Concepção de Platão sobre a criação
As idéias de Platão (algumas delas, óbvio) tiveram muito
mais influência sobre o pensamento ocidental do que hoje se admite. E não
apenas no âmbito filosófico, mas também no científico (afinal, Filosofia é “a
mãe” de todas as ciências), político e até religioso. Num de seus tantos
diálogos, talvez o mais famoso, o “Timeu”, por exemplo, ele apresenta sua visão
sobre a criação do mundo (que nada tinha a ver com a concepção moderna do “big
bang”).
O astrônomo Johannes Kepler, no livro “Harmonices Mundi”,
publicado no século XVI, que revolucionou a astronomia, chama a atenção para a
similaridade entre a teoria platônica da criação do mundo com a descrição de
Moisés, a esse propósito, no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia. Escreveu: ``
(...) O Timeu ...é ...um pequeno texto sobre o primeiro capítulo do Gênesis, ou
do livro I de Moisés, transformando-o em filosofia Pitagórica, como é manifesto
a quem o ler com atenção e o comparar constantemente com as próprias palavras
de Moisés...''
Pergunto: quem influenciou quem nesse caso? Da minha parte,
creio que nenhum dos dois. Houvesse, todavia, influência de alguém, até por
questão cronológica, Platão teria sido influenciado por Moisés e jamais o
contrário. Afinal, o filósofo grego viveu, aproximadamente, entre 428 e 348 a.C
(ou em torno desse período, já que datas de épocas tão remotas não podem ser
tomadas ao pé da letra, em virtude dos vários calendários que existiram),
enquanto o líder judeu viveu na época do reinado do faraó Aquenatom (cerca de
1352-1338 a.C). Todavia, não acredito que, por mais bem informado que Platão
tenha sido, chegou a ler o Pentateuco de Moisés. Mas... nunca se sabe. Essa é
apenas uma convicção pessoal, exclusivamente minha. Todavia não se pode deixar de dar razão à arguta
observação de Johannes Kepler, ou seja, de que há admirável similaridade entre
as concepções de Moisés e de Platão sobre a criação do mundo.
O filósofo grego afirmou, no “Timeu”, que “o mundo foi
criado por uma divindade que, isenta de inveja... quis que, na medida do
possível, todas as coisas lhe fossem semelhantes”. Inclusive (ou
principalmente) o homem, destaco. E como Moisés se refere à criação do único
animal inteligente da natureza? Afirma que ele foi criado “à imagem e
semelhança de Deus”. Não há, é verdade, só similaridades nas concepções “mosaicas” e “platônicas”, da criação. Há,
também, diferenças, algumas sutis e outras ostensivas. Para Platão, por
exemplo, o universo teria sido criado como “um animal dotado de alma e razão”.
Já Moisés não faz qualquer referência a propósito. Kepler, todavia, escreveu,
no livro que citei, restringindo sua opinião ao nosso Planeta: “o globo da
Terra seria um corpo, como o de um animal”. Inspirado no Timeu, o astrônomo
afirmou que nosso planetazinho azul teria, até mesmo, uma alma. E que, como
todo ser vivo, respira. A respiração, no caso, seriam as marés, associadas aos
movimentos da Lua e do Sol.
Platão justifica uma inteligência superior por trás da
criação citando a esfericidade de planetas, satélites e estrelas como prova. Ou
seja, com a “forma perfeita” que o criador utilizou, o que não poderia, no seu
entender, ser obra do acaso. Escreveu, em determinado trecho do “Timeu”: “(...)
Quanto à forma, concedeu-lhe a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais
conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só
poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso ele torneou o
mundo em forma de esfera ...” E justificou porque a forma esférica seria dotada
de virtudes tão especiais: “ (...) por estarem todas suas extremidades a igual
distância do centro, é a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesma
...”
Para Platão, a criação da alma (imaterial) precedeu à do
corpo (material). O filósofo concebeu seu Deus como sendo, antes e acima de
tudo, um geômetra e complementou afirmando que os números e a matemática regem
todas as coisas. Essa concepção, aliás, era a de Pitágoras, o mestre de
Sócrates que, por sua vez, era seu mentor.
Platão escreveu, no diálogo “Timeu”: “(...) Concluída a composição da
alma, de acordo com a mente de seu autor, organizou dentro dela o universo
corpóreo e uniu ambos pelos respectivos centros. Então a alma entretecida em
todo céu, do centro à extremidade, e envolvendo-o em círculo por fora, sempre a
girar em torno de si mesma, inaugurou para sempre o começo de uma vida perpétua
e inteligente. Assim formou-se, de uma parte, o corpo visível do céu, e da
outra, a alma invisível, porém participante de razão e de harmonia, a melhor
das coisas criadas pela natureza mais inteligente e eterna”. Voltarei,
certamente, a esse fascinante tema.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Uma descrição perfeita, mas apenas a ideia de um gênio.
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