segunda-feira, 25 de julho de 2016

Qualidade como objetivo

  

O ensaísta norte-americano Ralph Waldo Emerson, autor, entre outros, de dois livros hoje considerados clássicos no mundo da cultura, "Ensaios" e "Diários"‚ é , ao lado de Henry David Thoreau e de Montaigne, um dos meus preferidos. Essa preferência pelo escritor de Boston deve-se, exatamente, ao fato dele ser uma espécie de contraponto a esses dois. Trata-se de um intelectual positivo, que crê na racionalidade humana e põe como limite ao talento e à criatividade – não especificamente literários – "as estrelas". Ou seja, recomenda que ousemos, que busquemos esgotar nossas potencialidades, que sejamos autoconfiantes, autodisciplinados e até obstinados na busca do topo, do ápice, do cume da nossa atividade. Thoreau, por outro lado, é amargo em determinados ensaios, embora defensor radical da individualidade. E Montaigne é um verdadeiro "cirurgião da alma humana". E o que encontra nela nem sempre é bonito, nobre e louvável.

Uma das citações de Emerson, que grifei quando da primeira leitura e sobre a qual busco refletir periodicamente, é a seguinte: "Se um homem pode escrever um livro melhor, pregar um sermão melhor, ou fazer uma ratoeira melhor do que o vizinho, mesmo que construa sua casa na floresta, o mundo abrirá uma trilha até sua porta". Seria, de fato, tão simples? As pessoas estariam dispostas, sem esta ou mais aquela, a reconhecer e valorizar os talentos alheios, em meio a tanta competição desleal, onde não há regras estatuídas e onde raramente a ética e a moral prevalecem? Haveria tanto critério? Haveria tanta justiça para com os que criam, os que ensinam, os que pregam, os competentes, os abnegados, os íntegros e os "melhores"? Não certamente! Não pelo menos como prática geral. Há, além destes, muitos outros pontos a ponderar.

Para que alguém nos procure porque escrevemos um livro melhor, ou pregamos um sermão melhor ou fizemos uma ratoeira melhor, é preciso, antes de tudo, que todos saibam disso. Aí entra o primeiro obstáculo: a divulgação da nossa "excelência". Os recursos que o cidadão dispõe para isso são extremamente frágeis. Quantos têm acesso aos meios de comunicação, nessa maré humana que há no Planeta neste fim de milênio? Poucos. Diria, pouquíssimos. E destes, quantos têm o poder de convencer os comunicadores de que de fato são o supra-sumo de suas respectivas atividades? Menos ainda. Ademais, o conceito de melhor ou pior é puramente subjetivo. Depende do preparo intelectual, do gosto, do critério de julgamento, da imparcialidade e da boa-vontade do julgador. São inúmeros, por exemplo, os escritores que foram um fracasso enquanto vivos e que só tiveram seus talentos reconhecidos depois de mortos. Ou que, mesmo reconhecidos, não conseguiram unanimidade. Basta citar a interminável relação dos injustiçados do Prêmio Nobel de Literatura.

Em outras artes e ofícios isso também ocorre. O exemplo mais evidente é o do pintor Vincent Van Gogh. Quantos quadros o mestre holandês vendeu em vida? Apenas dois, e assim mesmo ao seu irmão, que os adquiriu a título de estímulo. Morreu infeliz e amargurado, em um manicômio, sendo, sob os padrões da sua época, o protótipo acabado do fracassado. Hoje, essas mesmas telas que pintou e foram ridicularizadas pelos críticos e recusadas pelos "marchands", têm um valor inacessível para a maioria dos bolsos. São as obras de arte mais caras jamais vendidas em qualquer parte do Planeta. O tempo fez-lhe justiça. Mas o mundo nunca abriu "uma trilha até a sua porta". Claro que Emerson não pretendeu aconselhar ninguém a se acomodar com sua excelência, esperando um reconhecimento automático e consensual por parte da sociedade. O que fez foi uma apologia da qualidade. Vendeu a idéia que devemos buscar ser os melhores no que fazemos, apesar da subjetividade desse conceito.

Cada um de nós vem ao mundo com duplo compromisso. O primeiro (nossa maior obrigação na vida) é o de sermos felizes. O segundo, não menos importante, é o de acrescentarmos conhecimentos e experiências ao patrimônio cultural comum, que vem sendo engrossado e enriquecido desde o surgimento da humanidade civilizada, do qual usufruímos enquanto estamos vivos. A esse propósito, Jacques Maritain observa: "Por ser capaz de adquirir conhecimentos o homem não progride na sua vida específica...sem a experiência coletiva, previamente acumulada e preservada, e sem a transmissão normal de conhecimentos adquiridos". E para esse usufruto e esse acréscimo ao "estoque" cultural humano, convenhamos, não podemos "construir nossa casa na floresta" do isolamento.


Boa leitura!


O Editor.

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Um comentário:

  1. O isolamento não fará bem algum, a menos que se queira ser um monge.

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