segunda-feira, 29 de maio de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dois meses e um dia de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Lição das águas.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Do que foi”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O amor de uma noite”.

Coluna Direto do Arquivo – Diana Lima, poema, “Tesouros de uma vida”.

Coluna Porta Aberta – Frei Betto, artigo, “Brasil e América Latina hoje”.

Coluna Porta Aberta – Assionara Souza, poema, “No morro”..

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Lição das águas


O nome do nosso planeta – como já escrevi inúmeras vezes – é totalmente inadequado (diria, equivocado). Deveria ser o do composto químico mais abundante, que o caracteriza e possibilita a existência de vida em seu interior: ou seja, água, e não Terra, que é, relativamente, tão escassa, embora essencial.

Em alguns outros recantos do Sistema Solar essa substância até pode existir, mas nunca nas enormes proporções que há por aqui e sequer em estado líquido. Daí tamanha desolação e vazio nesses corpos celestes que orbitam o Sol, a maioria (senão todos) inóspita ao homem (e a qualquer outra espécie de vida).

É bastante provável que não estejamos sós na vastidão universal. Matematicamente, pode-se extrapolar a existência de pelo menos 300 mil (provavelmente, até, muito mais) de mundos, rigorosamente semelhantes ao nosso. Ou seja, com a atmosfera adequada e, sobretudo, com abundância de água líquida. Certeza, porém, não temos nenhuma. Será que algum dia teremos? Não creio. As gerações se sucederão por aqui, até que algum cataclismo cósmico, ou a insensatez do próprio homem, destrua este (para nós) aconchegante planeta (já bastante avariado por sinal) e ponha fim à aventura desta estranha espécie animal.

Mas o assunto sobre o qual o convido a refletir não é bem este (embora nunca seja demais fazer profundas reflexões sobre esse tema). A água, além de compor mais de 80% do nosso organismo e de ser o composto químico mais abundante em nosso Planeta, pode nos trazer (metaforicamente) inúmeras lições de vida.

É desnecessário ressaltar o uso que fazemos dela no dia a dia. Mal despertamos, utilizamo-la para nossa higiene pessoal, indispensável para nos dar conforto e preservar nossa saúde. Sem ela, não teríamos, por outro lado, o café da manhã. Banhamo-nos nela, bebemo-la, cozinhamos e até nos divertimos com ela, em piscinas ou praias e vai por aí afora.

O filósofo norte-americano, Ralph Waldo Emerson (um dos meus preferidos), recomenda: “Experimenta as águas revoltas assim como as paradas: elas podem ensinar lições que vale a pena aprender”. E a que ensinamentos ele se refere? À sua análise química? Claro que não! O que diz respeito à sua utilidade? Também não, já que não há quem não saiba disso. O referente à sua preservação e utilização racional? Essa é uma lição que todos, indistintamente, deveríamos ter na ponta da língua, mas não é a ela que Emerson se refere.

Então a qual ensinamento das águas deveríamos atentar? Ao da necessidade da ação! Ao de que a vida se caracteriza pelo movimento, jamais pela estagnação. Ao da coragem de encarar elevados “despenhadeiros”, representados por obstáculos de toda a sorte, por quedas, fracassos e decepções que (se soubermos lidar com eles) tendem a nos “purificar”, nos fortalecer, nos engrandecer e nos conduzir a grandes conquistas, até dos sonhos, ideais e desafios que julgávamos impossíveis de vencer e de alcançar.

Sim, amigos, as águas podem nos ensinar preciosas lições. E o tempo todo, dada sua abundância. Elas têm que fluir, sem cessar, desde o nascedouro, da fonte de onde brotam, em direção, progressivamente, ao mar. Devem fluir em mansos córregos e ribeirões, juntando-se, em certos pontos, a outros, formando rios, que por sua vez desembocam em outros mais caudalosos, não raro encachoeirados em determinados trechos, mas sempre fluindo, sempre seguindo em frente, sempre correndo, sem se deter, rumo à foz.

Assim devemos ser nós. Não podemos e não devemos jamais nos conformar em ser meras poças paradas, que só tendem a diminuir, até desaparecer, tendo as águas evaporadas pelo calor do sol. Mas antes de se evaporarem, se não forem fluentes, se contaminam com toda a sorte de impurezas e adquirem aparência suja, torva e lamacenta. Tornam-se focos de bactérias e adoecem os que se utilizarem delas. Em vez de fontes de vida, se transformam em agentes de doenças e, não raro, de morte.

Essas são algumas (as mais importantes) lições que as águas podem nos ensinar. As pessoas inteligentes, criativas, que tenham o saudabilíssimo hábito da reflexão, podem aprender muitas e muitas outras. Uma das principais é que, se você se limitar a refletir, sem que esse ato volitivo seja acompanhado de ações, irá se tornar inútil e improdutivo, um peso morto para si e para os que convivem consigo. Fazer isso é formar poças que não tardam a ficar poluídas e a disseminar doenças. Afinal, a vida é dinâmica, como as águas que fluem sem-cessar. Pelo menos é o que deveria ser. E sempre!


Boa leitura!


O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk



Do que foi


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Extraio a beleza
daquela que um
dia foi tronco,
foi folha, foi flor.
Suspiro com
profundo respeito
por quem emprestou
seu destino aos
meus olhos famintos
de cor


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário


O amor de uma noite


* Por Talis Andrade


As mulheres não desfalecem
sob o peso das carícias
dos amantes de uma noite

O amante mandasse uma rosa
a fêmea voltaria a sorrir
Reencontraria perdidas sensações
perdidos sonhos
Seria igual a qualquer moça
fantasiando uma moradia no paraíso
a paz de uma vida rotineira
Cada coisa no seu canto
a mesa arrumada
um jarro de flores
a comida caseira
Seria igual a qualquer moça
nos espasmos de santa
não precisava fingir
um orgasmo passageiro

(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



Tesouros de uma vida


* Por Diana Lima


Por mais que eu tente entender
Parte ficou sem explicação
Perdi qualquer coisa lá atrás
Meu coração me diz a razão
Em vão busco resgatar
Não será nesta vida,
Ouso alguém perscrutar
Quando: ouso perguntar
Adiante: vem a resposta
Protesto: é tempo demais...

Sem me contentar
Tentando me enganar
Colho flores em outro lugar
Mas sinto o perfume de tempos atrás
Sinto olhares a me observar
Toques no meu corpo envelhecido

Tento beber na taça da vida
Contando experiências, envaidecido
Mas é a morte que me oferta a bebida
É meu próprio insano sangue oferecido
Que entorno, tal menino iludido
Enquanto a taça de veneno cai

Meu coração aos poucos se esvai
Minha mente entorpecida
Consegue ainda repassar
Fragmentos de uma vida
Tesouros escondidos...

Também boa parte de tempo perdido
Que agora fica no ar...
Tempo perdido ou bem vivido
São meus tesouros...
Que levo pra outro lugar...

* Escritora, jornalista e pesquisadora do tema CRIANÇAS E ADULTOS ÍNDIGO.



Brasil e América Latina hoje


* Por Frei Betto


Entre os 605 milhões de habitantes da América Latina, há 44 milhões de indígenas que dominam 420 idiomas, e 150 milhões de negros, que equivalem a 30% da população do Continente.

No Brasil, dos 207 milhões de habitantes, 53,6% são negros. Eles constituem a maioria da população no Brasil, na Venezuela e na República Dominicana. E ainda são encontradas no Brasil 2,8 mil comunidades quilombolas que abrigam 1,7 milhão de pessoas. Apenas 230 comunidades possuem títulos de propriedade de suas terras.

Segundo o Latinobarômetro, 73% dos latino-americanos estão convencidos de que as elites governam em busca de seus próprios interesses, e não dos direitos da maioria da população. A proporção de pessoas que acreditam que seu país está retrocedendo supera, hoje, a de quem pensa o contrário.

Entre 2015 e 2016, o apoio à democracia no Brasil caiu 22 pontos percentuais. Agora, apenas 32% da população creem na democracia. No entanto, segundo o Latinobarômetro, 54% da população latino-americana ainda acredita que a democracia é o melhor sistema de governo.

A América Latina tem, hoje, a maior taxa de homicídios do mundo, encabeçada pelo Brasil. Os homicídios em todo o planeta são cerca de 600 mil por ano, dos quais 60 mil em nosso país. Uma de cada três pessoas assassinadas no mundo se encontra em nosso Continente, que abriga apenas 8% da população mundial.

Em apenas quatro países ocorrem 25% dos homicídios na América Latina: Brasil, Colômbia, México e Venezuela. Das 50 cidades mais violentas do mundo, 41 se encontram em nosso Continente e 21 no Brasil. As principais causas dos assassinatos são a desigualdade social, o machismo e o racismo.

Em nosso Continente, os impostos sobre a renda do capital é de apenas 5,2% do PIB. Nos países da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) chegam a 11,4%. Na União Europeia, os 10% mais ricos pagam 20% de sua renda em impostos. Na América Latina, somente 5,4%, embora a fortuna dos multimilionários aqui residentes tenha crescido, entre 2002 e 2015, 21% (mais de seis vezes o aumento do PIB).

E se sabe que parcela considerável desse montante vai parar nos paraísos fiscais, deixando de recolher impostos.

Entre 2000 e 2015, a América Latina teve crescimento econômico graças ao boom das commodities. A partir de 2015, a economia entrou em declínio, devido à pressão do capital internacional sobre nossas economias nacionais, a redução das exportações e a crescente importação de produtos industrializados, sobretudo chineses. O que passou a ameaçar a indústria continental.

Entre 2003 e 2011 a economia brasileira cresceu apenas 3,6% ao ano, insuficiente para absorver o crescimento vegetativo da força de trabalho, em torno de 5% ao ano. Se a crise brasileira tardou em aflorar foi devido ao fato de o nosso país aproveitar a liquidez internacional e surfar na bolha especulativa. Porém, não soube se valer daqueles bons ventos para implementar um desenvolvimento sustentável e favorecer o crescimento interno. A taxa média de inversão ficou abaixo de 17% do PIB, inferior ao nível histórico da economia brasileira entre 1970 e 1990.


* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.




No morro


* Por Assionara Souza


a paz é triste
atônita surdez
depois do seco estampido
passos curtos e cambaios
a mãe recolhe do varal
a roupa que o menino
não vai mais vestir
não estivesse ela aquela hora
limpando a festa suja na casa que não é sua
longe de sua vida real e do seu menino adorado
teria gritado: — vem pra casa, filho!
tem polícia no morro!
céu azul de abril
guarda desde sempre
este fatídico e recorrente encontro
entre a cabeça do menino
e o projétil fatal do assassino fardado

* Escritora

domingo, 28 de maio de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos e dois meses de existência.


Leia nesta edição:
Editorial – Como é difícil ser simples!.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Passarela de sonhos”.

Coluna Direto do Arquivo – Marcos Alves, crônica, “À c idade pequena”.

Coluna Clássicos – Cecília Meirelles, poema, “Surdina.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, artigo, “O que disseram as árvores do palácio Jaburu”.

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema, “O teu corpo aperto”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.




Como é difícil ser simples!


A maioria das pessoas acha que é fácil ser simples. Tenho ouvido argumentos de toda a sorte a respeito e o principal é o de que “basta querer” para sê-lo. Equivocam-se os que pensam assim. Até porque, esses mesmos arautos da simplicidade são, via de regra, complicadíssimos, quer na sua forma de comunicação, quer nos relacionamentos conjugais, profissionais, sociais ou de amizade, quer na maioria dos atos da vida.

Há, principalmente, os que confundem esse princípio (ou seria condição?). Acham que ser simples é ser simplório o que, até por definição, são coisas muito diferentes. No primeiro caso, a palavra sugere praticidade, busca de soluções óbvias, visão de profundidade nos relacionamentos e ações.

Já no segundo... O termo remete (conforme o Dicionário Michaellis) à ingenuidade. A pessoa simplória é a muito crédula, ou seja, a que acredita em qualquer bobagem que ouve ou que lê, mesmo que seja óbvio que isso que ouviu ou leu não passou de irrestrita tolice ou de completa mentira. É a que se deixa enganar ou ludibriar com facilidade, de quem, aliás, os espertalhões se aproveitam quando e como lhes apraz.

Muitas vezes, os comportamentos e opiniões alheios nos impedem de ser simples. Não raro, atribuem-nos intenções que nunca tivemos, quer em nossas palavras, quer, e principalmente, em nossos atos. Vou citar um exemplo, correndo o risco de ser mal interpretado.

Como esteta, sou admirador contumaz e compulsivo da beleza feminina. Nem sempre essa admiração é de cunho, digamos, sexual. O fato de admirar uma bela mulher, e de olhá-la o quanto possa, não implica em dizer que pretendo levá-la para a cama e fazer sexo com ela. Calma, devo confessar que tenho instintos normais. Sinto, óbvio, atração sexual pelo sexo oposto. Minha libido está em ordem. Faz parte da minha natureza de macho. Mas isso ocorre em ocasiões e com pessoas específicas.

Na maioria dos casos, quando fito, demoradamente, uma fêmea atraente, limito-me a admirar sua beleza, como faço com belas paisagens, com flores, com obras de arte bem elaboradas e assim por diante. E, claro, a menos que eu fosse um tarado sexual incorrigível, não quero manter relações sexuais com essas coisas que me encantam e embevecem.

O mesmo vale em relação a determinadas mulheres, notadamente meninas bonitas, no verdor dos anos. Não sou, evidentemente, pedófilo. Jamais, em circunstância alguma, senti atração sexual por alguma criança. Gerei três filhas e tenho respeito absoluto pelo sexo feminino. A simples ideia de que há quem macule essa inocência e beleza desperta-me horror, asco e profundíssima revolta. É instintivo.

Quando olho, demoradamente, para uma garotinha de seis, nove ou doze anos, portanto, não estou pensando em sexo. Não se trata de atração sexual, mas sensorial, que é muito diferente. O que procuro nessas ocasiões é alimentar meu espírito, que tem insaciável “fome estética”, de beleza, na sua mais lídima expressão.

Se revelar isso para algum parente muito chegado, ou para o amigo mais íntimo que tenha, contudo, com toda a candura do mundo e com verdadeira simplicidade, será que serei compreendido? Não, não e não! Serei encarado com horror, se não com asco, como se tivesse tendências inatas à pedofilia (mesmo sem tê-las) e teria muita sorte se não acabasse preso, embora sem dever nada à justiça, por não violar sequer qualquer norma moral, quanto mais legal.

Vamos a um exemplo mais concreto. Falemos da elaboração de um texto. Os redatores, em sua imensa maioria, quando conseguem escrever algo direto, sem rodeios ou floreados, compreensível tanto a um físico nuclear quanto a um gari, rasgam de imediato o que escreveram, mesmo que seja inteligente e não contenha um único erro, quer de grafia de palavras, quer gramatical. Procuram, em contrapartida, burilar o que escrevem, recorrendo a uma vazia, posto que bombástica, pirotecnia verbal, que nada acrescenta em termos de conteúdo ao texto, achando que isto sim é de “qualidade”. E, na verdade, não é.

O escritor irlandês George Bernard Shaw, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura, e que nos legou uma infinidade de magníficos livros, quando já nonagenário, certa feita, desabafou: “A simplicidade é o que há de mais difícil no mundo: é o último resultado da experiência, a derradeira força do gênio”.

Dá para entender por que a maioria dos problemas do mundo se vê agravada, por falta de solução? Porque as pessoas acham, até subconscientemente, que aquilo que é simples não pode ser verdadeiro. Entendem que é fácil demais para ser a solução. E o que fazem? Complicam tudo! Emaranham-se, mais e mais, em esquisitas teorias, apostam no insólito e os problemas, que em princípio sequer eram tão grandes, adquirem dimensões gigantescas, inimagináveis. Cá entre nós, portanto, queridos leitores: como é difícil ser simples!


Boa leitura!


O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk



Passarela de sonhos


* Por Pedro J. Bondaczuk


É Carnaval, amada.
Na passarela dos sonhos
desfilo meu enredo
de amor correspondido,
com alegria e emoção.

Fantasiada de esperança,
com alegorias verdes,
de trevos de quatro folhas,
apresenta-se, garbosa,
a comissão de frente
coreografando saudades.

Mestre sala e porta-bandeira
evoluem, com passos de brisa,
flutuando na avenida,
sob os augúrios de Eros.

A bateria do coração
sustenta a cadência,
ao ritmo da vida,
com garra e emoção
como se não
houvesse amanhã.

Já dizia o poeta,
filosófico até,
Quem não gosta de samba
bom sujeito não é”.

Na passarela dos sonhos
desfilo o meu enredo
de amor correspondido,
sem querer mais nada,
abraçado a Cupido,
de alma pura e lavada,
nesse momento ideal;
não fique aí parada.
Amada, é Carnaval!!!

(Poema composto em Campinas, em 14 de fevereiro de 2012)


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk



À cidade pequena


* Por Marcos Alves


Saio de férias e resolvo passar uns dias no interior. Quero esquecer que existe jornal, encontrar gente que não vejo há muito tempo, descansar. Ficar longe da Internet, rádio e televisão, na medida do possível.

A casa onde vivi permanece de pé. Quando deito no meu quarto e olho para o teto é como se voltasse no tempo. Antigas frustrações e alegrias misturadas a imagens difusas que surgem do nada, lembranças de situações agradáveis e desconfortáveis. Uma viagem a que me permito toda vez que tenho tempo de estar nesse lugar.

O gosto doce e amargo do existir se alterna na alma. Beijos e abraços imaginários, frases ditas num olhar. Uma lágrima brota no canto do olho. Sorrio e me sinto gente na solidão voluntária do quarto onde passei a infância e parte da adolescência. A ausência de meu pai e minha mãe ainda sentida, mas com o passar dos anos aprendendo a superá-la, escamoteá-la ao menos.

Quero desfrutar das coisas simples. Ser verdadeiro com poucos gestos, sem alarde. Evitar estardalhaço, rir dos pequenos equívocos, do inusitado que só aparece quando temos tempo e sensibilidade para perceber.

A cidade de pouco mais de 20 mil habitantes é alimento para a memória. De um lado, cadeiras na calçada, conversas noturnas na brisa fresca, as ruas de pedra. De outro, a vista da colina e o claro-escuro formado pelo verde do pasto molhado e a copa das árvores.

Deixo-me levar por uma preguiça mansa, que às vezes parece incomodar os apressados. Também os há na pequena cidade do interior e alguns são dignos de pena. Parecem procurar por algo que jamais vão encontrar.

Cavaleiro andante, visitante ocasional e inesperado, forasteiro e nativo. Confundo os bons observadores que já não me conhecem direito. O melhor são as mulheres. Terra de beldades, a pequena cidade e suas costuras sociais produziram (e ainda produzem) histórias dignas de um romance de Balzac. Tramas burlescas, truques malfadados, golpes e façanhas em décadas de regime burguês-rural.

Lembro-me, de repente, do apartamento em Belo Horizonte e pendências outras. Ainda aqui, na roça, sinto por um instante o estresse da cidade grande. A correria dos colegas, as luzes, o trânsito. Penso em Marta, Raíssa...

A vida segue, difícil, mas ainda permite intervalos. Viajar para uma pequena cidade onde se tenha um canto. E depois poder voltar para casa de alma renovada e sem vontade de mudar o caminho que escolhemos.

  • Marcos Alves é jornalista e diretor de vídeos.