quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, quatro meses e dezenove dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Tarefa individual.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “O Miguel de Cervantes de Maria Augusta Vieira”

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “O mistério do verde inigualável”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Ceifeiro”..

Coluna Porta Aberta – Índia Alves, poema, “Irreversível”.

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Cristal quebrado”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Tarefa individual


A vida é constituída de inúmeras obrigações: para com o próximo, para com o mundo, para com a família, a escola, a igreja, a sociedade e, principalmente, para conosco próprios. Desde tenra idade, somos instruídos a seguir regras de comportamento, normas de todos os tipos e naturezas, estatutos, leis e princípios éticos e morais de conduta. Algumas dessas imposições, é verdade, descambam para o exagero. A maioria, porém, é necessária para uma vida ordenada, disciplinada e produtiva em sociedade.

Nossa maior tarefa no mundo, todavia, (diria que, se não a única, a principal) é a de construir nossa biografia, com pensamentos, sentimentos, atos, fatos e objetivos. É a de amar sem limites (não importa quem), mesmo que o amor nos cause dores (se causar) e frustrações. Ele sempre vale a pena.

É sonhar, ter fé, esperança e força de vontade e sair em busca dos nossos sonhos, com coragem, ousadia e determinação, por mais elevados e supostamente irrealizáveis que sejam. É relevar mágoas, dores, iras e fracassos e nos sentirmos felizes a cada momento, já que felicidade é um estado de espírito. Em suma, é exercermos nossa humanidade.

Trata-se de tarefa rigorosamente individual. Ninguém pode executá-la por nós. Outras pessoas podem, até, ajudar (ou atrapalhar) nossa empreitada. Mas só nós, exclusivamente nós podemos compor (não me refiro a escrever) nossa biografia, com pensamentos, sentimentos, atos, fatos e objetivos estritamente pessoais.

Para construirmos uma vida notável, que se destaque da multidão por alguma peculiaridade e virtude especial e nos torne, não somente conhecidos, mas admirados e até imitados através de gerações, se requer contínuo crescimento: físico, mental, espiritual, cultural, afetivo e vai por aí afora. Isso não ocorre aleatoriamente, por conta do acaso (embora esse tenha imensa participação no processo).

Temos que ser ousados, disciplinados, persistentes e determinados. Precisamos ter forças e coragem para nos reerguermos a cada tropeço (e são tantos os que nos haverão de acometer!). É mister saber recomeçar, sempre que concluirmos que o caminho que escolhemos alhures não é o mais adequado para o alcance dos nossos propósitos e objetivos.

Esse processo de crescimento será doloroso, por vezes, agradável, outras tantas e repleto de fracassos e sucessos, que poderão vir em sucessão ou se alternar. Não podemos, porém, ficar indiferentes nem a uns e nem a outros. Cabe-nos aprender o máximo de lições com as derrotas – em vez de nos entregarmos, tola e covardemente, ao desalento, mágoas e lamentações – e multiplicar forças com os êxitos, sem nunca os considerar como fins, como pontos de chegada de uma corrida de obstáculos, mas como meras etapas de uma jornada cuja duração jamais saberemos qual será.

Não podemos, sobretudo, nos submeter às circunstâncias, quando estas forem adversas e aziagas. Cabe-nos lutar, com sabedoria, estratégia e persistência, contra elas e as tornar, de potencialmente ferozes adversárias, em benignas aliadas. Essa “receita” funciona de fato? Não sei. Entendo que não haja fórmulas prontas, exatas, rigorosas, infalíveis e eficazes para o crescimento.

Estas recomendações, todavia, são as óbvias, extraídas da experiência de vida de pessoas tidas e havidas como vencedoras, que se transformaram, até, em modelos de conduta, em inspiradoras de gerações e em gigantes da espécie.

Se vão funcionar ou não depende exclusivamente de nós e da nossa vontade de moldar as circunstâncias aos nossos propósitos, além da nossa competência em lidar com pensamentos, emoções e acontecimentos e da nossa determinação de crescer, mas crescer de verdade e sem cessar.

Entre as recomendações dos filósofos, psicólogos, educadores e especialistas em comportamento, e a dos poetas, que são guiados pela intuição, prefiro a destes últimos. Afinal, não somos robôs que possam ser programados para reagir sempre da mesma forma face a determinadas circunstâncias. Somos, isto sim, feixes de emoções contraditórias e nem sempre (ou quase nunca) controláveis. E destas, convenhamos, ninguém entende melhor do que estes seres iluminados, sensíveis e intuitivos.

Recorro, pois, ao poeta Mauro Sampaio, que resume a caráter essa tarefa de construção de memorável biografia, com pensamentos, sentimentos, atos, fatos e objetivos, nestes magníficos versos finais do poema “Esquecer a vida”:

O que aconteceu antes
é o que passou na forma e no espaço.
O que está, não está, é um constante movimento.
O Princípio nasceu de um Sonho.
O que se sente da vida, quando se repara nela,
é que só vale pelo sonho que é,
ou pelo sonho que fazemos dela!”.

Portanto, mãos à obra!


Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O Miguel de Cervantes de Maria Augusta Vieira

* Por Mara Narciso
 
Como admiradora da Literatura corri a sorver a palestra de Maria Augusta Vieira sobre Miguel de Cervantes e Dom Quixote de La Mancha. Aconteceu no Clube de Leitura Ateliê Galeria Felicidade Patrocínio, parceiro da Academia Feminina de Letras, cuja presidente Ângela Vera Tupinambá Castro trouxe a palestrante de São Paulo.
 
Admirável e cheia de títulos, Maria Augusta é uma mulher de voz macia e modéstia exuberante, sendo possuidora de mestrado e doutorado em Literatura Espanhola. Dedicou amplos estudos a Miguel de Cervantes, o maior ás da Literatura Mundial, autor que leu tudo o que havia em seu tempo e escreveu o mais imortal de todos os livros, obra que provoca reuniões como esta, 400 anos depois.
 
Maria Augusta, que considerou a nosso encontro algo “cervantino”, explicou que na época de Cervantes eram comuns reuniões literárias chamadas tertúlias, que aconteciam em tabernas, nas quais o escritor lia em voz alta seu escrito, enquanto os demais opinavam. Não havia a intenção de ser criativo, pois a cópia estava na moda, mas Cervantes inventou uma nova forma de narrar.
 
O escritor não era nobre, numa época em que usar as mãos para produzir era desabonador, e aos nobres era proibido trabalhar. Por sua vez, o lazer contava com jogos de cartas, vinhos, teatro, música e literatura na Península Ibérica, que vivia uma ebulição cultural de viagens e livros, num momento de riqueza dada pelo ouro e prata trazidos das colônias na América.
 
Cervantes escreveu Dom Quixote de La Mancha, de mil páginas, em duas partes, sendo a primeira publicada em 1605 e a segunda dez anos depois. Não teve apoio financeiro, numa época em que as publicações só saíam após autorização da Coroa. Esta normatizava temas a abordar, num movimento conhecido como Contrarreforma, que tinha assuntos proibidos.
 
O protagonista Dom Quixote, fidalgo e cavaleiro andante, numa paródia aos romances de cavalaria, passeia mundo afora, dialogando com as novelas campesinas e picarescas. O autor fala dos conhecimentos de então, passando pela Astronomia, guerras, viagens, costumes de países, utilizando palavras de cada área, mas, numa linguagem acessível, mostrando um fácil entabular de conversa entre a Literatura erudita e a popular.
 
Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança vivem histórias que ora contam, ora ouvem. Acontece uma conversa entre dois mundos opostos representados pelo intelectual Dom Quixote e o tosco Sancho Pança. Mesmo iletrado, o escudeiro tem sabedoria popular, e, diferentes em tudo, convergem no diálogo. Ambos os personagens trazem a dualidade em si, com um Dom Quixote louco e lúcido, e um Sancho Pança rude e sábio.
 
A obra expõe o mundo social da época, com humanismo, dando voz aos grupos humanos, ousando nos experimentos narrativos e psicológicos. A vida da pastora Marcela tem leves pitadas feministas, com um Cervantes mostrando a posição da mulher na sociedade. Nela, um pastor se apaixona por Marcela, que não quer se casar, e sim, viver livre pelos campos. O moço rejeitado morre, não ficando claro se se suicidou, ou não.
 
Noutra história, uma mulher virtuosa é colocada à prova duas vezes. Tudo combinado entre seu marido e um amigo, a mulher acaba não resistindo aos encantos do intruso. Na primeira viagem do marido, a mulher resiste, mas ele se afasta novamente. Desta vez a esposa cai em tentação, ainda que em pensamento, mostrando que o ser humano de bem tem limites. Devido às habilidades literárias e sutilezas do autor a personagem adúltera é perdoada pelo leitor.
 
Noutra narrativa uma personagem feminina mostra falta de sabedoria em viver, sugerindo misoginia de Cervantes ao colocá-la inábil em escolher com quem se casar, vivendo em constantes apuros.
 
Cervantes sustentava mulheres suas parentes e teve vida pobre, mas não tão miserável quanto a pintam”, explicou a palestrante, que, além de destacar as personagens femininas, estimulou a leitura da obra na língua original.
 
À medida que nos dirigia sua retórica melodiosa, de expressões catadas num rico manancial, foi levando os cerca de 80 ouvintes ao intrigante Dom Quixote de La Mancha, sua viagem, histórias e paixões. Nutridos pela força de suas palavras, após a imersão de duas horas, poderíamos, sem medo, enfrentar nossos moinhos de vento.

* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”



O mistério do verde inigualável


* Por Urda Alice Klueger


(Para Roland Klueger, meu pai, que hoje faria 89 anos.)

A sensação era de aquecimento, de corpo e de alma, e de alívio: o trem parara, e tenho certeza, hoje, que só aquilo já significava um grande alívio, pois a maior parte da minha vida passei enjoando terrivelmente dentro de qualquer coisa que se movimentasse.

Sei minha idade: era o tempo dos três anos, e sei que usava um casaquinho de lã vermelha, abotoado até o pescoço, e àquele alívio do trem parado se somava o conforto do casaquinho vermelho e a amplidão da ternura que havia junto ao peito do meu pai.

Eu passei hoje lá e reconheci o lugar. Tudo é novo e construído onde outrora só houvera arrozeiras, mas permanece de pé a casa que fora a estação de trem. Se aquela era a estação do trem, de algum dos lados houvera uma casa que servia xícaras de leite gordo e sanduíches de pão de casa com manteiga de casa e amarelo queijo cheio de furinhos - coisas que eu rejeitara quando meu pai me dera, pois o enjôo do movimento do trem ainda permanecia em mim.

Então, meu pai passeou comigo do lado de fora daquelas casas ligadas ao trem, e o lugar está lá até hoje, e hoje e eu o vi e prestei a maior atenção.

Ali é Ascurra, e ali, no passado, só havia, na minha mente, além da estação do trem e da casa que servia o leite gordo e pão de casa com queijo de furinhos, uma grande igreja e a misteriosa mancha daquele verde único que eu nunca mais veria sequer em preciosas jóias usadas por famosas princesas.

O que poderia ser assim tão absurdamente verde e lindo para deixar sem fôlego uma criança de três anos, a ponto de ela pensar na magia que existe no país das fadas, a ponto de ela se sentir dentro de uma irrealidade?

Ternamente aconchegada junto ao aconchegante peito do meu pai, que decerto amava muito aquela pequena menina que um dia eu fui, eu o ouvi explicar:
- É uma plantação de arroz! É a cor do arroz novo...

E era bem como estar imersa no país das fadas, tal a magia daquele misterioso verde inigualável e o aconchego dos braços daquele pai jovem que hoje, fazendo as contas, sei que tinha só 33 anos, embora me parecesse alguém tão velho e sábio quanto um profeta bíblico.

Foi no aconchego dos braços do meu pai que eu aprendi sobre aquela cor única que é a cor do arroz novo formando campos totalmente encantados para o saber de uma criança, e que é uma cor que me encanta ainda quase do mesmo jeito até os dias de hoje.

Então ontem passei lá em Ascurra, não mais de trem, mas na estrada asfaltada, e lá ainda está a casa que era a estação do trem e as tantas lembranças, e como numa voragem eu voltei ao meu casaquinho vermelho abotoado, ao leite cheio de nata na xícara branca, ao colo agora tão dolorosamente distante do meu pai, e àquela cor do arroz novo que já não existe ali naquele lugar, mas que ficou dentro da minha alma para sempre, como talvez a cor mais linda que já tenha visto, e doeu, como doeu.

Um monstro chamado progresso tem devorado a dentadas gulosas paisagens e coisas que nem imagino, ao meu redor, mas quando vi aquela velha casa de estação, lá em Ascurra, soube que nem a tudo o tal monstro tem poder para engolir, pois, aninhada nos braços confortadores do meu pai, eu pude viajar para o passado e mergulhar de novo no mistério daquele verde fresco e inigualável que lá houve um dia, aquele verde único que a gente só encontra nos campos de arroz novo!

Atalanta, 17 de Janeiro de 2011.




* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
Ceifeiro

* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral

O sol abrasador desencanta
naquele que foge da miséria
um quê de dèjá vu enquanto
o suor escorre de amarelo.


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Irreversível


* Por Índia Alves


Sou folha seca.
Sou folha intrínseca
Quem sabe eu apodreça

Pudera virar pó
Quiçá o vento me leve.
Quem sabe o lugar

É transitório o caminho
É irreversível o destino
O vento vai soprar
E pra onde irei?
nem ele(vento) sabe
Nem eu(folha) sei.


* Poetisa em Itajaí SC


Cristal quebrado

* Por Alberto Cohen

Não são mais para seus olhos
o brincar de poesia,
as alegrias aflitas,
as grandes guerras perdidas
com os meus Brancaleone.
Não são mais para seus olhos
a alma em trajes menores
e o menino envelhecido
que não cometeu pecados,
aprontou mil travessuras.
Não são mais para seus olhos,
os pequeninos momentos,
cada flash desse filme
com desfecho que se inventa
na saída do cinema.
Não são mais para seus olhos,
essas caixas de Pandora
que, decerto, vão se abrir,
libertando aqueles monstros
que nem deviam existir.
Não são mais para seus olhos,
as estrelas que meus olhos
porventura ainda verão,
nem tesouros de piratas,
nem dragões que saem do mar.
Não são mais para seus olhos,
as sobras dos impossíveis
que um dia viajarão,
sabe Deus em quantos olhos,
mas seus olhos não serão.


* Poeta paraense.