quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e vinte e um dias de criação.


Leia nesta edição:


Editorial – Gosto por algarismos.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “A primeira vez”

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Projeto Gemini”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Refúgio”..

Coluna Porta Aberta – Assionara Souza, poema, “invólucro”.

Coluna Porta Aberta – Bruno Lima Rocha, artigo, “A capacidade investigativa global dos EUA”.

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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação. 
Gosto por algarismos


Os números sempre me fascinaram, não sei bem por qual razão. Aliás, não sabia, pois não faz muito descobri o por quê. Mas isso explico depois. Como ia dizendo, sempre tive facilidade (diria que inata) para cifras, cálculos, contas as mais complexas e variadas. Na escola, por exemplo, essa minha aptidão tornou-me popular entre os colegas. Afinal, nove entre dez estudantes se queixam da matemática. Talvez essa minha estimativa seja um tanto exagerada, mas a maioria dos alunos não gosta mesmo de raciocinar.

O pitoresco é que, embora tenha enveredado para profissões caracterizadas pelo uso das letras (jornalista e, posteriormente, escritor), quando cursava o primário eram os números que salvavam minha média, no boletim escolar, para indisfarçável orgulho do meu pai.

Quando a professora colocava na lousa algum problema, por exemplo, era até covardia. Cheguei a ser advertido em várias ocasiões por minha afoiteza. Mal ela completava a questão, eu já estava de mão erguida, com a solução na pontinha da língua. Isso atrapalhava a aula, ela dizia.

Foi um fascínio quando aprendi o conceito de frações. Calcular o máximo divisor comum e o mínimo múltiplo comum tornou-se, para mim, grande diversão. Claro que os colegas me olhavam como se eu fosse uma aberração, um ET que eventualmente houvesse caído na Terra. Mas essa aptidão fez com que meu cartaz com as menininhas (e estudei com algumas lindas, lindas) fosse às nuvens, o que se tornou vantagem sobressalente e inesperada.

E quando fui “apresentado” à álgebra?! Foi a glória! Virou mania para mim. Mais para a frente, já no antigo curso científico, diverti-me com fatoração, cálculo diferencial e integral e, sobretudo, com a trigonometria. Estranhamente, não me saí tão bem, pelo menos não como com a álgebra, em geometria. Mas deu para o gasto.

Quando fazia cursinho para prestar vestibular de Medicina, cheguei a ganhar um bom dinheiro dando aulas particulares de Matemática. Tive, então, alunos que já estavam bem mais adiantados do que eu nos estudos, que eram universitários, mas sempre me saí bem. Trago no meu currículo o fato de nunca alguém que tenha aprendido comigo haver sido reprovado. Foi aproveitamento de cem por cento.

Nessa época, eu morava em uma república, no distrito de Barão Geraldo, aqui em Campinas. Não tínhamos televisão em casa e, por isso, os domingos e feriados, em que não podia por algum motivo me encontrar com a namorada, tendiam a ser chatíssimos, principalmente quando chovia. Sabem o que eu fazia para me distrair? Resolvia problemas matemáticos. Tinha livros e mais livros com as questões que haviam caído nos principais vestibulares do País. Resolvê-las tornou-se, para mim, a coisa mais divertida do mundo. Claro que os colegas me consideravam um “maluco de pedra”.

Professores, parentes e amigos recomendavam-me que escolhesse alguma carreira em que os números fossem fundamentais, como engenharia, arquitetura ou, até mesmo, a física. Nenhuma dessas profissões, contudo, me fascinava. Eu queria porque queria ser médico. Quando tive que desistir da Medicina, já no segundo ano, por circunstâncias absolutamente alheias à minha vontade, poderia ter optado por alguma dessas atividades. Seria o mais lógico a fazer. Não optei.

Enveredei pelo jornalismo, fui tomando gosto pela coisa e produzindo, à margem, meus furtivos textos literários, que mantive, por muito tempo em segredo, na gaveta, longe dos olhares (críticos e indiscretos) alheios, até que assumi de vez o primitivo e quase esquecido sonho de menino: ser escritor.
Como ia dizendo no início dessas recordações, um dia desses descobri a razão de tamanho fascínio pelos números. E quem me abriu os olhos foi alguém dos mais ilustres (e põe ilustre nisso!). Foi ninguém menos do que Machado de Assis.

Lendo a série de crônicas que ele publicou em sua coluna “História de quinze dias”, no jornal “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro, na datada de 1° de junho de 1876 deparei-me com este trecho revelador: “Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica”.

Eureka! Bateu instantaneamente no cocuruto um relâmpago de compreensão! É isso aí! Como o mais genial escritor brasileiro, também descobri que gosto dos algarismos por eles não serem de meias medidas. Caracterizam-se pelo rigor, pela exatidão, pela certeza. São o oposto da vida, embora eu a encare como intrincadíssimo problema matemático que me desafia a solucioná-la. Estou tentando.

Ademais, gostaria que as pessoas (todas elas, inclusive eu) fossem como Machado de Assis diz que são os algarismos: sinceros, francos, ingênuos. São três características francamente em falta nos relacionamentos cotidianos, não importa sua natureza, se afetivos, profissionais, sociais etc.etc.etc. Mas isso já é querer demais, não é mesmo?


Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A primeira vez

* Por Mara Narciso
 
Nas viagens, a ida me parece mais demorada do que a volta, geralmente mais rápida e sem apreensões. Desbravar caminhos, descobrir coisas e pessoas é tão emocionante quanto ameaçador. A cada curva, (de caminhos ou de pessoas) uma descoberta, uma emoção, um susto, e até perda do fôlego. Quantas vezes abri os olhos e a boca diante de uma maravilha? E a vida continua me mostrando bons lugares e ótimas pessoas.
 
No ramo do desbravamento, nos finais de ano, Roberto Carlos lançava seu infalível LP – Long-Play, uma bolacha de vinil com 12 músicas, ou seja, vinte minutos de som de cada lado. Menina ainda, contando moedas, meu desejo era ter todo o montante para adquirir o disco. Poucas vezes consegui. Juntava o dinheiro com dificuldade, pois para mim era uma fortuna. Entrava dezembro e eu me agoniava na espera, até saber que o disco já tocava na Disco Brasa.
 
Pura emoção, abraçada ao presente, chegava a casa para começar a exploração: olhar, cheirar, desembalar, manusear carinhosamente e ouvir o tesouro. Ainda me chegam às narinas os cheiros de cola e dos produtos da confecção do disco. Eu era uma menina pobre e apaixonada. Havia na casa uma radiola, quase sempre quebrada, dentro de uma caixa de madeira em dois tons. Era automática, algo glorioso e tinha um som potente, que retumbava na minha magra caixa torácica. Punha o LP no prato, acionava o botão, o braço se levantava, deslocava até a primeira ranhura, fazia pontaria e caia suavemente, com sua delicada agulha sobre o início da primeira música. Então a viagem começava.
 
Depois, perscrutava cada centímetro da capa, da frente e do verso, além do selo do disco. Os nomes dos produtores, linha por linha, cada autor da letra e melodia. Admirava tudo naquele produto caprichado, projetado em cada detalhe. Coisas que me marcavam, se eternizando nos meus cinco sentidos, seja a luz de dezembro, sejam os chiados da máquina primitiva, escutados centenas de vezes.
 
A aventura me despertava encanto e prazer, pois a primeira audição era uma experiência única, da introdução ao fim, com a espera da próxima atração. Gostava de tudo. Logo decorava a sequência e cantava junto. E se a música caísse em cheio no meu gosto, como algo magnífico, era ouvir até “furar o disco”. Algumas faixas ficavam de cor mais clara de tanta repetição. Milena, minha mãe, afirmava que se Roberto Carlos gravasse um uivo eu aplaudiria. De fato, naquele tempo, tudo que ele gravava, automaticamente ganhava qualidade, pelo dom transformador que tinha.
 
Depois das seis músicas de um lado, era preciso virar o disco, refazendo toda a operação manual de acionar o botão do braço, e esperar iniciar o outro. De um modo geral as melhores músicas ocupavam o lado A. As do lado B tinham qualidade mediana. Daí se dizia: “este material mal dá para encher o lado B do disco”, para designar música ruim. E também, para dizer, melancolicamente, que a vida já estava no fim: “está tocando o final do lado B”.
 
Comparando aquela fase com hoje, tivemos uma evolução descomunal na armazenagem de música. Digitalizada em MP3, um pendrive de 16 gigabytes armazena perto de cinco mil músicas ou 420 LP. Quem iria se interessar por isso? A oferta cria a demanda. Até devido à imensa extensão, que dificulta decorar a sequência, viajar por ele traz emoções semelhantes aos outros tempos, dos recursos escassos, e que agora me chegam em abundância. Valorizo tanto quanto antes. Ligo o carro, o pendrive começa, sem eu acionar nada, o som invade meu corpo, a música vai à frente abrindo o caminho e eu a sigo, flutuando em sua melodia e nos sentimentos que me transbordam.

* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”


Projeto Gemini

* Por Urda Alice Klueger

Sempre digo que me criei numa época maravilhosa, onde aconteceram coisas tão fantásticas como nunca o mundo tinha visto. Essas coisas vão desde os Beatles até o movimento hippie, com sua quebra dos valores estabelecidos, e entre elas, sem dúvida, uma das mais empolgantes foi a corrida espacial.

Eu ainda não sabia ler quando me chegou a primeira informação: o Sputnik, artefato soviético que andou entrando na órbita da terra. O Sputnik chegou até mim através de uma revista infantil chamada “Reizinho” – minha irmã mais velha foi quem leu para mim a história do Reizinho às voltas com um Sputnik que ele não entendia.

Em seguida, houve a história da cachorra Laika, que havia entrado em órbita terrestre. Talvez Laika tivesse viajado no próprio Sputnik, não sei mais – o que sei é que nasceu uma ninhada de cachorrinhos, lá em casa, e a cadelinha mais bonita recebeu o nome de Laika. Bem empolgantes foram os meus primeiros contatos com a corrida espacial! Só tinha que me envolver com ela!
Em 1961, quando estava no segundo ano de escola, minha professora, a Irmã Rosária, contou-nos que um ser humano, dentro de uma nave espacial, andara na órbita da Terra. Não sei o que as outras crianças acharam, mas para mim foi o máximo: para uma criança que tinha uma cachorra chamada Laika e que já prestara atenção no Sputnik, aquilo era uma baita novidade. Se a memória não me falha, o ser humano em questão chamava-se Iuri Gagarin.

Daí para a paixão total pelo assunto foi um pulo, principalmente quando os Estados Unidos entraram na corrida espacial e começou o projeto Gemini.

Quantas Geminis foram para o espaço? Já não sei mais, mas foram muitas. Sei é que não perdia mais um noticiário, no rádio, de meio-dia e de noite, para ver se havia alguma notícia nova sobre o projeto Gemini.

As naves espaciais Gemini sempre levavam dois ou três astronautas, e é claro que eu também iria ser astronauta quando crescesse. A cada nave que ia para o espaço, eu passava dias e dias o mais que podia junto ao rádio, acompanhando todas as possíveis notícias sobre cada astronauta, vivendo a vida deles, querendo respirar por eles.

Houve uma viagem de uma Gemini que não deu muito certo: na hora de reentrar na atmosfera da Terra, alguma coisa saiu errada, e a nave não podia mais voltar. Meu Deus, o que seria dos meus maravilhosos astronautas que eram como pessoas da minha família? Eles iriam morrer lá em cima, quando acabasse o oxigênio – um astronauta era alguém sagrado, não podia morrer! Ah! Como eu rezei naqueles dias, o quanto pedia a Deus e ao meu anjo-da-guarda que ajudasse os estadunidenses para que eles achassem uma solução, para que salvassem os astronautas! Era indizível a minha angústia, impossível sossegar ou dormir quando sabia que, lá no céu, em algum lugar, alguns astronautas poderiam, dali a algumas horas, ficar sem oxigênio e morrer!

Os estadunidenses acabaram achando o ângulo certo para a nave reentrar na atmosfera, e os astronautas por quem eu tanto rezara acabaram caindo no Oceano Pacífico, e saíram da sua Gemini sorrindo para todo o mundo. Essas imagens a gente via nas revistas, na semana seguinte, e elas aqueciam o coração, como aqueciam!

Daí, já perto de 1970, quando eu já era uma adolescente, mas não tinha perdido nem um pouquinho do meu entusiasmo pela corrida espacial, uma Gemini chegou à lua! Só fui ver as imagens televisadas anos depois – ainda não tínhamos televisão, continuávamos com as fotos das revistas, mas aquilo foi uma das coisas mais fantásticas que poderia ter acontecido! É claro que depois da lua iríamos a Marte, e a outros, outros e outros planetas. Eu me aplicava na escola para estar bem preparada na hora de ser astronauta, mas a coisa mixou. Depois da lua, o Projeto Gemini foi parando... parando... até que parou de vez. Vieram outras coisas, depois, ônibus espaciais, coisas assim, mas a magia do projeto Gemini nunca mais voltou.  Acabei sendo escritora, sem a menor chance de algum dia chegar à astronauta. Foi uma pena! Teria sido muito mais divertido se o antigo sonho tivesse dado certo!
 
Blumenau, 28 de junho de 1997.


* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).


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Refúgio

* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral

Onde se esconde o poeta?
Poeta é raça em franca extinção.
Morre o planeta dia a dia
por conta da total alienação.
O poeta? Sucumbe diante
de uma inanição voraz
que comeu no homem
o que restava de amor…

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário


Invólucro

* Por Assionara Souza

Que susto é esse
Com que se nasce
Sina ou aceno
Destino incerto
Será de carne?
Gesso, talvez?
Papel carbono?
Bala de goma?
Eu mesma tenho
A irmã também
Em meio ao corpo
Tanto adversa
Como uma falta
Gritando o tempo
Vazio intenso
Pleno de signo
Foi Deus quem fez?
A mãe quem quis?
Algum juiz?
Quem foi, quem diz?
Desenho liso
Mole mucosa
Aberta em flor
Tão desastrada
Seu nome esconde
Outra morada
Tão proibida
Tão desejada
É quente é fria
Aguada ou seca
Conforme oscila
O que deseja
Se vai crescendo
Desconfiada
De tão estranha
A anatomia
A noite escorre
Em sonho ardente
Todo o delírio
Da tarde ausente
Por causa dela
Sofre a menina
Depois a moça
E a mulher
Horror antigo
Ser devassada
Pela espada
Do invasor
Guarda em coeiros
Paninhos santos
Mil cadeados
Perdem o encanto
Estranha ilha
Para onde rumam
Aventureiros
E suicidas
Como acordá-la?
Empoderá-la?
Politizá-la?
Incêndio. E ela!
Coisa partida
Atravessada
Margem do cio
Enviesada
Coisa mil vezes
Interpretada
Analisada
E incompreendida
Coisa banida
Das decisões
Enclausurada
Domesticada
Como enfrentá-la
Assim de frente?
Espelho à mão
Riso contente?
O bicho esquivo
De unhas longas
Uivo afiado
Pescoço esguio
Todo o corpo
Transcende o ato
Eis o mistério
Desse aparato


* Escritora potiguar residente em Curitiba.
A capacidade investigativa global dos EUA


* Por Bruno Lima Rocha


Desde o início da Operação Lava Jato viemos destacando a necessidade de interpretação da Cooperação Judicial do Brasil com os Estados Unidos dentro da grande estratégia de projeção de poder da Superpotência. Através do Departamento de Justiça (DoJ, equivalente ao Ministério da Justiça, MJ nacional) e em estreita coordenação com os departamentos de Estado e Defesa, além de integração interagências, o ainda país mais rico do mundo exerce sua influência jurídico-criminal de forma seletiva e discricionária em escala planetária.
Tomando por base a descrição de funcionamento de seus organismos especializados e de fonte direta (DoJ e FBI), neste texto podemos observar um demonstrativo de duas medidas punitivas permanentes: corrupção empresarial e desvios de verbas oficiais. No caso, são dois alvos, um ex-governante da Nigéria e uma empresa transnacional francesa, possível concorrente e rival das TNCs com base nos Estados Unidos.

Trata-se de um exemplo de atuação dos EUA, tomando por princípio que qualquer uso de empresas ou instalações bancárias com pessoa jurídica em sua jurisdição territorial ou a esta subordinada no estrangeiro, pode ser alvo de operações legais da Superpotência. Com a capacidade inequívoca de quebra de sinais e vigilância na movimentação financeira, o Departamento de Justiça opera com capacidades extraterritoriais. Vejamos o caso do ex-ministro das Minas e da Geologia da República da Guiné, Mahmoud Thiam condenado a sete anos de prisão dentro dos EUA por supostamente haver recebido propina e ganhos advindos de corrupção na assinatura de contratos com empresas chinesas, China Sonangol International Ltd. (China Sonangol) and China International Fund, SA (CIF). Thiam foi acusado de haver recebido U$d 8,5 milhões entre ganhos ilegais e operações de lavagem de dinheiro (ver: https://goo.gl/VAP5TR)

As operações de investigação foram levadas a cabo pelos escritórios do FBI em Nova York e Los Angeles, através da unidade de Esquadrões de Corrupção Internacional e em coordenação com a promotoria especializada na Seção de Fraudes, dentro da hierarquia direta do Departamento de Justiça. Esta Seção é responsável por investigar e processar atos abarcados pela Unidade de Foreign Corrupt Practices Act (“FCPA”). O FCPA foi estabelecido em 1977 e tinha como alvo permanente pessoas físicas e jurídicas atuando em solo dos EUA e alguns enquadramentos do  mercado de ações internacionais. A mudança de escopo se deu em 1998, quando os alvos potenciais se tornam quaisquer empresas ou pessoas físicas que utilizem em algum momento de um ato ilícito, alguma dependência física ou estrutura corporativa dentro da jurisdição soberana dos EUA. Quaisquer empresas ou conglomerados transnacionais que tenham ações negociadas na Bolsa de Valores de NYC, ou tenham acordos de auditoria e aval contábil de empresas estadunidenses pode vir a ser foco de investigação federal (ver: https://goo.gl/hU3tmn).

Como braço operacional do FCPA, o governo Obama criou em 2015 os Esquadrões Internacionais Anti-corrupção do FBI. São três esquadrões baseados respectivamente nos escritórios de Los Angeles, NYC e Washington D.C. (na sede do Bureau) tendo como alvos permanentes “corrupção internacional ou no estrangeiro” e crimes de tipo “cleptocráticos”, semelhantes aos de colarinho branco, mas executados pelos super-ricos, a elite de altos executivos globalizados ou, especificamente, o alvo prioritário: operadores políticos corruptos de países subdesenvolvidos ou da Semiperiferia. Não por acaso, a operação tomada como base para o estabelecimento da Unidade dentro do FBI foram as investigações que levaram à admissão de culpa por parte da Alstom. A transnacional francesa dos setores de energia e transportes foi acusada de operar um esquema mundial de corrupção e favorecimentos, sendo condenada e feito acordo com a Justiça Federal dos EUA na ordem de U$d 772 milhões de dólares. Os exemplos tomados como evidências de “cleptocracia” são  os desvios e condenação do ex-ditador da Nigéria Sani Abacha e o ex-presidente e golpista da Coreia do Sul, Chun Doo Hwan. A base legal – da lei soberana dos EUA – para operar é o Kleptocracy Asset Recovery Initiative do Departamento de Justiça. Para abrir qualquer investigação, basta a suspeita de utilização de redes bancárias com jurisdições nos EUA ou em territórios associados ou empresas conexas na transferência destes ativos. (ver: https://goo.gl/QYSvwv).

Dentro da estrutura direta do Departamento de Justiça, não conformando uma agência independente, está o Money Laundering and Asset Recovery Section (MLARS). A Seção de Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos conta com sete unidades integradas: Bank Integrity Unit (fiscalização dos sistemas bancários); International Unit (atividades externas); Money Laundering and Forfeiture Unit (lavagem de dinheiro e confisco); Policy Unit (de políticas integradas); Program Management and Training Unit (de gerência de pessoal e treinamento); Program Operations Unit (de logística de operações) e Special Financial Investigations Unit (aqui seriam os alvos destacados em escala mundo). O MLARS é o braço operacional do DoJ para recuperação de ativos e articulação interagências. (ver: https://goo.gl/xSiwn2)


Apontando linhas conclusivas


Os Estados Unidos dedica uma burocracia de carreira no Departamento de Justiça para atuar em investigações de caráter internacional, em uma evidente demonstração de força e prepotência. O momento do capitalismo é de acumulação selvagem, onde a valorização de capital – o aumento da liquidez, o aumento da renda líquida através dos investimentos em capital fictício – superam, e muito, tanto o crescimento econômico como a ainda mais distante distribuição de renda. Dentro deste modelo de criar valor – mediante contratos e depósitos – sem estar vinculado ao trabalho vivo, a circulação de ativos é peça-chave, e nesta circulação, a lavagem de divisas com origens duvidosas. Logo, quase toda relação entre oligopólios estrangeiros e o enriquecimento de elites dirigentes torna-se alvo em potencial. Assim, o Império prepotente, presidido por um presidente que como empresário não passa de picareta midiático com seis falências fraudulentas no currículo, subordina todos os países da Semiperiferia e até mesmo rivais do “ocidente”. A  capacidade de investigação discricionária e seletiva, partindo tanto do enlace com elementos-chave dos aparelhos Judiciários de países conveniados – especificamente da magistratura e dos ministério público – como na quebra de sinais -  incluindo a captura de dados do Sistema Swift de transferências interbancárias – é uma realidade, vantagem estratégica e forma de projeção de poder em escala mundo.

* Professor de relações internacionais e de ciência política.




terça-feira, 19 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e vinte dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Só há presente.

Coluna Á flor da peleEvelyne Furtado, crônica, “Família, crime e amor”.

Coluna Observações e reminiscênciasJosé Calvino de Andrade Lima, crônica, “Esmola é sucesso internacional”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “Sofia”.

Coluna Porta AbertaAricy Curvello, poema, “Às vezes”.

Coluna Porta Aberta – Augusto Capucho, poema, “Um cobertor repleto de pulgas”.


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Livros que recomendo:


Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Só há presente


O que é o tempo? É mera abstração. É uma convenção humana para medir o quanto a Terra (que tem o formato arredondado, mas não exatamente de uma bola, mas o que lembra a forma de uma pera) leva para dar uma volta completa em torno do seu eixo imaginário. E, no entanto... ele é tão concreto! A criação desse conceito foi o maior avanço da mente humana em termos de racionalidade. Trata-se de um prodígio de abstração e que, no entanto, tem efeito tão real nas ciências, notadamente na Física!

De acordo com a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, espaço e tempo estão interligados. São indissociáveis. Têm que ser considerados, sempre, um em função do outro. O eminente físico concluiu que, em velocidades próximas à da luz, por exemplo, a massa de determinado corpo aumenta de forma perceptível. Em contrapartida, o espaço se contrai e o tempo passa mais lento.

Há cientistas que entendem que a única forma do homem explorar outros mundos é construindo um artefato que tenha velocidade próxima à da luz. E arranjar uma forma, claro, do ser humano suportar isso, o que, convenhamos, concretamente, raia o impossível. Enfim... Quem, sabe?!

Devemos a sir Isaac Newton o conceito de “tempo absoluto”, ou seja, o que flui, constante e uniformemente. Para ele, portanto, trata-se de algo “real”, posto que abstrato. Como entender esse paradoxo? Para a ciência, só existe o que se pode demonstrar em laboratório e repetir a demonstração quantas vezes se quiser. E Newton argumenta que o tempo é “demonstrável”. E mais, que é matematicamente mensurável. Portanto, no seu entender, é real.

Para Einstein, todavia, conforme destaquei, ele é apenas “relativo”: pode ser “sentido”, mas o é de maneiras diferentes por diferentes pessoas. Já o sociólogo e filósofo Norbert Elias considera que esse conceito é, mesmo, mera abstração, mero símbolo social que não pode ser encarado como dado objetivo. Com quem está a razão? Com todos? Com nenhum? Com algum desses pesquisadores? Se a resposta for a última, com qual deles?

Tão complexo quanto o tempo, é sua subdivisão, em passado, presente e futuro. Nenhum tema suscita mais profunda reflexão do que este, sem que cheguemos à mínima conclusão. Como exercício mental, de raciocínio e abstração, é insuperável. Entendo que seja saudável refletir sobre o assunto, para ampliar o alcance da nossa mente.

Alguns pensadores, por exemplo, asseguram que o “presente” não existe, tão rápida é a sua passagem. Como mensurá-lo? A fração infinitésima de segundo que estou vivendo agora, mal me dou consciência dela, já é passado. No instante em que a registrei neste texto, na telinha do meu computador, já havia se escoado há uma “eternidade”, ou seja, há uns dois ou três segundos. A que está imediatamente à frente, mais veloz do que a luz, é o futuro. Como, pois, captá-la?

Norbert Elias afirma, a propósito: “As expressões ‘passado’, ‘presente’ e ‘futuro’, apesar de também designarem o caráter anterior ou posterior dos acontecimentos, são simbolizações conceituais relativas a relações não-causais... O que constitui o passado funde-se sem ruptura com o presente, assim como se funde com o futuro. Podemos ver isso com clareza quando o futuro transforma-se, por sua vez, em passado. É somente na experiência humana que se encontram essas grandes linhas demarcatórias entre ‘hoje’, ‘ontem’ e ‘amanhã’”.

A maioria, contudo, nega que exista um presente. Para quem pensa assim, só há passado, este, sim, possível de ser constatado, por sua infinita extensão. Em compensação, o filósofo alemão, Arthur Schopenhauer, afirma exatamente o contrário do que asseguram esses doutos pensadores. Ou seja, que só o presente existe.

E no que fundamenta essa ousada afirmação, remando contra a maré? Noutra abstração, claro. Afinal, estamos tratando de conceitos, ou seja, de matéria abstrata. O filósofo alemão diz o seguinte, no livro “O Mundo como Vontade e Representação” (citado, por sua vez, por Jorge Luiz Borges em outro livro, “História da Eternidade”): “A forma de aparecimento da vontade é só o presente, não o passado nem o futuro: estes só existem para o conceito e pelo encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida”.

E você, paciente e fiel leitor, já pensou a respeito? Chegou a alguma conclusão? Qual? Eu, da minha parte, não tenho a menor idéia (nem mesmo por intuição) com quem possa estar a verdade. Mas já que tratamos de tantos paradoxos, paradoxalmente me arrisco a afirmar que todas as partes têm razão. Até que se prove o contrário, claro.


Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk