia de Praga, a que pertencia, e onde nasceu.

Há quem diga que ele não entendia o checo. Cermak discorda. E argumenta: “Afinal, foi capaz de apreciar a qualidade literária de um autor como Vladislav Vancura, que tem uma linguagem muito peculiar, muito bela, mas deformada”.

O novo biógrafo de Kafka colheu informações em fonte sumamente confiável (não que as dos outros não fossem): a sobrinha do escritor, Vera Saudkova, que na época ainda estava viva e lúcida, aos 88 anos de idade, que residia em Praga.

O que não se entende é o fato da sua obra haver sido proibida na então Checoslováquia ao longo de todo o regime comunista, portanto por quase meio século, a pretexto de ser “sumamente reacionária”. Os tempos, contudo (felizmente) mudaram. A federação se separou e surgiram a Eslováquia e a República Checa. E nesta última, que a rigor seria sua verdadeira pátria de origem, os livros de Kafka despertam, atualmente, verdadeira “febre”. E não somente sua obra, mas também sua memória. Há inúmeras estátuas dele pela cidade de Praga, além de um museu, de uma rua e de uma avenida com seu nome. Antes tarde, do que nunca.

Ainda assim, como reconhece Markata Malisova, diretora da Sociedade Franz Kafka, “sua obra é mais conhecida fora do que dentro do país”. O autor de “O processo” teve inúmeros biógrafos, a maioria alemães, como foi o caso de Klaus Wagenbach, por exemplo. O primeiro a biografá-lo foi seu amigo mais fiel, uma espécie de “irmão espiritual”, Max Brod, que administrou seu legado até morrer, em 1968, em Israel, para onde havia emigrado em 1939, após a ocupação nazista da Checoslováquia.


Foi nele que me baseei para escrever, há já alguns anos, um ensaio sobre Franz Kafka, que publiquei no jornal “Correio Popular”, de Campinas, em 15 de abril de 1988. Na oportunidade, observei que o escritor checo, que só escrevia em alemão, “foi um intelectual inovador, originalíssimo, cujos enredos são instigantes e, sobretudo, insólitos. A tal ponto, que ele próprio já se tornou uma espécie de sinônimo do ‘absurdo’, do irracional, do inexplicável pelos padrões comuns, de situações-limites de impasse. Refiro-me a Franz Kafka”.

E prossegui: “Muitos o citam, amiúde, mas poucos tiveram o privilégio de ler sua obra marcante e inesquecível. Sempre que se quer referir, por exemplo, a uma situação absurda, não raro dizemos que a mesma é ‘kafkiana’, sem ao menos nos darmos conta de quem foi esse escritor tão original. E quem, de fato, foi esse Franz Kafka?”

Em outro trecho, destaquei “A obra kafkiana caracteriza-se por refletir imensa solidão. Seus personagens são, em geral, seres incompreendidos, envolvidos em situações absurdas, enredados em estranhas tramas, em enormes equívocos, dos quais, por mais que tentem, não conseguem se livrar. É evidente que cada escritor, consciente ou inconscientemente, passa para o papel aspectos da própria vida. Reproduz, à sua maneira, conforme sua personalidade e o estilo que adota, fatos que protagonizou, ou que testemunhou, ou que ouviu contar. Expõe ao público, sem o menor pudor, as próprias vísceras: suas iras e seus amores, seus anjos e seus demônios interiores, seus pensamentos e seus sentimentos, seus sonhos e pesadelos”.


E concluí a primeira parte desse ensaio da seguinte forma: “Talvez melhor do que os enredos das histórias de Franz Kafka, portanto, sua biografia (uma sucessão de acontecimentos insólitos e absurdos) seja até mais interessante e, sobretudo, reveladora da sua personalidade. Para entender sua obra, pois, é indispensável conhecer alguns detalhes da sua vida”.


Agora, todavia, os checos poderão conhecer, e de “fonte limpa”, detalhes inéditos da vida de um dos seus filhos mais ilustres, a que, por questões políticas, ideológicas e, em última análise, de indisfarçável preconceito, não puderam ter acesso até recentemente. E, com essas informações, poderão, finalmente, apreciar melhor e até entender a grandeza e originalidade da sua obra genial.


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk


John in the sky - Marcelo Sguassábia


John in the sky

* Por Marcelo Sguassábia

Que me perdoem a demora, mas só agora, depois de tantos anos, me autorizaram uma comunicação. Tenho pouco tempo e terei que ser breve e incisivo, como as letras das minhas canções após o fim do conjunto.
 
Sabe Yoko, Deus é testemunha do quanto eu queria encontrar alguém cabeça feita, com os olhos puxados e cabelos caindo pela cintura, que me lembrasse seu layout nos sixties e me fizesse companhia enquanto você não chega. Mas os japoneses são longevos e os mortos vêm pra cá com a aparência que tinham no desencarne. Então torço para que você bata as botas o quanto antes,de forma a chegar aqui em condições desfrutáveis. O que me deixa apreensivo é que você já passou dos 80 e eu continuo com meus quarentinha recém-completados, you know?
 
Eu queria dizer algo a respeito daquele mosaico que fizeram em minha homenagem no Central Park, com a palavra “Imagine”. Acho que a intenção foi boa mas o resultado estético ficou aquém da intenção. Por favor, destruam aquilo a picaretas e peçam a Yoko para que crie algo ao seu estilo, como nos velhos tempos. Ela conhece meu gosto e sabe o que quero dizer. Sou crítico e perfeccionista, sempre fui. Perguntem ao George Martin e ele confirmará que, por mim, regravaria a obra inteira dos Beatles, desde “Love me do”. Inclusive “Love me do”. Principalmente “Love me do”. Aliás, onde estávamos com a cabeça quando fizemos “Love me do”?
 
Há muita lenda envolvendo meu nome, e elas só cresceram de 1980 para cá. A história de que o comercial de cereal na TV inspirou “Good Morning” tem fundamento, mas quanto à balela de que “Lucy in the Sky with Diamonds” não queria dizer LSD, de que foi só uma coincidência, ora vamos, come on... Eu precisaria estar muito drogado para inventar aquela história do desenho que o Julian fez na escola, e devo admitir que estava! Ah, e como estava.
 
Para dar um basta definitivo aos boatos que persistem até hoje, o Paul não está morto coisa nenhuma. Caso contrário ele já teria incorporado não só um médium, mas toda uma assessoria de imprensa mediúnica para um ghost-pronunciamento em rede mundial, com posterior lançamento em CD, DVD e Blu-Ray. E Elvis, acreditem, também não está morto, a menos que tenha ido para o inferno e esteja por lá devorando seus sanduíches de pasta de amendoim.
 
Rebatizem, por favor, o Aeroporto de Liverpool – que leva o meu nome e tem como slogan “Above us only sky”. Nem morto eu compactuaria com isso.
 
Parem de peregrinar por Abbey Road e cruzar a faixa de pedestres. Outro dia um sujeito ficou olhando demais para a câmera na hora de tirar a foto e meia hora depois estava me pedindo autógrafo aqui em cima. Sério, guys. Procurem pela massa de tomate ainda fresca debaixo do ônibus Route 139. O nome da vítima é Thomas Allen Silverstone, veio de Denver para uns dias de turismo em Londres e mexia com seguros.
 
Também aproveito para fazer, desta vez além-túmulo, o mea culpa sobre aquela declaração que dei em 66, dizendo que éramos mais populares que Jesus Cristo. Tenho por aqui uma legião razoável de fãs, mas uma disputa com o filho do Homem seria ridícula. Mesmo na época em que eu tinha aquela barba comprida.


* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).

O homem com medo - Gustavo do Carmo


O homem com medo


* Por Gustavo do Carmo


Quando criança, Afrânio tinha medo do escuro e do bicho-papão. Entre os pavores reais estavam os bate-bolas no carnaval e as baratas. Dos três primeiros perdeu quando cresceu, mas ainda continua com medo dos insetos.

Na escola, tinha medo de ficar de castigo e tirar nota baixa, o que não deixava de acontecer. Quando tirava nota baixa, seus pais se recusavam a assinar o boletim. Ele ficava com medo de ser castigado por entregar o boletim sem assinatura e chegou  ao ponto de falsificar a do pai.

Chegou à adolescência com medo de levar fora das namoradas. O temor se concretizou. Era sempre humilhado pelas garotas (que exibiam os seus musculosos namorados na porta da escola), que o chamavam de feio e bobo, e também pelos garotos mais espertos, que diziam que ele era o filho do professor de Química, de rosto marcado, dentuço e óculos de fundo de garrafa como Afrânio usava na época.

Ele também não gostava muito de estudar. Não tinha paciência para decorar. Assim, teve dificuldades de passar no vestibular. Obviamente, não foi aprovado para uma faculdade pública. Ficou com medo de ficar sem estudar após o segundo grau.

Afrânio tinha medo de trabalhar na loja do pai, que sempre o deixava pra escanteio em favor dos seus parceiros de negócio.  Também morria de medo da cidade onde ficava o estabelecimento comercial do pai, que já fora assaltado algumas vezes por lá.

Conseguiu ser aprovado para uma faculdade particular na zona sul do Rio. Suburbano, tinha medo de ser discriminado pelos colegas, o que realmente aconteceu.  Ingênuo, tinha medo de ser humilhado pelos professores, o que de fato ocorreu, mas apenas por alguns. Os demais ficaram com pena. Tinha medo de ser rejeitado pelas mulheres e foi.

Já era adulto e continuava com medo. Ainda na faculdade, tinha medo de procurar estágio. Depois que se formou em jornalismo e publicidade (tinha medo de fazer medicina e pôr a vida de alguém em risco, de fazer direito e não saber defender um inocente e de fazer engenharia e viver escravo dos números), ficou com medo de procurar emprego.

Nas entrevistas era sempre descartado, pois ia com medo. Jamais conseguiu emprego, mesmo com a pressão do pai e da irmã, que lhe obrigavam a prestar concurso público. Tinha medo de ser funcionário público e viver em greve. E também de não ser efetivado e nunca ganhar a tão propagada estabilidade.

Não aprendeu a dirigir porque teve medo de enfrentar o trânsito. Nunca mais se interessou por mulheres. Desempregado, tinha medo de ser humilhado pela família da namorada desconhecida. Obviamente, nunca teve filhos. Tinha medo de crianças. Sempre teve, desde que ele mesmo era criança.


Afrânio já era um homem de corpo formado, quase se deformando pela gordura abdominal. Mas o medo o impedia de amadurecer. Chegou aos 40 anos ainda com medo da vida. Procurou um psicólogo. Descobriu que tinha medo das responsabilidades.  E tinha medo de enfrentar o medo. 


* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess - http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe -http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310

Autorretrato - Marleuza Machado


Autorretrato

* Por Marleuza Machado

Em mim trago todas as cores,
amores e seus beija-flores.

Em mim trago as urgências,
pendências e suas reminiscências.

Em mim residem os sonhos,
planos e seus enganos.

De mim, sempre ofereço o melhor.
Por vezes, dos outros, colho o pior...
Mesmo assim verás sempre em mim todas as cores,
amores e seus beija-flores.

* Poetisa e jornalista.

A cambalhota de Milad Mohammadi - Fernanda de Aragão


A cambalhota de Milad Mohammadi


* Por Fernanda de Aragão


Eu poderia vir aqui, explicar através da física, da biomecânica, do torque, o que foi aquele lance, mas não, aquele lance foi só o desespero do último minuto, ali, nos acréscimos dado pelo juiz já no finalzinho do segundo tempo, só isso e ponto.

Não tem física que se mostre suficiente para explicar aquela bola não lançada, aquela bola que ameaçou mas não foi, a bola ali, pedindo uma única chance, as mãos presas, amarradas, o apito do juiz, que é isso, mano, tá maluco? Solte a bola, porra!

E no repeteco que imaginamos, que pedimos, que não aconteceu, aquele lateral cobrado com a força ínfima de uma bola franzina, sem torque, sem física, sem biomecânica, aquele evidente desperdício do último lance no último minuto já incluindo os acréscimos do segundo tempo, puta que pariu, Milad Mohammadi, isso aqui é Copa do Mundo. Tem que ir até o fim.

Por que você não terminou a cambalhota? Essa bola com mais força, com torque, com biomecânica e indo curva e alta para o meio da área, a cabeçada certeira, o gol de empate, cadê, Mohammadi, a confiança, a certeza, a destreza, aquele lance espetacular?

Virou piada, virou meme, poderia ter sido mas não foi, o peso da bola no corpo, o peso da Copa na bola.


* Divulgadora científica e cultural, paulistana pé de lã e escritora. Professora universitária nas horas de folga. Mestre e doutoranda pela UNICAMP.