sábado, 21 de julho de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, três meses e vinte e dois dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Resgate e consagração”...

Coluna Direto do ArquivoAnna Lee, crônica, “Um lugar para ir antes de morrer”.

Coluna ClássicosDylan Thomas, poema,A força que do pavio verde inflama a flor”.

Coluna Porta AbertaFlora Figueiredo, poema, “Hoje preciso de um poema...”.

Coluna Porta Aberta – Adélia Prado, poema, “A boca”.

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema, “Ela”.

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PESCA EM ÁGUAS TURVAS

Prosseguindo em minha tentativa de “pesca em águas turvas”, tenho uma nova proposta a fazer às editoras. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que venho tentando, há algum tempo, conferir. Tenho mais um livro, absolutamente inédito, a oferecer. Seu título é: “Dimensões infinitas”, que reúne 30 ensaios sobre temas dos mais variados e instigantes. Abordo, em linguagem acessível a todos, num estilo coloquial, assuntos tais como as dimensões do universo (tanto do macro quanto do microcosmo), o fenômeno da genialidade, a fragilidade dos atuais aparatos de justiça, o mito da caverna de Platão, a secular busca pelo lendário Eldorado, o surgimento das religiões, as tentativas de previsão do futuro e as indagações dos filósofos de todos os tempos sobre nossa origem, finalidade e destino, entre outros temas. É um livro não somente para ser lido, mas, sobretudo, para ser refletido. Meu desafio continua sendo o mesmo de quando iniciei esta tentativa de “pesca em águas turvas”. Ou seja, é o de motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, mas apenas pela internet, e sem que eu precise bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa todos os dias, sem limite de tempo. Para fecharmos negócio, basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. Quem se habilita?

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CITAÇÃO DO DIA:

Linguagem de jogo 

Quando a fé religiosa se expressa dessa maneira, na linguagem da mesa de jogos, é sinal de que está reduzida a seus últimos trunfos.

(William James, livro "A Vontade de Crer").



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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


EDitorial - Resgate e consagração


Resgate e consagração


Os recursos proporcionados pelo avanço da Tecnologia da Informação, entre os quais destaco o surgimento, há já algum tempo, do Ipad (e de seus similares, genericamente batizados de “tabletes”) são poderosa ferramenta para a divulgação, entre tantas outras coisas, da literatura. Vem proporcionando, por exemplo, o resgate de vários bons escritores, que estavam um tanto esquecidos (em alguns casos, completamente), ao mesmo tempo que consagram os que já são tidos e havidos como clássicos, cuja obra, finalmente (e literalmente) se universaliza.

Essa observação vem a propósito de notícia que li, se não me engano, em 2011, em vários sites da internet dedicados ao noticiário cotidiano, dando conta de que o célebre poema de T. S. Eliot, “The waste land” (“A terra devastada”, em português), composto (pasmem) em 1922, serviu de base para um aplicativo que se transformou, em um piscar de olhos, em campeão de vendas no Reino Unido. Nada mais justo! Caso haja herdeiros do escritor norte-americano – que abriu mão de sua cidadania e se naturalizou inglês – estes, certamente, ganharam na loteria. Suponho, no entanto, que a obra desse notável poeta, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, já tenha caído no domínio público. Mas não tenho certeza.

A Apple, que criou o aplicativo para Ipad, certamente lucrou muito e é justo que tenha lucrado. O público leitor, apreciador de boa literatura, também saiu ganhando. Tanto que, subitamente, transformou o poema apresentado dessa forma, tão prática e tão moderna, em campeão de vendas. A procura, portanto, foi intensa e certamente surpreendente, se levarmos em conta que se trata de poesia, não tão valorizada como o romance, por exemplo. E a um custo, de acordo com a notícia, bastante razoável e atrativo: de US$ 13,99. Nada mau.

É certo que quando se trata de criação, há que se considerar (e com toda a justiça) a questão dos direitos autorais, nem sempre respeitados. Aliás, a pirataria causa prejuízos enormes aos verdadeiros criadores, que deveriam ser os únicos a usufruir dos frutos da sua inteligência e sensibilidade, mas que, no final das contas, são os que menos ganham. Isso, quando ganham alguma coisa. Essa usurpação ocorre notadamente no ramo da indústria fonográfica e na atividade de produção de programas de computadores.

Mesmo tratando-se de crime, combatido a ferro e fogo pelas autoridades, a pirataria continua mais próspera e ativa do que nunca, não raro com a conivência e até a cumplicidade do público consumidor que, ao adquirir um CD, por exemplo, pouco lhe importa a procedência, ou mesmo qualidade técnica do produto, mas leva em consideração, apenas, o preço. Sabe que o barato pode sair muito caro, mas opta por arriscar-se e com isso só estimula a indústria da fraude e da cópia irresponsável, feita quase sem custo, desse produto preciosíssimo que é fruto do talento de gente criativa e não raro genial.

O aplicativo do célebre poema de T. S. Eliot foi desenvolvido, conforme li no site de “O Globo”, pela Touch Press, de Londres, que se especializou na produção de conteúdos para Ipad (que bom, tomara que milhares de outras empresas se especializem nesse tipo de textos também, para o bem e o conforto dos detentores dessa potencialmente tão útil e genial engenhoca). Mas a produção do poeta não foi pirateada. A empresa responsável pela criação desse aplicativo teve o cuidado de fazer parceria com a Faber & Faber, a editora em que T. S. Eliot trabalhou e que é detentora dos direitos da sua obra. É assim que se deve proceder sempre.

E os escritores brasileiros, o que podem esperar nesse aspecto? Podem nutrir a expectativa de que suas obras também virão a ser adaptadas para essa plataforma e chegarão, dessa maneira, a um público cada vez mais amplo e qualificado? Não tenho dúvidas que sim. Claro, depois que forem equacionadas as questões referentes a direitos autorais, entre outras.

Como escritor (posto que ainda dos “menores”, com pouquíssima projeção, por causa da pouca exposição), tenho, claro, a expectativa de um dia ver meus livros adaptados para o Ipad. Afinal, sonhar não paga imposto (ainda). Talvez até já tenham sido e eu não saiba. Não sou muito bem informado no que se refere às novas tecnologias de informação. Já caminhei tantos passos nesse acidentado e íngreme caminho da literatura, que ouso nutrir fantasias a respeito. É certo que, se isso ocorrer (ou que tenha ocorrido), não se tratará (ou não se tratou) nem resgate de uma obra esquecida e nem de consagração de um literato já vitorioso e que não tenha que provar mais nada para ninguém. Tratar-se-á de revelação. Ou de ampliação do que a internet já vem possibilitando, através de blogs e de sites que já divulgam minha volumosa e razoavelmente boa (modéstia a parte) produção literária.

Para não deixar vocês com “água na boca”, tomo a liberdade de reproduzir estes poucos versos, do extensíssimo poema “A terra desolada” – que é uma ode à crise existencial que havia se instalado na Europa ao término da (e em consequência dela) Primeira Guerra Mundial. A tradução é de Ivan Junqueira, que traduziu, aliás, toda a obra de Eliot no Brasil.

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilás e da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Sttarnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten (...)”


Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk 

Um lugar para ir antes de morrer - Anna Lee


Um lugar para ir antes de morrer


* Por Anna Lee



Numa entrevista que Clarice Lispector fez com Jorge Amado, perguntou se de algum modo ele estava ligado a uma religião, se já havia passado por uma experiência mística. Ele respondeu que não era religioso, era materialista. E também que nunca passara por qualquer experiência mística, mas já tinha assistido a muita mágica, era supersticioso e acreditava em milagres, achava que a vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres. Mesmo não tendo crença religiosa, ele detinha um alto título no candomblé baiano, era Oba Otum Arolu, uma distinção que os amigos conferiram a ele.

No mesmo livro em que essa entrevista está publicada – De corpo inteiro, que freqüenta minha cabeceira desde que decidi ser jornalista –, Clarice pergunta a Tom Jobim se acreditava em reencarnação. Transcrevo a resposta:

“Não sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente não é o meu ponto de vista: se existe a reencarnação só pode ser por um despojamento”.
Então, Clarice falou a Tom sobre a epígrafe de um de seus livros, uma frase de Bernard Berenson, crítico de arte: “Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer”.

Porque ando pensando sobre os milagres da vida – dizem os cabalistas que este mês de dezembro é o mês dos milagres –, de preferência os realizados nos acontecimentos simples da vida, me lembrei da conversa de Clarice com Jorge Amado e Tom.

E também me lembrei de uma época em que ouvi dizer que, segundo o hinduísmo, o ser humano deve buscar quatro dons durante a passagem pela vida terrena: dharma (religiosidade), artha (riqueza material), kama (prazer sensual) e moksha (salvação). E que Benares é a única cidade onde Vishvanath, o Senhor do Universo, concede esses quatro dons aos homens. Todos os hindus devem passar por lá pelo menos uma vez na vida. Benares – ou Varanasi, como também é chamada – é um lugar para ir antes de morrer.

Não tive dúvida. Parti para Benares, mesmo sem ser hinduísta.

Eram cinco horas da manhã quando deixei o hotel em direção ao rio Ganges. Na noite anterior, o recepcionista advertira que era preciso chegar antes das seis aos gaths (escadarias nas margens do rio, formadas por muitos e enormes degraus), se eu quisesse acompanhar desde o início o ritual que moradores e peregrinos fazem a cada manhã nas águas do Ganges – consideradas sagradas pelos hindus e, por isso, capazes de promover a liberação de todos os pecados.

À medida que o dia surgia, dezenas e mais dezenas de pessoas vinham das ruelas, escuras e sujas, seguiam pelas vias principais e se juntavam aos que já estavam nos gaths. Homens e mulheres com roupas multicoloridas; de branco, apenas as viúvas. O sol, que era uma bola de fogo, dava a impressão de que emergia das águas, no outro lado do rio.

Cada devoto carregava uma cesta de flores, bandejas com oferendas, velas ou mudas de roupa. Alguns faziam o percurso até o rio de joelhos, em sinal de agradecimento. Outros murmuravam orações que, num coro, ressoavam como uma bênção.

Para os hindus, visitar os gaths não é um ritual que se cumpre apressadamente. Nada é mais importante do que estar aos pés do deus Vishvanath, a quem devem consagrar todos os dias, e do que sentir-se aconchegado pelo Ganges – que chamam de “mama Ganga” ou samanyadhatri, aquela que nutre e protege todos os seres vivos.

Muitos também vão para Benares para esperar a morte. Alguns gaths são reservados para a cremação dos mortos. Os ascetas, místicos que renunciaram aos bens terrenos, são os únicos que não são cremados. Seus corpos, cobertos de flores e atados a um peso, são lançados no Ganges. Ali, a morte não é ocasião para tristeza, mas para celebração, pois libera a alma de ciclo de reencarnação.

“Basta pronunciar o nome de Ganga e o pecador é redimido. E, no momento em que as cinzas de um morto tocam suas águas, sua alma é transportada até o céu”, me disse o barqueiro que me conduzia pelo rio.

Para mim, aqueles rituais cotidianos da vida e da morte eram apenas um espetáculo mágico. Por isso, talvez, Vishvanath nunca tenha me concedido todos os quatro dons prometidos. E aí penso em Clarice, Jorge e Tom, e peço por um milagre neste dezembro, mas não pelo perdão de meus pecados.

*Jornalista, mestranda em Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.




A força do pavio verde inflama a flor - Dylan Thomas


A força que do pavio verde inflama a flor


* Por Dylan Thomas


(Tradução de Augusto de Campos)


A força que do pavio verde inflama a flor
Inflama a minha idade verde; que rói as raízes das árvores
É a que me destrói.
E mudo eu sou pra dizer à rosa curva
Que à minha juventude encurva a mesma febre de inverno.
A força que através das rochas move a água
Move o meu sangue rubro; que seca os rios vociferantes
Torna em cera os meus rios.
E mudo eu sou para gritar às minhas veias
Que é a mesma boca a sorver a fonte da montanha.
A mão que faz girar a água no charco
Acorda a areia movediça; que amarra o sopro do vento,
Me arma a vela e a mortalha.
E mudo eu sou pra dizer ao enforcado
Que a minha argila e a do carrasco são a mesma argila.
O tempo com seus lábios suga as minhas fontes;
O amor goteja e coalha mas o sangue caído
Calmará suas chagas.
E mudo eu sou pra dizer ao vento como o tempo
Pulsou um céu em torno das estrelas.
E mudo eu sou pra dizer ao tumulo da amante
Que, curvo, em meus lençóis, se arrasta o mesmo verme.



* Poeta galês do século XX.




Hoje preciso de um poema... - Flora Figueiredo


Hoje preciso de um poema…

* Por Flora Figueiredo

Hoje, preciso de um poema,
mais do que nunca.
Que ele seja vitaminado,
tufão e ventania,,
clarão e meio-dia,
açúcar e flor-de-maçã.

Que ele traga o cheiro
de manhã molhada,
as virilhas úmidas
o sangue em brasa.

Que lambuze com rimas minha casa,
as veias, a pele,
este coração inoperante.

Hoje, preciso mais do que nunca
de um poema
de boca molhada e
verso latejante.


Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida. 




A boca - Adélia Prado


A boca

* Por Adélia Prado

Se olho atentamente a erva no pedregulho
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou a SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.


* Poetisa, professora, filósofa e contista ligada ao Modernismo.

Ela - João Alexandre Sartorelli


Ela

* Por João Alexandre Sartorelli

Não te entendo,
mas te leio e sinto ou raiva ou paixão.

Os teus versos me perturbam,
não te esqueço,
não.


* Poeta, assina seus poemas como Alex Sartorelli, autor do livro “A vereda das horas”.