segunda-feira, 26 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dois meses e trinta dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Partilha de alegrias.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Partida”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “A menina bipolar”.

Coluna Direto do Arquivo – Eduardo Paredes, crônica, “A morte do poeta e os ecos da ‘novembrada’”.

Coluna Porta Aberta – Emanuel Medeiros Vieira, crônica, “Pós-verdade: verdade?”.

Coluna Porta Aberta – Carlos Queirós, poema, “Canção grata”.

@@@

Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Partilha de alegrias


A imensa maioria das pessoas, não importa em que época tenha vivido e nem sua condição social (e, portanto, material), tem o estranho hábito de apostar no que é negativo. Observe, por exemplo, as conversas numa roda de amigos. Você notará, com a maior facilidade, que os assuntos tratados, mesmo os mais triviais, para não dizer banais, são, invariavelmente, todos de críticas, intrigas, fofocas e maledicências.

Ou, então, são de notícias ruins, dando conta de tragédias, de violência e de crise. É certo que os meios de comunicação contribuem, demais, para essa postura. E esse não é sequer, como se pensa, fenômeno exclusivo do nosso tempo. A leitura de jornais e de livros do passado, não importa se recente ou muito remoto, por exemplo, mostram que sempre foi assim.

Partilhamos com os outros tristezas, mágoas, queixas, frustrações e uma infinidade de coisas negativas, na vã esperança de recebermos ajuda para amainar, senão eliminar nossas aflições. Não eliminamos. Pelo contrário, subconscientemente, alimentamos nossas angústias, multiplicando-as exponencialmente.

Ocorre que nosso interlocutor convive, amiúde, com os mesmíssimos problemas que nós e espera, por sua vez, que o ajudemos, da mesma forma que esperamos a sua ajuda. É o típico caso, portanto, de um cego tentando guiar outro cego. Esse tipo de conversa não passa, pois, de mera perda de tempo, o que, em vez de nos ajudar, vai nos complicar ainda mais, posto que nem sempre percebamos isso.

Há um tipo de partilha, porém, que tem um benéfico e bem-vindo efeito multiplicador e que, na verdade, é o antídoto que tanto procuramos para anular os efeitos dos venenos da alma. É o de alegrias. É o do bom humor. É o do otimismo, da crença que todos os males são passageiros e que o amanhã pode (se assim quisermos) ser muito melhor do que o aflitivo presente.

Dizem, os pessimistas, não sem uma certa dose de razão, que “nada é tão ruim que não possa piorar”. Mas os otimistas igualmente estão certos ao inverterem essa premissa para “nada é tão bom que não possa se tornar melhor”. Qual das duas afirmações você prefere? Se for a primeira, está na hora de mudar seus referenciais. Ou, em casos extremos, de procurar, com urgência, ajuda de algum especialista.

Da minha parte, opto pela segunda colocação. Aprendi, ao longo dos anos, depois de apanhar muito da vida, que o pensamento positivo me predispõe a vitórias inacreditáveis. E quando sobrevêm os fracassos, seus efeitos são minorados pela sólida crença numa reversão de expectativas no amanhã.

Sempre que me sinto tentado a pensar no negativo, lembro da personagem Scarlet O’Hara, do clássico de Hollywood, “O vento levou”, que diante da catástrofe pela qual passava, em decorrência da guerra civil norte-americana, não se perdia em lamúrias e nem cogitava em se matar. Cerrava os dentes, e exclamava, cheia de confiança e de energia: “Amanhã será outro dia!”.

Está aí magnífico lema para nossas vidas. Que tal você enquadrar essas palavras, em letras garrafais, e colocá-las em um lugar bem visível do seu gabinete de trabalho? Com o tempo, elas serão gravadas em seu subconsciente e você haverá de encarar os fatos, próprios ou alheios, na devida perspectiva. Deixará de ser triste, mal-humorado e infeliz, e portanto desagradável aos que o cercam e até a você mesmo.

É isso, leitor amigo, “amanhã será outro dia!”. Experimente partilhar com os outros seu bom humor, otimismo, esperanças, fé e, sobretudo, alegrias. Em um primeiro momento, é verdade, você corre o risco de ser encarado como alienado. Mas, esteja certo, as pessoas não irão se afastar de você, como se tivesse alguma doença grave e contagiosa. Sua atitude, aos poucos, irá ter efeito multiplicador. Transformará, sem que estes se apercebam, a de seus interlocutores.

O dramaturgo dinamarquês, Henrik Ibsen, declarou, em uma de suas peças, pela boca de um dos seus personagens: “Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante um certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas”. Busque, apenas, a companhia de quem esteja disposto a fazer essa partilha ou a aceitá-la, caso seja você o partilhador.

Nada, absolutamente nada é tão bom que não possa melhorar. Esta tem que ser a sua crença, nos momentos favoráveis e, sobretudo, nos aziagos. Isto é o que você deve partilhar com as pessoas que ama e mesmo com as que detesta. Haja o que houver, aconteça o que acontecer, “amanhã será outro dia”. E pode (por que não?) ser o da sua maior vitória na vida, caso acredite, de fato, que o seja e se predisponha para tal.

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Partida


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Quando nossos queridos
partem para o infinito
nos sentimos como
papel despedaçado,
fica difícil
juntar os pedaços.
A dor, antes avassaladora,
ameniza, atenua
e se transforma
em asas de saudades.
Conforte seu coração,
sorria mais,
viva mais,
transforme, recrie,
reconheça em ti
o tronco que verga
mas não sucumbe.
Anjos sempre
dão o ar da graça,
a gente é que
às vezes nem percebe…



* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
A menina bipolar



* Por Talis Andrade



Tem dia
que acordas adolescente
verdejante e linda
Noutro fruta madura
oferecida docemente
para ser mordida


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



A morte do poeta e os ecos da “novembrada”

* Por Eduardo Paredes

Historicamente Santa Catarina é um estado privilegiado, como poucos, em termos de produção cultural. A pluralidade e diversidade desse patrimônio imaterial advêm, acredito eu, de um encantamento com suas belezas naturais e do encontro das inúmeras etnias que se espalham por todo o território catarinense. Por isso mesmo, é absolutamente inadmissível que a Cultura continue sendo (mal) tratada como peça assessória no contexto das políticas governamentais. Essa riqueza artística e cultural acumulada é que dá identidade ao povo catarinense. No entanto, infelizmente, o setor cultural vem lutando para sair do plano do supérfluo e ganhar a importância que lhe é devida.


Em termos de política pública cultural o que constatamos é um estado de abandono, desrespeito e contínua omissão. Há muitos anos a Cultura foi embrulhada num mesmo pacote com o Turismo e o Esporte, compondo uma Secretaria que já se chamou SOL – Secretaria da Organização do Lazer, inspirada nas teorias do “ócio criativo” do sociólogo italiano Domenico De Masi.  Qual o sentido de se "organizar o lazer" e de se pregar o "ócio criativo", especialidade na qual boa parte dos nativos da Ilha de Santa Catarina são PHD?Parece piada, mas não é.

Tendo recebido como herança maldita do seu antecessor, o atual governador manteve intacta a estrutura de Governo que, a par das chamadas Secretarias Centrais, sustenta a paquidérmica coleção de quase 40 Secretarias de Desenvolvimento Regional. Qualquer cidadão com um mínimo de bom senso, informação e cultura reconhece que esse modelo condena o Estado a uma situação de profunda anemia financeira. É cristalino que essas SDR somente existem para acomodar cabos eleitorais e que a descentralização poderia muito bem ser executada através de Coordenadorias, Diretorias ou Gerências. Mas quem se atreve a cortar as benesses, mordomias e privilégios contidos no status de Secretaria? Por que arriscar a base de sustentação política que assegura a continuidade no poder? Ninguém é bobo – somente o povo, o contribuinte, que paga a conta.

É triste reconhecer que o Governo do Estado, tão pródigo na criação e manutenção de tantas Secretarias, não dê autonomia e independência para esses três setores importantíssimos, que são o Turismo, o Esporte e a Cultura. Não há como reconhecer a importância do Turismo para a economia do Estado. Mas esse setor também não consegue se desenvolver e expandir suas potencialidades da forma como está situado. As demandas do Turismo são vastas e complexas e precisam de um planejamento próprio. O mesmo vale para o Esporte e a Cultura, que são determinantes para uma política pública séria que pensa em formação de cidadania e inclusão social. Se em determinado momento o Turismo se entrelaça com a Cultura, essa área de convergência é ínfima para justificar tal atrelamento. Arrisco dizer que de cada mil turistas que visitam o Estado, depois da praia menos de uma dúzia procuram por um museu, teatro ou galeria de arte. O destino natural são os shoppings, bares, restaurantes e baladas. Isso é óbvio.

A Cultura padece ainda mais por esse equívoco administrativo, pois sobrevive à sombra do Turismo. As casas de cultura e espaços culturais vivem à míngua. Os artistas há muito foram deserdados, com os poucos editais públicos de fomento às atividades artísticas sendo ano a ano empurrados com a barriga, procrastinados ou adiados. O que impera é a política neoliberal de transferência de responsabilidade das decisões sobre a Cultura para a iniciativa privada, na medida em que a principal ação de governo é induzir os produtores e agentes culturais a utilizar os mecanismos de incentivo fiscal. Isso quando o próprio Governo não compete de forma desigual com os produtores independentes, indo ao mercado captar patrocínio para seus próprios projetos, como no caso emblemático da Ponte Hercílio Luz. E com isso, o que resta como marca de ação governamental são a ausência, o autoritarismo e a instabilidade na área cultural.

Na última segunda-feira, 25 de novembro, tive a honra de ser agraciado com a Medalha do Mérito Cultural Cruz e Souza. A maior honraria da Cultura no Estado, algo que nunca cobicei e que jamais imaginei alcançar. Ainda tenho dúvidas se de fato sou merecedor de tal distinção. Mas como estava em ótima companhia, resolvi aceitar. Juntos estavam, in memoriam, o mestre Zininho e o escritor Holdemar de Menezes, mais o coreógrafo Amarildo Cassiano, do Ballet Bolshoi de Joinville, o cenotécnico e administrador cultural Osni Cristóvão, o historiador e fotógrafo Joi Cletison Alves, e as instituições Associação Coral de Chapecó, Federação Catarinense de Teatro – FECATE, Museu Victor Meirelles e Biblioteca Pública do Estado.  Confesso que quando o escritor Amilcar Neves, membro do Conselho Estadual de Cultura, fixou em meu peito a medalha que leva o nome de Cruz e Souza, a emoção bateu forte e invadiu a minha alma. Um momento fugaz, que ficará guardado eternamente. Só que a realidade dos fatos logo me fez trocar em parte a alegria pela tristeza, o envaidecimento pela indignação.



A começar pela consciência de que a sina de Cruz e Souza, apesar da passagem do tempo, ainda persiste entre boa parte dos que se atrevem a fazer da arte uma profissão de fé.  Gênio do simbolismo universal, maior poeta brasileiro de todos os tempos na minha modesta opinião, Cruz e Souza morreu na mais absoluta miséria. Em vida, sofreu na pele negra a rejeição causada pelo preconceito e racismo, tendo suportado a dor de ver quatro de seus filhos morrerem de tuberculose e a mulher Gavita enlouquecer aos poucos diante de tanto sofrimento, decorrente da fome e da péssima condição de vida da família. De Minas Gerais, onde havia ido buscar tratamento para a tuberculose que por fim também o levou, o corpo de Cruz e Souza foi transportado em um vagão de trem que levava gado para o Rio de Janeiro, onde foi sepultado praticamente como indigente. Bastou morrer para que a sua genialidade fosse reconhecida, sendo alçado ao panteão do simbolismo universal ao lado de Verlaine, Rimbaud e Mallarmé. Mas seus restos mortais, trasladados alguns anos atrás para Florianópolis, a sua cidade natal, entre discursos demagógicos e foguetórios, vergonhosamente continuam abandonados num canto perdido do Museu Histórico que, solene e ironicamente, também leva seu nome – Palácio Cruz e Souza.

Enquanto as medalhas iam sendo distribuídas eu me afundava na poltrona e em meus pensamentos cada vez mais cinzas. Olhando o palco do Teatro Álvaro de Carvalho, fundado em 1857 e que tantos artistas e espetáculos memoráveis acolheu ao longo de sua história, lembrei-me de que ele também, Álvaro de Carvalho, o primeiro dramaturgo catarinense, igualmente não teve o descanso eterno que merecia e o respeito que se esperava dos governantes catarinenses. Seus ossos mortais continuam abandonados em Buenos Aires, aonde veio a falecer de febre tifoide em 1865.

Pensei em Zininho, o nosso poeta maior, autor do hino oficial da capital catarinense. Enquanto sua viúva e sua filha recebiam a comenda que, em seu caso, já veio tarde, também lembrei de toda a privação que passou no crepúsculo de sua vida. O nosso maior músico, Luiz Henrique Rosa, que naquela mesma data se vivo fosse completaria 75 anos, também foi solenemente ignorado. Assim como a data litúrgica, 25 de novembro, que é dedicada a Santa Catarina - padroeira dos artesãos, artistas, bibliotecários, jovens, estudantes e desse Estado – sequer foi mencionada pelo cerimonial, num lapso imperdoável. Pior foi constatar que o desprestígio e desapreço pela Cultura catarinense se evidenciava na ausência de quem se esperava exatamente o contrário. Não apareceu nenhum senador, deputado, representante do prefeito, vereador, secretário de Estado (além do titular da pasta do Turismo, Esporte e Cultura, Valdir Walendowski),  sequer representantes das entidades culturais (com raras exceções), assim como nenhuma cobertura por parte dos jornais ou emissoras de televisão. O próprio Governador do Estado, Raimundo Colombo, que foi quem assinou a outorga da Medalha do Mérito Cultural,  vim a saber pela coluna do Cacau que naquele exato momento tinha ido ao shopping assistir a um filme depois de  dez anos sem ir ao cinema. Poderia ter esperado um pouquinho mais. Gostaria muito de ter dirigido a fala que me encarregaram em nome dos homenageados (e que reproduzo em parte nesse artigo) olhando nos olhos do nosso governador só para ver qual a sua reação e o que teria para dizer. Por isso, só tenho uma palavra para resumir o que ocorreu: lamentável! 

Ao que parece, os sismógrafos dos políticos e governantes continuam desligados. Não captaram ainda os tremores que vêm das ruas, do povo anônimo e cada vez mais impaciente. Esqueceram-se dos ecos da “novembrada” (que hoje faz 34 anos e que também deve passar no esquecimento), assim como das “diretas já”, do impeachment do Collor e até mesmo das manifestações que varreram esse país como um tornado em meados deste ano. Podia ainda lhes lembrar da revolução francesa e bolchevique, da chinesa e da cubana, com as consequências diretas para os incautos governantes que também ignoraram as vozes inconformadas que vinham das ruas. Mas prefiro mirar a outra margem: se os governantes não mudam, que se mudem os governantes. Para tanto, é necessário que o povo se mobilize, permanentemente, determinado a combater essas redes piramidais de apadrinhamento que mantêm inabaláveis as estruturas desgastadas do poder e que permitem aos seus ocupantes manterem por longos períodos o estamento e o status que lhes asseguram as benesses e as vantagens que ele, o povo, banca. Mas para isso é preciso liberdade de informação e um processo contínuo de cidadania, educação e inclusão cultural. 

Ainda haverá o dia em que o slogan para esse nosso Estado, muito mais do que uma mera peça publicitária artificial, mas como reflexo concreto de um pacto pela Cultura entre governo e sociedade, seja de verdade “Santa, Bela e Culta Catarina”!



Jornalista e cineasta



Pós-verdade: verdade?


* Por Emanuel Medeiros Vieira


OUVINDO A “AVE MARIA DE FRANZ SCHUBERT, NA VOZ DE STEVIE WONDER

O que é verdade? Essa pergunta também foi feita a Jesus, durante o seu “julgamento”.

A realidade é difícil? Os fatos são dolorosos? Então, muda-se o conceito e abandona-se a verdade.

Num exemplo muito prosaico , ”vendedores” viraram “consultores” – consultores de perfume e de tudo.

É o reino do eufemismo!

Onde prevalece a propaganda, o mercantilismo, cerveja virou algo intrinsecamente ligada às festas de São João, tão enraizadas aqui no Nordeste.

Forrozeiros autênticos são abandonados pelos “sertanejos universitários” – que praga!

Já não basta a dupla sertaneja/goiana Joesley & Wesley, patrocinada pelo BNDES, Caixa Econômica e outras instituições dominadas pelo gangsterismo e pelo banditismo, que estão ou estavam no topo da República?

Nosso mundo acelera com velocidade estonteante a informação (não a “formação”).

Acelerar e aprofundar não são verbos semelhantes. Ou não?

Dispersei-me.

O adjetivo pós-verdade adquiriu importância e significância que “transcende o vernáculos e a semiologia da geopolítica internacional”.

Como alguém observou, o facciosismo fascista e a intolerância desumana hiperbólica, associam-se à hipocrisia flagrante que renega a veracidade factual do viver”. (…)

O niilismo está na soleira da porta.

A verdade é o que é; segue sendo verdade, ainda que pensemos o revés, disse A. Machado.

Qual a primeira vítima de, por exemplo, uma guerra? É a Verdade.

Alguém lembra que, ainda que a linguagem cotidiana não seja construída de forma lógica, entretanto ela e o mundo estão estreitamente ligados, como diria Ludwig Wittgenstein (1889-1951) – “Pois o mundo é a totalidade dos fatos”, constataria ele (lembrado também em artigo de Marcos Luna).

Fui obscuro? Não quis.

Um poeta espanhol disse que a verdade nunca é triste...

A busca de fabulação pode anestesiar a nossa dor, mas não pode prevalecer – senão será roubada a nossa autenticidade.

E eu só posso pedir que alguém acredite em mim, se previamente eu acreditar fundamente no que digo*
*Ludwig Wittgenstein, acima citado, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico.

Participou do chamado “Círculo de Viena”, que contribuiu para a renovação da lógica na década de 20 do século passado.

Ele é considerado um dos pais da “filosofia analítica”.

Estudou com Bertrand Russel (1892-1970) entre 1912 e 1913.


(Salvador, junho de 2017)




* Romancista, contista, novelista e poeta catarinense, residente em Brasília, autor de livros como “Olhos azuis – ao sul do efêmero”, “Cerrado desterro”, “Meus mortos caminham comigo nos domingos de verão”, “Metônia” e “O homem que não amava simpósios”, entre outros.






Canção Grata

* Por Carlos Queirós

Por tudo o que me deste:
— Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insônia, pelas ruas, como um louco...
— Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

In 'Obra Poética' 



* Poeta português.

domingo, 25 de junho de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, dois meses e vinte e nove dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Triste surpresa.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Canção sem explicação”.

Coluna Direto do Arquivo – Sílvio Lancellotti, crônica, “A morte de Ayrton Senna”.

Coluna Clássicos – Sêneca, reflexão, “A Sabedoria e a Alegria”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, artigo, “Manifesto dos mortos em defesa da UERJ”.

Coluna Porta Aberta – Pedro du Bois, poema, “Anunciar”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.




Triste surpresa


A vida, a todo o momento, nos surpreende, ora de forma positiva, ora negativa, ora, não raro, trágica até. Acontecimentos inesperados nos ocorrem, sem que tenhamos a menor condição de prevê-los, e mudam, da noite para o dia, nossa situação (reitero, para melhor ou para pior).

Podemos, por exemplo, ganhar na loteria, ou na megassena, ou em outro sorteio qualquer alguns milhões de reais e com os palpites mais improváveis, após termos jogado por anos e passado raspando o grande prêmio em “n” ocasiões. É sempre uma possibilidade. Só não tem nenhuma chance, óbvio, quem nunca joga.

Outra possibilidade positiva é o surgimento de alguma ótima oportunidade profissional (uma inesperada promoção, por exemplo) que nos chegue no lugar certo e no momento oportuno, modificando, subitamente, nossa situação para melhor. Quando acontece, é outra surpresa gratificante. Só não teremos a menor chance disso acontecer se estivermos, claro, desempregados, ou se, mesmo tendo emprego, nos sentirmos desmotivados ou formos despreparados para as funções que nos competirem exercer.

Podemos, igualmente, ser surpreendidos no amor. A mulher dos nossos sonhos – aquela que tínhamos a certeza que seria a única que poderia nos fazer felizes, mas que parecia tão inacessível e distante – pode, subitamente, mudar de ideia.

De uma hora para outra, há uma chance, mesmo que remota, dela se dar conta de que somos seu parceiro ideal. E, para a nossa surpresa, e mais do que isso, nosso pasmo e estupefação, pode facilitar a conquista, ou, quem sabe, nos conquistar, enchendo-nos, dessa forma, de esperança e de felicidade.

Pode acontecer? Claro, mesmo que pareça improvável e que a chance a nosso favor seja de uma em um bilhão. Afinal, ocorrência inesperada, como esta, já aconteceu inúmeras vezes, e com diversas pessoas. Não deixa, pois, de ser, também, uma possibilidade para nós.

Temo, todavia, baseado na observação e na experiência que os muitos anos de vida me conferem, que as surpresas negativas são mais freqüentes e em muito maior número do que as favoráveis.

Podemos, por exemplo, nos equivocar na escolha de um sócio, que nos aplique um súbito e decisivo golpe e arruíne nosso negócio, que parecia tão próspero e promissor, deixando-nos dívidas e mais dívidas e uma montanha do tamanho da Cordilheira dos Andes de contas a pagar. E justo no momento em que não tenhamos recursos sequer para a manutenção pessoal.

Isso acontece, e a todo o momento, e não temos a mínima condição de evitar, embora quem esteja de fora ache que sim. É aquela história: pimenta nos olhos dos outros... Afinal, nenhum pilantra mau-caráter traz essa característica de malandragem estampada na testa. Da prosperidade à ruína, portanto, há apenas a distância de um passo, um simples e corriqueiro passo, embora custemos a acreditar.

Outra triste surpresa, que pode nos abalroar subitamente e fazer ruir nosso mundo, refere-se à vida conjugal. A mulher dos nossos sonhos, por exemplo, aquela à qual confiamos nossa vida, que julgávamos incorruptível, leal e rigorosamente fiel, pode estar nos traindo com quem julgávamos o “melhor amigo” sem que tenhamos a mínima suspeita.

Podemos fazer um papel ridículo por meses, anos e até décadas, sem que venhamos a desconfiar. Lá um belo dia, sem aviso ou previsão, no entanto, podemos flagrar, acidentalmente, o casal infiel na cama, mantendo relações sexuais, numa incontestável comprovação pessoal do delito, em que não reste o mais leve resquício de dúvida.

Aliás, esta é a mais amarga e, todavia, a mais comum das surpresas. Ocorre milhares, talvez milhões de vezes por dia, em várias partes do mundo. Mas quando somos nós os surpreendidos... Perdemos a cabeça e a compostura. Daí haver tantas tragédias conjugais recheando o noticiário policial dos meios de comunicação.

Somos surpreendidos, positiva ou negativamente, em geral por outras pessoas ou pelas circunstâncias. Mas as melhores e piores surpresas são as proporcionadas por nossa própria natureza. Podemos, de uma hora para outra, por exemplo, descobrir em nós algum talento que nunca antes suspeitávamos. Podemos detectar em nosso interior muito mais força, vigor e resistência do que supúnhamos.

Mas podemos, igualmente, prospectar taras incontroláveis, tendências perigosas, para nós e os que nos cercam, que façam de nós monstros em potencial. Podemos, por outro lado, subitamente, descobrir que temos alguma doença incurável, que nos limite a vida a alguns meses, quando não a semanas.

Nada disso, porém, é mais tristemente surpreendente do que isso que Machado de Assis constatou e revelou em um de seus romances, pela boca de um de seus personagens: “A velhice ridícula é a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana”. E é circunstância para lá de comum, mas para a qual nunca estamos prevenidos.

Perder a dignidade, não importa em que situação ou por qual motivo, após uma vida inteira de disciplina, de trabalho, de sacrifícios e de abnegação, é simplesmente trágico e injusto! Ficar na dependência alheia, até para os mais comezinhos atos de sobrevivência, como comer, se vestir, se limpar etc., é dolorosíssimo para quem é vítima disso, além de ser sumamente constrangedor para os que o cercam. E, dependendo das circunstâncias, não há, sequer, a mais remota forma de prevenção contra tamanho constrangimento e tão triste surpresa da natureza humana.


Boa leitura.


O Editor.



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