segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, quatro meses e catorze dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – As vinhas da ira.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araújo Nonato do Amaral, poema, “Do tempo.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “A fogueira”.

Coluna Direto do ArquivoLuíza Mascarenhas, artigo, A chegada do cinema ao Brasil”.

Coluna Porta AbertaLuiz Cláudio Cunha, artigo, O jornalismo que não vê e se omite”.

Coluna Porta Aberta – Arita Damasceno Pettená, poema, “Sentimento”.


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PESCA EM ÁGUAS TURVAS

Prosseguindo em minha tentativa de “pesca em águas turvas”, tenho uma nova proposta a fazer às editoras. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que venho tentando, há algum tempo, conferir. Tenho mais um livro, absolutamente inédito, a oferecer. Seu título é: “Dimensões infinitas”, que reúne 30 ensaios sobre temas dos mais variados e instigantes. Abordo, em linguagem acessível a todos, num estilo coloquial, assuntos tais como as dimensões do universo (tanto do macro quanto do microcosmo), o fenômeno da genialidade, a fragilidade dos atuais aparatos de justiça, o mito da caverna de Platão, a secular busca pelo lendário Eldorado, o surgimento das religiões, as tentativas de previsão do futuro e as indagações dos filósofos de todos os tempos sobre nossa origem, finalidade e destino, entre outros temas. É um livro não somente para ser lido, mas, sobretudo, para ser refletido. Meu desafio continua sendo o mesmo de quando iniciei esta tentativa de “pesca em águas turvas”. Ou seja, é o de motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, mas apenas pela internet, e sem que eu precise bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa todos os dias, sem limite de tempo. Para fecharmos negócio, basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. Quem se habilita?

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CITAÇÃO DO DIA:


Código e sistema 

Dinamitar o código para dinamizar o sistema.

(Augusto de Campos).



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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - As vinhas da ira


As vinhas da ira


Iniciei o texto de recente crônica com a seguinte afirmação: “Há livros que, mesmo sendo de ficção, causam muito mais impacto do que milhares de reportagens sobre determinado tema, principalmente se escritos com alma e verdade e por escritores que realmente conheçam o ofício”. Como exemplo, citei os romances “Les miserables” e “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo, mas me detive, sobretudo, em “As vinhas da ira”, de John Steinbeck.

No que esta obra se distingue das demais, de outros escritores, ou mesmo deste? Na verossimilhança com a realidade da história narrada. Na convicção com que o autor trata de assunto tão delicado (tanto que os originais manuscritos não têm quase rasuras, acréscimos e cortes, o que demonstra que a história foi escrita como que num único “sopro”). Na linguagem sóbria e equilibrada de Steinbeck. Eu poderia enumerar ainda uma dezena de virtudes, mas não o farei. Deixo isso por sua conta, na leitura desse memorável romance.

As vinhas da ira” foi escrito em 1939, quando os Estados Unidos começavam a se recuperar, posto que lentamente, da Grande Depressão, que sucedeu ao “crash” na Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Foi um período duríssimo, caracterizado pelo desemprego em massa e por suas perversas sequelas.

O livro denuncia a exploração (a que ainda são submetidos trabalhadores itinerantes e sazonais, os bóias frias dos norte-americanos), através da história da família Joad. Premida pela necessidade, após a perda de suas terras em Oklahoma para os grandes banqueiros, por não poder honrar o pagamento da hipoteca em decorrência de uma safra desastrosa, despejada sumariamente de sua casa e sem ter para onde ir, ela migra para a Califórnia.

Esse Estado, que no século XIX havia presenciado a “corrida do ouro”, era, então, tido e havido como a terra da promissão, dos sonhos dos deserdados da fortuna, uma espécie de Jardim do Éden. E agora não mais por causa do precioso metal, mas dos seus pomares verdejantes e seu clima ameno. Era para ali que uma imensa multidão de norte-americanos empobrecidos seguia, em busca de vida melhor.

Esse tipo de migração em massa realmente ocorreu ao longo da década de 30 do século XX. Como os descendentes de mexicanos, que hoje representam a mão de obra barata explorada pelos grandes fazendeiros produtores californianos de frutas, em sua ânsia de lucros a qualquer custo, e são chamados, pejorativamente de “chicanos”, na ocasião eram, sobretudo, os pequenos agricultores de Oklahoma que constituíam essa massa de manobra e eram tratados (igualmente com deboche e desprezo) de “oakies”.

Mas os migrantes só perceberam a “roubada” em que se meteram quando chegaram à Califórnia. Poucos conseguiam emprego e quem tinha essa “sorte”, era tratado em regime de semiescravidão. Seus acampamentos, miseráveis e insalubres, eram como campos de concentração. Eram norte-americanos explorando, impunemente, outros norte-americanos (ao contrário do que se faz hoje em relação aos latinos).

Steinbeck despertou, de fato, com seu romance, a consciência nacional para essa tragédia humana. Mas pagou preço duríssimo, diria proibitivo, por sua ousadia. A maneira como concluiu “As vinhas da ira” exemplifica toda sua magistralidade, ou melhor, genialidade. Poucos escritores teriam a coragem de terminar um livro dessa forma. E os que se arriscassem, dificilmente deixariam de resvalar para a pieguice.

Nos parágrafos finais do romance, Steinbeck narra que a família Joad – esfacelada e desfalcada pela morte dos avós, pela fuga de Tom, que para defender um trabalhador, agrediu um guarda que o espancava e se tornou foragido da justiça, e pela morte do bebê, que Rosa de Sharon deu à luz – abrigava-se, precariamente, da enchente que atingia a região e afetava, sobretudo, os acampados, em um barracão abandonado.

Os refugiados “oakies” não tinham para onde ir e sequer o que comer. Muitos morriam de fome, outros estavam doentes e alguns agonizavam Num canto, um deles estava morrendo de inanição.

Rosa de Sharon havia acabado de ter o bebê, que morrera a seguir. Estava com os peitos repletos de leite. E não teve dúvidas. Em cumplicidade com a mãe, teve um gesto de suprema abnegação e solidariedade. Deu os seios para o moribundo mamar e dessa forma conseguir sobreviver. Steinbeck descreve assim a dramática e solene cena, com que encerrou o romance:

-Sciu! – fez Mãe. Lançou olhares a Pai e tio John, que estavam contemplando o doente. Olhou Rosa de Sharon, envolta no cobertor. Seus olhares fugiram dos de Rosa de Sharon e tornaram a encontrá-los. E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A moça ofegava, respirava com um ritmo curto e apressado.
Ela disse:
- Sim.
Mãe sorriu:
- Eu sabia. Eu sabias que tu me compreendeu. – Olhou as mãos enlaçadas com firmeza sobre o colo.
Rosa de Sharon disse baixinho:
- Saiam vocês todos... por favor. – A chuva fustigava fracamente o teto.
Mãe inclinou-se sobre a filha e com a palma da mão afastou as mechas revoltas que lhe caíam sobre a testa e lhe deu um beijo na testa.
- Bom, andem depressa, vão saindo – disse Mãe, pondo-se de pé. – Fiquem aí fora um pouquinho.
Ruthie abriu a boca para dizer qualquer coisa.
- Sciu! – fez Mãe. – Fica quieta e vá saindo, - Empurrou-a porta afora, e o mesmo fez com os outros. Por fim, pegando o menino pela mão, também saiu, fechando a porta guinchante atrás de si.
Por um minuto, Rosa de Sharon permaneceu imóvel no centro do galpão, em cujo teto cochichava a chuva. Depois ergueu-se pesadamente, enrolando-se mais no cobertor. Lentamente, dirigiu-se ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto sofredor do desconhecido, lendo-lhe nos olhos arregalados e cheios de temor. Então, com vagar, dobrou os joelhos e deitou-se ao lado dele. O homem esboçou um movimento negativo com a cabeça, um movimento fraco e muito lento. Rosa de Sharon desfez-se do cobertor, deixando os seios desnudos.
- Tem que ser – falou, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça a si. – Assim – disse. Apoiou-lhe a cabeça com a direita e seus dedos lhe sulcaram suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e seu olhar percorreu o galpão escuro e seus lábios cerraram-se e ela sorriu misteriosamente”.

Ufa! É de tirar o fôlego! O que dizer, depois de ler uma descrição como essa? É coisa de gênio! Só mesmo um escritor genial, como John Steinbeck (que se confessava admirador do russo Fedor Dostoievski) consegue dar absoluta verossimilhança a uma cena e, principalmente, a uma atitude tão inverossímil e improvável como esta! Qualquer comentário a mais seria supérfluo e redundante.


Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

Do tempo - Núbia Araújo Nonato do Amaral


Do tempo


* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral


Dizem que o tempo é cruel.
Ora meu amigo, tenha dó!
Que culpa o tempo tem 
se és incapaz de desfazer
um nó?
Cruel, meu amigo, é viver
catando cacos do que
poderia ter sido uma
boa história de ninar
ainda que não fosse
para um menino...


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário.

A fogueira - Talis Andrade


A fogueira


* Por Talis Andrade


Que sempre ativem o fogo
com nossas cartas
de estilo contrário
nossos poemas ambíguos
e as páginas rasgadas
do nosso diário

Ao acordar do dia
as chamas ainda vivas
o vozeio dos fariseus
--- Bendito seja Deus
Os adúlteros que conspurcaram
os sentimentos alheios
ardejam na fogueira

Os puritanos desconhecem
as lavaredas consomem o visível
o invisível

(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).




* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).

A chegada do cinema no Brasil - Luíza Mascarenhas


A chegada do cinema no Brasil

* Por Luiza Mascarenhas


A primeira exibição cinematográfica no Brasil aconteceu em julho de 1896, no Cinematographo Parisiense, que foi criado em um lugar adaptado, onde hoje funciona o teatro Glauber Rocha, no Rio, cujos proprietários eram Pascoal Segreto e José Roberto Cunha Salles. O primeiro cinema foi inaugurado em 1909, como Cine Soberano, que hoje é chamado de Cine Íris, também no Rio de Janeiro.

O primeiro filme a ser exibido foi uma produção dos Irmãos Lumière, chamado"Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière".


A notificação da imprensa deixa claro o quanto essa primeira exibição revolucionou a história das artes: “O animatógrafo Lumiêre passou a ser a mais sublime maravilha de todos os séculos. Ver as pinturas moverem-se, andarem, trabalharem, sorrirem, chorarem com tamanha perfeição e nitidez como se fossem naturais é assombroso! Salve Lumiêre! ”

As primeiras filmagens feitas no Brasil foram feitas pelos irmãos Segreto, imigrantes italianos que filmaram a Baía de Guanabara, á bordo do navio francês Brêsil.


No dia 5 de julho, eles filmaram a visita do presidente da Republica Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant. A partir daí, todos os acontecimentos políticos e festivos que aconteciam na cidade do Rio passaram a ser filmados.
Pascoal Segreto popularizou-se através de suas filmagens, passando a ser chamado de de "Ministro das diversões do Rio de Janeiro".


Em 13 de fevereiro de 1898, José Roberto de Cunha Sales (Médico e ex. sócio de Pascoal Segreto) realiza uma das primeiras exibições do cinematógrafo em São Paulo.


A primeira filmagem em terras paulistas, entretanto, foi feita por Afonso Segreto em 20 de setembro de 1899 em uma celebração da colônia de imigrantes italianos.


Depois destas filmagens, têm-se notícias de novas tomadas em São Paulo somente em 14 de janeiro de 1904, com vistas de fazendas de café, terreiros, gado e outros aspectos do interior do Estado.


O cinema se espalha por outras partes do Brasil, além do eixo Rio-São Paulo.



* Jornalista

O jornalismo que não vê e se omite - Luiz Cláudio Cunha


O jornalismo que não vê e se omite


* Por Luiz Cláudio Cunha


O Brasil ficou chocado com os 84 segundos de imagens em preto e branco que assistiu nos principais telejornais do país em 28 de agosto de 2017. Mostravam as cenas violentas de um assalto à luz do dia numa avenida movimentada de São Bernardo do Campo, SP, quando o ladrão esmurra o vidro de um carro, arranca a motorista que o dirigia, joga a mulher no chão e arranca com o veículo.

A omissão: aos 59 segundos surge alguém para ajudar, enquanto os carros passam sem parar. Foram cenas captadas às 8h da manhã do sábado anterior, 22, pelo sistema de segurança da prefeitura, num trecho da avenida José Fornari, no bairro Ferrazópolis, e divulgadas pelo jornalABCD Maior. Repetida exaustivamente, a sequência impressiona pela brutalidade, que todo mundo vê. Os telejornais viram e reprisaram. Mas, o jornalismo fracassou em sua missão básica ao não ver, ali, o que devia ter visto, registrado e denunciado.

Um homem de menos de 30 anos aproveita o trânsito parado, circunda por trás de um Honda Fit, como se fosse cruzar a avenida, e aos 10 segundos da gravação se volta de repente em direção à porta da motorista. Com inesperada violência, começa a esmurrar o vidro. O carro tenta arrancar. O primeiro murro acontece aos 15 seg. Aos 16 seg, um segundo murro. Aos 17, o terceiro. Ele força a abertura da porta aos 18, que se abre no segundo seguinte.
Com violência, puxa para fora a motorista, uma senhora de 64 anos, e a joga sobre o canteiro central da avenida, aos 25 segundos. Ele toma o lugar da motorista e arranca com o carro. Outra mulher, que estava no banco de passageiro, consegue sair pela porta direita, pega uma bolsa caída na avenida e vai ao encontro da amiga, caída sobre o canteiro central. Aos 59 seg, enfim, um homem cruza a avenida ao encontro das duas mulheres, para prestar algum socorro.
A motorista de 64 anos, a psicopedagoga Rosa Maria Costa, deslocou o tornozelo e sofreu quatro fraturas na perna direita. O ladrão acabou capotando o carro na Via Anchieta e, no acidente, ainda atropelou um homem de 65 anos. Um carro parou para socorrer, o motorista desceu e o ladrão roubou o outro carro, desaparecendo. Um fato nada estranho na Grande São Paulo, onde acontece um roubo ou furto de carro a cada quatro minutos. Entre janeiro e julho, na maior região metropolitana do país, 74.129 veículos foram surrupiados por bandidos.
O que mais espantou na cena de violência em São Bernardo, que todo mundo viu, foi a cena que a imprensa não viu, não comentou ou desprezou. Ninguém da TV, rádio ou jornal, nenhum colunista, nenhum blogueiro, nenhum militante das ubíquas redes sociais destacou o vergonhoso espetáculo coletivo de acovardamento, omissão, negligência e falta de solidariedade que marcou o entorno da agressão na avenida.
Está tudo lá, gravado para sempre na câmera da TV e na consciência envergonhada de quem tudo viu e nada fez. Ou fez errado. Como o motorista do carro branco, provavelmente um Corolla, parado imediatamente atrás do carro atacado pelo assaltante.
Quando o agressor desferiu seu terceiro murro na porta, aos 17 seg, o motorista do Corolla começa a dar ré no carro. Se tivesse feito o contrário, acelerando em direção ao atacante, que não estava armada, ele teria frustrado a agressão e afugentado o agressor. Em vez disso, o carro branco recua uns dois ou três metros, lentamente. No momento em que Rosa Maria é jogada na avenida, o Corolla vira à sua direita e desaparece de cena atrás de uma van parada ao lado, com um motorista, também inerte, à direção. O carro roubado, o Corolla e a van arrancam quase ao mesmo tempo, enquanto a vítima rolava na avenida.
No canto inferior direito da tela, três homens passam pela calçada, indiferentes ao drama das duas mulheres no canteiro central. Só aos 59 seg aparece um homem de jaqueta preta, que atravessa a avenida para socorrer as duas mulheres. Durante os 84 segundos que dura a cena gravada, o que se vê e ninguém comenta é um desfile pusilânime de indiferença, de gente que não se importa, que não vê, não olha, não para e não comete nenhum gesto de solidariedade. Além da van e do Corolla que fugiram da cena do crime, outros quatro carros, dois ônibus e um caminhão passaram pelo local, no sentido do carro assaltado. Do outro lado da avenida, no sentido inverso, passaram 21 carros neste curto espaço de tempo — e ninguém parou, nem por curiosidade.
Nesta sociedade cada vez mais integrada por redes sociais, cada mais conectada por ferramentas como Facebook, Twitter e WhatsApp, cada vez mais interligada por geringonças eletrônicas que deixam todo mundo plugado em todos a todo momento, a cena brutal de São Bernardo escancara o chocante estágio de uma civilização cada vez mais desintegrada, mais desconectada, mais desintegrada. É uma humanidade apenas virtual, falsa, narcisista, cibernética, egoísta, que se decompõe em pixels e se desfaz na tela fria da vida cada vez mais distante e desimportante.


Ninho da omissão


A polícia, sempre fria e técnica, recomenda não reagir em casos de assalto, para evitar danos maiores. No episódio deprimente de Rosa Maria, tratava-se não de reagir, mas de defender uma vida, de proteger um ser humano, de cessar uma agressão, de impedir um abuso, obrigação que cabe a todos e a cada um de nós. A reação de um, um apenas, motivaria o auxílio de outro, e mais outro, numa sucessão de atos reflexivos de autodefesa em grupo que explicam a evolução do homem da caverna para o abrigo solidário da civilização.
Ninguém fez isso — na hora certa, com a firmeza necessária, com a generosidade devida, com a presteza impreterível. Esse espetáculo coletivo de insensibilidade e de crua indiferença atropelou toda a imprensa, em suas várias plataformas. Naufragaram até mesmo os programas e apresentadores que vivem da violência explícita e cotidiana de nossas cidades, grandes ou pequenas, com seu festival interminável de ‘mundo cão’.
Os programas das grandes redes de TV, que cruzam as manhãs e tardes do País com a tediosa banalidade de sangue, morte e violência do cotidiano, se refestelaram com a caso de São Bernardo, reprisando várias vezes a cena da avenida. Como sempre, no estilo furioso e mesmerizado de todos, despontou a tropa de elite da truculência na TV, sob o comando de José Luiz Datena (Band), Marcelo Rezende (Record) e Ratinho (SBT). Aos gritos, aos berros, no jeito gritado de um e de todos, ecoaram como de hábito a visão policial e teratológica da realidade, deixando de lado a preocupação social de uma segurança pública falida e desarvorada pelas balas perdidas da incompetência dos governantes.
Só esqueceram do entorno, da cena explícita de covardia e indiferença das pessoas que testemunham, assistem, presenciam, mas não interferem, não intervêm, não reagem. Ninguém lembrou do exemplo de São Bernardo para denunciar esta falsa sociedade compartilhada, mais preocupada em seus interesses compartimentados, que nenhuma rede social humaniza ou aproxima, a não ser virtualmente.
Um jornalismo que não vê o que é necessário, que não percebe o contexto além do texto, descumpre a sua missão. Esconde a realidade, ao invés de revelá-la. O repórter fiel ao seu ofício deve estar atento ao murro do assaltante no vidro do carro. Mas deve prestar atenção maior ao Corolla branco e aos carros que passam por ali, indiferentes ao que se vê e ao que acontece.
O bom jornalismo sabe que é nesse ninho da omissão que cresce a violência e prospera o fascismo.


* Luiz Cláudio Cunha é jornalistaé autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (L&PM, 2008)


Sentimento - Arita Damasceno Pettená


Sentimento

* Por Arita Damasceno Pettená

Sentir dentro da vida
um sopro de esperança,
ouvir, quase sem crer,
palavras de ternura.
Poder, dentro da noite,
murmurar confissões
que morrem no silêncio
das coisas indizíveis.
E depois ver morrer,
um a um, todos os sonhos
que um dia foram tantos
e enterrá-los chorando,
triste e só, na cova fria
das perdidas ilusões.


* Arita Damasceno Pettená é professora, escritora e membro da Academia Campinense de Letras, além de membro honorária e fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas (IHGGC).