quinta-feira, 23 de março de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, onze meses e vinte e oito dias de criação.

Leia nesta edição:

Editorial – Grandeza e dignidade.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, artigo, “Confiança e credibilidade”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, conto, “Me leva pro Velho Testamento”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, crônica, “Tudo na cabeceira – O começo do adeus”.

Coluna Porta Aberta – Fernando Soares Campos, conto, “Homofobia é veadagem enrustida”.

Coluna Porta Aberta – Francisco Simões, artigo, “A cultura engolida por templos”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Grandeza e dignidade


As pessoas que fazem de suas vidas uma obra de arte e que pautam pensamentos e atos por dignidade e grandeza, merecem reverência muito especial. Mais do que isso, são dignas de imitação. São os grandes paradigmas de conduta para as gerações mais jovens. Por isso, o que foram, e o que fizeram, deveria ser ensinado em todas as escolas do mundo. Infelizmente, raramente são.

Rabindranath Tagore é uma dessas figuras ímpares que sempre me fascinaram. E não apenas pelos seus memoráveis poemas (que, para mim, têm significado particular, já que sou poeta) que lhe valeram o Prêmio Nobel de Literatura de 1913, mas pelo seu caráter, idealismo, fidelidade aos princípios que o norteavam e nacionalismo.

Descobri seus mágicos textos há, relativamente, pouco tempo, em 1992, quando fui eleito para a Academia Campinense de Letras. Desde então, todavia, li muito do que escreveu e do que foi escrito a seu respeito. E à medida que o tempo passa, cresce, mais e mais, minha admiração por este paradigma de competência e coragem.

Tagore nasceu em Calcutá, no Estado indiano de Bengala, em 6 de maio de 1861 e morreu nessa mesma cidade, aos 80 anos, em 7 de agosto de 1941 (quase um ano e meio antes do meu nascimento). Estudou Direito na Inglaterra, mas logo manifestou inequívoca vocação para as artes (foi, também, músico) e para a Filosofia (chegou a criar, em 1901, uma escola filosófica em seu país).

Legou-nos cerca de três mil poemas em língua bengali, o idioma de sua etnia, nem todos traduzidos para o inglês (e muito menos para o português). Não se limitou, contudo, à poesia. Tagore escreveu oito novelas, 50 ensaios e uma grande quantidade de contos. Sua produção musical, igualmente, foi admirável: compôs por volta de duas mil canções!

Com toda essa atividade artística, o notável poeta ainda encontrou tempo para se integrar ao movimento nacionalista indiano, lutando pela independência da Índia, que não chegou a ver concretizada. Morreu seis anos antes. Foi amigo pessoal do Mahatma Gandhi, que lhe tinha grande afeto e por quem nutria irrestrita admiração. Pudera!

Entre suas ousadas ações, para chamar a atenção do mundo para a opressão britânica à sua pátria, destacou-se sua renúncia, em 1919, ao Prêmio Nobel de Literatura, como forma de protesto contra a política inglesa em relação ao Punjab e, mais especificamente, contra o massacre dos sikhs no Templo Dourado de Amritsar. Na mesma oportunidade, abriu mão do título de “Sir”, que lhe havia sido outorgado pela Coroa Britânica em 1915. Quantas pessoas agiriam assim? Poucas, senão, nenhuma!

Um exemplo da musicalidade e lirismo da sua absorvente e emocionante poesia, é este poema, intitulado “Flor de lótus”:

“No dia em que a flor de lótus desabrochou
a minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
de um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
E eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim.
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
tinha desabrochado no fundo do meu coração”.

A admiração de Gandhi por Tagore era tão grande, que o aclamou, publicamente, como “O Grande Mestre”. E, quando da independência da Índia, em 1947, exaltou o amigo morto, pela sua contribuição para que isso se tornasse possível. Ambos foram homens especiais, dignos de reverência e de imitação pela posteridade.

A melhor forma, todavia, que encontrei, de reverenciar essa figura sábia, mística e sensível, é concluir estas linhas espontâneas com o que o próprio poeta escreveu certa feita: “Neste palco de formas infinitas, que é o mundo, desempenhei o meu papel”. E desempenhou mesmo, como ninguém: com grandeza e, sobretudo, com dignidade!

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk


Confiança e credibilidade



* Por Pedro J. Bondaczuk



O bom relacionamento entre o repórter e sua fonte é fundamental para uma harmoniosa, duradoura e profícua parceria. Antes de tudo, é indispensável que haja confiança recíproca, o que só se conquista com atitudes sinceras, respeitosas, porém eqüidistantes, de parte a parte. Quanto mais o jornalista for isento, em relação ao assunto que for cobrir, mais e mais se tornará confiável aos olhos do seu informante e principalmente do leitor. E a recíproca é verdadeira.

Trago este assunto à baila em consideração aos estudantes de jornalismo (e a pedido de alguns deles), que em breve estarão nos substituindo nas redações dos veículos de comunicação pelo País afora. Contudo, embora se trate do “be-a-bá” da profissão, o tema também serve para refrescar a memória de muitos profissionais tarimbados, com anos e mais anos de janela, mas que, não raro, se esquecem de princípios elementares do seu trabalho, no exercício cotidiano de suas atividades.
   
Há fontes que são ocasionais, em geral detentoras de autênticas “bombas”, que proporcionam históricos furos de reportagem, capazes de causar furor na sociedade e, não raro, até de influenciar (para o bem ou para o mal) nas próprias instituições do País. As mais comuns, porém, são as permanentes. São aquelas que abastecem os setoristas (de Política, Saúde, Educação, Polícia etc.) de informações que irão compor o dia-a-dia das edições de jornais e revistas e dos noticiários de rádio e televisão (e dos portais da internet).

Essas fontes são, em geral, funcionários de repartições, não necessariamente os graduados, mas com olhos e ouvidos sempre atentos para o que acontece ao seu redor, e que repassam esses acontecimentos a determinados repórteres, com os quais mantêm vínculos informais. Nem sempre o que informam, portanto, se refere a irregularidades, a atos de corrupção e a escabrosas negociatas feitas por maus políticos ou por administradores venais.

Os setoristas de polícia, por exemplo, têm, como fontes permanentes, investigadores, ou escrivães, ou policiais que lhes comunicam o que se passa nas respectivas delegacias em que atuam e lhes repassam cópias dos vários boletins de ocorrência que lá são lavrados. Ou bombeiros, que agem de forma idêntica em suas repartições. Ou atendentes ou telefonistas de hospitais, que fornecem a informação sempre que vítimas de violência dão entrada ali, o que, quase sempre, rende boas histórias.

Sem estas figuras, os chamados repórteres “de área” teriam imensas dificuldades para abastecer de notícias o seu editor. E não apenas, é claro, na área policial. Em qualquer dos casos, o jornalista tem que estar no pleno domínio do assunto que vai tratar. Presume-se que ele seja o especialista dessa área na empresa em que atua, caso contrário, o veículo de comunicação (jornal, revista, rádio ou televisão) não o designaria para cobrir esse setor (pelo menos é o que diz a lógica e o que o mínimo bom-senso determina). Se, ou quando, o faz, não pode reclamar das eventuais bobagens que vierem a ser cometidas.

Esse conhecimento de causa, é verdade, não livra por completo o repórter de cometer as tão temidas (e mais freqüentes do que se supõe)  “barrigas”. Ou seja, de divulgar informações falsas, ou distorcidas, quando não absolutamente ridículas. Há “armadilhas” muito difíceis (quando não impossíveis) de se escapar. Boa parte (se não a maioria delas) dessas distorções o editor, ao revisar a matéria antes de a editar, detecta, até com certa facilidade. Quando não o faz...embarca na “canoa furada” do repórter e ambos acabam se dando muito mal, com conseqüências imprevisíveis para os dois.               

Jornalista e fonte devem tratar-se (e sentir-se) como iguais, sem que um se sinta superior ao outro em qualquer circunstância ou situação. O relacionamento tem que ser, SEMPRE, de absoluto e mútuo respeito. E nenhum dos dois pode, em hipótese alguma, se sentir “usado” pelo outro.

Ao repórter cabe sempre uma atitude isenta, íntegra e criteriosa. Caso contrário, nunca conseguirá reciprocidade. Ou seja, não irá encontrar, em lugar algum, uma fonte que tenha essas desejáveis características da isenção, da integridade e do critério. A linguagem que utilizar em seu texto tem que ser a adequada. Clareza e objetividade das partes são fundamentais para que o resultado final dessa parceria, ou seja, a reportagem (ou a série delas) seja o esperado.

Em assuntos muito sensíveis, manda o bom-senso que o repórter se valha de mais de uma fonte, e com opiniões diferentes e até mesmo antagônicas sobre o tema abordado. Essa pluralidade tende a assegurar credibilidade à matéria.  O árbitro, neste caso, será o destinatário da reportagem, ou seja, o leitor.

Contudo, o desejável (diria, o exigível) é que o jornalista e a fonte se pautem SEMPRE, em toda e qualquer ocasião, por uma conduta absolutamente ética, sem jamais transigir, seja qual for a razão. Somente assim será cumprida, integralmente, a verdadeira finalidade do jornalismo, que não é a de denunciar, de denegrir, de julgar ou de condenar quem quer que seja. É, sim, a de informar, a de formar opinião e a de prestar serviço à comunidade. Nunca podemos perder isto de vista, se quisermos ser bons profissionais, por se tratar, afinal de contas, do nosso ABC.

       
* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk


Me leva pro Velho Testamento


* Por Marcelo Sguassábia


Sim, o mundo estava há milênios da invenção da penicilina. O sujeito nascia e já tinha tudo pra cair duro, mortinho da silva, tamanha era a falta de recursos na saúde e na ciência. No entanto, a "morte morrida" custava demais a chegar. E isso é a Bíblia que atesta.

Vamos a uma breve relação de patriarcas longevos do Antigo Testamento e a idade em que respectivamente bateram a caçuleta: Adão, 930; Seth, 912; Enos, 905; Cainan, 910; Mahalalel, 895; Jarede, 962; Enoque, 365; Lameque, 777; Noé, 950; Sem, 600; Arpachade, 438; Selá, 433; Éber, 464; Pelegue, 239; Reú, também 239; Serugue, 230; Naor, só 148 - deve ter morrido na creche ou no balão pula-pula; Terá, 205; Abraão, 175; Isaque, 180. Por fim o campeoníssimo Matusalém, que, sem grandes cuidados com a carcaça, chegou à impressionante marca de 969 aninhos.

Fica claro que o modus vivendi pré-diluviano, por mais que se julgue hoje primitivo, era muito mais saudável e contribuía para a longevidade. Não é nem questão de deduzir. É fato, a menos que não se leve a sério a Palavra Sagrada ou que se prove que o tempo passava mais rápido naquela época.

A comunidade científica estufa o peito e convoca a imprensa para apregoar, orgulhosa, que o homem em breve (e esse em breve não raro significa daqui a uns 50 anos) alcançará 120 como expectativa média de vida. Belo chabu. Com essa idade Matusalém era um feto e o respeitável Mahalalel ainda enchia as fraldas no berço.

O bicho homem do século 21, com toda a sua expertise em descobrir geringonças e fármacos que o possibilitem viver mais e melhor, nem arranha os recordes etários desses heróis do Gênesis.

É ainda uma incógnita a razão por que, naquele mundo ainda intocado de meu Deus, a decrepitude e a morte custavam tanto a chegar. Uma explicação talvez seja porque a carne dos bois, porcos, ovelhas, bodes, cabras, aves e assemelhados de antanho estivessem a salvo dos conservantes, dos ácidos cancerígenos e demais porcariadas que disfarçam a podridão da carne vencida que comemos - produzida, empacotada com carimbos sanitários fraudulentos e exportada mundo afora pelos nossos grandes, assépticos e incorruptíveis frigoríficos. O bom e velho Cainan conhecia seus bichos de abate e sabia muito bem o que botava em sua mesa. Ele e seus centenários amigos eram os caras.

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).



Tudo na cabeceira – O começo do adeus


* Por Gustavo do Carmo


Best-seller da escritora norte-americana Anne Tyler, O Começo do Adeus conta a história de Aaron, um editor com deficiência na perna e no braço direitos que se casou com Dorothy para se livrar das garras da irmã, Nandina, que adorava mandar nele.

Estava feliz com a esposa (fora dos padrões de beleza) até uma árvore cair em sua casa e matá-la. Aaron começou a sentir um vazio e Dorothy passou a aparecer para ele, ajudando-o a superar a perda e solucionar a crise no casamento.

A trama é interessante, me identifiquei um pouco com ela, mas a dominação da irmã do protagonista não me pareceu tão grande quanto foi sugerida na sinopse. Além disso, o livro tem letras pequenas e mudanças de cenas repentinas. Eu acabava ficando confuso e desinteressado pela leitura em alguns momentos.

A história também se perde no excesso de diálogos e descrições cotidianas norte-americanas, que tornaram o livro meio chato. Aaron e Nandina eram donos de uma pequena editora, daquelas que recebem do autor para publicar, mas entre os projetos próprios estava uma coleção de guia para iniciantes de diversos assuntos, como Jardinagem, Guia de Vinhos, Orçamento Mensal, Treinamento de Cães, até chegar aos exagerados Sopas para Iniciantes, Bebês que sofrem de cólicas para Iniciantes e Observação de Pássaros. Alguém até sugeriu um Câncer para Iniciantes.

Pode ser heresia classificar como razoável um best-seller de uma autora consagrada nos Estados Unidos, com 20 romances publicados, mas O Começo do Adeus não me empolgou. Mesmo assim, fui até o fim, embora tenha pulado algumas partes.

Avaliação

O Começo do Adeus
(The Begginer's goodbye)
Editora: Novo Conceito
Autora: Anne Tyler
Tradução: Ana Paula Corradini
Gênero: Romance
Ano de edição: 2012
Páginas: 206
Formato: 16 x 23 cm
ISBN:  8581630391
Preço: R$ 34,90 (versão impressa) / R$ 19,90 (e-book)

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
 Bookess - http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe -http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu  blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores




Homofobia é veadagem enrustida



* Por Fernando Soares Campos



Caruaru é a maior cidade do interior de Pernambuco, conhecida como Capital do Agreste, terra da feira que “faz gosto a gente vê, de tudo que há no mundo, nela tem pra vendê”, conforme cantava Luiz Gonzaga. Mas o que pouca gente sabe é que em Caruaru também tem pelo menos um psiquiatra bajeguiano — adepto dos métodos gauchescos do analista de Bajé, com adaptações aos costumes nordestinos. Ele recebe a clientela trajado de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em vez de divã, tem uma rede rosa-shocking instalada no consultório, na qual os pacientes se deitam, desfiam queixumes e resenham seus pecados.

Outro dia, o filho de respeitado coronel midiático entrou no consultório aparentemente avexado, com as mãos nos bolsos, talvez para dissimular o nervosismo. Mas não passou despercebido pelo tarimbado terapeuta.
— Que foi que aconteceu, cabra? Parece que viu lobisomem!
— Não é nada não, doutor. Já faz muito tempo que eu queria falar com o senhor… Mas tava evitando, porque dizem que só vem aqui quem tá com o miolo mole…
— Nada disso, meu jovem. O que mais atendo aqui é cabeça-dura.
— Apois eu quero me consultar.
— Então, deite aí na rede e desembuche.
— Deitar?! Precisa isso?!
— Sim, que é pra você relaxar e liberar a alma do cabresto.

O rapaz deitou-se, mas manteve as mãos nos bolsos.
— Por que não tira as mãos dos bolsos?
— É que o ar condicionado tá fazendo muito frio…
— Acho que você tá é com medo de desmunhecar na minha frente.
— Hein?!
— Deixa pra lá. Vamos ao que interessa. O que foi que trouxe você aqui? Que bicho te mordeu?
— Num é nada demais não, doutor. É que ando cismado comigo mesmo… - ficou meio alheado, olhando para o teto.
— Continue.
— De repente, perdi o interesse por quase tudo: parei de andar com os amigos de sempre, larguei a namorada e até deixei de assistir televisão, coisa que eu gostava muito… - continuou com olhar fixo no teto.
— Bom, parar de andar com amigos e largar a namorada, a gente até que entende, não parece coisa tão grave. Mas deixar de assistir televisão é um tanto esquisito, preocupante. Isso, sim, pode indicar um comportamento anormal. Tem alguma ideia dos motivos que levarem você e se comportar assim?
— Sei não, doutor, sei não… - pensou um pouco e concluiu: - Acho que deve ser por causa dessa campanha toda que tão fazendo contra nós…
— Nós, quem?! De que campanha você tá falando?

O jovem mexeu-se inquieto, e a rede balançou suave.
— Dessa que diz que ninguém pode mais nem dar umas porradas num boiola. Toda hora tem alguém na tevê dizendo que a gente tem que parar com o preconceito, com a violência contra os gays, essas coisas. Isso aperreia a gente.
— Peraí! Na verdade, isso quer dizer que você é homofóbico.
— Chame como quiser. Só sei que não gosto de baitola. Tenho raiva de pirobo.
— Nesse caso, você procurou a pessoa certa. Homofobia é doença, precisa ser tratada. Aliás, qualquer fobia é sinal de neurose e pode evoluir para uma psicose.
— Num é nada disso, doutor! Doença mesmo é boiolice. Doente é quem queima a rosca,
— Mas homofobia é veadagem enrustida, cabra!
— Como assim?! O senhor tá me chamando de viado?
— Não, porque acho que você ainda não deu… Entende?
— Nem dei nem pretendo dar.
— Aí é que tá o problema: você reprime o seu impulso homossexual, não tem coragem de se revelar, por isso descarrega nas pessoas assumidas. Inveja dos ânus libérrimos. Sacou?

O terapeuta se levantou, foi até a estante, pegou uma garrafa contendo uma beberagem, encheu uma caneca e se aproximou do paciente.
— Isso aqui é uma garrafada que inventei com ervas da caatinga, uma verdadeira panaceia: amansa corno brabo, mulher arengueira e biriteiro valentão, entre outras serventias. Só não cura político corrupto, que esse aí não tem mais jeito. Acho que vai resolver seu problema. Tome.

O rapaz ficou meio cabreiro, mas pegou a caneca e bebeu devagar. Fechou os olhos, parecendo meditar. Súbito, saltou da rede, agarrou o psiquiatra de Caruaru pelo guarda-peito do gibão, sacudiu o homem violentamente, fazendo o chapéu de couro voar longe, e gritou histérico:
— Agora me bate! Me cospe! Me joga na parede! Me chama de lagartixa!

Empurrou o terapeuta cabra da peste, que se estatelou no chão. Saiu disparado. Na porta, ouviu o psiquiatra lhe perguntar:
— Não vai pagar a consulta?
— Pagar?! Que pagar que nada, eu vou é processar você e pedir indenização por danos morais.
— Como assim? Baseado em quê?

O ex-machão pôs as mãos nos quadris, respirou fundo, sacudiu a cabeça para os lados e respondeu:
— É proibido tratar bichice como doença, e você tratou um homofóbico, que, como você mesmo diz, é um viado enrustido. Agora liberei de vez. Morou?!


* Jornalista e escritor.
A cultura engolida por templos


* Por Francisco Simões


Fiquei triste quando vi uma tradicional livraria, em Ipanema, no ano de 1999, ser fechada, entrando no seu lugar uma loja de roupas femininas. Esta ainda está lá. Fica na Av. Visconde Pirajá indo para a rua Aníbal de Mendonça. Felizmente agora já temos mais duas novas e excelentes livrarias no bairro.

Na época escrevi uma poesia com o título CULTURA DE SAIA CURTA. Podem lê-la no meu site pessoal.

Isso, entretanto não era tudo ou significava muito pouco diante do que veríamos mais pra frente. Quando me refiro à Cultura (com C maiúsculo, sim senhor) não relaciono apenas livrarias, mas também teatros, cinemas etc. O fato acima ocorreu em 1999 e depois vimos que também outros estavam a engrossar o desmonte de símbolos culturais nossos. Estes já o estavam fazendo... em nome da fé!!

Templos já eram abertos por todo canto, em todo tipo de prédio, dos mais modestos aos mais luxuosos. Outro dia li um artigo de certo jornalista, creio que da Folha de S. Paulo, onde, usando de humor e ironia, ele dizia “estar abrindo uma religião”, ou uma igreja. Pretendia “se beneficiar” das inúmeras facilidades fiscais entre outras benesses concedidas por nossas leis para as igrejas.

Era um sarro realmente muito bem humorado, mas profundamente sério, praticamente uma denúncia que infelizmente a muitos deve ter passado despercebido ou nem ter despertado algum interesse. Na matéria ele apresentou uma relação imensa de 113 nomes verdadeiros de “novas igrejas”, que estão por aí, alguns muito exóticos, extravagantes e outros ridículos, com todo o respeito.

Voltando ao começo, nas minhas andanças pela Europa quando lá morei por quatro longos períodos, fui encontrando templos de igrejas “nascidas” no Brasil e que já fincavam algumas raízes em Portugal e também em Espanha. Não se surpreendam, mas na França também já havia alguns sinais desses “novos tempos” (ou seriam “novos templos”?). Confesso que fiquei surpreso.

Enquanto no Brasil alguns cinemas e até teatros eram fechados, comprados por particulares e transformados em “templos religiosos”, no ano de 1998, quando passeávamos por Cascais, Portugal, em companhia de um casal amigo, de repente vi aquele prédio muito bonito, com vidros enormes, uma fachada elogiável, e lá no alto escrito com todas as letras: “Templo da Igreja Universal”, etc e tal.

Antes eu já soubera que aquilo estava ocorrendo por outras cidades portuguesas e também espanholas. Um dia, creio que em 1995, assisti em reportagem da televisão RTP que estaria havendo uma forte pressão para que a cidade do Porto vendesse seu principal e histórico teatro, uma obra prima de arte, justamente para os donos da mesma igreja. Ocorre que aquele teatro era, e é ainda hoje, felizmente, patrimônio nacional, portanto pertence ao povo, se posso dizer assim.

Noutra reportagem, em outro dia, fiquei chocado com o que assisti pela TV portuguesa. Alguns artistas e intelectuais lusos decidiram defender aquele patrimônio e se instalaram com mesas e cadeiras, em frente ao referido teatro. Através daquela manifestação e de um abaixo-assinado eles tentavam chamar a atenção do governo local para o fato. Até aí tudo bem, exerciam seu sagrado direito na defesa do belo patrimônio público e o faziam pacificamente.

De repente as portas do teatro se abriram e lá de dentro algumas pessoas, “armadas” de vassouras e outros apetrechos, avançaram contra os intelectuais e artistas tentando agredi-los. Eram adeptos da tal igreja que por pouco não provocaram uma sangrenta luta entre irmãos. Felizmente a polícia estava por perto e evitou o pior. Fiquei muito triste, decepcionado e preocupado.

Em nosso país continua a compra de cinemas e teatros, dos poucos que restam, e também de emissoras de TV e de rádio por pessoas que se identificam como pastores, missionários, ou algo assim e donos de tal e tal igreja. Nunca vi tanta gente falando em nome de algum deus, sendo que uns operam “milagres” ao vivo pela TV. Também “expulsam demônios” agindo sempre em nome d’Ele.

Na nossa TV a cabo, aqui em Cabo Frio, correndo pelos canais encontramos às dúzias os que ou pertencem a eles ou transmitem, em vários horários, programas daqueles senhores. Isso em diversas cidades e em diferentes Estados da Federação.

Não pensem que ao tratar deste assunto irei defender alguma das nossas religiões, talvez a católica, já que fui aluno de Colégio Marista além de ter sido criado em família extremamente religiosa. Não se trata disso não. Muito pelo contrário. Já de há muito tenho uma visão bem diferente da que fui, digamos, catequizado.

Não quero polemizar com ninguém, respeito a posição de cada um. Afinal em minha vida tenho sido atingido por várias vezes pelas regras, pelos dogmas desta Igreja. Meu relacionamento com a católica é de há muito bem distante, distante mesmo, e nem preciso dizer de quantos motivos eu tenho para me manter assim. Um dia eu contarei tudo.

Ao escrever este texto não pretendi tomar partido de nenhuma delas, muito menos desconsiderar qualquer uma, para além do horizonte das merecidas críticas. Todavia, sobre a católica então eu teria certamente que escrever um livro, não apenas uma crônica.

Sei, porém, que não teria competência para manter polêmica com quem quer que fosse, mas razões não me faltam para queixas e muitas críticas, afinal os assuntos estão na mídia internacional, diariamente, e a história da mesma tem manchas que não recomendam quem vive a ditar regras para a sociedade e a querer defender os mais pobres. Desculpem, mas vejo muita hipocrisia a abusar da boa fé das pessoas.

Não julguem que sou ateu. Já o disse e repito novamente, não sou, e nem poderia ser, tendo um contato maravilhoso com a natureza como temos aqui. Acredito sim em algo maior, talvez uma mente pensante, ou sei lá o que, mas que reina justo na Natureza, como, aliás, já o admitiam importantes e renomados filósofos, jamais em templos ou com procuração para homens falarem em seu nome.

Enquanto isso nossa cultura com certeza vai continuar a ser engolida por templos e pastores vão penetrando na política nacional formando uma força à parte que ali estará sempre para defender os interesses, não dos adeptos, mas deles próprios.


(Fevereiro/2011)

•      Jornalista, poeta e escritor