sexta-feira, 21 de abril de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos e vinte e cinco dias de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Lições da arte

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “A consciência de ser negro no Brasil”.

Coluna Do Real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, contp, “Dia ensolarado”.

Coluna Clássicos – Martins Fontes, poema, “Salomé”.

Coluna Porta Aberta – Pedro du Bois, poema, “Quem espera”.

Coluna Porta Aberta – Samuel C. Da Costa, poema, “Eu vejo estrelas no chão”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Lições da arte


A arte, essa manifestação de criatividade, capacidade de observação, perícia e habilidade do espírito humano se esgota por si só ou tem alguma finalidade maior, mais relevante, nobre e profunda do que em geral lhe atribuímos? Serve, apenas, para satisfazer os sentidos ou atua como catalisadora de reflexões e emoções? Tem limites precisos e definidos, ou seu campo potencial de atuação é o infinito e o eterno? Vocês já imaginaram o mundo sem artes? Seria, certamente, muito mais feio, prosaico e sem sentido do que já é.

Por mais trivial que a música, por exemplo, possa ser, fico sempre pasmo face à capacidade dos compositores de reunir sons dispersos e que, isoladamente, são até desagradáveis, em sinfonias e canções melodiosas, com harmonia e beleza, que me despertam reflexões e incontida admiração. Espanta-me a capacidade dos intérpretes de reproduzirem, exatamente como os autores conceberam, e quantas vezes lhes der na veneta, essas composições. Penso, sempre que ouço alguma canção bem-feita e magistralmente interpretada por terceiros: “como eles (os autores e intérpretes dessas façanhas) conseguem?”.

Minha admiração não é menor diante de um quadro bem-pintado. Ou ao apreciar uma escultura harmoniosa, como a do David, de Michelangelo – que só falta andar e falar, de tanto que se aproxima da perfeição. Ou de um poema de Rilke, de Shelley, de Lamartine e de tantos e tantos e tantos outros bons poetas, que “pintam” telas que se aproximam da perfeição, tendo por instrumento essa coisa tão frágil e de tão difícil manejo: a palavra.

Tudo isso, todo esse esbanjamento de perícia e criatividade teria um fim tão prosaico e trivial, qual seja, o de apenas despertar admiração em quem aprecie essas obras e nada mais? Entendo que não. Considero a arte um alimento essencial ao espírito, assim como outras tantas iguarias o são para o corpo. Sem ela, definharíamos, espiritualmente, nos embruteceríamos e ficaríamos por conta, exclusiva, dos instintos da fera, que de fato somos. A arte (refiro-me ao conceito e não a alguma aptidão artística específica) é, sobretudo, a grande testemunha, o distintivo, a comprovação inequívoca da nossa racionalidade.

Você conhece, porventura, outro animal que a pratique? Já viu algum cão compositor, algum gato cantor ou algum burro instrumentista? Já soube de algum papagaio que compusesse algum poema? Talvez você me responda que já houve gorilas “pintores”. Mas eles tinham, de fato, noção do que faziam? Apresentavam o mínimo senso de harmonia de cores, de jogo de luz e sombras, de simetria de figuras e vai por aí afora? “Pintavam”, pelo menos, algo sequer parecido com o que existe? Claro que não. Limitavam-se a “sujar” de tinta as telas que lhes eram apresentadas, sem a menor noção do que faziam.

Para que fosse possível a mais rudimentar noção artística, os outros animais teriam que contar com um mínimo de racionalidade. E, claro, com o máximo de habilidade que, evidentemente, não têm. William Somerset Maugham, um dos meus romancistas preferidos, que a cada livro seu que leio mais e mais me ensina sobre as pessoas, notadamente sobre o comportamento humano, escreveu, em um de seus romances (não me recordo em qual): “A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”..

E por que nos compete aprender esse elenco específico de lições? O artista descobre, por si só, no curso da elaboração da sua obra que, na verdade, não cria coisa alguma. Limita-se, tão somente, a reproduzir o que já existe, com a matéria-prima ao seu dispor.

Quem cria, de fato, é a natureza, da qual ele é filho e com a qual jamais haverá de rivalizar. Aprende, com a arte, a ser tolerante com as fraquezas alheias, espelhando-se nas suas próprias, comprovadas sempre que atinge seu limite e se vê impotente para ultrapassá-lo.

Com a humildade e a tolerância, adquire condições de se aproximar da sabedoria. Aprende a ser observador, a fazer analogias, a entender o funcionamento da natureza e tentar imitá-la, no que lhe for possível, fazendo projeções (de sons, imagens, formas, cores etc.), da melhor maneira que conhece.

E, finalmente, absorve a lição maior, a da magnanimidade. Ou seja, da mesma forma que a natureza lhe provê do essencial para sobreviver, e de graça, sem cobrar coisa alguma por isso, partilha o fruto da sua criatividade e talento com aqueles que o cercam. Ou, pelo menos, é o que deveria fazer.


Boa leitura!


O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk


A consciência de ser negro no Brasil



* Por Urariano Mota



Todas as vezes em que me debrucei sobre o tema do negro brasileiro, sempre encontrei obstáculos. O primeiro deles é que não existem negros no Brasil. Quero dizer, é muito mais que a sociedade fingir que os negros não sejam a maioria nacional. É mais que fingir. Na verdade, os negros não existem. Ou nem existimos como características físicas de cor escura, para ser mais preciso. Em dúvida, olhem as bancas de revistas, de jornais. Onde estão as capas com negros? Não há. Passeiem os olhos pelos canais de televisão, pelas lideranças empresariais, pelas direções de estatais, pelas universidades, pelos bairros limpos e confortáveis. Ao fim da mais leve ou refinada pesquisa, concluiremos: no Brasil, não existem negros. 


Mas apesar disso, devemos ir além das ilhas brancas do Brasil, esta grande cidade europeia. Então passemos pelos morros, favelas, prisões, faxineiros, operários, e, principalmente, pelos trabalhadores de menor salário em todas as categorias. O que ocorre? Parece que o Brasil vira negro. Apenas parece, porque não há, até mesmo aí,  uma consciência, um espelho onde o negro se veja como tal, inclusive nos lugares onde ele é majoritário. Com a devida exceção dos terreiros, quilombos e grupos de resistência, negros ainda são os outros. Se perguntássemos “aqui moram negros?”, muitos nos responderiam, incomodados, “aqui, não. Procure na favela mais distante”.


E por que isso se dá? Por que esse paradoxo de o Brasil ser uma das nações mais negras sem negros? Há um ditado popular, em sua infinita aspereza e flagra da pré-história da gente, que diz: “pobre não gosta de pobre”. Ou em uma versão adaptada: “negro não gosta de negro”.  O que isso quer dizer? Nada mais além do que pobres e negros não gostam do modo como vivem e são pintados em uma construção histórica, que até parece se transmitir no leite materno, como uma doença congênita. O que se associa à pobreza? Ignorância, fome, doenças, espancamento, sujeira, miséria e vergonha. E como é que alguém pode gostar de ser um infeliz desses? Uma vez um homem do povo me corrigiu, quando eu, desejando ter com ele uma fraternidade demagógica, lhe disse: “Nós, os pobres...”. Ele me interrompeu: “Pobre é o diabo”.


Então, no mesmo caminho da adaptação dos pobres, eu pergunto: quem é que pode gostar de ser feio, sujo, miserável, perseguido, espancado, preso, fedorento e estúpido?  Pois essas são as qualidades, o mundo imundo que aparece como o destino natural dos negros, o rosto pintado pela exploração e atraso secular do Brasil. Esse espelho não pode ser a face de um homem ou de uma mulher que honre a pessoa. Por aí já se vê o longo caminho de onde viemos e do muito ainda a ser alcançado. Um combate prático e de ideias, sem descanso ou conciliação. E que exige, por isso mesmo, o mais prolongado estudo, leitura e astucioso pensamento.


Creio que, para um começo de conversa, é necessário extrair a urtiga do mato da mistificação dos pensadores brasileiros. Mais de uma vez, pude notar um sintoma da barbárie nacional, quando vi que os melhores relatos sobre a nossa escravidão vêm de estrangeiros, como os descritos em Charles Darwin e Vauthier, o engenheiro francês que viveu no Recife. Ou de Maria Graham, a digna escritora que visitou Pernambuco em 1821. Cito as palavras da inglesa:


Os cães já haviam começado uma tarefa abominável. Eu vi um que arrastava o braço de um negro de sob algumas polegadas de areia, que o senhor havia feito atirar sobre os seus restos. É nesta praia que a medida dos insultos dispensados aos pobres negros atinge o máximo. Quando um negro morre, seus companheiros colocam-no numa tábua, carregam-no para a praia onde, abaixo do nível da maré-cheia, espalham um pouco de areia sobre ele”.


Mas na perigosa escrita de Gilberto Freyre o mesmo quadro se conta assim:


Foi numa praia perto de Olinda que Maria Graham, voltando a cavalo da velha cidade para o Recife, viu um cachorro profanando o corpo de um negro mal enterrado pelo dono. Isto, em 1821. Olinda pareceu à inglesa extremamente bela vista do istmo e da praia pela qual, indo do Recife, chegou até ao pé dos montes da primeira capital pernambucana”.


Vocês viram: o horror ocupa uma só linha em Gilberto Freyre, perdida na bela vista de Olinda. Quem quiser, confira, essa ocultação do real, está em sua Olinda, Guia Prático, Histórico e Sentimental de uma Cidade.


Gilberto Freyre é, seguramente, o homem que glorifica a colonização portuguesa. E nesse caso, tão brasileiro, pela dissolução da crueldade com ares de fazer graça, entre um pigarro no cachimbo e um costume bárbaro, como quem dilui a violência com uma piada. Nesse caso particular, é preciso vencer Gilberto Freyre. O poder da prosa de Gilberto Freyre, a bruxaria do que escreveu nos muitos trechos em que sacrifica a verdade para não perder o ritmo de um parágrafo, esse poder e esse feitiço têm que ser mortos. Mas antes, ele deve ser muito estudado. Contraditoriamente, antes de vencê-lo, Gilberto Freyre há que ser assimilado. Para mais adiante ser descomido, superado em uma etapa necessária rumo ao lugar onde a verdade da nossa história seja soberana. E se faça um acerto de contas com o passado escravocrata, estudado por ele a partir da casa-grande, que continua viva entre os brasileiros.


Darcy Ribeiro já observou que entre nós a solução do negro se deslocou da raça para a cor. São suas palavras, num enfrentamento com a democracia racial pintada por Gilberto Freyre, sem lhe citar o nome:


O preconceito nosso é por natureza diferente do preconceito americano. Aqui há um conceito curioso de branquização, o negro quando vai ficando claro, a mestiçagem facilita isso sobretudo quando vai ficando rico, fica branco. Esse preconceito de branquização é um conceito bonito, não é democracia racial. É branquização, é uma possibilidade até preconceituosa de que o negro é aceito como alguém que vai deixar de ser negro, que vai transar com todas as brancas que vão clarear os filhos deles.”


Segundo o mesmo Darcy, até o ano de 1850 cerca de 6 milhões de negros haviam entrado no Brasil como escravos. No mesmo período, os imigrantes brancos não passavam de 500 mil, e os índios, de 5 milhões de pessoas. É muito estranho, para dizer o mínimo, que um país com essa composição de raças pudesse se tornar um país branco, nas relações com o mundo exterior, que não se engana. Mas o que se deu? Carregamos nas costas, como um peso vivo, que nos oprime a todos, a colonização portuguesa e a sociedade de classes. Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes, mas a democracia não nos alcança como povo, nem como a nossa própria imagem. Há uma sobrevivência ideológica, de pensamento racista e excludente, que vai das Escolas Militares às instituições civis. Nós até admitimos que o Brasil seja produto de três raças. Mas – e esse “mas” é tudo – com a parte negra em seu devido lugar. Lá na cozinha, longe da sala de visitas. Não venha ele manchar com a sua presença a imagem do Brasil.


É preciso todos os dias acordar e arregalar bem os olhos para ver o que a névoa ideológica não deixa. Isto é, o que mais causa espanto: onde estão os generais, almirantes e brigadeiros negros? Onde estão os reitores, presidentes de senado, da câmara, governadores negros? Onde estão as nossas misses e modelos de exportação negras? Onde estão, de modo mais sério, os nossos grandes físicos e cientistas negros?


Essas não são perguntas retóricas. Entendam, porque até os mulatos que pularam a cerca e o cerco da exclusão no Brasil, em um trabalho extraordinário, heroico e colossal de autoeducação, como foi o caso de Machado de Assis, viraram  brancos. Vocês lembram, não faz muito um anúncio da Caixa Econômica Federal exibiu um Machado de Assis ariano, bem distante do queimadinho de sol. Mas não só ele atesta a nossa glória de nação europeia. Olhem, por exemplo, as imagens que viraram ícones de Carlos Gomes, de Castro Alves, ou num exemplo menos ilustre, de Roberto Marinho. Veem? Viraram todos brancos, ou quase brancos.


Haveria muito ainda a falar. Mas para o dia 20 de novembro, dia da consciência negra, que assinala a morte do grande Zumbi dos Palmares, destaco o ocorrido com o seu nome, no bairro do Zumbi no Recife. Quando pesquisei para o Dicionário Amoroso do Recife, pude ver que  na língua portuguesa o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou com o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança póstuma contra um herói na luta contra a escravidão.


E quanto ao bairro?  O Zumbi, no Recife, foi o Engenho de Ambrósio Machado, lugar de cultivo de cana no trabalho escravo, desde a dominação holandesa. O sociólogo e jornalista José Amaro Correia, assim me informou, lembrando o bairro onde ele morou na infância:  “Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena. Nos anos 50, ainda  falavam para as crianças que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”.


Assim pude ver a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltaria Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários. Que deveria receber um novo significado, que a consciência do novo tempo nos ensina. Deixo a sugestão para atualizar o verbete nos dicionários:


Zumbi, substantivo masculino. Nome do herói brasileiro, pessoa de rara coragem, que se levantou contra a escravidão. Falecido no dia 20 de novembro, deu origem ao dia da consciência negra.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros






Dia ensolarado



Por Eduardo Oliveira Freire



- Mãe é só a gente?
 
- Sim.
 
- E o pai e a mana?
 
- Estão em casa. Só a gente vai para a casa de campo.
 
- Legal!!! Mas, você não está braba comigo?
 
- Não. Você fez alguma coisa de errado?
 
-Não. A viagem dura quanto tempo mesmo?
 
- Duas horas.
 
 Sofia  viu o filho dormir ao seu lado. Era um olhar de ternura. Estava cansada, não gostava de dirigir e principalmente para lugares distantes. Não queria parar, desejava chegar logo.  Chegaram ao entardecer. Ela preparou um lanche bem caprichado para o filho. Ele estava radiante por estar só com a mãe.

- Mãe, amanhã vou tomar banho de piscina, andar de bicicleta e andar pela mata.
 
Vou fazer tudo isso com você.
 
Quando o garoto dormiu. A mãe ligou para a casa:
Oi amor,  como está Aline?
 
- Tá com febre e muito agitada. E aí...
 
- Tudo certo.
 
- Espero que tudo corra bem...
 
- Conversamos depois... me deseja sorte.
 
- André tá dormindo? Queria falar com o meu filho...
 
- Melhor não Rodrigo, deixa tudo como está.
 
Foi uma semana maravilhosa para André. Só fez o que queria. A mãe colocou nenhum limite. Ele tinha doze anos. Sofia quando o via nadando e correndo pela mata, ficava admirada. Percebia como o seu filho crescia, porém ao se lembrar do motivo de estar ali, sentia-se triste.

–  Mãe, que olhar triste é esse?
 
- Nada filho. É bobagem sua.
 
- Hoje é domingo, que horas a gente vai embora.
 
- Ficaremos até segunda.
 
- E a escola?
 
- Não esquenta. Um dia sem ir...
 
- Tá bom.
 
Noite. André tomava banho. Sofia ligou para casa.
 
- Me deseja sorte. A Aline tá bem?
 
- Continua muito doentinha... parece ser emocional.
 
- Cuida dela. Tudo vai ficar bem.
 
Ela foi à cozinha. Colocou um sonífero no refrigerante do filho, começou a chorar, mas, não desistiu do que faria. “ É para o bem de todos”. André saiu do banheiro e foi para a mesa. Alguns minutos, o menino sentiu muito sono e a mãe o ajudou ir para cama. Sofia pegou uma pequena faca e cortou a garganta do filho, o sangue jorrou pela cama e na roupa da mãe. Desesperada, urrou como se tivessem dilacerado o seu ventre. Abraçou o cadáver do filho.

André era um menino cruel. Torturava e depois matava vários animais de estimação que a família pegava para criar. Espancava os colegas da escola e da rua. Manipulava todos com sua inteligência doentia. Os pais procuraram os melhores psicólogos e psiquiatras, contudo, nenhum tratamento dava jeito na sua essência má. O estopim foi quando ele violentou a irmã mais nova, que tinha apenas quatro anos.

- Adeus meu filho. Que sua alma demoníaca encontre salvação. Tenho que crer nisso...


* Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, com Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá.
 


Salomé


* Por Martins Fontes


Ora, em Maqueros, perto da
Terra sagrada de Judá,
Num dia do mês de Shebat*,

O tetrarca da Galileia,
Filho de Herodes da Idumeia,
Reúne em magnífica assembleia,


Vitélio e vários dentre os seus
Homens e amigos galileus,
E os sacerdotes do seu Deus,


E honra o procônsul dos romanos,
Dando um banquete aos soberanos,
No dia egrégio dos seus anos.


A sala imensa do festim
É toda feita de algumim
Tauxiado de ouro e de marfim.


A mesa augusta ergue-se ao lado,
E assenta sobre um largo estrado,
Que é de sicômoro lavrado.


Turbando as chamas e os metais,
Sobem as fúmeas espirais
Dos incensários aromais.


Brilham os sifos dos convivas
E altas crisendetas* festivas
Cheias de figos e de olivas.


Veem-se amêndoas de Belém.
E as áureas ânforas contêm
Os vinhos róseos de Siquém.


Pela extensão da mesa nobre,
Por entre palmas, se descobre
A neve em cíatos de cobre.


Servem-se polmes de açafrol,
Romãs e tâmaras de Escol,
Bolos de melro e rouxinol.


Em cismas lúgubres absorto,
Antipas vê, de longe, o porto
Tranquilo e triste do mar Morto.


E o seu cismar enche-se de
Sombras horríficas, porque
A morte próxima prevê.


Contudo, às vezes conversando,
Disfarça as mágoas; porém, quando
Vai o banquete terminando,


O velário de um pavilhão
Se abre: Herodes no salão
Surge entre anêmonas, então.


E erguendo a pátera florida,
Diante da sala comovida,
Declama: “A César, longa vida!”


É nesse instante triunfal,
Exatamente no final
Do ágape esplêndido e fatal,


Que, do fundo das galerias,
Num incêndio de pedrarias,
Desponta a filha de Herodias.


E ao som de mandora e quinor,
Num flavescente resplendor
De gemas de Sirinagor,


Entre os aplausos do delírio,
Virgem e leve como um lírio,
Entra dançando ao modo assírio.


Fascinadora, Salomé
Levanta o véu, que desce até
À asa recurva do seu pé.


E em torcicolos coleantes,
E na volúpia das bacantes,
Tine as crotálias ressoantes.


Ri-se, e na dança tem o dom
De deslumbrar, variando com
A ondulação de cada som.


Gira em volteios colubrinos*,
Lentos, elásticos, felinos,
Ao retumbar dos tamborinos.


Em tentadora inebriez,
Mostra a morena calidez
Doirada e bíblica da tez.


Chega-se a Antipas, e recua…
Ascende aos poucos, e flutua,
Maravilhosa e seminua…


Avança e foge, e vem e vai,
Ondula, e ala-se, e recai
Em posição de quem atrai…


Seu corpo nimba-se envolvido
Por um translúcido tecido,
Que é como um fluido colorido.


No desvario que a seduz,
As mil imagens reproduz
Da flor, dos pássaros, da luz!


Arfam na graça dos coleios,
Nos redopios e meneios,
Os pomos pulcros dos seus seios…


Ante o seu mágico poder,
Diz-lhe o tetrarca sem conter
O entusiasmo do prazer:


– “Pede-me tudo o que quiseres!
Qual a província que preferes,
Flor luminosa entre as mulheres?”


– “Tu és tão bela que nenhum
Prêmio te paga! E só por um
Beijo, eu te dou Cafarnaum!”


E ela, infantil, em voz que freme,
Assim lhe diz: “Dá-me em estreme…”
Murmura um nome… E Herodes treme!


Pede que não, e exora… Mas
A sala ordena pertinaz:
– “Tu prometeste – e tu darás!”


Depois, num grande prato de ouro,
Entre as aclamações em coro,
Com os olhos úmidos de choro,


Nas mãos de um fâmulo idumeu,
Diante do povo galileu,
De Iocanã* apareceu,


Bruta, a cabeça ensanguentada,
Que, pelo gume de uma espada,
Fora do tronco separada.


Da sua pálpebra, a fulgir
Como uma hidrófana de Ofir,
Vê-se uma lágrima cair…


Ante essa lágrima tristonha,
Herodes julga a voz medonha
Ainda escuta, como quem sonha…


Ouve dizer-lhe Iocanã!
– “Tetrarca impuro, a vida é vã,
E a tua amante é tua irmã!”


Serena, a lágrima resvala,
Tremula e cai. E toda a sala,
Cheia de espanto e horror, se cala.


Mas Salomé, flor de Engadi,
Ao Precursor, num frenesi,
Diz: “Por que choras?” E sorri.


E ele responde: – “A causa desta
Última lágrima funesta,
É ter chegado tarde à festa…


Pois me fizeste, a meu pesar,
Por tanto tempo demorar,
Que não te pude ver dançar…”


In: MARTINS FONTES, José. Verão. 4ª edição, comemorativa do centenário de nascimento do autor. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1983. p. 92-97.



* Médico, poeta e tradutor.
Quem espera


* Por Pedro du Bois


Na espera deformo a realidade
em que parte reflete novas imagens
e outra antecipa angústias

deveria estar acostumado
pois cada espera cria suas expectativas
ao aumentar e
ou retornar velhos fantasmas

razão para não ter chegado
nem abreviado o tempo necessário
suficiente
e raso para novas esperas

na espera encontro a outra imagem: vozes
sussurram alvíssaras em coros fracassados

na tentativa do equilíbrio
a espera traduz a sensação
de passar por baixo da escada.


* Poeta, autor do livro “Brevidades”, lançado através do Projeto Passo Fundo – blog HTTP://pedrodubois.blogspot.com.br