quarta-feira, 25 de abril de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos e vinte e nove dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Crítica literária.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “’A promessa de um grande amor”.

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Que me devolvam meu coração rasgado e minhas vísceras rompidas”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araújo Nonato do Amaral, poema, “Ao poeta”.

Coluna Direto do Arquivo – Adão Ventura, poema, “Das biografias”.

Coluna Direto do Arquivo – Adriano Espínola, poema, “Fome”.

@@@

DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!

@@@

CITAÇÃO DO DIA:

Devoção do sacerdote 

É preciso ter pelo trabalho que se faz a mesma devoção de um sacerdote de Deus pelo seu.

(Ernest Hemmingway).





***



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Editorial - Crítica literária


Crítica literária


A crítica literária, embora possa ser feita (e de fato seja) por jornalistas (em sua maioria), é um gênero (dos mais nobres e especializados) de literatura. Tem, contudo, como pressuposto básico, que quem a faça tenha pleno conhecimento de causa. Ou seja, entenda profundamente o que se propõe a criticar, o objeto das suas críticas, a literatura.

Requer-se que seja não somente leitor compulsivo e atento, mas, e sobretudo, que conheça plena e profundamente, teoria literária. E que, nas suas avaliações, aplique esse conhecimento com isenção e critério. Não é o seu gosto pessoal que deve contar. São critérios sumamente objetivos na avaliação de determinada obra.

Previno que não é o que faço aqui, embora volta e meia eu comente livros e autores. E o verbo “comentar” é o mais apropriado no meu caso, está muito bem colocado neste esclarecimento espontâneo. Teço “comentários”, mas não faço crítica literária, insisto. São coisas muito diferentes.

Então não sou crítico? Não entendo nada de teoria literária? Sou crítico sim, e tenho muito orgulho disso. Sem falsa modéstia, não fico nada a dever a ninguém em termos de conhecimento (prático e teórico) de literatura. Sempre que fui convocado a desempenhar essa tarefa, nos jornais em que trabalhei, desempenhei (modéstia a parte) muito bem. Mas não é o que me proponho a fazer neste espaço específico (e, de fato, não faço). Daí a razão desta ressalva.

A crítica literária contém, “sempre”, aspecto valorativo. Quem a exerce, “avalia” não somente se um livro é bom, mediano ou ruim, mas apresenta argumentos objetivos, comprobatórios, para justificar isso. Nos comentários que faço neste espaço, porém, a subjetividade prevalece e propositalmente.

Ajo assim de caso pensado. Tenho por critério, por exemplo, jamais comentar livros que não gosto. Ademais, não comento, especificamente, tais obras em sua inteireza, mas somente um ou outro aspecto delas que me sirva de base para reflexões de temas dos quais trato.

Esclareça-se que a crítica literária surgiu na imprensa internacional há já muito tempo, em meados do século XIX. Era feita, no início, tanto por jornalistas com reconhecidos e notórios conhecimentos de literatura, quanto por escritores consagrados, como Victor Hugo e Émile Zola, por exemplo, entre tantos outros. Ou como o nosso Machado de Assis, que esbanjava conhecimento a propósito. Vários escritores atuais ainda exercem, com competência e brilho, essa função na imprensa, mas não citarei nenhum, para evitar injustiças causadas por eventuais esquecimentos.

Os meus textos, não tivessem a função específica de serem editoriais de uma revista literária eletrônica diária, deveriam ser classificados, caso se pretendesse rigor na classificação, de ensaios literários. Trazem a “opinião”, e não propriamente “avaliação”, exclusivamente do autor, isto é, minha. Abrem mão (e, reitero, propositalmente) da objetividade e são sempre subjetivos. Já tive a oportunidade de publicar neste espaço comentários acerca de mais de três centenas de livros e todos seguindo o mesmíssimo critério.

Faço essa ressalva para evitar confusão e deixar as coisas bem claras, para conservar a pureza de conceitos acerca do objeto alvo deste espaço nobre da internet: a Literatura. Há quem confunda, ainda, sinopse com crítica literária. São coisas distintas. Uma não tem nada, mas nada mesmo a ver com a outra.

Outro ponto que entendo de bom alvitre esclarecer é que não tenho o mínimo compromisso com qualquer editora ou escritor. Tanto que a imensa maioria dos livros que comento foi lançada há muitos anos, vários dos quais com edições até esgotadas.

Não faço, portanto, propaganda de nenhum deles. O objetivo não é este, mas, única e exclusivamente, o de ilustrar reflexões sobre determinados conceitos. Não ganhei nenhum deles (antes os ganhasse!). Todos, mas todos mesmo foram comprados e integram minha vasta e caótica biblioteca particular.

Vez por outra (sempre que o bolso permite) adquiro novidades do mercado editorial. Pudera, sou “viciado” em leitura! Comento-os (nas raras vezes que o faço), todavia, somente após lê-los e não raro relê-los até mais de uma vez e, apenas, se e quando contiverem subsídios para os temas sobre os quais me proponho a refletir com vocês.

Reitero, pois, que nunca fiz e nem faço neste espaço crítica literária. Não garanto que nunca farei. Mas se e quando fizer, deixarei claro do que se trata. Porquanto, além de contar com sólida formação literária, sou e sempre fui antes de tudo jornalista, mais especificamente editor, comprometido, portanto, com o rigor e a veracidade dos fatos.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

A promessa de um grande amor - Maras Narciso


A promessa de um grande amor

* Por Mara Narciso
 
No dia quatro de março de 2018 nasceu Frida, filha de Ana Flor e de um pai mestiço, meio poodle. Desde que a mãe nasceu, há uns quatro anos, foi-me prometido um filhote. Mas tive de esperar, pois a cachorrinha poodle branca de Tia Áurea teve apenas um cachorrinho. Desta vez, deu certo. Foram quatro filhotes fêmeas, sendo duas brancas e duas pretas. Escolhi uma preta e dei o nome de Frida. Logo que soube do nascimento, começamos a romaria. Toda semana, uma visita, um carinho na mãe e nas filhas, para que nos fôssemos acostumando.
 
À medida que as cachorrinhas foram crescendo, o espaço exigido para o ninho foi aumentando. Ana Flor, uma grande mãe, aos poucos foi lhes dando autonomia. Vi a amamentação, acompanhei o desenvolvimento. Com duas semanas foi-lhes cortado parte do rabo. Eu não queria. Com 44 dias foi-lhes dado o 1º banho, com direito a foto e laço de fita. Com 45 dias, foi o dia da 1ª vacina. Frida se comportou bem, mas teve uma febrezinha. Tia Áurea tem habilidade e know-how, porque criou muitas ninhadas. Conhece os bichinhos e os ama como ninguém.
 
O dia 21 de abril foi completamente diferente. A casa perdeu sua rotina e foi criada outra. Eu nunca tive cachorro, pois morei 26 anos em apartamento pequeno, e fui casada com alguém que não gostava deles, então, com boa expectativa fomos, Fernando, meu filho e eu buscar a cachorrinha. Acordei três vezes à noite, preocupada com a ruptura afetiva de Frida. Largar a mãe, as irmãs, o ninho e Tia Áurea, a cuidadora. Estou cheia de receios. Além do filhote, ganhei caminha, cobertor, pratinho e ração, além de orientação sobre xixi e cocô, jornal, brinquedos, vacina, essas coisas.
 
Tudo estava preparado para recebê-la, como quando a gente traz para casa um neném recém-nascido. Segurança é primordial. Já tinha imaginado colocar o cantinho dela no quarto em frente ao meu. Como tenho asma, não vou deixá-la dormir comigo e nem subir na cama. Não sei se vou levar adiante esta decisão, pois ela é apenas um neném.
 
Passamos num armazém para pegar uma caixa para colocar a caminha dentro. Conselho de Tia Áurea, que não acha conveniente comprar uma casinha. Quando chegamos em casa, abri o portão, entramos, Fernando desceu com ela, ajoelhou-se e explicou que aquela era a sua nova casa, porém, quando a colocou no chão ela começou a chorar. Eram nove e meia da manhã, mesmo horário em que meu filho nasceu. Tinha logo um e depois três degraus impossíveis para ela. Foi colocada sobre o assoalho encerado e ela deslizou para trás. Estava insegura, trêmula, com medo. Logo começou a soluçar. Foi quando me decidi a deitar no chão ao lado dela e fiquei enroscada por um tempo, para acalmá-la e mostrá-la que não havia motivo para insegurança. Trouxe a cobertinha e em poucos minutos ela foi relaxando, mordeu a ponta do tecido e cochilou com seu rosto sobre ela.
 
Duas horas depois montei sua caminha dentro da caixa deitada de lado, coloquei água que ela tomou logo, e após muito carinho, acabou dormindo por meia hora. Mas começaram os problemas: formiga na ração, um xixi a cada hora. Depois cocô, em seguida uma raivinha, novo soluço e começou a roer a caminha, e depois o jornal e as franjas da colcha da cama. Ela estava insatisfeita e eu tentando entendê-la. Estou contando minhas emoções, que são também dela. O que a faz se sentir segura é o contato com o corpo, ficar no colo, aconchegar-se aos nossos pés. Assim, parece sentir menos a falta do contato físico com a mãe e as irmãs. Logo estava vencendo os degraus.
 
A 1ª noite foi como um plantão na maternidade. A toda hora um choro. Tive de me levantar cinco vezes para acalmá-la, agasalhá-la, aconchegá-la, niná-la. Esperta, aprende rápido e logo deduziu que eu estava sobre a cama. Dava latidos e saltos tão altos, que seriam dignos de uma competição de decibéis para quebrar cristal como também de salto em altura, tentando subir na cama. Mas não conseguiu. Agora, está na casa de Tia Áurea por algumas horas. Estava muito parada e tive receio de que algo errado tivesse acontecido, mas está tudo normal. Frida nos trouxe a energia que estávamos precisando. Estamos os três muito bem diante da promessa de um grande amor.


* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”


Que me devolvam meu coração rasgado e minhas vísceras rompidas - Urda Alice Klueger


Que me devolvam meu coração rasgado e minhas vísceras rompidas

* Por Urda Alice Klueger


Já faz tanto tempo que o país começou a morrer, e eu com ele, que já não sei quando foi. Lembro do ano anterior, quando resolvemos ir ao Uruguai conhecer o Mujica no estreito espaço das férias coletivas de quase todo o mundo, o que significava sair no dia de Natal, e naquele ano, até o Natal, na cidade quente em que eu morava não viera o calor e não fora necessário ligar o ar condicionado. O calor chegou exatamente no dia 25 de dezembro; quanto mais rodávamos em direção ao sul maior o calor ia ficando, assim aquele calor que só se desfez no final de março.

No verão seguinte o calor não se fez esperar: estava inteiramente presente desde o primeiro de novembro, e não havia ar condicionado que chegasse. Dei-me conta de que algo estava errado quando fui a uma lan-house que havia perto da minha casa (onde também se tiravam xerox e outras coisas) e o dono, lá, xingava despudoradamente a Dilma, a presidenta que eu ajudara a eleger.

- Vaca! Nojenta! – e outros adjetivos do gênero dirigidos à nossa presidenta. Juro que até então estava inocente dos acontecimentos que começavam a dividir o Brasil em ódio, e muito surpresa, tentei defender a Dilma. O argumento do comerciante vizinho era a conta da luz: de pouco mais de cem reais no dezembro anterior, passara dos 500,00 reais no dezembro findo, e ele não instalara sequer uma tomadazinha nova. O homem era ódio puro, coisa assim para correr com a gente, e caí fora pensando na ignorância dele, que não prestava a menor atenção em como o ar condicionado fora ligado mais cedo por conta do calor. Tanta gente não dá a mínima para a natureza, lembrei de gente que nem sabia de que lado o sol nascia... Não passava de um ignorante. E era. Não prestava atenção em nada, a não ser nos veículos de imprensa que lia e/ou assistia e estava ali, vociferando discurso decorado, destilando fel por todos os poros. Eu via muita televisão, na época, mas via a Telesur, através de uma antena parabólica que possuía, e tão envolvida estava com a América Latina que não tinha prestado atenção ao quintal de casa, quintal esse que agora é quintal do grande capitalismo internacional.

Comecei a me ligar através daquele ignorante, e naquele ano as coisas começaram a explodir. Primeiro, foram as passeatas. Como todo o mundo estava fazendo, na minha cidade também fizeram e eu fui ver – historiador tem alguns compromissos na vida. Levara meu cachorro junto e então subi num banco com ele no colo, com medo que o pisoteassem, tamanha era a multidão. 15.000 pessoas desfilaram naquela noite, o que era uma imensidade de gente para uma cidade pequena, e eu fiquei atenta às suas reivindicações. A maioria pedia pela federalização da universidade local e pela duplicação da BR-470 – na verdade, havia cartazes de todos os tipos, nada era definido, e não tenho lembrança de ter visto algum Fora Dilma. Fiquei tranquila quando, dias depois, um ex colega de serviço, que chegara a ser meu gerente, me encontrou na rua e me disse, extasiado:
- Pela primeira vez na vida estive numa passeata! Nossa, como me fez bem! – como se tratava de um sujeito que nunca soubera muito bem diferenciar a mão direita da mão esquerda, continuei tranquila.

Vieram os panelaços e tive que cortar do meu facebook madame a quem admirava muito e que confessou publicamente como tinha ficado feliz por protestar. Santo Deus, o povo tinha ficado cego? Não sei se um pouco antes ou pouco depois a loira burra que trabalhava na loja da esquina teve passagem de avião paga para ir a São Paulo (ou ao Rio?) mandar a Dilma tomar no c. Era loira, burra e muito bonita, adequada aquele papel. Imagina se colocariam lá uma mulata, por exemplo. Berrou até ficar rouca.

Em algum momento a coisa tinha ficado grande demais e houve aquela noite dos horrores, onde fiquei quatro horas seguidas olhando para a televisão, incrédula, aquela noite em que o Bolsonaro homenageou o coronel Ustra. Tão parva fiquei com o que aconteceu naquela noite que acabei escrevendo, sobre ela, um texto chamado “Pétreos e pútridos”, que anda aí pelo google.

Faz dois anos. E logo a seguir veio a noite no senado, e os pétreos e pútridos se repetiram, e a Dilma caiu e começou o grande assalto ao nosso país, coisa hoje sobejamente sabida, e o assalto veio diretamente ao meu coração e à minha capacidade criativa, e em dois anos escrevi menos de vinte crônicas, eu que tinha uma vida de correr atrás do tempo para dar conta de escrever tudo o que estava sempre em ebulição dentro de mim. Nenhuma delas teve a coragem de abordar este pesadelo que estamos vivendo – tenho escrito sobre cachorrinhos, infância, coisas assim que como que me salvam da grande desgraça aonde estou enterrada, aonde o meu Brasil está enterrado, aonde tantas partes da América estão enterrados, e quando começou lá em Honduras, acho que em 2007 e eu estava (e estou) tão solidária com Honduras, quando pensaria que aconteceria conosco também? E o ódio, esse ódio espargido por todos os lados – céus, como se sobrevive a uma coisa assim? Até escrevi um livro aí no meio, que sai a público em poucos dias, com o sugestivo nome de “No tempo da magia”, nome bem adequado para quem não está suportando a realidade.

Eu quero a minha vida de volta, o meu coração de volta, a minha sensibilidade de volta, Sou uma pessoa rasgada, vísceras comidas pelo mal do entorno, e já não sei viver assim.

Sertão da Enseada de Brito, 17 de abril de 2018.



Ao poeta - Núbia Araújo Nonato do Amaral


Ao poeta

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Ao poeta desejo sempre o
que está além.
Uma rosa embaraçada.
Uma estrela fugidia.
E, se, o impossível
sublinhar contornos
deixo-te à mão
papel e inspiração.

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário.

Das biografias - Adão Ventura


Das biografias

* Por Adão Ventura

em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo

a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue

está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram

para edificar os palácios dos reis.

- Adão Ventura, em "Costura de nuvens" (Antologia poética,organização e seleção Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes. Sabará, MG: Edições Dubolsinho, 2006.

* Advogado e poeta mineiro 

Fome - Adriano Espínola


Fome


* Por Adriano Espínola


Se tens fome de madrugada,
toma uma folha de papel em branco
e nela sorve em silêncio
com volúpia o nada
que te espanta e consome.

Se ali encontrares outra coisa
 ao despertar do dia
(o pão ainda fresco do sonho,
a palavra que amadureceu de repente
ou os gomos abertos do sol).

Chama-me depressa,
porque também tenho fome —
tenho essa mesma fome que não sacia.
 
* Poeta cearense.