A irrestrita fidelidade de Platão a
Sócrates
Uma das maiores virtudes de Platão (posto que não a única),
a crer-se no que a totalidade dos seus biógrafos enfatizou, foi sua irrestrita
e inabalável fidelidade a Sócrates, seu mestre e mentor, ao qual “venerou” por
toda a vida e imortalizou em sua própria obra, ao ponto de se tornar uma
espécie de seu “porta-voz”. Esse comportamento, e principalmente na intensidade
em que ocorreu, convenhamos, sempre foi raro, em todos os tempos e é, ainda
muito mais, em nossa época, caracterizada por um individualismo exacerbado e
por um feroz e crescente egoísmo, alimentado sobretudo pela vaidade. E ambos
conviveram nem mesmo por tanto tempo assim. Foram, apenas, oito anos (algumas
fontes asseguram que foram dez) de convivência.
A diferença de idade entre ambos, quando começou esse
convívio, era considerável. Platão tinha vinte anos quando se tornou discípulo
de Sócrates que, então, tinha quarenta. O segundo, portanto, poderia ter sido
pai do primeiro, embora não o fosse. Pode-se dizer, porém, que houve, sim, “paternidade”,
posto que “espiritual”. Platão jamais negou isso. Pelo contrário, enfatizou-a.
Esses dois gigantes do pensamento não tinham praticamente nada em comum quando
um se tornou discípulo do outro. Eram, inclusive, de classes sociais
diferentes, separados, principalmente, por profundo abismo econômico.
Platão era um aristocrata. Provinha de abastada e respeitável
família e era, o tempo todo, cortejado pelos mais influentes políticos de
Atenas. Já Sócrates – que nem mesmo tinha um local específico para ensinar seus
princípios filosóficos e que o fazia nas ruas e nas praças da cidade-Estado (sem
nada cobrar de ninguém) – provinha de
família da faixa pobre da população, superior, na escala social. apenas aos escravos.
Seu pai era um humilde escultor e a mãe simples parteira. É certo que na
juventude recebeu educação das mais esmeradas para a época, com aulas de matemática,
retórica e ginástica, entre outras disciplinas. Teve como mestre ninguém menos
que o genial Pitágoras. Chegou a servir o exército e a participar de batalhas
em pelo menos uma das tantas guerras que Atenas travou.
Platão, porém, encantou-se pela sabedoria de seu mestre. Ao
lado de Xenofonte, outro dos ilustres e fieis discípulos dele, tornou-se o que
Joviano Caiado, advogado e expert em Filosofia, classificou, em um excelente
artigo, de “marqueteiro de Sócrates”. Não fossem esses dois, o “pensamento socrático”
teria morrido no nascedouro e jamais chegaria até nós. Sócrates não acreditava
no texto. Por isso, não escreveu uma reles linha sobre os princípios que criou.
Entendia que o aprendizado só era eficaz quando transmitido cara a cara,
diretamente do mestre aos discípulos, mediante continuado diálogo, com
perguntas e respostas entre ambos, o que a leitura impossibilitaria.
De acordo com o filósofo britânico Martin Cohen, Platão
chegou praticamente a “divinizar” seu ilustre professor. E ao registrar e
divulgar seu pensamento, oferece, de bandeja, à posteridade (a nós, inclusive)
"um ídolo, a figura de um mestre, para a filosofia. Um santo, um profeta
do 'Deus-Sol', um professor condenado por seus ensinamentos como herege”. E foi
o que aconteceu com Sócrates. Foi condenado à morte por heresia, num julgamento
absurdo e surreal, tanto para a época em que se deu, quanto, e principalmente,
para nós, homens deste século XXI. E olhem que isso se deu numa Atenas que se
orgulhava de ser rigorosamente “democrática”.
Essa condenação teve efeito devastador no espírito de
Platão, que levou décadas para se recuperar desse baque. Depois da morte de
Sócrates, ele desiludiu-se com a “democracia”. Deixou Atenas com a intenção de
nunca mais regressar. Felizmente, para os atenienses, voltou atrás dessa
determinação. Platão realizou, então, diversas viagens pela Grécia, visitando,
inicialmente, o sapientíssimo Euclides. Em seguida, fez longo giro pelo Egito e
pela Itália. Entre 399 a.C. e 387 a.C., criou vários de seus famosos diálogos
em que Sócrates aparece como personagem central, como "Críton",
"Laques", "Lísias", "Górgias" e
"Protágoras", entre outros. No seu regresso, alternou longas
temporadas em Atenas com a realização de três grandes viagens à Sicília, onde fez
várias tentativas de colocar em prática suas teorias políticas. Fracassou nesse
intento e teve muita sorte em escapar com vida. Chegou, por duas vezes, a ser
feito escravo, sendo libertado por poderosos e influentes amigos de Atenas.
Essa fidelidade de Platão a Sócrates, todavia, ele manteve
por toda a vida. E, através dos seus livros, estendeu-a muito além dela, por séculos,
por milênios, por tempo que ninguém sabe de quanto será. Será, todavia, enquanto
existir civilização, cultura e Filosofia. Sócrates acreditava que as idéias
pertenciam “a um mundo que somente os sábios conseguiam entender”. E Platão
conseguia isso, Pudera! Era um sábio, de fasto e de direito!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Muito bom ler esse escrutínio detalhado e esclarecedor. Eternamente admiráveis gênios.
ResponderExcluir