terça-feira, 21 de novembro de 2017

O que demos


* Por Evelyne Furtado


Eu não te dei um poema
Te dei ombros, ouvidos,
Abraços e, talvez, mais um problema.
Você não me deu uma poesia
Você me deu o tal olhar,
Mais de uma flor e a volta da alegria.


* Poetisa, cronista e psicóloga de Natal/RN.
Hipocrisias

* Por José Calvino



No dia 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, foram desfechados ataques terroristas pela organização Al-Qaeda que entraram para a história da humanidade. Dois aviões que cruzaram Manhattan, em Nova Iorque, naquela manhã, atingiram o complexo do World Trade Center, onde estavam 17 mil pessoas.

Outra aeronave despencou meia hora depois sobre a sede do Pentágono e um quarto avião caiu na Pensilvânia. Mais de 3 mil pessoas morreram, incluindo os 19 terroristas. O que ocorreu nesse dia me fez reler o que há mais de 100 anos o escritor Tolstoi escreveu em seu livro “O Reino de Deus Está em Vós”, mostrando que: "A hipocrisia geral penetrou a tal ponto no corpo e na alma de todas as classes da sociedade atual que nada mais pode indignar quem quer que seja”.

Não é à toa que a hipocrisia, em seu sentido próprio, significa representar um papel: e representar um papel, qualquer que seja, é sempre possível. Fatos como estes: ver os representantes de Cristo abençoar os assassinos que se enfileiram, armados contra seus irmãos, apresentando os fuzis para a bênção; ver os padres de todos os credos cristãos participarem, necessariamente, como carrascos, das execuções capitais; reconhecerem, com sua presença, que o homicídio é conciliável com o cristianismo (um pastor assistiu à experiência da execução pela eletricidade), nenhum destes fatos surpreende mais ninguém... mais do que podem fazê-lo centenas e milhares de homicídios cometidos por ignorantes e muitas vezes sob o ímpeto da paixão. (Ver Obras Completas de Jukovski, Vassili Andreivitch; célebre poeta russo).



* Escritor pernambucano.
Perspectivas


* Por Eduardo Oliveira Freire


Todos me ignoram, mas estou nem aí”.

Como sempre, ele está calado e com o olhar superior em relação a tudo e a todos”.

Um dia, eles vão ver. Os meus projetos irão se concretizar”.

Não gosto dele! Sempre metido e envaidecido consigo mesmo”.

Eles me ignoram e eu os ignoro. Não vou perder o meu tempo em tentar ser simpático”.

Não vou falar com ele. É uma pessoa estranha”.


A noite segue seu rumo e os dois personagens continuam a construir
uma muralha intransponível entre eles.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/




Porque abraço o mundo

* Por Clevane Pessoa de Araújo Lopes

É preciso abraçar o Mundo para não perdê-lo:
ouvir a sonância e a dissonância de seus povos
conhecer as marcas de suas Terras
e tomar conhecimento da Natureza inteira...
Deixar que o nosso coração ritmado
se integre ao ritmo dos fenômenos naturais...

Abraçar o Mundo:
irmanar-se às outras gentes,
assimilar todas as diferenças
e somar pontos às igualdades
das demais Pátrias,
pois todos somos pertencentes à Terra,
semeados no mesmo Cosmos...

Abraçar o Mundo:
festejar as suas festas,
lamentar as suas guerras,
chorar as suas dores e misérias,
sobretudo, caminhar juntos para a verdadeira PAZ!


* Poetisa
Epifania


* Por Dairan Lima


Queria pescar o sono
com varinha de condão!
Vem, mestre do sonho, Sandman,
sopra tua areia dourada
nos meus olhos entreabertos!
 
Me leva ao teu castelo
de encanto e sedução.
Não permitas que eu sonhe
tristezas e desventuras.
 
Quero beijo na boca
suavidade de água caindo na pedra,
voo de pássaro no céu.

* Poetisa tocantinense



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, sete meses e vinte e três dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Grande “talvez”.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Oração do adolescente”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O anjo”.

Coluna Direto do Arquivo – Luiz Mascarenhas, crônica, “A chegada do cinema no Brasil.

Coluna Porta AbertaFabiana Bórgia, crônica, “Cena de filme”.

Coluna Porta AbertaEmir Sader, artigo, “Mais ou menos médicos?”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Grande “talvez”


As certezas que adquirimos ao longo da vida, aquelas constatações e convicções imutáveis, que nada e ninguém conseguem mudar, são escassas, escassíssimas, embora não venhamos a nos dar conta. Tudo é um imenso e virtualmente infinito “talvez”, que os parcos anos da nossa trajetória por esta aventura perigosa (mas fascinante) não nos permitem esclarecer.

Da minha parte, estou absolutamente certo de poucas coisas. A primeira, seguindo o princípio de Descartes (“Cogito! Ergo sum!”), é a de que existo. Afinal, penso! A segunda, ditada pela mais elementar das lógicas, é a da existência de Deus. Não tenho a mais remota e pálida ideia de como Ele é. Ademais, ninguém jamais teve, tem ou terá (a despeito das tantas e tantas afirmações a respeito). Mas tenho a total convicção da Sua existência, poder e glória. Basta olhar para o céu, numa noite estrelada, e ter em mente que essa infinidade de mundos foi criada por Ele. É o que me basta.

No mais... minhas convicções (como ademais, as de todas as outras pessoas) não passam de hipóteses, possibilidades e suposições. Mesmo a ciência humana restringe-se a somente isso. Por exemplo, vemos, amiúde, “leis” da Física, Química e Biologia, tidas e havidas como certezas, como princípios testados e comprovados por infinitas experiências e, portanto, supostamente imutáveis, serem refeitas, face a novas descobertas.

Detesto escrever sobre a morte, a terceira das grandes certezas que tenho. Sei que um dia deixarei o palco deste mundo, de forma suave ou traumática, sei lá (não há como saber) e que terá fim esta aventura fascinante e maravilhosa, que tenho o privilégio de encarar, que é a vida.

Isso, por mais que queira ou tente evitar, por mais prudentes que sejam os meus passos e mais saudáveis que sejam os meus hábitos, nunca terei como evitar. Esta, sim, é uma regra imutável, não mera hipótese, passiva de contestação. Ou seja, a de que todo o organismo vivo, esgotado seu ciclo vital (que varia de um ser para outro e ninguém jamais soube de quanto tempo que é), morre. E seu corpo físico se “transforma”. No caso, torna-se pó!

Todavia, até essa certeza é revestida de profunda, de possivelmente infinita, quiçá de absoluta incerteza, de monumental “talvez”. Refiro-me ao depois. Tão logo completamos o ciclo imposto pela natureza, o que ocorre? Tudo finda nesse momento? Perdemos de vez a consciência e nosso cérebro, nosso raciocínio, nosso “eu” se apagam, simplesmente, como um aparelho elétrico ao ser desligado da tomada, como este computador em que rabisco estas reflexões?

O que, de fato, ocorre? Existe, mesmo, essa essência imaterial no homem que se disperse no éter, mas permaneça com consciência, lembranças, sensibilidade e capacidade de entendimento? Ou essa “inteligência”, que tanto nos orgulha e que nos distingue dos bilhões de outros seres vivos, não passa de função mecânica, de efeito elétrico, de consequência de sinapses dos terminais nervosos, portanto explicável cientificamente e passiva de replicação? Quem pode responder a essa questão sem margem à mínima dúvida, sem recorrer a hipóteses, suposições e crenças? Ser humano nenhum pode!

Bem que cientistas já fizeram essa tentativa, e várias vezes. Houve inúmeros ensaios para de se transplantar cérebros brilhantes em corpos mais saudáveis do que aqueles que originalmente eles comandavam. Em vão! Parece, portanto, que a inteligência é intransferível. Mas onde a certeza? É outro grande talvez.

Na hipótese (a meu ver improvável) porém, da sobrevivência dessa nossa parte essencial, genericamente denominada de “alma” (ou de “espírito”, como querem alguns), como isso se dá? Onde fica essa parte imaterial? Pairando no espaço? Fica na própria Terra? Segue para outro planeta ou outra dimensão? Qual?

Muitos (não sei se a maioria) optam pela fé. Esta, até por definição, não requer a mínima explicação. É a crença absoluta e total, profunda e irrestrita no que é, objetivamente, incrível. No que, se fôssemos racionalizar, não acreditaríamos jamais.

Há quem tenha essa capacidade e ela, certamente, lhe é um bem. Faz com que quem tem fé não tema a morte e até, eventualmente, sinta ansiedade para que chegue logo. Mas isso não está no terreno racional da certeza. Por isso, não tenho como contestar o autor dos célebres “Gargântua” e “Pantagruel”, François Rabelais, quando constatou, a propósito da morte: “Vou em busca de um grande talvez”.Todos nós iremos um dia…

Boa leitura!

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Oração do adolescente


* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral


É complicado falar com um cara
que é tipo "o cara".
Fico meio que bolado
diante desse gigante que
nas figuras tem o olhar
tão tipo "abraço".
Então, assim, meio
que de leve
reconheço que sou
mais vago do que
meu entendimento
sobre química ou física,
mas sou consistente
quando te olho e respiro
fundo na certeza
de que o teu amor
não é conversa fiada.


Amém


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
O anjo


* Por Talis Andrade


O anjo esteve aqui
no sono, na morte
o anjo me enfrenta
com suas armas de luz

Não sei o que pretende.
Escuto suas asas
debaterem-se feridas
na noite sem fim
Os gritos do anjo
doem-me os ouvidos
( é um distante clamor )
e suo e estrebucho
no estertor da luta
da luta sem fim.




* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).




A chegada do cinema no Brasil

* Por Luiza Mascarenhas

A primeira exibição cinematográfica no Brasil aconteceu em julho de 1896, no Cinematographo Parisiense, que foi criado em um lugar adaptado, onde hoje funciona o teatro Glauber Rocha, no Rio, cujos proprietários eram Pascoal Segreto e José Roberto Cunha Salles. O primeiro cinema foi inaugurado em 1909, como Cine Soberano, que hoje é chamado de Cine Íris, também no Rio de Janeiro.


O primeiro filme a ser exibido foi uma produção dos Irmãos Lumière, chamado"Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière".

A notificação da imprensa deixa claro o quanto essa primeira exibição revolucionou a história das artes: “O animatógrafo Lumiêre passou a ser a mais sublime maravilha de todos os séculos. Ver as pinturas moverem-se, andarem, trabalharem, sorrirem, chorarem com tamanha perfeição e nitidez como se fossem naturais é assombroso! Salve Lumiêre! ”

As primeiras filmagens feitas no Brasil foram feitas pelos irmãos Segreto, imigrantes italianos que filmaram a Baía de Guanabara, á bordo do navio francês Brêsil.

No dia 5 de julho, eles filmaram a visita do presidente da Republica Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant. A partir daí, todos os acontecimentos políticos e festivos que aconteciam na cidade do Rio passaram a ser filmados.

Pascoal Segreto popularizou-se através de suas filmagens, passando a ser chamado de de "Ministro das diversões do Rio de Janeiro".


Em 13 de fevereiro de 1898, José Roberto de Cunha Sales (Médico e ex. sócio de Pascoal Segreto) realiza uma das primeiras exibições do cinematógrafo em São Paulo.

A primeira filmagem em terras paulistas, entretanto, foi feita por Afonso Segreto em 20 de setembro de 1899 em uma celebração da colônia de imigrantes italianos.

Depois destas filmagens, têm-se notícias de novas tomadas em São Paulo somente em 14 de janeiro de 1904, com vistas de fazendas de café, terreiros, gado e outros aspectos do interior do Estado.


O cinema se espalha por outras partes do Brasil, além do eixo Rio-São Paulo.



* Jornalista
Cena de filme


* Por Fabiana Bórgia


Foi exatamente isso que aconteceu. Eu e minha amiga estávamos saindo do trabalho, quando resolvemos que passaríamos na livraria, onde vou lançar meu novo livro. Então, o tempo fechou de repente. No lugar do sol forte que veio pela manhã, uma massa cinzenta começou a engolir o final do dia. Escureceu de repente. E veio o temporal.

Descemos do carro. As ruas já estavam alagadas. A água já estava na altura do joelho. Pensei: "Hoje é dia do Juízo Final. E não há arca de Noé que dê jeito". Visualizava as notícias do jornal, do dia seguinte, onde nós duas apareceríamos agarradas em postes, para que o vento não nos levasse, como se ali estivesse acontecendo um furacão. Sim, o homem brincou tanto com a natureza que havia passado um furacão pelo Brasil. E no Rio de Janeiro, ainda por cima!!! Quem disse que isso nunca ia acontecer? Ok. Tudo isso fruto da minha densa imaginação, mas a sensação mais inédita que eu tive nos últimos tempos.

Conseguimos entrar na livraria. Lá dentro, uma calmaria só. Tomamos café, comemos croissant, e como a chuva não passava, e eu estava morrendo de frio, porque estava toda molhada e nervosa, tomei uma taça de vinho, a fim de me acalmar e me esquentar.

Foram duas horas lá dentro e a chuva só aumentava. Os carros não conseguiam passar. Eu imaginei que meu carro já estivesse todo estragado e que não haveria ninguém que pudesse me acolher naquele dia de dilúvio.

Então pensei em Dorothy e O Mágico de Oz, e que não há melhor lugar no mundo do que a nossa casa. Também pensei em passagens bíblicas, principalmente quando o Mar Vermelho se abriu ao meio, para que o povo pudesse passar. Por fim, pensei também nas pessoas que não têm onde morar. E concluí que se era assim no Rio de Janeiro, imagine só nos outros cantos do nosso imenso Brasil...

Com tudo isso, entendi que não era filme. Não havia romance algum. Muitas pessoas estariam, no mínimo, desabrigadas. A realidade de alguns, simplesmente, era dura demais.

* Escritora por vocação e advogada por formação. Paulista por natureza e carioca por estado de espírito. Engenheira de sonhos: alguém em eterna construção. Autora do livro “Traços de Personalidade


Mais ou menos médicos?

* Por Emir Sader

O programa Mais Médicos serviu para trazer à luz pública o escândalo que é o processo de formação e profissionalização dos médicos das universidades publicas. O governo teve que apelar para médicos cubanos, porque os médicos brasileiros, formados gratuitamente nas melhores universidades brasileiros, se negavam a ir atender as pessoas onde mais se precisa que eles atendam.

Alegavam que o salário não era bom, que não havia condições de atendimento naquelas lonjuras, etc etc.. Saíram para as ruas querendo vetar o programa e considerando que teriam poder, pela influência sobre seus pacientes, para derrotar o programa e a Dilma.

Se deram muito mal. Apesar das exibições explicitas de racismo, o povo recebeu imediatamente da melhor forma possível o fato de que mais de 700 municípios, que nunca tinham tido médicos, passaram a ter médicos permanentes na sua própria cidade.

Uma medica cearense disse que "as médicas cubanas se parecem a empregadas domésticas", sem se dar conta de que fazia um enorme elogio a elas e a Cuba. Pessoas que aqui seriam empregadas domesticas, em Cuba são medicas.

As universidades públicas brasileiras formam grande quantidade de médicos, de que a grande maioria não tem compromisso algum com a situação de saúde do pais. Sem contrapartida alguma, saem dos melhores cursos de medicina do pais, que cursaram gratuitamente, para abrir consultórios em bairros ricos das grandes cidades brasileiras, atender clientela chique, que paga os tubos pelas consultas. Formados em universidades públicas, fazem da sua profissão uma fábrica para se enriquecerem, da medicina uma atividade mercantil.

Olhem onde estão trabalhando a grande maioria dos médicos brasileiros e onde estão a grande maioria de doenças no pais? Ha distância abismal. O médico deveria se ocupar das dores e dos sofrimentos das pessoas. Os médicos cubanos podem não ser melhores médicos do que os brasileiros, mas são certamente muito melhores cidadãos. Têm consciência de a quem têm que atender prioritariamente.

Para vergonha das faculdades de medicina públicas no Brasil, gente atendida pelos médicos cubanos dizem que eles "olham pra gente", "tocam na gente", o que significa que aqueles que apareciam às vezes por lá não olham pros pacientes, não tocam nos pacientes.

A composição atual do programa Mais Médicos incorporou uma grande maioria de médicos brasileiros, que não consideram que a remuneração é insuficiente, que vão atender as cidades e os pacientes que antes não eram atendidos. Mesmo com o governo golpista querendo terminar ou diminuir o programa, a população e os prefeitos cujos municípios passaram a ser atendidos, não o permitem.

Mas os cursos de medicina, na sua grande maioria, continuam a formar, nas universidades públicas, médicos para atender a população rica, ganhando fortunas. A política de cotas começa a dar frutos, formando as primeiras gerações de médicos negros, pobres. Porém isso se dá com grande dificuldade, por requerer que os estudantes dediquem 6 anos em tempo integral ao curso, com livros caros. Se tratava de apoiá-los com bolsas de estudo, mas o governo atual cortou esse apoio.

A própria imagem do medico como um tipo branco, de avental engomado, alto, bonito, nas mãos de quem fica o destino dos pacientes, ficou questionada. No inicio do Mais Médicos, só saiam às ruas gente de direita, para questioná-lo. O pessoal de esquerda parece que se sentia constrangido. Mas o governo teve uma grande vitória – especialmente pela ação da Dilma e do Padilha -, hoje a maioria esmagadora, sempre acima de 90%, da população, adora o programa e não quer mais ficar sem ele.

Agora o governo atende demanda elitista de setor dos médicos e proíbe a criação de novos cursos de medicina. Como se o Brasil não precisasse de mais médicos, mas o "mercado" quer manter a reserva para aqueles privilegiados que podem fazer cursos nas faculdades existentes e atender os pacientes que podem pagar as consultas que eles cobram.

É um crime de lesa humanidade. Reitera a imagem de que o governo golpista governa para os ricos. Forma médicos ricos, que atendem os ricos. E a saúde publica, o SUS, o Mais Médicos, que se danem.

Mais do que nunca um referendo revogatório se torna condição indispensável do resgate da democracia no Brasil. Que não se resume ao povo recuperar o direito de eleger o presidente da república, mas de ter seus direitos elementares atendidos, entre os quais a saúde de qualidade, gratuita, em todos os lugares do pais, é um deles.

O Brasil precisa de mais e melhores médicos e não de menos médicos. Precisa de médicos formados com recursos púbicos para atender a massa da população, aquela que mais requer atenção. Dinheiro público para formar médicos para o povo. Quem quiser atender clientela rica, que busque faculdades privadas e pague por seu curso.


* Sociólogo e cientista político