Avalanche de questões
A vida é tão complexa e misteriosa, que
quanto mais perguntas fizermos (e respondermos) a propósito, mais e mais
questões surgem, a desafiarem a nossa inteligência e a nossa perspicácia. Qual,
por exemplo, a sua verdadeira origem? Teorias a respeito existem inúmeras. E,
se há tantas, é porque não se encontrou, ainda, uma resposta convincente.
Qual a finalidade da vida? Nascemos,
apenas, para existir por existir? Ou seja, só para desenvolvermo-nos,
amadurecer, reproduzirmo-nos e morrer, e assim sucessivamente, geração após
geração? Mesmo não aceitando esse medíocre objetivo, ninguém, jamais, apontou,
com certeza, sem a mínima possibilidade de contestação, um que fosse melhor e
mais nobre.
E, afinal, estamos sós neste imenso
universo, cujas reais dimensões são tão grandiosas que sequer cabem em nossa
mente? Caso a resposta seja positiva, surge outra pergunta lógica a propósito:
por que a vida surgiu aqui, e não alhures? Quais as condições mínimas, porém
indispensáveis, para que ela surja em qualquer lugar que seja propício ao seu
surgimento? Com esta infinidade de mundos, não há um, pelo menos um, que se
assemelhe, ou pelo menos se aproxime muito, deste nosso, em suas
características básicas (de temperatura, pressão, composição da atmosfera,
gravidade etc.etc.etc.)?
São questões e mais questões, das mais
variadas naturezas: científicas, filosóficas e até espirituais, a desafiarem
nossa inteligência. Esse conjunto, praticamente infinito, de perguntas requer
respostas que pelo menos se aproximem da verdade. Apesar das inúmeras
tentativas de homens sábios e observadores através de milênios, tudo permanece
nebuloso e obscuro, exatamente da forma que era quando este animal estranho e
contraditório surgiu sobre a face da Terra (e quando isso ocorreu? Como? Por
que?).
Um dos métodos mais eficazes, práticos
e funcionais para aprendermos qualquer coisa, não importa sua complexidade, é,
exatamente, o da elaboração de perguntas. Mas que sejam claras, objetivas e
diretas e sobre o assunto específico que se quer aprender. Sócrates já
utilizava, com sucesso, esse procedimento na Grécia Antiga, conforme nos relata
seu mais ilustre discípulo, Platão.
Nos meus tempos de adolescente, os
professores usavam bastante esse recurso como arma pedagógica na escola que
estudei. Benditos mestres! Após o estudo das matérias, tínhamos,
invariavelmente, que responder a um bem-elaborado questionário a respeito do
que havia sido estudado nas aulas.
Caso empacássemos em alguma questão, o
jeito era voltar à leitura do texto em que o assunto havia sido exposto, mas
com redobrada atenção. E... Eureka! Invariavelmente, lá estava a resposta, não
raro escondida em alguma oração a que não havíamos dado a devida importância ao
ler a matéria pela primeira vez. Quanto mais nos enroscávamos em alguma
pergunta, melhor fixávamos na mente a respectiva resposta quando a
encontrávamos.
Confesso que devo a maior parte do meu
aprendizado a esse método que, até por razões profissionais, adotei como norma
no correr da minha vida profissional. Sou jornalista e, portanto, estou
consciente que, numa entrevista, quanto mais inteligentes e profundas forem as
questões que levantar, mais informações irei extrair do meu entrevistado e
valorizar, dessa forma, a matéria que estiver escrevendo.
Muitos entrevistadores são relapsos e
não se preparam devidamente para a tarefa. Conhecem pouco (ou nada) do assunto
que foram encarregados de abordar com algum especialista da área e findam por
descontentar a todo o mundo (principalmente ao seu editor, que fica, com toda
razão, furioso com o repórter relaxado). Entre outras gafes, fazem perguntas
fora do contexto, ou sobre questões já respondidas pelo entrevistado, ou
aquelas óbvias, que até uma criança do Jardim da Infância não faria.
Muitos colegas de trabalho reclamam de
determinados entrevistados, acusando-os de serem ou muito mal-humorados (no
caso, o ex-treinador do São Paulo Futebol Clube, Muricy Ramalho), ou enfáticos
e agressivos além da conta (como Wanderley Luxemburgo), ou sumamente vagos
(como o técnico, Caio Junior). Todavia, será que já atentaram para as perguntas
que fazem a essas personalidades? São de doer!
Fico imaginando esses repórteres tendo
que cobrir a área de Ciências. Vou mais longe, imagino-os entrevistando Albert
Einstein (quando este ainda estava vivo, óbvio). Suas matérias seriam, no
mínimo, hilariantes. Provavelmente, seriam mais confusas do que a letra do
célebre “Samba do Crioulo Doido”, com a qual o saudoso Sérgio Porto, que
assinava suas colunas com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, tanto se
divertia.
O escritor Robert Louis Stevenson
compara o método de questionamento a uma incontrolável avalanche, dessas que
descem uma íngreme montanha, levando tudo de roldão.. Escreveu, em um de seus
tantos romances: “Fazemos uma pergunta, e é como se empurrássemos uma pedra do
alto do morro: lá vai a pedra empurrando outra”. É a esse espírito de
insaciável curiosidade, de sábia e pertinente inquisição, que denomino de
“inteligência”. Ou não é?!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nem todos têm paciência de seguir a norma de "para uma pergunta cretina, uma resposta cretina" e acabam sendo ríspidos. O repórter fica tão preocupado com a próxima pergunta que não ouve o que foi falado e dá vexame,fazendo papel de bobo, além de irritar o entrevistado.
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