segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos e onze meses de existência (corrigido).

Leia nesta edição:

Editorial – Feri-me, mas me curei.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “A cigarra e a formiga”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O)s mortos vivos”.

Coluna Direto do Arquivo – Cândido Rolim, poema, “No circo”.

Coluna Porta Aberta – Blima Bracher, crônica, “As máscaras caem no Carnaval”.

Coluna Porta Aberta – Debora Bottcher, crônica, “Carnaval”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Feri-me, mas me curei


As cicatrizes são as verdadeiras medalhas que atestam o mérito de um guerreiro. Onde quer que vá, estão com ele. Não as retira nem quando se despe para banhar-se ou para dormir. Estão estampadas em sua pele. Acompanham-no vida afora a atestarem que se feriu, porquanto lutou, mas que teve forças para se curar.

Sei que a metáfora é um tanto inadequada, ainda mais levando em conta que sou absolutamente avesso a qualquer tipo de violência. O “guerreiro” a que me refiro não é, pois, o sujeito que, de armas na mão, investe contra outra pessoa num campo de batalha, tentando matá-la para não ser morto. Oponho-me a qualquer guerra, mesmo as eufemisticamente classificadas como de “defesa”. Afinal, quando um não quer, dois não brigam.

Essas explosões de ódio e de violência já causaram inúmeras desgraças, História afora. Resultaram na morte de milhões de pessoas, a maior parte das quais inocentes, apenas para satisfazer a ambição e a sede de poder de tiranos. A esse tipo de guerra abomino, e irei abominar enquanto existir.

O guerreiro a que me refiro, porém, é quem luta pela vida. Sou eu, é você, são seus amigos e conhecidos etc. São os que todas as manhãs, saudáveis ou doentes, dispostos ou indispostos, alegres ou tristes, saem de casa em busca do sustento, do sucesso e da felicidade.

Esta é uma guerra sem fim, que atravessa gerações e que se repete sempre, ano após ano, século após século, milênio após milênio, posto que com novos personagens e cenários bastante diversos. Sua maior batalha, portanto, é a da sobrevivência. Contudo não a qualquer custo, mas com honra e dignidade.

É uma luta às vezes insana, em que nos vemos muitas vezes confrontados com situações críticas e aflitivas, que surgem à nossa revelia, sem que tenhamos a menor condição de prever. E não raro nos ferimos com maior gravidade nas circunstâncias aparentemente mais inocentes, triviais e potencialmente menos perigosas, tomados, que somos, de surpresa, inertes e indefesos.

Ora esses ferimentos vêm, por exemplo, de pessoa que amamos sem restrições, que acreditávamos nos fosse leal e fiel e que, no entanto, nos apunhala pelas costas, desmerecendo nossa confiança. E como isso dói!

Trata-se de situação das mais comuns e nem assim conseguimos nos prevenir para elas. Ora esses ferimentos provêm, por outro lado, de algum amigo, desses que estimamos como a um irmão, em cujas mãos seríamos capazes de depositar nossas vidas e que, no entanto, nos trai, sem essa ou mais aquela, não raro por míseros “trinta talentos” (como Judas fez com Jesus Cristo).

Muitas dessas feridas não cicatrizam jamais. Permanecem abertas, em carne viva, doendo e sangrando e não raro arruínam uma vida. Claro que não podemos ser sensíveis a esse ponto. Os que se deixam abater por circunstâncias, como essas, jamais ostentarão as medalhas do bom combate, representadas pelas cicatrizes. Não foram fortes para se curar. Perderam uma batalha e deram a própria guerra por perdida. Os consultórios de especialistas estão abarrotados de gente assim, que se feriu e não soube como se curar.

Há, por exemplo, quem jamais volte a amar, condenando-se à perpétua solidão. Há quem não confie em mais ninguém, tornando-se arredio, brusco e hostil e espantando todos ao seu redor, inclusive quem poderia lhe prestar amparo e auxílio. São atitudes até compreensíveis, embora nada pragmáticas e, sobretudo, autodestrutivas.

Não há demérito algum em cair. Há, porém, quando não temos forças ou não sabemos como nos levantar. A vida não é constituída de um só dia e nem de um único episódio. O fracasso de hoje, pode se constituir no sucesso de amanhã (e vice-versa).

Compete-nos adquirir maleabilidade. É prudente sempre termos alternativas, um “Plano B” por exemplo, na eventualidade do fracasso do que planejávamos (não importa se um relacionamento afetivo estável, uma atividade profissional para a qual nos preparamos com afinco por anos ou a concretização de um sonho que estava em nossas mãos e nos escapou por entre os dedos).          

Há um poema belíssimo, de Rabindranath Tagore, cujos versos finais dizem:

“Quando eu estiver contigo no fim do dia
 poderás ver as minhas cicatrizes,
 e então saberás que eu me feri
 e também me curei”.

Seja, pois, o guerreiro do cotidiano que, quando ferido, saiba se curar e ostentar, com orgulho, a medalha indestrutível das suas cicatrizes.


Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk



A cigarra e a formiga

* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


O homem leva pra casa o pão,
encerra no final do dia uma
jornada cansativa
que garante
o sustento da família.
O filho corre a lhe mostrar
Desenhos bobos onde
o pai mal rabiscado
interage com borboletas.
-Isso é coisa de poeta!
Que não tem o que fazer!
Permita-me Dona Lua,
Musa de inspiração,
eu careço é de descanso
e pausa no coração.
Da janela, a cria do homem
observa ao longe o poeta
que ressentido, recolhe as poesias
que agonizam no chão...

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário




Os mortos vivos

* Por Talis Andrade


Mãos como garras
me arrancam as vestes
Sou o desvalido
Um cão perdido
Os colegas fecharam as portas
que não pertenço a nenhum partido
a nenhuma organização secreta
nem ao sindicato do crime

Nenhum conhecido reclama o meu corpo
esquartejado corpo
as vísceras espalhadas
pelos ruas e avenidas
do Recife   a cidade infame
dos mortos vivos

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).


No circo

* Por Cândido Rolim

zanza lúcido
de fome
o tigre
irado
olho
vis-à-vis
cera
seu pasto
ali
a um
palmomo

* Poeta



As máscaras caem no Carnaval


* Por Blima Bracher


Agora dei pra chorar de alegria. Um choro tão intenso que não dá pra prender na garganta. Ele escorre, forte e genuíno rosto afora, molhando a fantasia e borrando a maquiagem sem dó.

Escorre na cadência das baterias, no repique dos surdos, no repinique dos tamborins.

Acelera o coração ao passar dos catitões, naquele grito uníssono de alegria tão forte que se materializa em lágrimas.

E sigo ladeira acima e abaixo atrás desta endorfina para a alma.

Dentro de um bloco de Carnaval, nos tornamos um só.

Uma energia mútua, como se fôssemos apenas parte integrante de um todo gigante. E nos tornamos fortes e lindos, independente das diferenças. A energia pulsa, contagiante. Células de vida naqueles breves dias da folia de Momo.

Nesta hora, não adianta a fantasia. Cada um tem a sua, mas todos somos um. As máscaras caem.

De repente, um olhar de cumplicidade no meio da multidão. E vem o sorriso de comunhão. Sim, estamos todos comungando de um sopro de vida divino. Creio eu.

E o catador de latinhas para pra ver o bloco passar. E pega duas já amassadas, que agora viram o mais forte dos instrumentos, batendo na cadência da bateria.

É Deus que desce à Terra nos dias de folia. E, de algum lugar, sopra alegria como lança perfume.

Estaria ele escondido debaixo do Zé Pereira?

Ou dançando no Balanço da Cobra?

Quem sabe rindo de nós pelos dentes brancos das caveiras do Bloco do Caixão?

E na quarta tudo vira cinzas.

Sinto o fio gelado da navalha a perfurar meu coração.

O frio da morte ronda.

Deus subiu de novo aos céus.

E alguns foliões inconformados insistem em bater surdos sem ritmo, sem paixão.

Mas Ele de novo entre nós, fantasiado e fanfarrão, só no ano que vem.


* Jornalista e cineasta.
Carnaval

* Por Debora Bottcher


"Quanto riso! Oh! Quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão..."
(Trecho de 'Máscara Negra', de Zé Kéti)


Quase todo mundo com mais de 30 anos teve uma infância e/ou adolescência que vibrou ao som das marchinhas de carnaval.

Para mim, a Festa do Rei Momo sempre teve um inexplicável ar de melancolia. Máscaras e sombras desfilando, abrindo passagem para a orgia. A nudez vestindo-se de luz e purpurina, brilhando e despertando sensações – aquelas que ficam guardadas nos sótãos da alma, o ano inteiro escondidas... Fantasias...

Atrás da maquiagem, dos véus e das cores, pode-se ser quem quiser: o palhaço, a bailarina, o pirata, a feiticeira, o índio, a cigana, o super-homem, a fada madrinha. Cada um vende seu sonho e vive sua loucura, despido de cotidiano, alheio à preocupação.

Dos salões de baile às avenidas, a mentira é soberana: ela governa os cinco dias do ano em que tudo é permitido. A quarta-feira - e só depois do meio-dia - é que aciona o botão da realidade novamente.

Eu me lembro das nossas noites de carnaval. Meu pai, diretor de um clube de elite em Campinas, tinha mesa especial reservada. Vestida a caráter - e isso quer dizer Odalisca, Havaiana, Bruxa ou Mulher-Gato -, eu cruzava a entrada principal de braço dado com ele, muito antes da idade permitida de fato, para freqüentar os bailes luminosos.

Acho que era mais nisso que residia o encanto pra mim: burlar as regras. Porque, na verdade, não posso dizer que efetivamente me divertia. A música muito alta, depois de umas duas horas, começava a me incomodar; o empurra-empurra também não me deixava confortável, assim como os excessos (de bebidas e afins).

Tudo isso ia me deixando um tanto cansada. Eu me sentava então num dos degraus da imensa arquibancada de concreto, bem lá no alto, para observar a desordem instalada: rostos borrados, corpos suados, adereços em frangalhos. A beleza inicial desvanecida, perdida entre confetes e serpentinas.

De longe eu avistava meu pai tentando me encontrar no meio da confusão. Peguei-me pensando agora, enquanto escrevo, se em algum momento ele adivinhava que eu não estava lá - já que quando eu retornava para junto dele, nunca estava desgrenhada como a multidão. Às vezes, dançávamos juntos no espaço próximo às mesas: isso era bom - seu riso aberto, a alegria nos enlaçando.

Mas eu ainda era jovem (ia completar 18 anos) quando o carnaval perdeu completamente o glamour e eu não quis mais ir aos bailes. Meu pai, que era muito festeiro, tentou me convencer a mudar de idéia e se entristeceu um pouco quando não me dissuadiu - e eu só o acompanhei mais uma única vez depois disso, em 1998, quando ele, já em fase terminal, quis dar uma última olhada no que chamava de 'a maior festa do ano'.

Fato é que o tom da amargura que me invadia desde os primeiros tempos, foi se agigantando e eu me dei conta de que não havia fantasia capaz de burlar aquela desencantada emoção. As cinzas da quarta-feira me consumiam muito antes de tudo começar e eu pensei que estar quieta durante aqueles dias, era o jeito certo de acalmar o interior melancólico sem razão.

Talvez tenha sido um certo Pierrot. Talvez a minha Máscara Negra. Quem sabe uma enrustida saudade, um beijo que nunca aconteceu. Ou a lágrima que ficou engasgada e assim desmanchou de vez a ilusão.


* Poetisa e escritora.