domingo, 30 de abril de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, um mês e três dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Mark Twain e o Cometa de Halley.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Como os ébrios”.

Coluna Direto do Arquivo – Celamar Maione, conto, “A esposa do doutor Almeidinha”.

Coluna Clássicos – Carlos Pena Filho, poema, “Soneto do desmantelo”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, crônica, “A corrente de São Severino e a Odenbrecht”.

Coluna Porta Aberta – Adélia Prado, crônica, “Quero minha mãe”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.





Mark Twain e o Cometa de Halley



O escritor norte-americano Samuel Clemens, que se consagrou com o pseudônimo de Mark Twain e cujo sesquicentenário de nascimento transcorreu em 1985, teve, entre tantas particularidades na vida, uma especialmente interessante. Tratou-se, provavelmente, de uma coincidência – poucas vezes citada por seus vários biógrafos –, que por sinal se repetiu mais uma vez, 76 anos depois da sua morte, ocorrida em 1911.

O criador de personagens como Tom Sawyer, Huckleberry Finn e tantos outros, familiares especialmente aos jovens de várias partes do mundo, nasceu quando o Halley começou a se tornar visível no céu, em fins de 1835. E Mark Twain morreu exatamente 76 anos depois, quando o mesmo cometa passou de novo pelo Sistema Solar. Essa “coincidência” (e várias outras) foi tratada com grande maestria pelo escritor (e amigo) Edir Araujo, em seu romance “A passagem dos cometas”

Tal circunstância, conforme Mark Twain gostava de dizer, tornava-o um ser humano “muito especial”. Achava que por isso (e não só pelo seu reconhecido e enorme talento) estava predestinado à glória e à fama, sujeito à admiração e à estima de milhões de leitores, posto que não fadado à fortuna. Superstição? Talvez!

Grande parte dos adolescentes, de várias partes do mundo, fazem, ainda hoje, sua iniciação na leitura com as obras de Mark Twain. Numa comparação – um tanto forçada, mas ainda assim válida –, podemos afirmar que ele foi uma espécie de Monteiro Lobato norte-americano (ou vice-versa, pois o autor do Sítio do Pica-pau Amarelo nasceu quase meio século depois de Samuel Clemens).

Uma das características marcantes de Twain foi o seu senso de humor, que transportou, com grande maestria e talento, para seus personagens, dando-lhes naturalidade, humanidade e, sobretudo, autenticidade. Entre seus livros de maior sucesso destacam-se: “As Aventuras de Tom Sawyer”, “Huckleberry Finn” e “O Príncipe e o Mendigo”, todos três transformados em filmes de grande bilheteria por produtores de Hollywood.

Samuel Clemens, filho do juiz John Clemens, nasceu e cresceu na pequena cidade de Hannibal, Estado do Missouri, a 208 quilômetros de Saint Louis, às margens do Mississippi. O rio acabou sendo, na verdade, mais do que mero cenário dos seus romances, o principal “personagem” das suas histórias.

Mark Twain teve – a exemplo do nosso Machado de Assis – a “vida” como principal escola. Foi forçado pelas circunstâncias a abandonar os estudos muito cedo, aos 12 anos de idade, em conseqüência da morte do pai. Autodidata, tornou-se, no entanto, um dos mais refinados, hábeis e lidos escritores norte-americanos de todos os tempos.

Sua educação – ele próprio costumava dizer – bem como o seu jeitão afável e bem-humorado, foram forjados na estreita convivência com os barqueiros do Mississippi. São célebres (e geniais) suas “tiradas”, especialmente sobre a importância do dinheiro, citadas, freqüentemente, ainda hoje, por escritores, jornalistas e intelectuais de todas as áreas, no seu país e em tantas outras partes do mundo.

Tal foi a sua ligação com o mais extenso e caudaloso rio dos Estados Unidos, e com tudo o que lhe dissesse respeito, que o pseudônimo, “Mark Twain”, se originou de uma gíria utilizada pelos barqueiros da região, que significa “marque aos pares”. Trata-se de uma expressão que é usada quando se verifica a profundidade de um curso de água, para evitar que os barcos encalhem em bancos de areia.

Clemens fez um pouco de tudo para sobreviver, antes de se tornar o escritor famoso e bem sucedido em que se transformou. Foi piloto de barcaças, mineiro, soldado, impressor, humorista, jornalista, contador de histórias etc., entre tantas coisas.

Sua estreia em literatura ocorreu em 1863, com 28 anos de idade, ocasião em que adotou o pseudônimo com o qual ficou conhecido. A primeira vez que usou o nome Mark Twain foi em um artigo, publicado no jornal “The Virgínia City Enterprise”, em fevereiro daquele ano.

O primeiro livro de Samuel Clemens foi “Forty-three days in a Open Boat”, lançado em 1866. Desde então, seus romances se sucederam e o sucesso foi crescente. Mark Twain, no entanto, não era nem um pouco modesto. Confidenciou, por exemplo, aos amigos, que sua maior ambição na vida era a de ser “a pessoa mais notável do mundo”. Com certeza não chegou a tanto, mas se aproximou bastante disso.

Ernest Hemingway costumava dizer que “Huckleberry Finn foi o primeiro, e possivelmente o mais importante, de todos os romances escritos nos Estados Unidos”. Não foi por acaso, portanto, que as maiores universidades norte-americanas concederam a Mark Twain, genial autodidata, títulos de “doutor honoris causa”. Entre estas, destacam-se as de Oxford, Yale e a do Missouri.

O sesquicentenário do nascimento de Samuel Clemens (em outra passagem envolvendo o Halley), transcorreu em 30 de novembro de 1985, quando o cometa estava despontando de novo no céu, em sua periódica “visita”, que se repete há cada 76 anos, ao Sistema Solar! Coincidência? Quem sabe...?


Boa leitura!



O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk               
Como os ébrios


* Por Pedro J. Bondaczuk


O estilo – no falar, amar, trajar, brigar... em suma, viver – é a nossa cara, o nosso retrato de corpo inteiro, o nosso “crachá” no mundo. Reflete nossa personalidade, virtudes, defeitos, enfim, nosso modo de ser e de se comportar. Somos assim e dificilmente mudaremos. Talvez façamos um reparo aqui, outro ali, mas no essencial, mantemo-lo praticamente intacto.

No escrever, não poderia ser diferente. Meu estilo é bastante peculiar e revelador de como sou. Não sei se é bom, não sei se é ruim, mas é meu. Qualquer pessoa que venha a ler meus textos os identifica de imediato, mesmo à distância de “mil anos-luz”. Escrevo do jeitinho que falo, por isso, policio o tempo todo meu linguajar.

Essa história de conjugar verbos de forma errada, de misturar os pronomes tu e você no mesmo período, às vezes na mesma oração, de se equivocar na concordância, de engolir os “s” nos plurais e outras tantas mancadas, é altamente contagiosa. É como uma doença. Em três tempos, passa do falar para o escrever.

No primeiro caso ainda temos o consolo dos erros não serem muito notados. Afinal, o que se fala (a menos que esteja sendo gravado), entra por um ouvido do interlocutor, sai pelo outro e perde-se no ar. Se alguém nos contestar dizendo que falamos algo errado, podemos argumentar que ele não ouviu direito. Mas erros de redação... Estes são capciosos e comprometedores. Ficam piscando, piscando e piscando no texto, como escandalosas luzes de néon e, por consequência, temos que dar a mão à palmatória: erramos. Se der para corrigir, muito que bem. Mas nem sempre dá.

Tenho um estilo errático, às vezes evasivo, outras, sumamente subjetivo. Algumas coisas afirmo peremptoriamente, em tom que soa a muitos como dogmático (embora não seja esta a minha intenção). Diversas outras, porém, limito-me a sugerir ideias, a deixar implícita alguma conclusão, como que num desafio à perspicácia e argúcia do leitor.

Reitero que não tenho a menor noção se a minha maneira de escrever é boa ou má. Posso assegurar, porém, que não vou mudar essa forma de abordagem, adjetivada (para desespero dos estilistas e dos que Nelson Rodrigues classificava de “idiotas da objetividade”), repleta de idas e vindas, de meias voltas sucessivas, de dança e contradança no palco da página em branco (ou, para ser moderno, na telinha do computador).

A propósito de estilo, vem-me à mente citação de Machado de Assis, logo no início do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que o Bruxo do Cosme Velho acentua: “Tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, erram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem”. Pois é, mestre, meu modo de escrever também é assim.

Uma das tantas manias que tenho é a de não repetir palavras. Houve tempos em que meu estilo era gongórico, cheio de repetições, a pretexto de dar ênfase ao que afirmava. Contudo, senti que, com isso, meus textos soavam a discursos, desses que políticos chatos fazem em comícios, em vésperas de eleições. Dei, pois, uma volta de 180 graus e substitui as enjoativas “reiterações” (vamos chamá-las assim que ficam mais elegantes) por sinônimos.

Não sei se foi impressão minha, mas achei que os textos ganharam fluência, naturalidade, espontaneidade. É verdade que, como um ébrio, “guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, erram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem”.

Ocorre que escrevo sempre embriagado. Calma lá, leitor, explico. Não vá fazer mau juízo a meu respeito. Não me tome por alcoólatra, que não sou. Nesse aspecto, sou absoluto abstêmio. Prezo demais minha lucidez para recorrer, em qualquer circunstância, ao álcool.

A embriaguez a que me refiro é a espiritual. É a de luz. É a de beleza, que afeta, de tal sorte, meus sentidos, que não consigo descrevê-la em sua plenitude. Meu estilo, e vocês certamente já notaram, é mesmo como um ébrio. E, como tal, balança nas pernas, tropeça aqui, dá um encontrão ali, lasca às vezes um palavrão desses de fazer corar até estátuas de bronze, mas, para a minha felicidade, dá conta do recado. Pelo menos é o que acho...


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk



A esposa do Doutor Almeidinha



* Por Celamar Maione


Caminhavam lado a lado em direção ao metrô do Largo da Carioca, no Centro da Cidade, quando Mirtes, com os lábios trêmulos, gritou com o marido:
-Anda, Almeidinha! Me diz quem é a piranha da sua amante.
-Já disse para você que não tenho amante. Isso é coisa da sua cabeça!
-Já sei quem é. É aquela morena de coxa grossa e cabelos pintados. Não é? Fala, não é ela?

Almeidinha não respondeu. Sabia que não existia diálogo com a esposa, principalmente quando ela começava com as cenas de ciúme. Mirtes, não satisfeita com o silêncio do marido, pegou–o pelo colarinho e o sacudiu:
-Diz logo quem é, seu filho da mãe! Tô ficando irritada!
-Mirtes, estamos no meio da rua. Olha o vexame!

Mirtes continuou a sacudir o marido, enraivecida. A atitude da mulher chamou a atenção de quem passava pelo local:
-Olha lá, a mulher batendo no cara.
-Ihhhhh, vai sair porrada!

Logo, fez-se um círculo em volta do casal. Almeidinha, um conceituado ginecologista, não sabia onde enfiava a cara. A esposa, cada vez mais possessa, exigia o nome da suposta amante:
-Diz, seu filho da mãe! Diz que eu vou partir a cara dessa piranha!
Três contínuos que passavam pelo local começaram o coro, incentivando Mirtes:
-Fala, fala, fala.

Almeidinha desvencilhou-se da esposa. Empurrou a multidão que se aglomerava e desceu a escadaria do metrô, envergonhado. Mirtes aproveitou a platéia e fez pequeno discurso:
-Esse homem, com cara de santo, é um vigarista. Me trai com uma cliente. Ainda descubro quem é a vagabunda. Sexto sentido de mulher não se engana!
Aos poucos, a multidão se dispersou. Mirtes ficou sozinha. Quando chegou em casa, Almeidinha arrumava as malas.
-O que é isso, Almeidinha?!
-Vou me embora. Não agüento mais seu ciúme. Hoje me matou de vergonha. Amanhã, me mata de verdade.
-Embora?! Que vai embora, nada! Se você me largar, faço um escândalo. Vou aos jornais e digo que você molesta suas pacientes. Forjo testemunha. Você não me conhece, Almeidinha. Acabo com a sua raça!

Almeidinha ficava com medo. Sabia do que ela era capaz. Quando se casou, Mirtes era uma mulher doce e companheira. Com seis meses de casados, começaram as cenas de ciúmes. Tinha ciúme de todas as clientes. Até das mais velhas e feias. De início, exigiu trabalhar no consultório como recepcionista. Porém, depois de arranjar confusão com três pacientes, Almeidinha aconselhou a esposa a ficar em casa. Caso contrário, iriam falir. A desconfiança continuou de longe . Mirtes não permitia que o marido tivesse recepcionista e ligava para o consultório de hora em hora. Quando Almeidinha desligava o celular, Mirtes passava no consultório e esperava o término das consultas. Se Almeidinha, chegasse em casa cansado e não quisesse ir para a cama, depois de cheirar-lhe os dedos, o agredia com desconfiança:
-Vai me deixar na vontade? Não agüenta mais ver xoxota?! É nisso que dá, transa com aquelas clientes cheias de HPV! Devasso! Tarado!

Almeidinha deixava Mirtes falando sozinha, se trancava no banheiro e, sentado no vaso, pegava o celular e fazia uma ligação. Quando atendiam do outro lado, Almeidinha se transformava:
-Se você não existisse, não sei o que faria. Não agüento mais essa doida no meu pé. Tenho que me livrar dela. Me ajuda! Como?? Você tem um plano? Diga. Qual é o plano?
Do outro lado, aconselhavam e acalmavam Almeidinha. Conformado, quando Almeidinha saía do banheiro, Mirtes já dormia , depois de tomar 6 miligramas de tranqüilizantes. No dia seguinte, quando Almeidinha saía para o consultório, Mirtes impunha novas recomendações:
-E se eu chegar no consultório de surpresa e você tiver de gracinha com alguma cliente, faço um escarcéu!

Almeidinha balançava a cabeça, obediente. No caminho, fazia sua ligação habitual:
-Hoje?? Você acha que vai dar certo? Será? Ela comprou uma arma. Certeza. Na gaveta das calcinhas. Ta, tomara que sim. Um abraço.

Almeidinha chegou no consultório aliviado. Aquela ligação lhe devolveu a vida. Quando o relógio bateu seis da tarde, desligou o celular, tirou o telefone do gancho e mandou a última cliente entrar.
-Dona Waldecina, por favor.

Seis e cinco. Mirtes ligou para o celular do marido. Desligado. Ligou para o telefone do consultório. Ocupado. Seis e 15. Irritou-se! O coração apertou no peito. Sentiu falta de ar. Foi até a gaveta das calcinhas, pegou o revólver e saiu. Chamou um táxi. Chegou no consultório 7 da noite. Almeidinha se despedia de Waldecina, com a mão no ombro direito da paciente:
-A senhora retorna com todos os exames feitos.
-Então é essa a sua amante?
Waldecina não entendeu:
-Quem é essa mulher? O que está acontecendo?

Cega de ciúme, Mirtes pega o revólver na bolsa e dá dois tiros certeiros no peito de Waldecina. Waldecina cai. Almeidinha grita:
-Sua louca, matou minha cliente! E agora?

A porta do banheiro da ante-sala do consultório se abre. Renildo surge correndo até o corpo de Waldecina. Se ajoelha, chorando, e abraça a mulher morta :
-Que desgraça, meu Deus! Que tragédia!!

Mirtes arregalou os olhos, assustada:
- Quem é você? O marido dela?
Renildo balança a cabeça afirmativamente. Mirtes não sabe o que fazer. Os dois homens a acusam de louca assassina.

Enquanto Almeidinha liga para a polícia e Renildo continua agarrado ao corpo de Waldecina, Mirtes corre para a janela, toma impulso e se joga do décimo-segundo andar. Se espatifa na calçada da Avenida Rio Branco.
Quis o destino que Waldecina e Mirtes fossem enterradas no mesmo cemitério. Ficaram em capelas vizinhas. Renildo velou o corpo da esposa a noite toda. Faltando uma hora para o enterro das duas mulheres, vai até a capela ao lado. Foi direto até Almeidinha. Abraçou-o com força e puxou-o pela cabeça:
-Enfim, livres para amar!
Almeidinha deu um sorriso discreto e apertou, excitado, o braço de Renildo.


* Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da  Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos. É autora do livro de contos “Só as feias são fieis” (Editora Multifoco).
Soneto do desmantelo azul


* Por Carlos Pena Filho


Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.



* Um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX.
A corrente de São Severino e a Odebrecht


* Por José Ribamar Bessa Freire


Os trabalhadores nada têm a perder, a não ser as suas correntes”. (Karl Marx – Manifesto Comunista, 1848)

Se você é trabalhador, não perca esta corrente que está circulando mundo afora desde 1901. Faça vinte cópias e passe adiante. Ela começou na França, com o nome original de “Chaîne de Saint-Séverin Des Pauvres”. Seu autor, Leão Amorim, por incrível que pareça, é um amazonense que vivia em Paris, onde criou, muito antes de Cabral, a dancinha do guardanapo numa noite de esbórnia no “Le Procope”. Foi lá que dilapidou a fortuna do pai, Alexandre Amorim (1831-1881), o Odebrecht do séc. XIX, dono de seringais, de empresas de navegação e de todo Estado do Amazonas.

Monsieur Amorrã, como Leão era conhecido, traduziu a versão da “Corrente de São Severino dos Pobres” e deu uma cópia a Santos Dumont, que a levou em seu voo no dirigível em volta da Torre Eiffel. Daí, percorreu o mundo em várias línguas e atravessou os cinco continentes. Foi extraviada na Primeira Guerra Mundial. Durante décadas, ninguém ouviu falar dela até que um sócio do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), encontrou nos arquivos da instituição, em 1986, uma cópia da “Corrente de São Severino, onde entra homem, mulher e menino”. 

O nome foi, então, adulterado pelo secretário de cultura de todos os governos, Berinho Braga, para “Corrente de Santa Etelvina, onde entra homem, mulher e menina”. Era para puxar o saco de um governador que queria fazer média com o povo que canonizou a santa amazonense. Após a Operação Lava-Jato, o documento original foi recuperado, com dados atualizados pela delação de Marcelo Odebrecht, cuja versão vai abaixo publicada.

Propinas de Sansseverã

Você está recebendo agora, em abril de 2017, esta corrente, dentro de um envelope com sobras de propinas. Não guarde esta mensagem por mais de nove dias, pois depois desse período poderá ter muito azar. Sem se identificar, faça 20 cópias, divida a bufunfa em parcelas iguais e envie para os 20 parlamentares e ministros mais delatados. Não quebre a corrente. Dentro de nove dias – ou mesmo antes – você será recompensado.

Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o “Caranguejo”, então presidente da Câmara, rasgou a corrente como já havia feito com a Constituição. Depositou a propina do envelope em várias contas de bancos suíços, transferindo os ativos para um trust de usufruto dele e de sua mulher Cláudia. Por isso, o traste foi cassado e passou a ser usufrutuário de uma cela em Curitiba.

Moreira Franco (PMDB-RJ), de codinome “Angorá”, esnobou e não passou pra frente a corrente. Resultado: foi denunciado por negociata em concessões de aeroportos, que somaram ao todo R$ 45 bilhões, entre os quais o Galeão. Ele ia ser preso, mas no nono dia pediu a Lúcia, sua secretária, que fizesse o envio. Foi salvo. Seu amigo do peito, Michel Temer, o nomeou ministro para que tenha foro privilegiado. Sua prisão foi adiada para o dia de São Nunca.

Experiência similar viveu Aécio Neves (PSDB-MG), o “Mineirinho”. Ocupado em atividades recreativas na praia do Leblon, encarregou Oswaldo Borges, presidente da CODEMIG, de remeter a corrente a vinte amigos. Oswaldinho esqueceu e, por isso, Aécio foi citado cinco vezes na Lava-Jato por desvio de verbas, fraude na licitação da obra da Cidade Administrativa e outras cositas mais. Alertado, fez a corrente andar. Depois disso tirou foto sorridente com o juiz Sérgio Moro e foi assim blindado, escapando da prisão. Adquiriu moro privilegiado. Apesar das acusações, nunca será preso. Não foi esse o destino do ex-governador do Rio.

- Rasga essa corrente e usa a propina para comprar joias.

Essa foi a ordem dada por Sérgio Cabral a Adriana Ancelmo, sua esposa. Ela obedeceu e jogou a mensagem na lata do lixo. Bem feito! Ele está preso em Bangu, mas pelo menos reconheceu: “Eu exagerei. Devia ter dividido a propina com os correntistas”.

Ninguém ficou sabendo se os quatro amigos codinomeados “Primo” (Eliseu Padilha), “Caju” (Romero Jucá), “Botafogo” (Rodrigo Maia) e “Índio” (Eunício Oliveira) passaram a corrente pra frente. Há quem diga que não porque eles foram denunciados por crimes cabeludos e constam da lista de Fachin. Mas há quem diga que sim, porque todos tem foro privilegiado e trabalham na proposta de Jucá e Renan Calheiros (o “Justiça) para abafar a Lava-Jato e o que chamam de “cruzada moralista”. Coincidência? Sorte? Só vendo para crer.

O ex-presidente Lula, embora achando que essa história de corrente é pura superstição, por via das dúvidas orientou seu “amigo” para que enviasse aos vinte destinatários. Só no dia 3 de maio, quando Lula se enfrentará com Moro, o Torquemada de Curitiba, saberemos pelos resultados o que foi que o amigo realmente fez.  

A Rede Globo divulgou a corrente com acréscimos, ampliando o espaço de seus adversários, que repete à saciedade, minimizando o de seus aliados. Foi recompensada e passou a receber as delações em tempo real.

Nas próximas semanas, com o desdobramento da Lava-Jato, conheceremos ainda o que fizeram com a corrente ministros, parlamentares, governadores e prefeitos acusados de propineiros, como ACM Neto (DEM) que recebeu R$ 1,8 milhão em caixa 2 ou a Marta Traíra Suplicy. Quanto ao presidente da República, vejam o que aconteceu:   

- Renuncio – gritou em voz alta Michel Temer, com uma vela acesa na mão. Isso ocorreu na igreja maronita Nossa Senhora do Líbano no bairro paulistano de Cambuci. Foi em 1947, quando foi crismado. O bispo coadjutor de Campinas, dom Antônio Maria, que oficiou a cerimônia de renovação das promessas de batismo, lhe havia perguntado:

- Renunciais ao Satanás, às suas pompas e às suas obras?

Temer, que tinha sete anos, confirmou que sim, mas era tudo mentira. Mais de 70 anos depois, fingindo ignorar a propina, rasgou a corrente em pedacinhos: Jogá-la-ei no rio Tietê - disse. Dito e feito. Por isso, o Papa Francisco não aceitou o convite para vir ao Brasil, impedindo a exploração política da sua visita.

Agora o resto é contigo, leitor (a). A corrente está em tuas mãos, embora só o texto, pois a propina já foi toda abocanhada. Tira vinte cópias e passa adiante. Insiste, repete, denuncia, reproduz as delações para que o Brasil condene, ao menos moralmente, a quadrilha que tomou de assalto o poder. É preciso ser rápido no gatilho. Não faz como eu, que demorei. Por isso, o cardiologista, com quem eu havia marcado uma consulta, escafedeu-se. Além disso, meu cachorro Patife, codinome Bob, começou a mancar com artrose. Agora que estou te enviando, Bob já melhora a olhos vistos e consegui remarcar minha consulta.

Por todas essas razões, leitor (a) NÃO PARA essa corrente histórica. Continua a obra de Monsieur Amorrã, divulga as delações, especialmente para os paneleiros, que serás recompensado (a) com a graça de São Severino. Você não tem mais nada a perder, a não ser essa corrente.


* Jornalista e historiador.


Quero minha mãe


* Por Adélia Prado


Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço. Sou uma pessoa grata? Às vezes o que se nomeia gratidão é uma forma de amarra. Entendo amor ao inimigo, mas gratidão o que é? Tenho problemas neste particular.

Se aviso: passo na sua casa depois do almoço, acrescento logo se Deus quiser, não sendo grata, temo que me castigue com um infortúnio. Bajulo Deus, esta é a verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar. Como posso alçar-me com Ele grudado à cauda? Uma esquizofrenia teológica, eu sei, quando fica tudo confuso assim, meu descanso é recolher-me como um tatu-bola e repetir até passar a crise, Senhor, tem piedade de mim. Até em sonhos repito, Senhor, tem piedade de mim, é perfeito.

Sensação de confinamento outra vez, minha pele, minha casa, paredes, muro, tudo me poda, me cerca de arame farpado. Coitada da minha mãe, devia estar nesta angústia no dia em que me atingiu: “trem ordinário” Com certeza não suportava a ideia, o fardo de ter-que-dar-conta-daquela-roupa-de-graxa-do-meu-pai, daquele caldo escuro na bacia, fedendo a sabão preto e ela querendo tempo pra ler, ainda que pela milésima vez, meu manual de escola, o ADOREMUS, a REVISTA DE SANTO-ANTONIO. Mãe, que dura e curta vida a sua. Me interditou um reloginho de pulso, mas não teve meios de me proibir ficar no barranco à tarde, vendo os operários saírem da oficina, sabia que eu saberia o motivo. Duas mulheres, nos comunicávamos. Tá alegre, mãe? A senhora não liga de ficar em casa, não? Posso ir no parque com a Dorita? Vai chamar tia Ceição pra conversar com a senhora? Nem na festa da escola, nem na parada pra ver eu carregar a bandeira ela não foi. Não dava para ir de “mantor” porque era de dia com sol quente, gastei cinqüenta anos pra entender. Teve uma lavadeira, a Tina do Moisés, que ela adorava e tratava como rainha. Sua roupa acostumou comigo, Clotilde, nem que eu queira, não consigo largar. Foi um tempo bom de escutar isto, descansei de vê-la lavando roupa com o olhar perdido em outros sítios, sentindo e querendo, com toda certeza, o que qualquer mulher sente e quer, mesmo tendo lavadeira e empregada. Tenho sonhado com a mãe tomando conta de mim, me protegendo os namoros, me dando carinho, deixando, de cara alegre, meus peitinhos nascerem e até perguntando: está sentindo alguma dor, Olímpia? É normal na sua idade. Com certeza aprendeu, nas prédicas às Senhoras do Apostolado, como as mães cristãs deviam orientar suas filhas púberes. Te explico, Olímpia, porque pode te acontecer na escola, não precisa levar susto, não é sangue de doença. Achei minha mãe bacana, uma palavra ainda nova que só os moleques falavam.

Coitadas da Graça e da Joana, que nem isso ganharam dela. Morreu antes de me ensinar a lidar com as incômodas e trabalhosas toalhinhas. mãe, mãezinha, mamãezinha, mamãe, e o reino do céu é um festim, quem escondeu isto de você e de mim?

Texto extraído do livro “Quero minha mãe”, Editora Record – Rio de Janeiro, 2005, pág. 41.


* Uma das mais importantes poetisas da atualidade.