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Carnaval, Salinger, reclusão e bacanal
* Por Luiz Carlos Monteiro
I
Se o escritor norte-americano J. D. Salinger tivesse vindo ao Brasil, mais especificamente a cidades como o Recife, Rio ou Salvador, talvez não pudesse fugir à loucura do carnaval. Mesmo que pensasse em se isolar em alguma praia ou cidade interiorana mais distanciada das metrópoles, haveria de sempre ouvir um eco qualquer de frevo, axé ou samba. Se ligasse a TV, não teria possibilidade de recusar-se a ver os flashes que invadem as casas do país durante a farra momesca, mostrando trios elétricos baianos, tremendas mulatas cariocas, passistas de frevo pernambucano, num colorido intenso e escancarado de fantasias, máscaras, bundas, sorrisos, bijuterias e cosméticos. Ligando uma das emissoras locais, não deixaria de apreciar bailes de elite de caráter tradicional e configuração filantrópica como o Bal masqué e o Municipal, ou escrachado feito o dos Artistas.
Poderia apreciar, em qualquer estação de rádio, frevos impagáveis de Capiba na voz de Claudionor Germano. E o norte-americano poderia concordar também com o sugerido por Mauro Mota para o significado lúdico geral e a compreensão nativista do frevo: “O frevo tem lucidez na loucura pela contribuição pessoal solicitada dos participantes. Assim dilata a sua coreografia. Nela os passistas atuam com tanta realidade que até parecem criaturas artificiais, de peças desmontáveis. Que ora se dobram e escondem pernas e pés, ora chutam para se verem livres de ossos incômodos”. E ficaria mais pasmo e perplexo, quando descobrisse o que disse Antônio Maria, numa crônica dos anos sessenta, com melancolia e saudade, do carnaval do Recife, que começava na noite de Natal: “Não se pode fazer ideia do que era o povo do Recife, solto nas ruas do Recife, após a declaração irreversível do Carnaval. Faziam parte da corte imperial mulheres morenas, que suavam, em bolinhas, na boca e no nariz. Mulheres de olhos ansiosos, presas de todos os atavismos de religião e de dor, a dançar a mais verdadeira de todas as danças – o frevo”.
Se tivesse privado da amizade de Carlos Pena Filho, outro apaixonado pelo carnaval, que compôs letras para Capiba musicar, quem sabe se não apreciaria a mais conhecida delas, “A mesma rosa amarela” (gravada por Maysa, Nelson Gonçalves, Vanja Orico e Tito Madi): “Você tem quase tudo dela,/ o mesmo perfume, a mesma cor,/ a mesma rosa amarela,/ só não tem o meu amor./ Mas nestes dias de carnaval/ para mim, você vai ser ela./ O mesmo perfume, a mesma cor,/ a mesma rosa amarela./ Mas não sei o que será/ quando chegar a lembrança dela/ e de você apenas restar/ a mesma rosa amarela,/ a mesma rosa amarela”.
Não seria fácil para Salinger saber que, como no poema “Segundo dia de carnaval”, de Alberto da Cunha Melo, não se pode morrer durante o carnaval, pois há uma recusa de silêncio dos alto-falantes e das gargalhadas, dos marujos bêbados e dos blocos que não dão trégua ao morto: “Passam blocos carnavalescos/ e mulheres cheias de tochas/ incendeiam homens molhados/ de álcool, ensopados de azul.// Quando alguém pede para o morto/ um só minuto de silêncio,/ o porta-estandarte responde/ que ele ‘tem silêncio demais’”. Ou constatar que outro poeta da geração 65, José Mário Rodrigues, curte o carnaval com rasgos de folião juramentado, tirando do Recife e da avenida Guararapes toda a alegria que a cidade e a passarela principal dos desfiles pode franquear: “No carnaval eu me afogo/ No som quente dos metais/ Acordo minha bailarina,/ E adormeço meus punhais// No carnaval eu me abraço/ Com a cor de qualquer bandeira/ Depois volto aos meus pedaços/ (Mas isso é na quarta-feira...).
II
Mas Jerome David Salinger morreu há pouco, em 27 de janeiro deste ano, em sua casa em Cornish, no estado de New Hampshire. Foi o escritor mais recluso do século 20 dos Estados Unidos, e porque não dizer, do mundo. Famoso pelo seu livro “O apanhador no campo de centeio” (The catcher in the rye), de 1951, onde descarna a alienação, as aspirações, a irreverência e a rebeldia juvenil do segundo pós-guerra, escreveu numa linguagem que os jovens absorveram rapidamente, elegendo seu personagem Holden Caufield em ídolo.
Estranhamente e sem dar satisfações a ninguém, viveu recluso durante meio século. Depois de enricar com direitos autorais, e ao se indispor com as vicissitudes da fama, não quis mais saber de contato humano externo, a não ser a própria família, e ainda assim com restrições. Ele devia ter suas fortes razões para isso. Não escreveria jamais uma obra como a da estreia aos 32 anos (nasceu em Nova Iorque em 1919, no primeiro de janeiro). Não se sabe também o que ele deixou inédito. Em sua aversão a repórteres e fãs, e depois a qualquer tipo de gente que o procurasse, construiu uma barreira de muros altíssimos à bisbilhotice e à curiosidade. Mesmo assim, não pôde esquivar-se a escândalos e processos acionados por outras pessoas ou movidos por ele próprio.
III
A solidão de Salinger era diferente, por exemplo, da solidão de Manuel Bandeira. Se ambos procuravam o recolhimento para escrever, Bandeira, mesmo sendo um “ermitão”, participava da vida da cidade que escolheu para passar seus dias, o Rio de Janeiro. Escrevia para jornais, ia a lançamentos de livros, aceitava julgar concursos e prêmios de variada procedência e espécie, foi da Academia Brasileira de Letras, tinha muitos amigos (Vinícius, Drummond, Jaime Ovalle, Murilo Mendes, para citar apenas estes) que, apesar de certa rudeza do pernambucano, não dispensavam a sua companhia. Compôs um carnaval que tem mais de imaginário do que de vivido, em seu livro de 1919, Carnaval. Isto não significa, porém, que não tivesse participação direta nos carnavais de época, na condição de espectador privilegiado e que tinha um olhar mais aguçado que a maioria das pessoas comuns.
Um carnaval lírico e despojado, onde seriam permitidas todas as loucuras dos amores eventuais e descompromissados, do êxtase momentâneo e sem controle da carne em delírio. O poeta convoca Baco, Momo e Vênus para cantar e brincar na festa retratada no seu poema “Bacanal”, o primeiro do volume Carnaval. Os efeitos alcançados em estrofes com refrão de verso único, como um grito que se transmuta a cada chamamento da entidade mitológica, aparecem como desejos de liberação e desregramento das cadeias que cingem a alma e o corpo: “Quero beber! cantar asneiras/ No esto brutal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco.../ Evoé Baco!// Lá se me parte a alma levada/ No torvelim da mascarada,/ A gargalhar em doudo assomo.../ Evoé Momo!// Lacem-na toda, multicores,/ As serpentinas dos amores,/ Cobras de lívidos venenos.../ Evoé Vênus!”.
O desejo inalcançado confunde, assim, o vivido e o impalpável, o que se observa à distância e o que é sentido e provado. Esta ambiguidade se manifesta com irreverência e grande compulsão para anular, pelo menos durante o surto carnavalesco, um cotidiano que se faz opressor pela necessidade de atendimento a obrigações e injunções imediatas e às vezes indesejadas. Por isso, poderá arrematar sincera e incisivamente, se perguntado: “Se perguntarem: Que mais queres,/ Além de versos e mulheres?.../ – Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!.../ Evoé Baco!// O alfange rútilo da lua,/ Por degolar a nuca nua/ Que me alucina e que eu não domo!.../ Evoé Momo!// A lira etérea, a grande Lira!.../ Por que eu extático desfira/ em seu louvor versos obscenos,/ Evoé Vênus!”.
Em versos que expõem resquícios perceptíveis de certa dicção lusitana, o poeta junta-se à multidão alucinada e esquece temporariamente a tristeza, a falsidade e a hipocrisia de uma sociedade que se debate paradoxalmente entre o permissivo e o permitido, com focos ancestrais de conservadorismo e claros mas ainda incipientes sinais de avanço.
* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com
* Por Luiz Carlos Monteiro
I
Se o escritor norte-americano J. D. Salinger tivesse vindo ao Brasil, mais especificamente a cidades como o Recife, Rio ou Salvador, talvez não pudesse fugir à loucura do carnaval. Mesmo que pensasse em se isolar em alguma praia ou cidade interiorana mais distanciada das metrópoles, haveria de sempre ouvir um eco qualquer de frevo, axé ou samba. Se ligasse a TV, não teria possibilidade de recusar-se a ver os flashes que invadem as casas do país durante a farra momesca, mostrando trios elétricos baianos, tremendas mulatas cariocas, passistas de frevo pernambucano, num colorido intenso e escancarado de fantasias, máscaras, bundas, sorrisos, bijuterias e cosméticos. Ligando uma das emissoras locais, não deixaria de apreciar bailes de elite de caráter tradicional e configuração filantrópica como o Bal masqué e o Municipal, ou escrachado feito o dos Artistas.
Poderia apreciar, em qualquer estação de rádio, frevos impagáveis de Capiba na voz de Claudionor Germano. E o norte-americano poderia concordar também com o sugerido por Mauro Mota para o significado lúdico geral e a compreensão nativista do frevo: “O frevo tem lucidez na loucura pela contribuição pessoal solicitada dos participantes. Assim dilata a sua coreografia. Nela os passistas atuam com tanta realidade que até parecem criaturas artificiais, de peças desmontáveis. Que ora se dobram e escondem pernas e pés, ora chutam para se verem livres de ossos incômodos”. E ficaria mais pasmo e perplexo, quando descobrisse o que disse Antônio Maria, numa crônica dos anos sessenta, com melancolia e saudade, do carnaval do Recife, que começava na noite de Natal: “Não se pode fazer ideia do que era o povo do Recife, solto nas ruas do Recife, após a declaração irreversível do Carnaval. Faziam parte da corte imperial mulheres morenas, que suavam, em bolinhas, na boca e no nariz. Mulheres de olhos ansiosos, presas de todos os atavismos de religião e de dor, a dançar a mais verdadeira de todas as danças – o frevo”.
Se tivesse privado da amizade de Carlos Pena Filho, outro apaixonado pelo carnaval, que compôs letras para Capiba musicar, quem sabe se não apreciaria a mais conhecida delas, “A mesma rosa amarela” (gravada por Maysa, Nelson Gonçalves, Vanja Orico e Tito Madi): “Você tem quase tudo dela,/ o mesmo perfume, a mesma cor,/ a mesma rosa amarela,/ só não tem o meu amor./ Mas nestes dias de carnaval/ para mim, você vai ser ela./ O mesmo perfume, a mesma cor,/ a mesma rosa amarela./ Mas não sei o que será/ quando chegar a lembrança dela/ e de você apenas restar/ a mesma rosa amarela,/ a mesma rosa amarela”.
Não seria fácil para Salinger saber que, como no poema “Segundo dia de carnaval”, de Alberto da Cunha Melo, não se pode morrer durante o carnaval, pois há uma recusa de silêncio dos alto-falantes e das gargalhadas, dos marujos bêbados e dos blocos que não dão trégua ao morto: “Passam blocos carnavalescos/ e mulheres cheias de tochas/ incendeiam homens molhados/ de álcool, ensopados de azul.// Quando alguém pede para o morto/ um só minuto de silêncio,/ o porta-estandarte responde/ que ele ‘tem silêncio demais’”. Ou constatar que outro poeta da geração 65, José Mário Rodrigues, curte o carnaval com rasgos de folião juramentado, tirando do Recife e da avenida Guararapes toda a alegria que a cidade e a passarela principal dos desfiles pode franquear: “No carnaval eu me afogo/ No som quente dos metais/ Acordo minha bailarina,/ E adormeço meus punhais// No carnaval eu me abraço/ Com a cor de qualquer bandeira/ Depois volto aos meus pedaços/ (Mas isso é na quarta-feira...).
II
Mas Jerome David Salinger morreu há pouco, em 27 de janeiro deste ano, em sua casa em Cornish, no estado de New Hampshire. Foi o escritor mais recluso do século 20 dos Estados Unidos, e porque não dizer, do mundo. Famoso pelo seu livro “O apanhador no campo de centeio” (The catcher in the rye), de 1951, onde descarna a alienação, as aspirações, a irreverência e a rebeldia juvenil do segundo pós-guerra, escreveu numa linguagem que os jovens absorveram rapidamente, elegendo seu personagem Holden Caufield em ídolo.
Estranhamente e sem dar satisfações a ninguém, viveu recluso durante meio século. Depois de enricar com direitos autorais, e ao se indispor com as vicissitudes da fama, não quis mais saber de contato humano externo, a não ser a própria família, e ainda assim com restrições. Ele devia ter suas fortes razões para isso. Não escreveria jamais uma obra como a da estreia aos 32 anos (nasceu em Nova Iorque em 1919, no primeiro de janeiro). Não se sabe também o que ele deixou inédito. Em sua aversão a repórteres e fãs, e depois a qualquer tipo de gente que o procurasse, construiu uma barreira de muros altíssimos à bisbilhotice e à curiosidade. Mesmo assim, não pôde esquivar-se a escândalos e processos acionados por outras pessoas ou movidos por ele próprio.
III
A solidão de Salinger era diferente, por exemplo, da solidão de Manuel Bandeira. Se ambos procuravam o recolhimento para escrever, Bandeira, mesmo sendo um “ermitão”, participava da vida da cidade que escolheu para passar seus dias, o Rio de Janeiro. Escrevia para jornais, ia a lançamentos de livros, aceitava julgar concursos e prêmios de variada procedência e espécie, foi da Academia Brasileira de Letras, tinha muitos amigos (Vinícius, Drummond, Jaime Ovalle, Murilo Mendes, para citar apenas estes) que, apesar de certa rudeza do pernambucano, não dispensavam a sua companhia. Compôs um carnaval que tem mais de imaginário do que de vivido, em seu livro de 1919, Carnaval. Isto não significa, porém, que não tivesse participação direta nos carnavais de época, na condição de espectador privilegiado e que tinha um olhar mais aguçado que a maioria das pessoas comuns.
Um carnaval lírico e despojado, onde seriam permitidas todas as loucuras dos amores eventuais e descompromissados, do êxtase momentâneo e sem controle da carne em delírio. O poeta convoca Baco, Momo e Vênus para cantar e brincar na festa retratada no seu poema “Bacanal”, o primeiro do volume Carnaval. Os efeitos alcançados em estrofes com refrão de verso único, como um grito que se transmuta a cada chamamento da entidade mitológica, aparecem como desejos de liberação e desregramento das cadeias que cingem a alma e o corpo: “Quero beber! cantar asneiras/ No esto brutal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco.../ Evoé Baco!// Lá se me parte a alma levada/ No torvelim da mascarada,/ A gargalhar em doudo assomo.../ Evoé Momo!// Lacem-na toda, multicores,/ As serpentinas dos amores,/ Cobras de lívidos venenos.../ Evoé Vênus!”.
O desejo inalcançado confunde, assim, o vivido e o impalpável, o que se observa à distância e o que é sentido e provado. Esta ambiguidade se manifesta com irreverência e grande compulsão para anular, pelo menos durante o surto carnavalesco, um cotidiano que se faz opressor pela necessidade de atendimento a obrigações e injunções imediatas e às vezes indesejadas. Por isso, poderá arrematar sincera e incisivamente, se perguntado: “Se perguntarem: Que mais queres,/ Além de versos e mulheres?.../ – Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!.../ Evoé Baco!// O alfange rútilo da lua,/ Por degolar a nuca nua/ Que me alucina e que eu não domo!.../ Evoé Momo!// A lira etérea, a grande Lira!.../ Por que eu extático desfira/ em seu louvor versos obscenos,/ Evoé Vênus!”.
Em versos que expõem resquícios perceptíveis de certa dicção lusitana, o poeta junta-se à multidão alucinada e esquece temporariamente a tristeza, a falsidade e a hipocrisia de uma sociedade que se debate paradoxalmente entre o permissivo e o permitido, com focos ancestrais de conservadorismo e claros mas ainda incipientes sinais de avanço.
* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com
O que leva uma pessoa que se torna
ResponderExcluircélebre a se recolher? Não sei...
talvez ele não soubesse lidar com
a hipocrisia e a mediocridade...talvez
não fosse isso o que desejava...
Ao menos fica a obra, essa não morre.
Análise e abordagem interessantes. Não havia pensado nessa ideia carnavalesca.
ResponderExcluirMuito bom, Luiz Carlos. Você passeou bem por nomes tão diversos, unidos pelo tema carnaval. Culto e simples ao mesmo tempo. Viva.
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