Excesso
de gentileza
*
Por Gustavo do Carmo
Atravessa
a rua pela décima vez durante o trajeto de casa para a clínica onde
sua mãe faz fisioterapia. E pela décima vez acena para o motorista,
agradecendo. Mesmo quando o condutor do veículo faz sinal impaciente
para ele passar. Mesmo quando o sinal fecha para o carro.
Como
a sua mãe idosa anda devagar e ele precisa acompanhá-la, dá
passagem para os pedestres mais apressados. Alguns agradecem, mas a
maioria não. E se esbarra em alguém, sempre pede desculpas. E
quando lhes dão passagem também agradece.
Quando
chega à clínica, não só abre a porta para a mãe, como também
serve de porteiro para outras pessoas por alguns instantes. Também
cede o seu lugar para idosos e grávidas. Mesmo quando tem um lugar
vazio. Procura deixar os outros se sentarem perto de seus
acompanhantes.
Para
o pai evita pedir dinheiro. Espera ele oferecer. E ainda diz que não
precisa dar muito. Faz questão de pagar as contas para ele. E quando
recebe dinheiro a mais, sempre devolve o troco.
O
excesso de gentileza de Benvindo incomoda. Um ex-colega de faculdade,
uma vez, o debochou dos seus pedidos de desculpas. Se irritava quando
o ouvia pedir desculpas toda hora em que esbarrava em alguém. E
Benvindo sempre esbarrava em alguém. O coordenador de uma
pós-graduação que fez o aconselhou a não ficar pedindo desculpas
a torto e a direito.
E
a sua mãe reclama quando ele segura o seu ombro, para que ela não
caia no meio da rua ao tropeçar. E ela já tem uma prótese na
omoplata e a clavícula cicatrizada por causa de duas quedas. Numa
das vezes em que ele deixou de segurar ela caiu. Por sorte num banco
de areia e sem ferimentos. Foi ajudado por uma moça que passava na
rua. Benvindo perdeu a paciência. Ralhou com a mãe. Disse que
ia continuar lhe segurando, ela querendo ou não.
Mesmo
com tanta gentileza, Benvindo era boicotado pelos ex-colegas de
faculdade e pós-graduação e pelos artistas que procurava para
emplacar a sua carreira de escritor.
Ameaça
se tornar um estúpido, mal-educado, mau-caráter e grosseiro, como
muito motorista e pedestre na rua. Mas está no seu sangue. Continua
gentil. Mesmo que em excesso. É a sua única qualidade. É a única
maneira que Benvindo sabe para agradar alguém.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
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