terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A educação sentimental

* Por Evelyne Furtado


Minha abordagem é a de quem se encanta com a escrita cuidadosa, fluente e atraente de Gustave Flaubert.

Em A Educação Sentimental Flaubert lança um olhar irônico, mas também afetuoso sobre sua vida amorosa na França de Luis Felipe. O autor executou pesquisas exaustivas sobre o período historicamente turbulento no qual se desenvolve o romance.

A segunda edição de A Educação Sentimental traz trechos de cartas de Flaubert a amiga George Sand e a outros amigos com vistas a tirar dúvidas sobre acontecimentos da época.

As barricadas, os rumores socialistas e as mudanças de poder formam o pano de fundo para o amor burguês de Frederique Moreau por Madame Arnoux, mulher casada e dedicada à família.

Há um certo cinismo (realismo?) no relato das atitudes ambíguas dos personagens, incluindo Frédérique, uma evocação do próprio autor quando jovem.

O autor ri de si mesmo ao relatar os tropeços de seu protagonista. O medo de concretizar o relacionamento o paralisa. Frédérique ama na impossibilidade.

Entre Roem e Paris, ele avança e recua, sob a regência, aparentemente sem intenção, da mulher amada. A um simples olhar, um gesto apenas, Moreau fantasia e os devaneios guiam seus passos.


Os pensamentos dos personagens são narrados com fluidez; um raciocínio sobrepõe-se a outro com rapidez; a paixão, sempre, ganhando da razão.

Notável é a delicadeza com a qual o escritor descreve os encontros entre Frederique e Madame Arnoux desde o primeiro, no barco, até o último, muitos anos depois.

O romance é um clássico do realismo. É também o retrato que Flaubert, aos 56 anos, faz de sua juventude concluindo que na luta entre os sonhos e a realidade escolheu "o desprezo pelas tentações do mundo e o refúgio nas artes!"


* Poetisa e cronista de Natal/RN.
Prioridade em processos II

*Por José Calvino


"Primeiro é uma consideração
(eu respeito)
as massas precisam aprender.
Vamos pra frente
(eu entendo)
que se alastra, que será resolvido
as idéias claras a respeito.
Será ignorância?
(eu tenho pena)
calma que silencia.
Minha arma é a caneta
minha tranqüilidade permanece
sem obrigação...
a uma ação, ou comportamento.
Não é de hoje
não cabia.
Deveria".

A poesia acima, “Civilidade”, não é um caso isolado, os problemas existem e são reivindicações dos trabalhadores de modo geral. Não existe nada mais inútil do que os “disque-qualquer coisa” do serviço público. Exemplo: Fale Conosco, Ministério Público (Estado) e Alô Saúde (Prefeitura).

Outrossim, um aposentado consultando os processos do Poder Judiciário, pôs-se a digitar os números deles. O principal foi transformado em diversos, como seja, o primeiro em 2002. Em março de 2004, muitos aposentados aceitaram a adesão com a subserviência na forma vergonhosa em que foi implantada a então Gratificação de Serviço Prestados, aderindo ao acordo lesivo entre a Associação dos Trabalhadores e o Estado, com a perda de 80% da referida gratificação. Perplexo por ter ouvido e visto tais respostas cínicas de muitos funcionários folgados e preguiçosos, transmitindo mentiras sobre a morosidade da justiça, que age com conivência com o governo.
- Tudo bom, doutor José?
- Não
- O seu processo foi para a Procuradoria Geral do Estado.
– Atualmente, se encontra no Supremo Tribunal Federal. Está faltando o Governo do Estado liberar!!!

Notou que a sua voz era alta e verdadeira, diferente, e muito, das vozes dos interlocutores da justiça. Então, resolveu em 2005 entrar em contato com a Ouvidoria do Superior Tribunal de Justiça (Manifestação enviada com sucesso com número... O contato também poderá ser feito na Central de Atendimento ao Cidadão... Setor de Administração Federal –Brasília-DF), mas a decepção foi grande quando comparada ao que constava no panfleto com propaganda enganosa aos direitos da pessoa idosa:

“Uma vida de conquistas, realizações e lutas precisa ser reconhecida pela sociedade. É por isso que todo cidadão idoso, com 60 anos ou mais, tem direitos. A Promotoria de Justiça da Pessoa Idosa do Ministério Público atua para garantir que esses direitos sejam respeitados...”

Estamos em 2017, e a realidade é esta e ainda mais o que vemos pela internet:

“Não foram encontradas informações para o número... Se o processo houver sido ajuizado eletronicamente, utilize a consulta pública do Processo Judicial Eletrônico (PJE), clicando aqui. O sistema Consulta Processual, desenvolvido com plataforma mais moderna e segura, busca trazer aos usuários maior facilidade nas consultas aos processos correntes neste tribunal. Dentre os benefícios do novo sistema, podemos destacar: interface de fácil compreensão e uso, maior velocidade nas respostas às consultas e maior disponibilidade para uso...”

Alguns juízes não honram suas togas e não leem os autos. Um advogado, pasmem, escreveu uma receita de pamonha na petição para provar isto, não é uma vergonha?

Enfim, termino esta crônica com as palavras de Ingenieros:

“Os homens recusam-se a trabalhar e a estudar ao verem que a sociedade cumula de privilégios os ociosos e os ignorantes. E é por falta de justiça que os Estados se convertem em confabulações de favoritos e de charlatães, sempre dispostos a lucrar da pátria, mas incapazes de a honrarem com obras dignas.”

*Escritor, poeta e teatrólogo pernambucano


Felicidades


* Por Eduardo Oliveira Freire


Passou de ano de raspão.

Juntou dinheiro e este ano dará lembranças para toda família.

Aprendeu, finalmente, a andar de bicicleta.

Ganhou uma promoção no emprego.

Vendeu toda a roupa da sacola, precisa repor o estoque.

Vê um beija-flor beber a água diluída no açúcar, que colocou na flor de plástico que acabara de ganhar da neta. É a primeira vez que faz isto.

A lambida do cachorro doente, que agora passa bem, no meio da testa.

A noite que cai e a brisa refresca os pensamentos.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/



A lágrima

* Por Carmo Vasconcelos

Não sei por que uma lágrima rolou,
teimosa e repentina plo meu rosto,
se na minha alma mora um sol de agosto
e no meu peito um amor que despontou…

Por que tal emoção me transtornou
tal uma iluminura de sol-posto?
Se em vez de partitura de desgosto,
foi um concerto de anjos que chegou…

E nesse acorde de harpas promissor,
foi como o mundo então rodasse em cor,
alagando os meus olhos por te ter…

E a lágrima incontida transbordou,
e de ânsias liquefeita deslizou,
buscando os beijos teus para a sorver!

* Escritora portuguesa, poetisa, declamadora, tradutora e revisora literária.



Almoço em família

* Por Letícia Vidica


Domingo era dia de almoço em família. Pelo menos, uma vez por mês, minha mãe fazia questão de reunir os três filhos em volta da mesa e comer a tradicional macarronada da mamma. E esse era o tipo de evento que eu não conseguia fugir, mesmo sabendo todo o script.

Os preparativos

O ritual era sempre o mesmo. Na segunda-feira, minha mãe ligava para que eu não esquecesse do almoço...
- Oi, filha, não esquece hein? Domingo tem almoço lá em casa...
- Pode deixar, mãe, eu não vou faltar.

Mesmo dizendo que essa data já estava anotada de caneta vermelha na folhinha do meu calendário, minha mãe insistia em me ligar sempre achando que eu ia esquecer. Eu sempre era a última a chegar e logo ia ouvindo as broncas da minha mãe com seu avental sujo de molho, colher de pau nas mãos, guardanapo nos ombros ...
- Eu não disse que era meio-dia, Diana?! Você não tem jeito mesmo! - dizia ela me apertando a bunda e me dando um abraço
- Não está vendo a cara dela, mãe? Deve ter ido para a balada ontem...

Se não bastassem as broncas e cobranças da Dona Eunice, minha querida mãe, a Marisa, minha irmã mais velha, insistia em se achar no direito de me recriminar. Ela sempre foi a perfeitinha da família. Aos seus 35 anos, já era mãe de 3 lindos pestinhas: Gustavo, de 10 anos (o terrível), Ana Luísa, de 8 anos (o meu xodó) e Lucas, de 2 anos. Minha irmã era casada há 10 anos com o Arnaldo, meu querido cunhado. Gordo, dono de um posto de gasolina e pão duro.
- Esse almoço sai ou não sai?! - perguntava meu pai, Seu Matias
- Minha menina!!

Eu sempre me dei melhor com o meu pai do que com a minha mãe. Na verdade, acho que ele sempre me paparicou mais e me entendia mais. Na adolescência, quando tinha uma crise logo corria para o colo dele e contava tudo. Até hoje, acho que ele é a única pessoa que me entende. Ao ouvir a minha voz, os pestinhas vinham logo correndo...
- Tia Dianaaa... - caíam em cima de mim e a gente rolava feito criança no chão da sala.

Eu era a tia maluquinha e querida deles (mesmo sendo a única!). Para agradar, eu sempre levava alguns doces para eles, que minha irmã só deixava comer depois do almoço. Mas, às vezes, a gente se escondia no quarto da Lurdinha, a empregada, e se empanturrava de chocolates antes da macarronada. Mesmo sendo uns pestinhas, eu amava meus sobrinhos.

O almoço

- Tá na mesa! - gritava minha mãe
- Ué, cadê o Paco? - perguntava

O Paco era o meu irmão caçula. Vagabundo nato a beira dos 25 anos. Não estudava, não trabalhava e vivia às custas dos meus pais. Acho que a única coisa boa que ele fez na vida foram seus dois filhos (gêmeos), Davi e Mateus, nascidos de uma das escapadas dele. Eu mal via os dois, só quando a Lara (a mãe deles) resolvia vir cobrar pensão na casa de meus pais.
- Tô chegando, minha gente... e aí, maninha?

Quando todos conseguiam sentar na mesa que minha mãe montava no quintal, era uma zorra total. Um pedindo o macarrão, o outro o queijo, a Marisa brigando com o Gustavo para não puxar o cabelo da Luísa, minha mãe levantando sem parar da mesa porque ela sempre esquecia algo, o Arnaldo reclamando que estava cansado demais e pedindo para a Marisa fazer o prato dele, meu pai paparicando o Lucas, o Paco contando vantagens e eu no meio daquela minha família confusa.
- E aí, cunhada, vai casar quando? - esse era o tipo de pergunta que sempre me faziam e eu sempre me irritava.
- No dia de São Nunca, cunhado... os homens não me querem...
- Também quem é o louco que vai querer você né? - dizia Paco.
- Não fale assim, filho... fiz novena para Santo Antônio de novo, filha.
- Mãe, eu já disse para parar de fazer essas coisas...
- E aquele carinha ... o ... o César? - perguntava Marisa
- Sumiu ...
- Porra, desiste maninha ...
- Poxa, gente, deixem a Diana em paz... quando tiver de ser será...
- Isso mesmo, pai... eu estou muito bem sozinha...
- Deve estar tendo um caso com aquelas suas amigas solteironas desesperadas...
- Olha como fala das minhas amigas, moleque! E você? Tá fazendo o quê da vida? Posso não ter namorado, mas trabalho, pago minhas contas e já saí da barra da saia do papai e da mamãe há muito tempo e não tenho filhos jogados no mundo ...
- Não sei por quê vocês insistem em chamar essa garota para comer aqui em casa... perdi a fome - disse Paco bancando o machão e levantando da mesa...
- Filho... filho

Nessa hora, minha mãe sempre ia correndo atrás do filhinho querido e ele voltava com o rabinho entre as pernas. Eu e o Paco nos dávamos bem, mas era nas brigas que a gente se entendia melhor. O almoço prosseguia como se nada tivesse acontecido.

As louças

A louça sempre sobrava para mim e a Marisa. Era nesse momento que a gente aproveitava para fofocar um pouco.
- Nunca mais apareceu lá em casa, o que houve?
- Aquela agência está me deixando louca... prometo que vou aparecer mais... mas e você parece meio triste ...
- Acho que o Arnaldo está me traindo! - dizia Marisa com lágrimas nos olhos.
- Traindo?!
- Fale baixo, ainda não tenho certeza... semana passada, ele chegou tarde e eu encontrei marcas de batom na blusa lá do posto...
- Nossa, estou bege... traição não é uma coisa que faz muito o tipo do Arnaldo, mas fique atenta e se precisar de mim, posso segui-lo se quiser...
- Não é pra tanto, Di... - essa não era a primeira vez que a Marisa suspeitava do Arnaldo, mas ela nunca tinha coragem para prosseguir a investigação. Acho que ela preferia ser a corna feliz. E não era eu que ia incentivá-la, já me basta o título de ovelha negra da família.

Recordações

Empanturrada de macarronada, ainda tinha o pudim de sobremesa. E esse não tinha como resistir. Sentados na sala, comendo aquela delícia, meu pai nos reunia para relembrar os velhos tempos e matar a saudade do tempo em que éramos mais jovens e vivíamos todos na mesma casa. Minha mãe pegava a maleta com as fotografias e a gente passava a tarde a rir e a chorar com aquelas fotos antigas e com as histórias do meu pai. Meus sobrinhos se divertiam rindo da nossa cara ou tentando rasgar alguma foto...
- Nossa, lembra dessa foto? - dizia Marisa
- Uau... foi nossa viagem à Ilhabela lembra? Nos divertimos à beça...

Apesar de toda minha independência, essas fotos me levavam a um tempo o qual eu tinha muita saudade. Quando podia voltar para casa e me reconfortar no colo do meu pai ou da minha mãe. Eu saí de casa aos 18 anos quando passei no vestibular. Cursei os primeiros anos numa faculdade no interior e terminei os outros na capital, mas peguei gosto por morar sozinha e, mesmo sob recriminações de todos, provei que podia me virar sozinha.

O fim

Os almoços terminavam quase sempre no mesmo horário. Religiosamente, às nove horas da noite. A Marisa reunia os pimpolhos, que nunca queriam ir embora, e era a primeira a dar o toque de recolher...
- Vamos galerinha... amanhã tem aula...

A criançada beijava todo mundo, faziam um pouco de manha, mas iam embora contentes e terríveis. O segundo a partir era o Paco. Sempre chegava algum dos seus amigos de vagabundagem e o levavam para a balada.
- Falow, velhos, tô indo...
- Onde é a balada hoje?
- Abriu uma nova aqui perto, preciso conferir né?
- Juízo.

Ele me beijava e caía na noite. Eu era sempre a última. Meus pais aproveitavam para investigar um pouco mais da minha vida...
- Já consertou a geladeira, Diana?
- Essa semana o homem vai lá em casa, mãe.

Mesmo não morando na mesma casa, minha mãe sabia muito mais sobre o meu apartamento do que eu.
- Tem comido direito? Leva um pouco de comida daqui... sobrou bastante.

E lá ia ela preparar a minha marmita do mês. Nessa hora, meu pai deitava minha cabeça em seu colo, acariciava meus cabelos como quando de pequena e perguntava...
- E o emprego?
- Preciso sair de lá, pai... tenho que ganhar mais.
- Se cuida viu, filha... não caia em conversa mole de homem vagabundo e nem enfie um qualquer na sua casa.
- Pode deixar, pai...

Nessa hora, minha mãe chegava com a marmita. Eu beijava os dois. Ela me dava mais algumas broncas e eu ia embora na ânsia de mais uma almoço em família...


* Jornalista.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, nove meses e dezesseis dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Criadores de mundos.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Sem pretensão”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O aldeão vai para a guerra”.

Coluna Direto do Arquivo – Daniel Chutorianscy, artigo, “Psicopatia”.

Coluna Porta Aberta – Ana Deliberador, conto, “Braulino”.

Coluna Porta Aberta – Ana Esther Pithan, conto, “Um bailão de vergonha”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbert Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Criadores de mundos


A imaginação é uma característica ímpar com que a natureza nos dotou. Tem o condão de, em infinitésimos de segundos, tornar o abstrato concreto, criar e destruir mundos e vencer distâncias imensas com velocidade maior do que a da luz. Pode contribuir para nos fazer felizes ou ser a causa de constantes pesadelos, sofrimentos e dores.

Por exemplo, há muitas doenças que são apenas imaginárias e que só podem ser curadas pela própria pessoa que as padece. Há sofrimentos emocionais que existem somente em nossas mentes, mas que, ainda assim, nos causam intensos tormentos. Em contrapartida, essa característica, exclusiva do homem, enseja grandes criações artísticas, obras monumentais e fundamentais avanços  da civilização.

Há escritores prolíficos, que escreveram livros e mais livros sobre determinados lugares em que nunca estiveram, mas com uma desenvoltura e verossimilhança tamanhas, como se esses fossem suas aldeias natais. Cito, como exemplo, quatro deles, popularíssimos mundo afora, cujos livros de aventuras encantaram gerações e mais gerações de jovens (inclusive a minha) e são lidos, avidamente, ainda nos dias atuais: Emilio Salgari, Karl May, Edgar Rice Burroughs e Júlio Verne.

Todos os quatro foram campeões de vendas. Ou seja, fizeram a fortuna dos respectivos editores. Foram autênticas “usinas de idéias” e, apesar da extensíssima produção, não se repetiram. Mas tiveram sortes muito diferentes em suas vidas pessoais. À exceção de Júlio Verne, foram considerados “escritores menores”, a despeito da quantidade de leitores que tiveram. Foram ignorados pelos críticos literários e seus textos não constam de nenhuma antologia.

O italiano Emílio Salgari, nascido em Verona em 21 de agosto de 1862, notabilizou-se por escrever, nos últimos 15 anos de vida (pasmem) 200 novelas de aventuras e viagens! Os locais enfocados, que serviram de cenário para as suas histórias, foram os mais diversos e exóticos possíveis, como a Malásia, as Antilhas, as Bermudas e o faroeste norte-americano.

O leitor deve estar pensando: “Como esse cara era viajado!” O curioso é que não era. Fez, em toda vida, uma única e curta viagem: no Mar Adriático, na costa oriental da Itália. Ou seja, em seu próprio país. Suas fontes de inspiração foram os relatos de viajantes e exploradores, com os quais teve a oportunidade de conversar. E sua fertilíssima imaginação, claro!

Por exemplo, Emílio Salgari tomou como modelo, para as heroínas dos seus romances, uma paixão frustrada da juventude. O escritor apaixonou-se, perdidamente, por uma jovem inglesa, de família nobre, que sequer tomou conhecimento de que ele existia. Casou-se, por fim, com uma camponesa italiana, Ida Peruzzi, paupérrima e que lhe gerou quatro filhos.

Alguns dos seus livros mais conhecidos (li todos eles) são: “Sandokan vence o tigre da Índia”, Sandokan na ilha de Bornéu”, “Sandokan reconquista Mompacém”, “Sandokan soberano da Malásia”, “Os pescadores de pérolas”, “O corsário negro”, “Os últimos corsários”, “O Capitão Tormenta”, “O tesouro dos incas”, “O escravo de Madagascar”, “A heroína de Cuba” e vai por aí afora.

Na Itália, a obra de Salgari foi (e ainda é) mais lida do que a de Dante Alighieri (cujo estudo é obrigatório nas escolas). Situa-se entre os 40 escritores mais traduzidos no mundo. Foi admirado, por exemplo, por Ernesto Che Guevara, que se inspirou nesse novelista para suas viagens de aventura da juventude.

Todo esse sucesso editorial, contudo, não lhe valeu coisa alguma. Salgari viveu seus últimos anos de vida trabalhando (duro) como jornalista, em extrema penúria. As dificuldades financeiras foram tantas, e tão graves, que cometeu suicídio em 25 de abril de 1911, em Turim.

Já o alemão Karl Friedrich May, nascido em Hohenstein-Emsthal, em 25 de fevereiro de 1842, é o maior best-seller da pátria de Goethe, Schiller e tantos outros monstros sagrados da literatura, de todos os tempos. Seu legado literário é de 33 romances de aventura, em várias partes do mundo, em todos os continentes.

Tornou-se conhecido, sobretudo, pelas peripécias do cacique apache Winnitou e seu “irmão de sangue” branco Old Shatterhand, vividas no Velho Oeste dos Estados Unidos. Ocorre que, até 1908, nunca havia saído da Alemanha.

Fato semelhante ocorreu com o jornalista norte-americano Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan, que nasceu em 1º de setembro de 1875 e morreu em 19 de março de 1950, sendo sepultado numa pequena cidade da Califórnia, chamada de Tarzana.
A África que esse escritor usou como cenário das aventuras do “Homem Macaco” não tem absolutamente nada a ver com esse continente. Trata-se de uma região “fantasma”, “irreal”, “imaginária”, habitada por povos estranhos, descendentes de antigos fenícios, romanos ou cruzados.

Já Júlio Verne, dos quatro, foi o mais bem-sucedido financeiramente, embora tenha vendido bem menos livros do que os outros três. Nascido em Nantes, em 8 de fevereiro de 1828, teve a felicidade de se associar a um editor experiente, que trabalhava com Victor Hugo, George Sand e outros grandes nomes da literatura francesa, Pierre-Jules Hetzel. Ambos enriqueceram, fato raro na vida de um escritor.

Seu primeiro sucesso, de vendas e de público, foi o romance “Cinco semanas em um balão”, lançado em 1862. A narrativa era tão verossímil, ao ponto dos leitores questionarem se se tratava de uma obra de ficção ou de um relato de viagem. Ocorre que Júlio Verne nunca esteve na África e muito menos andou de balão em toda a sua vida. Sequer é necessário lembrar os inúmeros sucessos desse escritor, visto por muitos como uma espécie de profeta, como “Vinte mil léguas submarinas”, “Viagem ao centro da terra”, “A volta ao mundo em oitenta dias”, “Da terra à lua” e “Robur, o conquistador”, entre tantos e tantos best-sellers.

Boa leitura!


O Editor.

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