domingo, 28 de agosto de 2016

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos e cinco meses de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – Mau-humor ou má educação?

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “’Escola de humanidade”.

Coluna Direto do Arquivo – Edmundo Pacheco, poema, “Santa Ceia”.

Coluna Clássicos – Tavares Bastos, correspondência, “Carta XVIII”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, crônica, “A alma brasileira, as Olimpíadas e Françoise”.

Coluna Porta Aberta – Ana Deliberador, conto, “Vinda para o Paraná”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.





Mau-humor ou má educação?

  
O mau-humor pode ser uma doença. Seria uma disfunção psíquica, uma espécie de disrritmia cerebral, que afetaria um número considerável de pessoas (põe considerável nisso!). Em palavras mais simples: o cérebro, desses afetados, não funcionaria no ritmo desejável, considerado normal. Daí sua carranca constante, suas respostas arrevezadas e suas explosões de ira em situações mais tensas ou até mesmo naquelas em que inexista esse ingrediente de tensão. Esta, pelo menos, foi a conclusão de ilustres psiquiatras, de várias partes do mundo, que divulgaram inúmeros estudos a respeito. Os especialistas alertam, portanto, que nem sempre essas manifestações mal-humoradas são frutos de má educação, como a maioria das pessoas supõe.  

Mas seria possível, face às crescentes dificuldades da vida, num país cheio de injustiças e contradições como o nosso, se manter bem-humorado por, pelo menos, uma parcela razoável do dia? Seria viável não perder a compostura diante das sucessivas crises que nos acometem, numa sociedade em permanente reforma, mas que, entra ano, sai ano, continua sempre na mesma, repetindo os mesmíssimos erros e perpetuando os mesmos vícios?

Como portar um sorriso nos lábios, e ter sempre, na ponta da língua, palavras gentis, quando somos bombardeados, da manhã até a noite, por uma enxurrada de notícias ruins, que nos afetam, direta ou indiretamente? Ou quando somos vítimas de uma infinidade de agressões gratuitas? A violência, por exemplo, explode por toda a parte, nas ruas das grandes cidades. A mendicância cresce. Sentimo-nos inseguros até dentro da própria casa. E poderíamos desfiar um rosário imenso, quase interminável, de motivos para medo, preocupação e o conseqüente mau-humor.

Repito, portanto, a pergunta: é possível conservar o bom-humor, diante dessa realidade perversa e angustiante? Possibilidade sempre existe. Pelo menos, temos a obrigação para conosco mesmos de fazer força para isso. Para tanto, porém, é preciso que tenhamos nervos de aço. Ou que sejamos dotadas de uma insensibilidade que nos aproxime de um mineral, de uma pedra, de um objeto inanimado. Ou que tenhamos visão clara do que realmente somos e do que aspiramos da vida.

Equilíbrio é a palavra chave. Claro que nem tudo é ruim em nosso cotidiano. Há momentos agradáveis, e até felizes, que devem ser preservados na memória, multiplicados ao máximo e, sobretudo, muito bem aproveitados. Não é lícito, e nem justo, que descarreguemos nossas tensões, mágoas e frustrações sobre quem não tem nada a ver com elas: a esposa, os filhos, os vizinhos, os colegas de trabalho, aqueles que nos servem etc.etc.etc.etc.

Ressalte-se que os especialistas consideram doença o mau-humor freqüente, constante, contumaz, permanente e imotivado e não aquelas reações naturais, humanas, instintivas de irritação face às coisas desagradáveis que nos aconteçam, que são desagradáveis, óbvio, porém passageiras. Mas esse estado de espírito, normal, gerado por alguma contrariedade, também não pode ser confundido com manifestações ditadas, exclusivamente, pela má educação, das quais somos vítimas, às vezes, até, várias vezes ao dia, em nossos relacionamentos cotidianos.

Há pessoas cuja especialidade parece ser a de chatear os outros. Há funcionários que lidam com o público que, descontentes com a função que exercem, ou com o salário que recebem, ou com outra coisa qualquer, tratam a todos, indistintamente, aos trancos e barrancos. Descarregam suas frustrações em quem encontrarem pela frente, sem escolher cara.

Criticam e condenam tudo e todos. Criam regras e normas sem sentido ou necessidade, que apenas complicam o bom andamento do serviço. Inventam pretextos mil, em repartições públicas, para desperdiçar o tempo alheio, com exigências de cópias de documentos e de requerimentos absolutamente inúteis e, portanto, dispensáveis. Apegam-se a uma burocracia inútil, irritante e perdulária. Estes carrancudos crônicos, todavia, não são, na verdade, mal-humorados, no sentido patológico, classificado pelos especialistas. São é mal-educados, estúpidos e sumamente chatos. Mas esta já é uma outra história.


Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk




Escola de humanidade


* Por Pedro J. Bondaczuk

Os amigos – e não apenas os que convivem comigo no dia a dia, mas também os “virtuais”, cuja amizade prezo demais, alguns dos quais com contatos contínuos, praticamente ininterruptos, que já duram quinze anos – volta e meia me cobram para que escreva mais vezes sobre o “cenáculo informal” de que participei, já faz algum tempo, em um bar aqui de Campinas, por anos a fio. Sem exagero, classifico-o como uma escola de humanidade. Guardadas as devidas proporções, comparo-o à Academia de Platão, na Grécia Antiga. Escrevi bastante sobre esses encontros, que aconteciam, com absurda pontualidade, todas as sextas-feiras, depois do expediente de trabalho dos participantes, e o leitor é testemunha disso. Houve ano, por exemplo, em que não houve um único final de semana em que essas reuniões deixaram de acontecer. Tínhamos hora para começar nossas tertúlias (essa tirei lá do fundo do baú). Mas não havia horário para elas terminarem.

Houve ocasiões em que elas vararam a madrugada, o que me complicou sobremaneira em casa. Haja desculpas para dar à mulher!! Mas... como bom “equilibrista”, sobrevivi. Contando, claro, com a compreensão da cara metade, que acreditava em mim (ou pelo menos dava essa impressão), principalmente na versão que eu lhe dava, convencida que, fosse qual fosse o motivo que me fazia chegar, às sextas-feiras, alta madrugada em casa, isso não se devia a nenhuma “esbórnia”. Ademais, não se devia mesmo. Observe-se que um bom casamento, um casamento sadio e duradouro, só se mantém na base da mútua e irrestrita confiança. E isso nós tínhamos (e temos mais do que nunca).   

Embora eu já tenha apresentado, em crônicas anteriores, os participantes cativos desse cenáculo informalíssimo (e põe informalidade nisso!), sem regras e nem compromissos, nunca é demais repetir a apresentação, notadamente para os que me leem pela primeira vez (e que espero que não seja pela última). Compunha-se este círculo de palpiteiros, além deste cronista (claro), o Marcelo, estudante de História; o Marcão, que é advogado; o Nelson, psicólogo e o Zito, que é sociólogo, mas que trabalha, ou pelo menos trabalhava como gerente de banco. Algum tempo depois, o professor João, que é filósofo, mas que leciona Matemática num conhecido colégio particular da cidade, de tanto dar pitacos em nossas conversas, acabou incorporado, como membro pleno.

Tínhamos a postura de quem se propõe a “salvar o mundo”, entre goles de cerveja e tira-gostos variados (que ninguém é de ferro!). Tratávamos de tudo e de todos, não raro aos berros, com cada um querendo impor sua opinião, na marra, aos demais. Não havia assunto tabu, embora evitássemos de tratar de política, não da parte teórica e conceitual dessa nobre ciência, mas dessa comezinha, indecente e corrupta, como a praticada pelos nossos representantes, salvo honrosas exceções. Os assuntos abrangiam, por exemplo, conceitos de economia, filosofia, história, artes, esportes etc.etc.etc. E põe etecetera nisso!   Vez por outra, exaltávamo-nos e escapava algum palavrão, desses muito cabeludos, proibidos para menores, no calor da refrega. Parecíamos galos de briga em alguma rinha. Raramente havia consenso, fosse qual fosse o assunto em discussão.

Todavia nossas “brigas” eram apenas aparentes. Só enganavam os que não nos conheciam. Éramos enfáticos (não nego que com exagero) e não briguentos. Aliás, essa ênfase exagerada é que dava graça às reuniões. Éramos, antes e acima de tudo, amigos, embora para quem não integrasse aquela panelinha não parecesse. A despeito das cobranças dos leitores para que escreva mais a esse respeito (e na minha pauta, são eles que mandam), observo que já escrevi bastante sobre aquelas memoráveis e tensas noitadas (provavelmente) mais do que deveria. Mas... O que fazer? Escreverei muito mais. Sou assim mesmo! Sou exagerado quando gosto de alguém ou de alguma coisa.

Esse cenáculo informal, com todas as besteiras que lá se diziam, foi, para mim, a melhor escola que já frequentei. Opiniões, por exemplo, que eu nunca teria coragem de emitir em qualquer outro lugar, emitia ali, com aqueles queridos amigos, irmãos espirituais, raramente apoiadas e invariavelmente contestadas por todos. Aprendi a raciocinar fora dos padrões convencionais, sem ter que me ater a qualquer regra ou restrição. Desenvolvi meu senso crítico, fugindo de clichês e de dogmas tido como indiscutíveis, mas nem sempre fundamentados em fatos.

Não sei dizer se o grupo continua se reunindo (presumo que não). A vida, com suas circunstâncias aleatórias, porém, levou-me para outros caminhos. Há cinco anos afastei-me, por motivos de “força maior”, desses meus irmãos de alma. A idade relativamente avançada (caminho, celeremente, para os 74 anos), forçou-me a uma quase absoluta reclusão. Nos últimos quatro anos, ninguém (a não ser os amigos que freqüentam minha casa e os meus parentes) viu minha cara. Não pus os pés fora do portão deste meu mundinho particular uma única e reles vez. Por questão de prudência, evito, ao máximo a exposição, tudo o que possa representar, mesmo que remotamente, risco à minha integridade física.

Ademais, como sonhei a vida toda, hoje dedico-me, integralmente, à Literatura, com 14 horas diárias de atividade (entre pesquisa, leitura e redação de textos), embora não haja nenhuma editora interessada na publicação do produto dessa intensíssima atividade. Então, por que escrevo? Para partilhar o que sei, o que penso, o que sou e o que crio com quem quiser usufruir dessa vastíssima produção, tanto em prosa quanto em verso, tanto em ficção quanto em não-ficção. O leitor é testemunha. Voltarei a tratar do assunto.           


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk


Santa Ceia


* Por Edmundo Pacheco


É meia noite
Coração,
Peito em brasa,
Num turbilhão
Imaginações sem asas
Amores platônicos
Eternos
Que duram minutos
Deixam anjos atônitos
Amores absolutos
Que jamais foram além de um olhar

É meia-noite
O vento varre a poesia, num açoite
A noite, oculta o cadáver do poeta

É meia-noite
Árida
Irada
Raivosa

É meia-noite
Hora de acordar a morte
E rogar-lhe a sorte
Da boa hora
De ir embora

É meia-noite
Hora de se calar

É.
É meia-noite
Da meia poesia e meia
Que nasceu morta, nesta macabra ceia...

* Escritor por devoção, 46 anos, poeta por impulso, jornalista por profissão há 28 anos. Pai da Édile e do Dilee, marido da Sueli, avô da Julia. Três ou quatro livros escritos, nenhum publicado (procura editora, séria, desesperadamente). Perfil? Bom, já  foi bóia-fria, catador de batatas, lavador de banheiros, pasteleiro, feirante, churrasqueiro de restaurante beira de estrada, pacoteiro, vendedor de tecidos, derrissador de café, repórter de impresso, pauteiro de TV, assessor de imprensa, revisor, diagramador, editor de texto de  TV, funcionário público estadual e municipal, dono de lanchonete, confeccionista, balconista, corretor de imóveis, editor-chefe de telejornal, entre outros... Atualmente vende sanduíche natural na praia de Inajá, onde mora.



Carta XVIII


* Por Tavares Bastos

[...]

Demais, meu amigo, assim como há vocações nos indivíduos, assim existem gênios ou tendências especiais em cada povo, segundo os climas, os pontos do globo, os graus de civilização, causas seculares, tradições de raça. O Brasil tem a mesma missão que pertence em geral à América: é o celeiro da Europa. Quando no velho continente a população acumulava-se, a providência guiou o navio de Cristóvão Colombo, confirmou-lhe a fé abalada pela revolta dos marinheiros impacientes, e deu-lhe o sinal de terra enviando-lhe ao encontro as aves misteriosas que ele viu surgirem do ocidente. É que Deus abria um respiradouro às nações da Europa. A missão da América estava traçada; enquanto na Europa condensava-se o povo à roda das cidades, enchendo as oficinas da indústria manufatureira, aqui ele deveria espalhar-se pelos campos fertilíssimos.

A agricultura era e é a missão especial do Brasil. O Brasil não é manufatureiro, não é fabricante. Digo mais: o brasileiro ama apaixonadamente a vida do campo, o seu rio natal, os seus lagos ainda selvagens mas encantadores, a existência descuidosa do sertanejo, indolente e pobre, mas satisfeito. A vida laboriosa, ativa, infatigável, a vida do marujo em um clima ardente e mortífero, ele não a compreende, e detesta-a. O brasileiro, enfim, não tem o gênio marítimo.

Sinto, meu amigo, que estou contrariando ideias geralmente aceitas, opiniões e prejuízos muito arraigados. Desde que um virtuoso prelado, o bispo Azeredo Coutinho, pretendeu tirar da extensão de nossas costas argumento decisivo em favor de nossa rara aptidão marítima, essa idéia tornou-se um prejuízo vulgar, acreditando-se sur parole, sem mais exame, o escritor brasileiro que assim lisonjeava a vaidade nacional. Se esse argumento do grande desenvolvimento das costas vale alguma coisa, eu concluo que não há país mais dotado de condições marítimas do que a China; e, entretanto, os filhos do celeste império não brilham por suas frotas, por sua navegação. Não, o brasileiro, meu amigo, será tudo, menos um homem do mar, um velho lobo do oceano, um filho das águas, um amante das ondas. O brasileiro, que pode, é agricultor; vai exercer a única verdadeiramente nobre profissão da terra. Os empregos servis (deixai passar esta locução do estilo clássico) ele os pospõe. Esse é o orgulho nacional. Recordai-vos dos ares senhoris e de certas maneiras fidalgas do grande proprietário: eis o tipo do brasileiro rico. Não traduzo nestas palavras uma impressão individual, o meu decidido amor ao campo; não me inspiro, escrevendo-vos, deste céu azul puríssimo, destas árvores, deste verde-escuro, destas frescas brisas das montanhas da Tijuca. Exprimo o pensamento de muitos observadores.

O célebre tenente Maury, da marinha dos Estados Unidos, na famosa memória sobre o Amazonas e as costas da América Meridional, deixou cair a esse respeito reflexões sobre que devem meditar os estadistas que entre nós andam a contrariar a natureza, como queria dizer o nobre Sr. Visconde de Albuquerque.

                                                    [...]

Julgo tão interessante essa questão do poder marítimo do Brasil, e tão intimamente ligada aos interesses da bolsa do contribuinte, que peço-vos licença para ajuntar ainda algumas observações.

Se a navegação exige um gênio especial, este característico da fisionomia do   povo transparece através da sua literatura e ocupa na sua poesia um lugar distinto. Recordai-vos, meu amigo, dos cantos dos normandos e de outros povos do Norte. Shakespeare e Byron encarnam a impetuosidade e representam, o último sobretudo, a audácia marítima de seus compatriotas. Os poemas marítimos de herói do Missolonghi são repetidos pelo marinheiro inglês como as canções de Béranger pelo soldado francês. Dois povos distintos e dois poetas diferentes. E como, com que fleuma, Childe Harold, comprimindo as lágrimas, saúda e despede-se com um adeus lacônico das costas de sua velha pátria, que nunca mais tornará a ver! É a fleuma do bom marinheiro, do “filho da tempestade, que abrindo os olhos sobre as ondas espumantes do oceano, tinha desde esse momento considerado o abismo sua pátria, companheiro de seus passeios solitários, confidente de seus pensamentos vagabundos, único mentor de sua mocidade”, qual o retrata o poeta no poemeto “A ilha”.

A poesia é o espelho de uma sociedade qualquer, e não achareis admirável que eu pretenda argumentar aqui com gaie science que forneceu ao próprio autor do Cosmos provas de observações muito mais sérias.

A poesia de Byron é o retrato mais fiel da audácia marítima dos ingleses. Se fôssemos nós uma potência marítima ou para aí caminhássemos, já os nossos poetas teriam afinado as cordas de suas liras ao tom do rugido selvagem do oceano.

Assim como Tasso representa o espírito guerreiro da Idade Média, Dante uma ideia político-religiosa, Camões cantou as cenas marítimas com que as novas descobertas feriam os olhos e a imaginação da Europa. Cada época distinta ou cada grande tendência de um povo tem, assim, um intérprete, o seu poeta. Quais são, porém, os nossos poetas marítimos?

O nosso verdadeiro poeta, o elegante, mavioso e americano autor dos Timbiras, o Sr. G. Dias, fala-nos do mar por incidente nos seus cantos tão brasileiros e tão populares. É que o discípulo de Basílio da Gama não desejou contrariar a verdade nem forçar os sentimentos.

O próprio gênio da poesia nacional, guerreiro e erótico no Sr. Dias, silencioso e campestre no Sr. B. de Guimarães, satírico em Álvares de Azevedo, melancólico em Junqueira Freire, está mostrando que uma das características do povo não é a aventura marítima, a impetuosidade de corsário, o ardor do navegante, a paixão do oceano.

Vou concluir. Resumamos o que vai dito.

O Brasil não é potência marítima. O brasileiro é essencialmente, ainda que não exclusivamente, agricultor. Consequência: A cabotagem privilegiada desvia capitais brasileiros para uma indústria necessariamente ruinosa para o brasileiro. O privilégio, com efeito, resume-se em duas perdas igualmente sensíveis: a exageração do preço dos fretes para o consumidor, por um lado, e, por outro, a distração de braços que poderiam desenvolver a indústria nacional, a agricultura. A isto acrescentarei que os fretes da própria navegação de longo curso estrangeira poder-se-iam reduzir desde que ela ganhasse alguma coisa mais, fazendo, nos intervalos das suas viagens exteriores, transportes costeiros.

Por não alongar esta carta, reservo para a seguinte o exame da objeção a que referi-me terminando a anterior.

Vosso amigo, o Solitário

1862 Março, 6

(Cartas do Solitário)


* Advogado, jornalista, político e publicista, membro da Academia Brasileira de Letras.
A alma brasileira, as Olimpíadas e Françoise


* Por José Ribamar Bessa Freire


“Pour sûr qu´elle était d´Antibes!
Et tout en étant Française
Ça  ne me mettait pas à l´aise
De la savoir  Antibaise
Moi qui serais plutôt pour".
Boby Lapointe



O pai dela era dono de um hotel semiestrelado em Paris, um prédio antigo de quatro andares com 30 quartinhos, flores nas janelas e um elevador acanhado de porta sanfonada onde mal cabia uma pessoa. Foi ali, no Hotel Du Levant, rue de L´Harpe, à margem esquerda do Sena, que Marie Françoise conviveu nos anos 70 com habituais hóspedes brasileiros, entre eles Glauber Rocha, Gil, Caetano, Gal, Betânia e o adorável trotskista Edmundo Moniz, todos baianos. Com eles, aprendeu a amar o Brasil e a Bahia. No encerramento das Olimpíadas 2016, lembrei a incrível história que há anos ela me contou.

Disse-me que os brasileiros logo lhe arrumaram um apelido inspirado na delirante canção de Boby Lapointe repleta de duplo sentido: "elle s´appelait Françoise", mas "on l´appelait Framboise". Chamá-la-emos temerariamente, pois, pelo apelido de Framboise, uma fruta apetitosa, e dessa forma disparamos um tiro certeiro no pianista.

O país inteirinho cabia naquele pequeno hotel do Quartier Latin por onde desfilavam jornalistas, estudantes, cantores, atores, cineastas, exilados, hipongas e - podes crer - toda espécie de bicho grilo verde-amarelo. Framboise não precisou de caravelas para descobrir o Brasil.

Desde sua adolescência, ela curtiu o tropicalismo, o cinema novo e a culinária brasileira, devorou Machado de Assis, Lima Barreto e, sobretudo, Jorge Amado, compartilhando impressões com os hóspedes que iam e vinham trazendo livros, discos, feijão preto e cachaça. Aplaudiu Gilberto Gil na Sala Wagram e riu quando Luiz Gonzaga, no Teatro Bobino, puxou o fole da sanfona anunciando alegre o começo de seu show: "Alô, alô seu francês, chegou a minha vez". De quatro em quatro anos, na Copa do Mundo, torcia pela França e pelo Brasil.

O cordial Bertinho

Ela pretendia fazer o seu doutorado em letras, centrando o foco sobre literatura brasileira e quis verificar in loco como era mesmo o Brasil. No início de julho de 1973, viajou ao Rio no voo do boeing 707 da Varig, o mesmo avião que, ao retornar, incendiaria fazendo pouso forçado numa plantação de cebolas próxima ao aeroporto de Orly, o que causou a morte de 123 pessoas. Ela soube da notícia já na Bahia, pouco antes da experiência que viveu e lhe permitiu ver outros brasis.

Na reconstituição da história, sou obrigado a preencher lacunas da memória com a imaginação por desconhecer a geografia de Salvador. Foi mais ou menos assim. Framboise ficou hospedada na casa de uma amiga na av. Manoel Dias da Silva, em Pituba. No primeiro dia de Brasil, munida de um mapa, decidiu conhecer a Baixa dos Sapateiros. Entrou no ônibus e com sotaque cheio de erres e oxítonos perguntou ao motorista, um negão sorridente e gentil, se passava pelo centro histórico.
- Estamos indo no sentido contrário, para Boca do Rio. Desça na próxima parada, atravesse a avenida e pegue o ônibus de retorno. Vai passar por Amaralina, Rio Vermelho, Ondina, Barra, até o ponto final em Barris. Lá tem de pegar outro ônibus...

Diante da perplexidade da francesa, com dificuldades para entender o complicado trajeto, o motorista parou e, dirigindo-se aos dez ou doze passageiros, fez a pergunta para a qual o Brasil inteiro já tem a resposta, em se tratando de baianos:
- Tem alguém aqui com pressa?
- Se avexe não, meu rei - respondeu um coral de vozes, que só não acrescentou o "visse", porque o Taquiprati não é o Velho Chico e somos contra vices, ainda mais traíras.
- Então, vou mudar a rota do ônibus para levar a moça lá na Baixa do Sapateiro. Por três razões: ela é estrangeira, é jovem e simpática e é muito, muito bonita. Depois a gente retorna.

Deu meia volta e acelerou em direção ao Centro Histórico, sem parar, sempre em conversa animada com Framboise, derramando todo seu charme. Ao se despedir, o negão se curvou, beijou a mão da francesa e mostrou suas credenciais:
- Alberto. Alberto Menezes. Mas pode me chamar de Berto, Bertinho.

Os passageiros aplaudiram calorosamente Bertinho, cujo nome agora não lembro mais se era mesmo Alberto ou Gilberto. Ando esquecendo as  coisas depois que acabou o remédio belga Cogni+ para a memória, presente da Marilza Foucher. Não tenho dúvidas, porém, de que o outro sobrenome do motorista era Moraes ou uma coisa assim.

Antibaise

Framboise me confessou que foi a maior homenagem que recebeu em sua vida e que um gesto cortês, mas transgressor como esse, transformando um ônibus em táxi, era impensável em qualquer outro país, aonde seria mal interpretado e reprimido. É verdade que Bertinho, um cavalheiro, tinha segundas intenções, mas Framboise não abriu a guarda, embora não fosse antibaise, como a Framboise da canção de Boby Lapointe, repleta de humor, sarcasmo, jogo de palavras e trocadalhos do carilho.

Na França, por muito menos do que isso, um personagem de Julio Cortázar  foi execrado. Na hora de descer do ônibus de uma linha regular de Paris, o cara resolveu ser gentil e se dirigiu ao motorista em voz alta num longo discurso que iniciou assim:
- Quero parabenizá-lo e manifestar publicamente meu agradecimento por sua forma correta de conduzir, que proporcionou a mim e aos demais passageiros viagem tão agradável e tranquila, sem sobressaltos. São motoristas assim que honram a profissão etc e tal e pererê-pão-duro...

Um silêncio ensurdecedor tomou conta do ônibus ali parado, alguns passageiros esboçaram risinho irônico, mas todos balançaram a cabeça e fizeram impacientes caretas em sinal de reprovação, como se gritassem, o que não fizeram porque são discretos:
- Ouh là là, vous êtes dingue? Tá louco, cara! Desce que a gente está com pressa.

O que me fez lembrar Françoise e Bertinho foi o espetáculo de rara beleza no encerramento das Olimpíadas domingo passado no Maracanã. A festa foi a negação das arbitrariedades e dos desmandos cometidos para a realização dos jogos no Rio. O Brasil inteiro estava lá: Pixinguinha, Noel, Martinho da Vila, Ernesto Nazaré, Villa-Lobos, Carmen Miranda, Luiz Gonzaga, Tom Zé, os passistas de frevo, as rendeiras da Bahia, os bonecos de barro, as pinturas rupestres da Serra da Capivara e, especialmente, o coral das crianças guarani entoando música sagrada, de arrepiar a alma.

"Alma brasileira - Luzes e Sombra" foi justamente o tema do congresso realizado em Búzios (RJ), em 2014, que discutiu a formação nacional brasileira, criticou o ufanismo e o complexo de vira-lata e retomou criticamente a noção do "homem cordial", ora visto como fraterno, ora como produto de um sistema clientelista e coronelista.

A festa no Maracanã nos deu a sensação de que é possível construir um puta país sem essas figuras sebentas e essas alminhas sebosas. Com a "revolução vertical" defendida por Sérgio Buarque em "Raízes do Brasil", os estratos oprimidos emergiriam, sepultando as "camadas dominantes", os Cunha, os Temer, os Renan, os Jucá, os Gilmar, os Toffoli e até mesmo os patéticos três patetas que, fora Temer, estavam no encerramento: Nuzman - presidente do Comitê Olímpico, Paes - prefeito do Rio e Rodrigo Maia - substituto à altura do Cunha na presidência da Câmara. Sem eles, outro Brasil é possível.

* Jornalista, professor e historiador.


Vinda para o Paraná

* Por Ana Deliberador


Maio, 1927.

Monte Alto, Taquaritinga, itápolis, Marília, Paraguaçu Paulista, Conceição do Monte Alegre, Porto Casanova. Finalmente, entravam no Paraná. Após três longos e cansativos dias, a viagem estava no fim. Bastava atravessar um último rio, o Limoeiro, para chegar à fazenda.

De repente, o motor do caminhão, novinho em folha, falhou, engasgou e morreu.

Na ânsia de chegar, Zé Corrêa esquecera de colocar gasolina. Pegaram um dos galões e começaram a entornar no tanque.

A noite estava muito escura. Prestativo, um dos peões acendeu um palito de fósforo e o aproximou da boca do reservatório: o precioso liquido não poderia ser desperdiçado.

Do palito para a gasolina, o fogo não demorou a passar. Se alastrou rapidamente, tanque adentro. A explosão, ensurdecedora, não demorou a se ouvir.

Ninguém morreu. Ninguém se feriu seriamente. Mas queimou tudo.

Tudo o que a comitiva trouxera foi consumido pelas labaredas.

Restou a roupa do corpo.

E a vontade de recomeçar.

* Professora, pintora e escritora