segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, seis meses e vinte e seis dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – A maior descoberta.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Há de chegar”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “Dor de amor”.

Coluna Direto do Arquivo – Adriana Thiara, crônica, “Pátria amada, Brasil”.

Coluna Porta AbertaFrei Betto, artigo, “Seja feliz, tome remédios”.

Coluna Porta AbertaAlcides Buss, poema, “Pra que pressa”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


A maior descoberta


A vida pode ser comparada a uma escola, na qual jamais nos graduamos. Quanto mais aprendemos, mais temos a aprender, num aprendizado que nunca tem fim, vivamos o quanto vivermos: vinte, cinqüenta, oitenta ou cem anos. Nossas primeiras lições – aparentemente triviais, mas indispensáveis à sobrevivência – consistem em aprendermos a nos alimentar, sugando, corretamente, o seio da mãe; a erguer sozinhos a cabeça; a sentar; a engatinhar e, finalmente, a andar.

Às vezes, esse aprendizado é traumático e doloroso. Outras tantas, é envolvido em estimulantes prazeres. Mas sempre aprendemos, queiramos ou não, do berço à tumba. E quando morremos, deixamos infinitas lições para trás que, caso continuássemos vivendo, certamente aprenderíamos. Somos, pois, perpétuos estudantes nessa escola informal.

Todavia, o mais importante acontecimento da nossa vida é quando nos conscientizamos do nosso “eu”. É somente a partir daí que começamos a exercitar, de fato, nossa racionalidade. Claro que as conseqüências dessa lição fundamental nunca são iguais para todos. Alguns, ficam felizes por adquirirem a capacidade de entender e usufruir da beleza que os cerca. Outros, porém, decepcionam-se com a descoberta de que não passam de animais, posto que racionais e que o mundo não é o paraíso que esperavam.

Uns, descobrem talentos que jamais supunham que tinham e os exercitam, para deleite pessoal e engrandecimento do mundo. Outros, conscientizam-se de deficiências, de taras congênitas e de segredos sobre si próprios que melhor seria que permanecessem interditos.

São, pois, lições e mais lições aprendidas, algumas (como vimos) de forma dolorosa e traumática, representada pelas conseqüências de erros cometidos; outras sublimes e magníficas, decorrentes da convivência com pessoas nobres e construtivas ou de experiências inesquecíveis que as circunstâncias colocam em seus caminhos.

Além desse permanente aprendizado, dessa sucessão de descobertas (ou em decorrência delas) colecionamos, vida afora, imagens, sons, ideias, conceitos, valores etc. Essa coleção é feita, em geral, de forma inconsciente, à nossa revelia. Daí a necessidade de nos brindarmos o tempo todo com paisagens magníficas, com a convivência com pessoas nobres, bonitas e exemplares; com conversas sadias e leituras edificantes, entre outras tantas experiências ao nosso alcance.

Claro que nem sempre temos como fugir do oposto. Ou seja, de cenários sombrios e apavorantes, de gente horrorosa e perversa, de diálogos chulos, tensos ou banais e de livros que melhor seria que jamais houvessem sido escritos. Isso também se fixa em algum lugar do subconsciente e pode emergir, quando menos esperarmos, para nos atormentar ou aterrorizar.

Reitero que há cenas bucólicas, aparentemente banais, em geral bastante simples, que sem que nos apercebamos, ficam gravadas para sempre em nossa memória e que, quando as lembramos, o fazemos com deleite e satisfação. Essas paisagens; essas pessoas bonitas e bondosas; esses atos de nobreza e solidariedade; esses acontecimentos marcantes dos quais participamos – como personagens, ou meros espectadores – formam uma espécie de álbum de imagens, como esses tantos de fotografias que costumamos guardar e, de vez em quando, exibir para os filhos e para os netos.

São lembranças que se juntam, uma a uma, sem cessar, ao longo dos dias, semanas, meses e anos, ao nosso acervo espiritual e nos inspiram, enternecem e consolam notadamente em momentos de tristeza e solidão.

É um privilégio podermos ler, por exemplo, versos singelos, de uma beleza que chega a doer de tão intensa, como estes dois tercetos do soneto “Recreio”, do poeta português Alberto de Serpa:

Na claridade da manhã primaveril,
ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves.

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
a mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
- um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas”.

Concordo, pois, com Leon Tolstoi (escritor que tem lugar cativo no meu “álbum de lembranças” pessoal) quando afirma: “O mais importante acontecimento da vida de um homem é o momento em que se torna consciente do seu eu. As conseqüências disto podem ser as mais benéficas ou as mais terríveis”. Os riscos, desta transcendental descoberta, porém, valem, sempre, a pena correr.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Há de chegar


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Há de chegar o dia,
em que ao barro
voltarei. 
Há de chegar o dia
em que meu corpo
se desmanchará
e quem sabe terei
a sorte de um bom
dia de chuva que
arrastará meus restos
para o solo e eu volte
flor...


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Dor de amor


* Por Talis Andrade


É preciso amar-te muito
para permanecer capaz
de sofrer-te
M. Yourcenar

 
Ai o prazer
de quem padece
do mal de amor
 
O prazer
de quem sente
dor
pelo bem-querer
de sofrer
 
Sofrer por mim
não tanto assim
Sofrer por você
sim
Intensamente
sim



* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).


Pátria amada, Brasil

* Por Adriana Thiara

Fico com uma emoção estranha e prazerosa ao escutar o Hino. Que sentimento é esse que toma conta de todo brasileiro quando o Hino Nacional toca...? Que sentimento é esse que faz derramar lágrima, relembrar sonhos e fracassos pátrios...? Que sentimento é esse...?
Civismo!? O Hino Nacional é diferente... ele faz florescer a emoção, o arrepio, a lágrima, a liberdade, o patriotismo, a alma brasileira. Como será que isso acontece? Sei não.

É comum a criança aprender na escola a cantar o Hino. Elas aprendem a cantar tantos hinos! Mas o Nacional é diferente. Deve ser porque exalta que a nossa estória é mais bonita e contraditória que a que aprendemos nos livros de História. Que sentimento é esse que faz lembrar e esquecer; emergir idéias e aflorar derrotas ao toque de um Hino Nacional?

Tão perfeito em letra e música, texto e contexto, o Hino, comumente executado incompleto e ávido, faz mais que transpor um paradigma clássico de uma canção, faz-nos questionar sobre a vida...
Ô, vida! Cheia de corrupção, fome, doença, pobreza, ignorância, melancolia, vício, perversão, imoralidade e vergonha, que insiste em querer abafar esse tal sentimento sentido com tanta força, gozo e desespero... E é apenas um Hino Nacional.
E que Hino lindo, rico em história de lutas de uma aldeia que sonha ser global; sôfrego em anseios que insistem em não se realizar; abastado em patrimônio natural, cultural, imaterial e vivo; sedento pelo futuro brilhante que lhe é prometido.
O tempo passou, vai passando... Hoje, podemos não mais estar às margens plácidas, mas ainda somos um povo heróico de brado retumbante. Podemos não ver sol da Liberdade e seus raios fúlgidos pela coação da violência, mas ele há de brilhar no céu da Pátria a todo instante. Podemos não lutar belicamente por igualdade, mas vislumbramos grandes conquistas com braço forte.
Este desejo continua em nosso peito até a morte, porque os filhos desta Nação não fogem à luta. Ó Pátria amada, idolatrada, Terra adorada. Será esse o sentimento? Sei não.

Sei que do seio do brasileiro nasce esse sentimento que não tem nome, mas contagia um povo ao soar do “paranraram , paranraram, paranraranpam... Pátria amada, Brasil!”.




Seja feliz, tome remédios


* Por Frei Betto


A felicidade é um produto engarrafado que se adquire no supermercado da esquina? É o que sugere o neoliberalismo, criticado pelo clássico romance de Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo” (1932). A narrativa propõe construir uma sociedade saudável através da ingestão de medicamentos.

Aos deprimidos se distribui um narcótico intitulado “soma”, de modo a superarem seus sofrimentos e alcançar a felicidade pelo controle de suas emoções. Assim, a sociedade não estaria ameaçada por gente como o atirador de Las Vegas.

Huxley declarou mais tarde que a realidade havia confirmado muito de sua ficção. De fato, hoje a nossa subjetividade é controlada por medicamentos. São ingeridos comprimidos para dormir, acordar, ir ao banheiro, abrir o apetite, estimular o cérebro, fazer funcionar melhor as glândulas, reduzir o colesterol, emagrecer, adquirir vitalidade, obter energia etc. O que explica encontrar uma farmácia em cada esquina e, quase sempre, repleta de consumidores.

O neoliberalismo rechaça a nossa condição de seres pensantes e cidadãos. Seu paradigma se resume na sociedade consumista. A felicidade, adverte o sistema, consiste em comprar, comprar, comprar. Fora do mercado não há salvação. E dentro dele feliz é quem sabe empreender com sucesso, manter-se perenemente jovem, brilhar aos olhos alheios. A receita está prescrita nos livros de autoajuda que encabeçam a lista da biblioterapia.

Se você não corresponde ao figurino neoliberal é porque sofre de algum transtorno. As doenças estão em moda. Respiramos a cultura da medicalização. Não nos perguntamos por que há tantas enfermidades e enfermos. Esta indagação não convém à indústria farmacêutica nem ao sistema cujo objetivo primordial é a apropriação privada da riqueza.

Estão em moda a síndrome de pânico e o transtorno bipolar. Já em 1985, Freud havia diagnosticado a síndrome de pânico sob o nome de neurose de angústia. O transtorno bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva. Muitas pessoas sofrem, de fato, dessas enfermidades, e precisam ser tratadas e medicadas. Há profissionais que se sentem afetados por elas devido à cultura excessivamente competitiva e à exigência de demonstrar altíssimos rendimentos no trabalho segundo os atléticos parâmetros do mercado.

Em relação às crianças se constata o aumento do Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Ora, é preciso cuidado no diagnóstico. Hiperatividade e impulsividade são características da infância, às vezes rebaixadas à categoria de transtorno neurobiológico, de desordem do cérebro. Submeta seu filho a um diagnóstico precoce. 

Quando um suposto diagnóstico científico arvora-se em quantificar nosso grau de tristeza e frustração, de hiperatividade e alegria, é sinal de que não somos nós os doentes, e sim a sociedade que, submissa ao paradigma do mercado, pretende reduzir todos nós a meros objetos mecânicos, cujos funcionamentos podem ser decompostos em suas diferenças peças facilmente azeitadas por quilos de medicamentos.

* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.



Pra que pressa


* Por Alcides Buss


É lenta a noite
no coração da floresta.

Sem luz elétrica,
sem tevê, sem telefone,
o tempo volta
a ser o que era.

Dentro dele se formam
os sentidos
de que são feitas as coisas.

Amar é juntar-se
às palavras.

Sonhar é ir-se
com elas.

Pra que pressa?
Tudo que precisa
acontece na hora certa.



* Professor universitário e poeta