Aprendizado e compreensão
O
aprendizado e a compreensão nem sempre (ou quase nunca) andam
juntos, de mãos dadas, embora haja quem os considere sinônimos.
Evidentemente, não são. Podemos, por exemplo, aprender a operar
determinada máquina (um computador, para citar a mais comum), sem
que compreendamos, sequer minimamente, a razão do seu funcionamento,
ou seja, seu hardware e seu software. O mesmo ocorre em relação a
inúmeros outros processos, trabalhos, mecanismos e conceitos, nas
mais variadas atividades e na própria vida.
Vivemos
aprendendo, aprendendo e aprendendo, diariamente, do berço à tumba,
mas, na maioria das vezes, sem compreender significados e
necessidades. Caso sejamos bem-educados, por termos nascido em lares
sadios e bem estruturados, em que reinem o amor e a cooperação,
ensinam-nos, em tenra idade ainda, que devemos ser corteses, amáveis,
justos e respeitadores intransigentes dos direitos alheios.
Aprendemos
tudo isso mesmo sem compreender a razão. A compreensão do por que
isso é preciso, nos relacionamentos – quer familiares, quer
sociais, quer profissionais – só vamos conseguir (e isso quando
conseguimos) muitos anos depois. Alguns, por um motivo ou outro,
jamais compreendem.
Quando
eu era adolescente, tinha, no antigo ginásio, aulas de latim. Achava
uma chatice ter que aprender declinações, conjugações de verbos e
todas as regras gramaticais de uma língua tida como morta. Aprendia
as lições ensinadas até por necessidade (ai se não aprendesse),
para não vir a ser reprovado e ter de me explicar para os meus pais.
Depois
de um certo tempo, conseguia traduzir, sem muito esforço e
praticamente sem erros, textos enormes sobre os sete reis de Roma ou
expedições militares de Júlio César, entre outros. Tenho esse
conhecimento, óbvio, até hoje.
Não
compreendia, na ocasião, porém, a razão dessa matéria constar no
currículo. Fui compreender, apenas, anos depois, já maduro, o quão
privilegiado fui por ter acesso a esse conhecimento. Quem não o
teve, não faz a menor idéia do que perdeu.
O
aprendizado do latim possibilitou-me, entre outras coisas, o
entendimento da origem de boa parte das palavras deste idioma que
tanto amo e que cultuo com interesse e veneração: nossa língua
portuguesa. Afinal, elas se originaram dessa antiga e tradicional
matriz que, agora sim, começa a morrer de vez. Nem a liturgia da
Igreja Católica a utiliza mais.
E
o latim, recorde-se, é importante não apenas para se aprender bem o
português. Se quiser conhecer razoavelmente suas “irmãs”, o
espanhol, o francês e o italiano, que igualmente tive o privilégio
de aprender, ele serve de excelente base. E mesmo o inglês, por
estranho que possa parecer, já que quase a metade dos termos que
constam em seus dicionários proveio dessa raiz.
Como
se vê, aquilo que um dia me pareceu um tormento sem fim, se
transformou em fonte inesgotável de satisfação. Mas isso aconteceu
somente depois que cheguei à compreensão. A baronesa alemã, que
foi excelente escritora em língua germânica, Marie von Ebner
Eschenbach, constatou, a esse propósito: “Na juventude aprendemos,
na maturidade, compreendemos”. Geralmente, é o que, de fato,
acontece.
Mas
isso não funciona, assim, como regra universal, absoluta e
inflexível, como uma espécie de dogma que não possa ser
contestado. Há determinadas coisas que somos capazes de compreender
na mais tenra infância e há outras que não conseguimos nunca,
mesmo que venhamos a viver cem anos ou mais. Não se trata, pois, de
questão cronológica, mas de interesse, disciplina, força de
vontade, acuidade mental etc.etc.etc..
Ademais,
os níveis de compreensão não são uniformes. Ou seja, não são
iguais para todo o mundo (assim como os de aprendizado também não
são). Há graduações e mais graduações, e em ambos os casos.
Uns
aprendem mais facilmente que os outros. Da mesma forma, há os que
compreendem até os conceitos mais complexos, das artes, ciências,
filosofia etc. com extrema facilidade, enquanto existem outros
tantos, muitos outros (provavelmente a maioria) que jamais logram
chegar sequer minimamente a essa compreensão.
Claro
que o ideal é contarmos com esses dois fatores que sustentam e
definem a própria racionalidade desta espécie paradoxal e
contraditória, simultaneamente. Aprender qualquer coisa e, ao mesmo
tempo, compreender sua essência, mecanismos e utilidades, é uma
bênção, que nem sempre nos acontece. E isso independe de qual
faixa etária nos situamos ou de quantos anos vivemos.
Boa
leitura!
O
Editor.
A tecnologia da informação, você a citou como coisa que usamos e não compreendemos em sua totalidade. Acertou em cheio para explicar sua tese.
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