segunda-feira, 19 de março de 2012







Leia nesta edição:

Editorial – Fuga impossível.

Coluna Lira de sete cordas – Talis Andrade, poema “Cavalgada”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, crônica, “Fragmentos”.

Coluna Portas Aberta – Frei Beto, artigo, “Rumo à reforma agrária”.

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema “Soneto da ausência”.

Coluna Porta Aberta – Rubem Costa, crônica “A mulher que devolveu o papado a Roma”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Fuga impossível


O poeta T. S. Eliot – norte-americano de nascimento, mas que adotou a cidadania inglesa – ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1948, que morreu em Londres em 4 de janeiro de 1965, em um de seus versos mais notáveis e eloquentes, constatou, com elegância e precisão, que “o gênero humano não suporta a realidade”. E não suporta mesmo!


Já tratei desse assunto (desagradável, é verdade) e em várias ocasiões. Outros tantos escritores, filósofos, teólogos etc., muito mais gabaritados e renomados do que eu, também trataram dele. Porém, pergunto: a menos que se trate de pessoa com profunda deficiência mental, ou que, por motivo de doença, esteja momentânea ou definitivamente inconsciente, é possível a alguém fugir da realidade? Ouso dizer que não. Não, pelo menos, da mais aterrorizante de todas: a da consciência da nossa mortalidade.


O homem (não sei se feliz ou infelizmente, já que, como dizia o bardo William Shakespeare, “há mais mistérios entre o céu e a terra do que prevê nossa vã filosofia”) é o único animal da natureza que tem consciência de que vai morrer. Por que? Sabe-se lá! Há quem, inconscientemente, sem pensar no que diz, que afirme que gostaria de saber “como” e, principalmente, “quando” vai acontecer sua extinção. Não considero essa ciência prévia um bem. Muito pelo contrário. Se soubéssemos disso, ficaríamos de tal sorte aterrorizados, que não usufruiríamos nada, absolutamente nada da vida. Pensaríamos nisso o tempo todo e a angústia nos paralisaria. A “fuga da realidade”, que T. S. Eliot sugere em seus versos, no meu entender, é apenas essa (a única possível): a de não pensar nesse fim o tempo todo, que ademais é inevitável.


Daí vivermos criando fantasias de todos os tipos. Daí acharmos que o futuro será sempre muito melhor do que o presente e mais venturoso ainda do que o passado. Abstraímo-nos do fato, porém de que nele (futuro), e não no tempo que estamos vivendo (e muito menos no que já vivemos) está a nossa extinção. Quando? Como? Felizmente não sabemos. Esse conhecimento apenas seria útil se pudéssemos prevenir e evitar o desenlace fatal e assegurar a imortalidade. Obviamente, não podemos. Não, pelo menos, no plano físico, material. E no espiritual? Mistério! Não sei! Ninguém sabe! Essa crença está adstrita, só e rigorosamente, ao terreno da fé. Ou seja, na absoluta crença no objetivamente incrível


Essa valorização do futuro, fruto exclusivo da esperança, é a única forma que temos para fugir da realidade, caracterizada pelo imprevisto, por surpresas boas e ruins, algumas (poucas) resultantes dos nossos atos, mas a maioria aleatória e impossível de prever e, por conseqüência, de prevenir quando se tratar de algo ruim. Ou seja, a de fantasiar esse “porvir venturoso e bem-sucedido”. E nem tanto o futuro próximo (posto que igualmente incerto). Todavia o que está muito à frente, algumas décadas adiante da época atual. Teimamos, pois, em glamourizar o futuro. Afinal, como afirmou Eliot, “o homem não suporta a realidade”, posto que, por mais que tente, não consegue escapar de suas traiçoeiras armadilhas.


Por exemplo, seus negócios vão de vento em popa. As vendas crescem exponencialmente, o sucesso é nítido e parece interminável. Subitamente, porém, os “ventos mudam”. Às vezes, tais mudanças ocorrem por erros seus (de avaliação ou de conduta), mas nem sempre. Fatores alheios ao seu controle desestabilizam seus negócios. As vendas mínguam, as dívidas crescem e... quando menos você espera... vem a derrocada. É raro esse cenário? Você sabe que não. É a coisa mais comum que há. Ninguém, todavia, entra no mundo dos negócios prevendo fracassos, mesmo estes podendo acontecer sem que você tenha feito nada, rigorosamente nada de errado. Esta é outra forma de fuga da realidade. Se você pensasse nessa possibilidade de derrocada não faria nada. Viveria angustiado, temeroso, preocupado, sem ânimo e sem ação.


É verdade que uma das melhores formas de não se deixar abater pelas agruras da vida é vislumbrar, sempre, o lado positivo das coisas. Tudo tem, também, o seu avesso, tanto o bem quanto o mal. Nada é bom demais ou totalmente ruim. Temos, isto sim, é que desenvolver aguçado senso de proporção, o que, convenhamos, não é fácil. Não proponho, claro, que optemos por nos alienar e fugir da realidade, o que é inútil e, como destaquei, impossível.


Sugiro, isto sim, vislumbrá-la em sua inteireza e integralidade: no direito e no avesso. Temos que viver sempre embriagados, não há outro jeito, caso contrário não usufruiremos nada da vida que, queiram ou não, é curta e tem fim. E cuja extensão felizmente (reitero) não conhecemos. Quando digo que temos que viver embriagados, não estou recomendando que se embriague de álcool, óbvio. Essa embriaguez nos conduz apenas a paraísos artificiais, que na verdade são visões do inferno. A que proponho é a de beleza, de otimismo, de ideais e de luz. É uma forma de alienação? É! Mas pelo menos é a mais agradável que conheço e a menos prejudicial. Sugiro que possamos viver essa situação citada nos versos de “Plenilúnio” pelo poeta Raimundo Correia:


“Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
eu sigo às tontas, cego de luz...”


E eu aduziria: “porém feliz!”. Que as mudanças são a principal característica da vida, todos sabem, ou deveriam saber, se não pela consciência, ou pela observação, ou pela experiência, ao menos pela intuição. Muda nossa aparência (porquanto envelhecemos), alteram-se nossos gostos, multiplicam-se nossos conhecimentos, mudam (para melhor ou para pior) nossas circunstâncias. Tudo, absolutamente tudo, passa por permanente e contínua alteração.


Os males que nos afligem e que parecem intermináveis, um dia, sem que às vezes sequer nos apercebamos, vão desaparecer. Da mesma forma, deixarão de existir muitos bens que nos são preciosos, quando não todos. Pessoas amadas vão morrer, ou nos decepcionar, ou nos trair, ou se mudar para outros lugares e nos causar dores e sofrimentos. Abriremos mão de atividades que nos dão orgulho e prazer, pois tudo e todos se acabam. E perderemos coisas que julgamos, hoje, preciosas e imprescindíveis. Tudo, absolutamente tudo, portanto, passa, se transforma ou muda.


Só as conseqüências dessas mudanças é que permanecem em nosso espírito enquanto vivermos. E um dia... também acabamos, mas, felizmente, sem saber “como” ou “quando”. Seria terrível se soubéssemos disso. Luiz Vaz de Camões escreveu os seguintes versos a propósito:


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades”.


Embora não suportemos a realidade, saibamos ou não viver, tenhamos ou não fé numa vida espiritual além desta carnal; fantasiemos ou não um futuro vitorioso, feliz e promissor, de uma verdade irrestrita e absoluta não podemos jamais fugir: somos mortais e um dia deixaremos de existir. Conclusão mórbida? Pode ser! Pessimista? Em absoluto! Queiramos ou não, dessa realidade jamais conseguiremos escapar. Temos que suportá-la!


Boa leitura.

O Editor.




Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Cavalgada

* Por Talis Andrade


Montarei um impetuoso cavalo branco
usarei o que de melhor existe
lavanda inglesa
roupa de mescla
punhal de prata
esporas de aço
para me encontrar
com a minha amada

Montarei um cavalo
capaz de cavalgar
águas profundas
correr rios correr céus
mais veloz que o vento
mais veloz que as flechas
dos arqueiros da morte
emboscados nas trevas
que tenho pressa de chegar

Eu tenho pressa
de me embriagar
de azul
de azul
do azul dos olhos
da minha amada

O batido dos cascos na noite
seja ouvido em todas as ruas
acordando o povo da cidade
acordando a minha amada
dos seus sonhos coloridos sonhos
suspirados de saudade


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).






Fragmentos

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Havia acabado de chegar do Hospital e embora cansada resolvi visitar meu pai. Ele estava revirando as gavetas procurando algo para vestir. Ía tomar outro banho... havia esquecido. Parou entre a porta do banheiro e a área sem saber ao certo onde ir.

Esqueci-me dele um pouco enquanto conversava com minhas irmãs. Estava me familiarizando com o aroma de um perfume quando ele parou na porta do quarto e levou-me até a sala. Quis saber se estava tudo bem e se precisava de alguma coisa. Tranquilizei-o até que ele se desse por satisfeito;

Beijou-me no rosto e voltou para aquele mundo onde as palavras são embaralhadas e o esquecimento é uma constante. Eu ganhei um dia de alegria e me esqueci do cansaço.

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário






Rumo à reforma agrária

* Por Frei Betto


Caiu mais um ministro, o do Desenvolvimento Agrário. Nomeado o novo: Pepe Vargas (PT-RS), que foi prefeito de Caxias do Sul por dois mandatos e mantém boas relações com o MST. A esperança é que a presidente Dilma Rousseff tenha dado o primeiro de três passos urgentes para o Brasil não ficar mal na foto do “concerto das nações”, como diria o Conselheiro Acácio. Os outros dois são o veto ao Código Florestal proposto pelo Senado e uma nova política ambiental e fundiária que prepare bem o país para acolher, em junho, a Rio+20.

A questão fundiária no Brasil é a nódoa maior da nação. Nunca tivemos reforma agrária. Ou melhor, uma única, cujo modelo o latifúndio insiste em preservar: quando a Coroa portuguesa dividiu nossas terras em capitanias hereditárias. Desde 2008, o Brasil ultrapassou os EUA ao se tornar o campeão mundial de consumo de agrotóxicos. E, segundo a ONU, vem para o Brasil a maioria dos agrotóxicos proibidos em outros países. Aqui são utilizados para incrementar a produção de commodities. Basta dizer que 50% desses “defensivos agrícolas” são aplicados na lavoura de soja, cuja produção é exportada como ração animal. E o mais grave: desde 1997 o governo concede desconto de 60% no ICMS dos agrotóxicos. E o SUS que aguente os efeitos... nos trabalhadores do campo e em todos nós que consumimos produtos envenenados.

Os agrotóxicos não apenas contaminam os alimentos. Também degradam o solo e prejudicam a biodiversidade. Afetam a qualidade do ar, da água e da terra. E tudo isso graças ao sinal verde dado por três ministérios, nos quais são analisados antes de chegarem ao mercado: Saúde, Meio Ambiente e Agricultura. É uma falácia afirmar que os agrotóxicos contribuem para a segurança alimentar. O aumento do uso deles em nada fez decrescer a fome no mundo, como indicam as estatísticas.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tenta manter o controle sobre a qualidade dos agrotóxicos e seus efeitos. Mas, quando são vetados, nem sempre consegue vencer as pressões da bancada ruralista sobre outros órgãos do governo e, especialmente, sobre o Judiciário. A Cúpula Mundial do Meio Ambiente na África do Sul, em 2002, emitiu um documento em que afirma que a produção mundial de alimentos aumentou em volume e preço (devido ao uso de agrotóxicos e sementes transgênicas). À custa de devastação dos solos, contaminação e desperdício da água, destruição da biodiversidade, invasão de áreas ocupadas por comunidades tradicionais (indígenas, clãs, pequenos agricultores etc.).


Fica patente, pois, que a chamada “revolução verde” fracassou. Hoje, somos 7 bilhões de bocas no planeta. Em 2050, seremos 9 bilhões. Se medidas urgentes não forem tomadas, há de se agravar a sustentabilidade da produção agrícola. Diante desse sinal amarelo, o documento recomenda: reduzir a degradação da terra; melhorar a conservação, alocação e manejo da água; proteger a biodiversidade; promover o uso sustentável das florestas; e ampliar as informações sobre os impactos das mudanças climáticas.

Quanto aos primeiro e terceiro itens, sobretudo, o Brasil marcha na contramão: cada vez mais se ampliam as áreas de produção extensiva para monocultivo, destruindo a biodiversidade, o que favorece a multiplicação de pragas. Como as pragas não encontram predadores naturais, o recurso é envenenar o solo e a água com agrotóxicos. E com frequência isso não dá resultado.

No Ceará, uma grande plantação de abacaxi fracassou, malgrado o uso de 18 diferentes “defensivos agrícolas”. Tomara que o ministro Pepe Vargas consiga estabelecer uma articulação interministerial para livrar o Brasil da condição de “casa da mãe Joana” das multinacionais da insustentabilidade e da degradação do nosso patrimônio ambiental. E acelere o assentamento das famílias sem-terra acampadas à beira de rodovias, bem como a expropriação, para efeito social, de terras ociosas e também daquelas que utilizam mão de obra escrava. Governo é, por natureza, expressão da vontade popular. E a ela deve servir. O que significa manter interlocução permanente com os movimentos sociais interessados nas questões ambiental e fundiária, irmãs siamesas que não podem ser jamais separadas.

• Frei Betto é frade dominicano, escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser, de Conversa sobre a fé e a ciência (Agir), entre outros livros.



Soneto da ausência

* Por João Alexandre Sartorelli

Tempo que me traga
E traduz-se na memória.
Dizei-me onde anda
Aquela que me amava.

Dizei-me dos caminhos,
Das veredas inglórias.
Deixaste-me sozinho
Na solidão da hora.

A hora em que sorrimos
E juntos nos fartamos,
Imersos no abismo

Do gozo e do descanso.
Depois, hora de irmos
Na dor e no espanto.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação


A mulher que devolveu o papado a Roma

* Por Rubem Costa

Semana passada, no chá promovido pela Academia Campinense de Letras em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o orador convidado foi Almir Reis, criador da coluna Societá do Caderno C editado diariamente pelo Correio Popular. Enquanto o conhecido jornalista brilhantemente discorria sobre a evolução da crônica social em Campinas, aflorou-me à lembrança, por imposição da data, a figura imensa de uma mulher que por seu turno se inscreve na crônica do mundo. Menina semi-analfabeta que, mergulhada no centro de um momento contingente da história, marca presença no mais crítico e dramático capítulo do catolicismo através das eras — “o cisma do Ocidente”. Cisão que, no século 14, se instalara na península em consequência do caos religioso provocado pela disputa do poder. Movimento que levou os teocratas de Roma à humilhação de ver a sede do Papado transferida à força, pela então onipotente monarquia francesa, para a cidade de Avignon, localizada na foz do Ródano, em Provença.

A crueza do despojamento, que perdurou por sete décadas, agredia os brios da cidade eterna, achincalhando o seu orgulho, sem que a nobreza despojada achasse forças para reagir, enquanto o desprezado clero italiano, envolvido em corrupção, não tinha ânimo, nem moral para reclamar. Uma angústia que, em 1376, já se estendia por 170 anos e que valera, para a gente peninsular, um verdadeiro anátema, o irônico apelido de “cativos de Avignon” por emulação da era em que, segundo o Velho Testamento, os judeus estiveram escravizados em Babilônia. E o desprestígio de Roma teria durado muito mais se, paradoxalmente, do rés da humilhação não se tivesse erguido, como anúncio de um novo tempo, o clamor de uma mulher, sonora voz provinda do Convento da Ordem Terceira de São Domingos. Fala de menina, mas inflexível e estertorante na crença, que não se aquietou com o achincalhe que debochava dos grandes da península acrisolados no silêncio imposto pelo temor. Gesto inesperado e surpreendente de uma irmã leiga de apenas 20 anos, mal saída da adolescência que, diante da estupefação geral, se dispôs a caminhar sozinha até Avignon e de lá arrancar, a trancos e barrancos, o pusilânime Gregório XI para com ele, trôpego e velho, machucando os pés nas estradas pedregosas, retornar à Itália e recolocá-lo no lugar onde os Papas sempre estiveram desde a desagregação do império romano.

É nesse instante que se instala um ponto de reflexão para avaliar o poder que exala da coragem da frágil freirinha, irmã leiga, nascida em Siena no ano de 1347. Raspa do tacho da prole imensa de paupérrimo tintureiro chamado Benicasa — que constituíra um lar com vinte e cinco esfomeados filhos — recebeu na pia batismal, talvez pelo milagre da intuição, o nome de Catarina, antropônimo que, provindo do grego, é originariamente designativo de mulher casta. Pura na definição da palavra, assim como lhe foi a vida despoluída de egoísmo, plena de afeto, referta de amor ao próximo, emoldurada de mística contemplação e penitências que não a impediram de arrancar de Avignon pela orelha o pontífice medroso.

A extensão do gesto libertário que então devolveu à península a dignidade teocrática perdida, supera a fronteira do heroísmo nos escritos da Igreja, porque dele, através dos séculos, decorre a instituição da curul, a cátedra perpétua do Estado Pontifício. Eis que, ao retornar a Roma, aconselhado por ela, o pusilânime Gregório XI, que faleceria no ano seguinte, decidiu consagrar o Palácio do Vaticano como moradia pontifical permanente, abandonando Latrão que, há setenta anos, fora a residência palaciana. Urbano VI, que o sucedeu, consolidou a sede que se eternizou através dos séculos, como o centro de convergência do catolicismo ocidental, perenizando no Vaticano o fulcro da teocracia que, ao longo do tempo, iria distender-se como força religiosa dominante no mundo.

Assim, diante do imenso acontecimento que, em verdade, mudou a história da Igreja e a face do próprio ocidente, é imperdoável ter René Fulöp Miller omitido o nome de Catarina de Sena na sua célebre obra Os Santos que Abalaram o Mundo. É certo que o conceito de santidade não é de fácil apreensão, porque decorre do entendimento íntimo do ser e da interpretação mística do gesto como força de animação que transcende da alma em busca do sublime. Para conceituar a santidade, não basta apenas desejar. É preciso trazer acrisolado em si a percepção do divino e o sentido humano da vida.

Em todo santo o que se ouve em essência é a mesma voz de João Batista, voz que clama, palavra escaldante que queima e não se consome, nem os séculos extinguem, mas abrasa e ilumina. Escolher não é fácil, mas não deixa de ser um anseio que vive na alma dos crentes e nos sonhos dos artistas, Van Gogh, depois de ter passado toda a vida pintando camponeses, macieiras e girassóis, emergindo da profundeza de suas convicções atribuladas, confessou no fim da vida que, se lhe tivesse sido dada oportunidade, gostaria de ter pintado figuras de santos. Pena que, morrendo cedo, não tenha tido ocasião de retratá-los. Catarina de Sena, por certo, entraria em suas telas como a “dolce mama” dos aflitos, a mulher de coragem que, no hábito de mantelata branco e negro trazia — na frente e nas costas — um duplo símbolo de redenção: a cruz do santo amor e a cruz da santa ira. Designação de afeto e doação aos que padecem e afirmação de horror à iniquidade que destrói o sonho e aniquila o ser. Uma soma de prodígios que a canonizaram e consagraram (a ela, a analfabeta) como doutora da Igreja, santa nacional da Itália e copatrona da Europa.

• Escritor e membro da Academia Campinense de Letras.