Machado e a Academia
* Por
Rodrigo Octávio
Certa vez, em uma
destas idas até o ponto do bonde, ocorreu um pequeno episódio que dá a medida
do interesse de Machado pela respeitabilidade da Academia, a que ele,
presidindo desde o seu nascimento e corporificando-a mesmo, emprestou toda a
própria circunspecção e prestígio. Por essa forma, contribuiu certamente, e
muito, para que ela atravessasse incólume o período indispensável para que se a
acreditasse resolvida a viver, crescer e vencer.
Machado entendia, e
não cessava de o dizer, que a Academia devia ser, também, uma casa de boa
companhia; e o critério das boas maneiras, da absoluta respeitabilidade
pessoal, não podia, para ele, ser abstraído dos requisitos essenciais para que
ali se pudesse entrar. Por esse tempo, alguns de nossos colegas andavam procurando
criar no ânimo de Machado uma ambiência favorável à aceitação da candidatura de
certo Poeta, de notório talento, mas de temperamento desabusado e assinalado
sucesso em rodas de boêmios... Nesse dia o nome do poeta veio à tona; a
controvérsia fora acalorada. Machado não interveio nela; conservou-se calado;
mas, quando o levávamos para o bonde, na Avenida, ao chegar ao canto da rua da
Assembléia, ele nos convidou a que seguíssemos por essa rua, e, a dois passos,
nos fez entrar em uma cervejaria, quase deserta nesse momento. Não sabendo de
todo o que aquilo significava, nós o acompanhamos sem dizer palavra, e vimo-lo
deter-se no meio da sala, entre mesinhas e cadeiras de ferro, e, também sem
dizer palavra, estender o braço, mostrando, ao alto de uma parede, um quadro,
em cores vivas, em que, meio retrato, meio caricatura, era representado em
busto, quase do tamanho natural, grandes bigodes retorcidos, cabelo revolto na
testa, carão vermelho e bochechudo, o Poeta, cuja entrada no seio da
imortalidade se pleiteava, sugestivamente empunhando, qual novo Gambrinus, um
formidável vaso de cerveja... A cena causou em todos profunda impressão e, tal
era o respeito havido por Machado, que, em vida dele, não se falou mais na
candidatura de Emílio de Meneses...
***
Pode-se afirmar que o
prestígio e o sucesso da Academia Brasileira eram a grande preocupação do
Mestre.
Machado não era um
homem sociável, era mesmo de difícil familiaridade. Finamente polido, atencioso
para com toda a gente, tinha ele, entretanto, um muito limitado círculo de
relações de visita, e essas mesmas, confinadas no seu bairro, dentro de um
pequeno raio da casa em que, por tantos anos, viveu.
Era natural que, a homem dotado de tal
temperamento, não fosse fácil incorporar-se a grêmios, participar de
sociedades, procurar fazer vida comum e conjunta. A Academia, entretanto, o
conquistou. Machado se entregou de corpo e alma ao novo instituto que foi para
ele a preocupação permanente, consoladora e luminosa de seu derradeiro decênio.
Do interesse, da
atenção constante de Machado pela Academia, interesse e atenção sempre
manifestados, podem dar testemunho todos os que com ele entretiveram
correspondência literária. De tal asserto é demonstração eloquente o belo livro
de Graça Aranha sobre a correspondência de Machado e Nabuco. Não há linha
nessas cartas, de um e de outro, que não houvesse sido animada pelo amor dessa
Casa, e, vindo esse alto e contínuo interesse de homens de tão superior
espírito, é esse, sem dúvida, justificado motivo de desvanecimento e orgulho
para egrégia Companhia. E deve valer qualquer cousa, deve ter alguma
significação um instituto que, de modo tão vivo e diuturno, preocupou espíritos
que pairavam em tão alevantado nível.
Por esse tempo quase
não havia entre nós convivência literária, excluídos os encontros de amigos e
de companheiros nas salas dos jornais e mesas de confeitaria. Entretanto,
alguns jornais houve que, pelo acentuado feitio literário e pela
individualidade atraente de seu núcleo de redatores, se constituíram, em
diversas épocas, assinalados pontos de convívio de poetas e escritores. Assim,
a Gazetinha; depois A Semana, como mais tarde a Revista Brasileira, de cuja
excelsa roda era Machado a figura primacial. Servia-se às 5 horas um modesto
chá com torradas. Foi nessa pequena sala da Travessa do Ouvidor que, em 1896,
se concertou a criação da Academia Brasileira de Letras e se a fundou
realmente.
Desaparecida a Revista
Brasileira, a Casa Garnier, que pouco depois instalava seu novo e magnífico
edifício, deu abrigo aos náufragos. Foi aí que os dispersados companheiros se
foram habituando a encontrar-se de novo, à tarde. Não foi preciso mais do que
dobrar a esquina da Rua Nova do Ouvidor.
Machado, na
extraordinária atração de sua pessoa, aliás modesta e esquiva, era a alma
daquelas reuniões e tanto que, morto ele, o grupo automaticamente se
desagregou. A ausência de Machado era tão sensível que, não volvemos mais, à
hora habitual, ao Garnier, sabendo que já o não encontrávamos ali, e as
agradáveis reuniões daquela clara e alegre casa de livros cessaram, como por
encanto, de um dia para outro, sem prévia combinação. Aliás, Machado era, no
fim de sua vida, tido como um deus tutelar da casa que se beneficiava do
prestígio de suas obras por ela editadas. No dia da inauguração do novo
edifício, o presente que receberam os convidados, para memória do
acontecimento, foi um volume de Machado de Assis com a assinatura autógrafa do
mestre e a data - 19 de janeiro de 1901. A mim coube um exemplar da 3ª edição
do Brás Cubas, que conservo.
Já estava, a esse
tempo, fundada a Academia de Letras. Empreendimento que se iniciou prestigiado
por grandes nomes, por alguns de nossos maiores nomes, trouxe desde o
nascedouro prognósticos de estabilidade e circunspecção.
Machado não recusou coisa
alguma do que se lhe pediu para o novo instituto; tomou parte efetiva e
eficiente nas reuniões preparatórias; contribuiu para a elaboração dos
estatutos e do regimento interno; aceitou de boa mente a presidência que se lhe
assinalou. Nessa primeira diretoria, coube a Joaquim Nabuco o posto de
Secretário-Geral e de mim, tão-somente pelo que a Academia contava esperar de
minha jovem operosidade, se fez o Primeiro-Secretário.
Não foi de folga e
segurança o primeiro período de vida da Academia, carecedora de tudo, sem
patrimônio de espécie alguma, sem casa que desse abrigo à sua existência
meramente espiritual.
E Machado não
arrefeceu em sua confiança; não teve um movimento de desânimo; acompanhou-a na
sua pobreza franciscana, na sua peregrinação em busca de um pouso... E partiu
da vida sem que houvesse tido a satisfação de ver a Academia enriquecida pela
generosa doação do livreiro Francisco Alves.
(Minhas memórias dos outros, 1935.)
*
Advogado, professor, magistrado, contista, cronista, poeta e memorialista,
nascido em Campinas, membro da Academia Brasileira de Letras.
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