segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, oito meses e catorze dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Cultivo da personalidade.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, crônica, “Ela é plusssss”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, crônica, “Os olhos de Mara”.

Coluna Direto do Arquivo – Adriana Reis, crônica, “Cidade limpa?.

Coluna Porta AbertaCaio Junqueira Maciel, poema, “Soneto de São Francisco de Assis”.

Coluna Porta AbertaCeleste Fontana, poema, “Ausência”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Cultivo da personalidade


A palavra “personalidade” é, no meu entender, autoexplicativa. Não requer grande esforço mental ou semântico para ser definida e nem intensa ginástica do raciocínio para ser compreendida. É um conjunto de características, físicas, psíquicas, afetivas, comportamentais etc. etc.etc. que caracteriza determinada pessoa e a torna única, entre as que já viveram, vivem e/ou ainda viverão. Houve – e certamente, há e haverá – muitas outras “parecidas”, não raro “semelhantes”, mas jamais “iguais”. A personalidade é o que o termo sugere: o nosso “distintivo”, exclusivo, em meio a uma infinidade de espécimes da nossa espécie.

Antropólogos, biólogos, etologistas (estudiosos do comportamento), filósofos e, sobretudo, educadores, entre outros cientistas, debatem sobre se cada qual já nasce com pelo menos um “esboço” de personalidade, que pode (e é) alterado no curso de sua vida, ou se ela é moldada exclusivamente pela educação, em seu sentido mais amplo.

Entendo que há um pouco de cada. Há inúmeras características inatas, que podem ser corrigidas (ou deterioradas quando for o caso), melhoradas (ou pioradas), mas que nunca são suprimidas ou substituídas. Às vezes permanecem apenas latentes, adormecidas, mas estão dentro de nós enquanto existimos. Seus traços básicos permanecem presentes em cada indivíduo até a sua morte.

Por seu turno, há tantas outras características que vamos acrescentando ao longo da vida, voluntariamente ou ao sabor do acaso e das circunstâncias, que nos tornam, na velhice, bem diferentes do que fomos na infância (melhorados ou piorados, é mister que se destaque). O que varia, de pessoa para pessoa, é a intensidade dessas mudanças, reduzindo ou acentuando diferenças, de acordo com a realidade de cada uma.

Fica assente, pois, que podemos melhorar nossa personalidade (e também piorá-la, o que, óbvio, não é nada desejável). O homem, no sentido genérico, enquanto espécie (portanto, sem individualizar ou distinguir ninguém), em sua busca frenética pelo supérfluo, perde de vista o essencial. Em sua corrida por bens que apenas lhe pertencerão no curto espaço de sua vida terrena (provavelmente a única, a despeito do que apregoam as religiões) deixa de realizar seu potencial de grandeza, de melhorar sua imagem, sua pessoa e seus pensamentos, sentimentos, atos e, por consequência, de dar contribuição para melhorar os relacionamentos. Há exceções, óbvio (e felizmente).

Raros, no entanto, se preocupam com essa melhoria. Em geral, as pessoas tentam impor, e não raro a força (mesmo que de forma instintiva e inconsciente) o que pensam, querem e são, notadamente para os que consideram subalternos. Sequer levam em conta a personalidade alheia. Agem demais, posto que de forma caótica e desordenada, e pensam de menos, sem método, sem ritmo, sem disciplina. A maioria consegue, no final das contas, apenas infelicidade, causada pela frustração dos desejos, que não sabe limitar e nem moldar na medida da capacidade e malbarata a vida que, como todos sabem, não tem reprise.

Existe alguma forma do indivíduo moldar a personalidade ou esta é produto apenas da genética? Podem, a educação e o meio em que a pessoa nasceu e/ou foi criada (portanto, mera fatalidade) melhorar ou piorar essência de alguém, o que o distingue dos demais? As opiniões divergem. Muitos educadores entendem que a moldagem é não apenas possível como desejável e que a vontade (do educador e, principalmente, do educando) tem papel determinante nessa operação. Outros, por sua vez, acham que não.

Da minha parte estou convicto que o desenvolvimento de uma personalidade sadia, integrada e, sobretudo, voltada para o mundo, e não exclusivamente para o interior das pessoas, é não apenas factível, como até uma das tarefas principais do ser humano durante a existência. Pode parecer paradoxo esse empenho, já que cada indivíduo que nasce é único, sem qualquer similar no passado e no futuro.

Podem surgir sósias (e volta e meia surgem). Há identidade de características biológicas, por exemplo, em gêmeos univitelinos, impossíveis de serem distinguidos quando juntos e trajando as mesmas vestes. No entanto, não existem (e não existiram nem existirão) duas pessoas exatamente iguais. Cada qual é única, é original, é um mundo, é um universo complexo e indesvendável em sua totalidade.

É certo que há comportamentos padrões que massificam, descaracterizam e nulificam o indivíduo, imposto de cima para baixo. Os tiranos buscam impor essa massificação para seu proveito. Daí cada qual ter a necessidade de estar consciente de que precisa melhorar a cada instante o que é, tem que aprender o máximo de lições e acumular quantas informações for possível, deve “colecionar” todas as experiências que puder para, assim, realçar seu distintivo, suas peculiaridades (caso positivas e construtivas, claro), sua marca pessoal, essa tal a que se convencionou chamar de "personalidade".

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ela é plusssss


* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral


-Tá vendo aquela gordinha ali? Linda de rosto né!
-Gordelícia!

Bacon ambulante, picanha na chapa e etc. Essas são designações masculinas de quem enxerga numa gordinha um lauto banquete. Agora, as designações de nossas "amiguinhas":
-Baleia! Saco de batata!

Pausa para as considerações, "saco de batata", para mim é a mais ofensiva. Pense num saco de batatas, tem forma? Não. Tem contorno e suavidade? Não.

Se as batatas estiverem podres então! Minha Nossa Senhora! Fede pra mais de léguas! Essa eu ouvi e confesso que feriu mais a quem estava próximo do que a mim mesma, mas passou.

Queridos amigos e amigas, quando abraçarem uma gordinha(o) feliz e se esse abraço for sincero eu posso garantir que será o mais gostoso do mundo! Palavras de uma mulher plena e não de uma peça de picanha.


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário





Os olhos de Mara


* Por Talis Andrade


Quem reclama dos garranchos dos receituários, não deve esquecer que a literatura portuguesa registra a presença de médicos escritores e poetas. Caso de Jorge de Lima, biografado por Moacir Japiassu no romance Quando Alegre Partistes. Veja que beleza de texto. Veja como Mara Narciso começa seu aconselhamento Caminhar para poder ver o mundo:
 
Assim como há o lado oculto da lua, há também o lado cego das pessoas. A civilização ocidental neurotizada não caminha, corre não se sabe bem para onde, mas, desconfia-se, para a própria ruína, e assim, desenvolveu uma cegueira para algumas coisas. Quem não anda a pé não tem como enxergar as trivialidades da cidade”.


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).




Cidade limpa?


* Por Adriana Reis
 

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, anda orgulhoso pelo que julga um trabalho bem-sucedido, no intuito de deixar a cidade mais limpa. O projeto nada mais é do que a proibição de outdoors, placas, anúncios e letreiros, que qualquer paulistano encontrava a cada esquina. Bastava sair de casa. Também entrou neste pacote a regularização do tamanho de placas com nomes de lojas e outros estabelecimentos comerciais – algo que já vinha sendo planejado, só que com mais diálogo, desde a administração anterior, diga-se de passagem.

É fato que algumas fachadas estão sendo (re)descobertas, como afirma a publicidade que destaca o “sucesso” da empreitada. Mas a sensação, para quem nasceu e passou os últimos 29 anos de vida por aqui, é de que São Paulo está nua. Obscenamente nua.

Lembro quando, ainda criança, comecei a reparar na publicidade externa. No interminável (aos olhos de uma criança) trajeto entre minha casa, na região do Jabaquara (zona sul) e a de meus avós, na Vila Carrão (zona leste) distraía-me tentando decifrar aqueles códigos e mensagens de apelo consumista ou de utilidade pública.

Eu tinha 6 ou 7 anos de idade e ficava maravilhada com minhas primeiras experiências de leitura. Quase sempre, chegava com enjôos ao meu destino. E aqui vale um parênteses: demorei anos até desvincular essa sensação da visita periódica que fazíamos aos pais do meu pai.

No velho (já naquele tempo) fusquinha verde-abacate, ao lado do meu irmão menor e de meus pais, eu ia descobrindo o mundo. Sentia-me atraída e estimulada ao desafio de ler e entender a língua portuguesa escrita em curtas mensagens.

Assim, ir para a escola era uma forma de me munir de conhecimentos para, nos fins de semana, conseguir ser mais ágil na tarefa de leitura. Dos outdoors eu passei para os livros e daí para as revistas, os jornais... num caminho sem volta que fez de mim uma jornalista. Hoje, tenho consciência da importância que eles – os outdoors – tiveram para me estimular a ler. Porque foi essa publicidade externa que mostrou a mim – então uma criança com pouco acesso às palavras escritas dentro de casa – que a leitura tinha uma aplicação prática e deliciosamente atrativa.

Fico na dúvida, portanto, se foi a cidade que ficou mais limpa, sob o aspecto da poluição visual, ou se perdemos um acesso importante para a alfabetização. Se assim for, lamento pelos pequenos que, ao se sacudirem no banco de trás de seus carros, não podem mais se familiarizar com as letras, suas combinações e significados, no caminho para a casa de seus avós.

* Jornalista
 


Soneto de São Francisco

* Por Caio Junqueira Maciel

Um dia, São Francisco de Assis,
Escutando piar um passarinho
Que descuidado caiu de seu ninho,
Resolveu ajudar o infeliz.

E com suas mãos deu calor à ave
Que imediatamente cessou o pio
Do coraçãozinho voou o frio:
Eis que achara um ninho mais suave.

São Francisco percebendo, então,
Tanto conforto do pequeno ser,
Deixou aquela pluma em sua mão.

Por um bom tempo era de se ver
Aquelas mãos de onde vinha um canto:
Era o pássaro que saudava o santo.



* Poeta.
Ausência

* Por Celeste Fontana

Não sei sé é ausência ou é saudade
Esse pântano que me invade
Que subjuga o meu ser

Não sei se é paixão ou é pecado
Esse fogo que me queima
Meu âmago, sangue e entranhas
Vazio
Areia movediça
Hesitação

Não sei se é amor ou é distância
Este amargo e insano frio
Que em minhas vértebras penetra
Tremem ao vento
Sombras
Desalentos
Esperanças derrotadas
Águia engaiolada
Luas de vinagre e fel

Não sei se é pecado ou é castigo
Esta cela estreita
Invisível
Que me aprisiona e multiplica
Abismos de ausências
Paredes de morte
Tormentas
Brumas
Sacrifícios

Vendavais que choram adeuses
Pós que cobrem despojos de dor
Atrozes despedidas
Miseráveis solidões
Que sangram
Beijam
E profanam
A linha divisória do meu coração


* Poetisa