segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010




Dancei um tango com meus fantasmas

* Por Eduardo Murta

Vendo assim, pelos olhos de Clarice, pouco transparece da coleção de espinhosos enigmas que a vida lhe interpôs a cada esquina de percurso. Prematura. Filha única. Míope. Disléxica. Canhota. Daltônica. Ah, mas feliz. Feliz?!?! Desbragadamente feliz. Antes mesmo que os primeiros dentes escancarassem esse sentimento, não havia nela nada mais visível que ele.

Percebam na foto, entre os pais, como era de bem com o mundo. Justo seria, então, que houvesse verdade na recíproca. Longe disso. Vejam agora ela aos 17 anos, gatinha Zona Sul. Alinhada. Tatuada. Descolada. Perfumada. Senta-se à terceira carteira na sala de aula, junto à janela. Diz sempre que é para que se dê com o horizonte se o tédio ensaiar os passos iniciais lá no porão.

Mal sabe que há tremores bem mais graves vindo em sua direção. O deste março, 27, a assombrará. O disciplinário, sapatos lustrados, interrompe o exercício de Física, fala reservadamente à professora. E é seu nome que brota daquela atmosfera de tensa expectativa. A ela pedem que recolha objetos, livros, cadernos. Que rume à secretaria. Olhando para trás, o passado recomendava que se preparasse.

Sentiu um frio vazando-lhe por inteiro, varando-lhe a alma. Já deduzia o que a esperava, assim que respirou o ar solene do recinto. Não denunciava outros odores que não os da morte. Ela se virou antes que a diretora pronunciasse um “sente-se” quase misericordioso. Clarice deu com as quaresmeiras do colégio e o simbolismo de luto lhe pregou à pele em jeito náufrago, a arrastando. Aos 17 anos, um acidente de carro a pondo órfã, sem quem a acolhesse. Nenhum parente próximo.

Foi descobrir, a dor ainda imitando movimentos de maré, que o império ruíra. Família endividada. Arruinada. Não ficara um só tostão. Nem teto. Daí arrumou emprego na perfumaria do bairro. Pulou para a loja de roupas, no shopping. E, mal-acostumada, consumiu a ponto de o salário não pagar sequer as blusinhas de verão. Acabou na rua. Não vingaria também na casa de cosméticos. Se empetecando, que três meses adicionais de trabalho não seriam o bastante para acertar seus débitos.

Foi variando, das lanchonetes e papelarias da Galeria do Ouvidor aos laticínios do Mercado Central. Esbarrou, creiam, na Funerária Bom Pastor. Pensava que seria por uma semana, a que garantisse o aluguel, troco para almoço e lanche. Incrédula. Andava em rodopios, buscando as paredes e respostas para todo e qualquer barulho às suas costas. Ganhou vaga no turno da noite. Lava, veste e dá tom ao rosto dos mortos. Começou no campo das meticulosidades, pedindo licença a cada mexida e, dois meses, já manuseava os defuntos feito fossem apetrechos de camping. Ainda que jamais os maltratasse.

Ambientação plena, numa madrugada de calor baiano jurou ter avistado brumas se elevando de um dos corpos. Em seguida, um sussurro pedindo delicadezas. Parou. Conferiu respiração. Ergueu-lhe as pálpebras levemente. E deu dois saltos de distanciamento e pavor quando o morto lhe sorriu. Emparedou-se no costado do armário, deixou só um dos olhos brotar à espia. E lá estava ele: dentes à mostra. Clarice num tremor de quem virara outra vez refém da morte.

Trancou-se ao quartinho do fundo, que lhe servia de morada. Rezou. Seguiu ouvindo a voz e enxergando continuamente aquela face lhe sorrindo. Teve febre. Delírios. E decidiu por fazer como fizera diante de tudo que a desafiara: seguir adiante. Assim, sorriu também ao homem. Foi como se houvesse aberto uma porta. Vieram novas manifestações de vida naquela gente, que passou dos sobressaltos à naturalidade. Com eles tomava café, trocava confidências, revelavam angústias mútuas.

Fez unhas, penteou cabelos e escutou histórias. Mais: anotou últimos desejos. Marilda, que queria ser enterrada com o vestido estampado verde. Juliano, que sonhava partir em roupa branca e sandálias de couro. Sabrina, que encomendou esmaltes num vermelho discreto. Lino, a barba bem feita, água-de-colônia e um lírio à lapela.

Naquela sexta lhe chegou o mais peculiar dos pedidos. Florêncio, terno fino, sapato bicolor, bigode que dava voltas, lhe convidou para ser par num tango de Gardel. Mas que dançassem à calçada. Juntou foi gente para ver Clarice. As caixas de som parindo lamúrias e ela girando ao vazio. Contam que flutuava. Perguntassem, diria que estava feliz, porque fora capaz – como ao longo de sua vida – de bailar com seus fantasmas. Converter roteiros de tragédia em espetáculos de luz. Isso, definitivamente, a guiava e guiaria por todo o sempre.

* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas.




6 comentários:

  1. Eu provavelmente "botava dez no viado"
    e sairia como uma louca gritando!
    Mas saber lidar com seus fantasmas é uma
    dádiva e como facilita a nossa vida.
    Parabéns Eduardo.
    Beijos

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  2. Murta, adoro filmes de terror mesmo que depois não durma, mas seus contos são tão românticos e sensíveis que dá vontade de tbem dançar com fantasmas. Achei "massa"!

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  3. Há quem, em vez de morrer, dance com a morte sem lhe sentir os maus odores. Coragem, sim. Mas tb competência para viver. E, em meio a essa atmosfera romântica à Augusto dos Anjos, a leitura se transformou num espetáculo que só vc, caro Murta, consegue criar. Parabéns.

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  4. Uma saída criativa para uma vida vazia. Os próprios sonhos não realizados aconteceram através dos supostos desejos dos mortos. Mesmo dentro do realismo fantástico faço duas considerações: o daltonismo ocorre raramente em mulheres, e se há daltonismo não é possível tonalizar a face dos mortos, nem escolher vestido estampado de verde, ou um vermelho discreto para o esmalte. Fui chata demais?

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  5. Adorei! Nada como de vez em quando sair da realidade.Parabéns pela criatividade!

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