A
janela
* Por Rodrigo
Ramazzini
- Que droga! Acho que é sem
ar-condicionado – resmungou o Robson, verificando a passagem de ônibus que
acabara de comprar. Pegou o troco e saiu do guichê de venda em direção ao local
de embarque. O ônibus partiria em quinze minutos. Visitaria os pais em uma
cidade do interior.
Ao avistar o ônibus seu temor se
confirmou: ele não tinha sistema de ar-refrigerado. Era um ônibus velho, um
pouco sujo por fora, mas opostamente (ou estranhamente), limpo e com poltronas
confortáveis por dentro.
Embarcou no ônibus e procurou a
poltrona 33. Sentou-se da maneira mais confortável possível, abriu a janela,
pois fazia muito calor, e ficou a olhar o restante dos
passageiros que embarcavam. Conforme surgiam na porta, Robson torcia, ou não,
para que sentassem ao seu lado. Torceu negativamente em três oportunidades, e
dera certo. Porém, quando a Lindiara, uma morena de cabelos lisos, vestindo uma
calça de cintura baixa, que deixava à mostra a marca do fino biquíni, Robson
“rezou” baixinho – Aqui!Aqui! Mas lhe faltou sorte. Ela sentou na poltrona à
sua frente.
Inquieto com a “paisagem” vista, Robson
refletia com a mão no queixo – De onde é que saem essas mulheres? Por uma dessa
eu trabalhava uns dez dias para ter por duas horas. Por uma dessas, eu removia
uma montanha...
Foi quando Lindiara “cortou-lhe” os
pensamentos, dirigindo-lhe a palavra e pedindo – Oi! Você pode abrir a janela
pra mim? Acho que está emperrada.
Pensou em erguer a mãos para o céu em
agradecimento a Deus, mas seria uma cena um tanto cômica para aquela ocasião.
Então, pensamentos do que pedir em recompensa fluíram rapidamente. Um sorriso
surgiu em seu rosto. Respondeu – Claro!
Com o peito estufado, Robson fica em pé
em frente à sua poltrona, entre a dele e a da Lindiara, sobe a manga da sua
camiseta até a altura dos ombros, deixando aparecer os torneados braços, e dali
mesmo parte para a ação.
Empurra a janela com a mão esquerda,
mas ela não mexe um só milímetro. Lindiara comenta – Está emperrada mesmo!
Robson faz aquela cara de – Calma garota, eu não coloquei toda a minha força! E
parte novamente para a ação. Tenta com a mão direita e nada novamente.
Gotas de suor escorrem por baixo dos
braços. Lindiara oferece-se para ajudar. Robson nega – Não precisa. Calma! Eu
consigo. Respira fundo. Os demais passageiros observam-no. Clama em pensamentos
– Por favor, Deus! Não me deixa passar essa vergonha perto deste “avião”! Abre
janela abre! Então, parte para a ignorância.
Com toda a sua força e usando as duas
mãos, ele empurra a janela. A “desgraçada” mal se mexe. Um senhor oferece-se
para ajudá-lo. Robson nervoso insulta-o. Lindiara intercepta – Calma! Pode
deixar assim com está. Mas Robson não desiste, abrir aquela janela do ônibus
passou a ser questão de honra. “Duela” novamente, o suor lhe escorre pelo
rosto, a janela não se mexe. Foi então que surgiu, da poltrona em frente a
Lindiara, um menino gordinho, vestindo uma roupa e máscara do homem-aranha,
dizendo a ela – Dexa plá mim tia! O homi-alanha te ajuda! Falou rapidamente e agiu.
O menino, em um lance rápido e único,
puxou a janela e abriu-a complemente. Todo o ônibus aplaudiu. Robson pensou em
matar o menino, mas não adiantaria, o vexame já estava consumado. Sentou-se
encolhido em sua poltrona. De lá viu, resignado, o menino ganhar de Lindiara um
saboroso beijo no rosto, e confundindo os personagens, gabar-se de sua força
mostrando o bíceps, dizendo - Comi espenafle hoje!
* Jornalista e contista gaúcho.
Habilidade, habilidade! Não é força, é jeito!
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