Por uma causa
Os intelectuais contemporâneos – salvo
algumas exceções – parecem ter perdido a perspectiva da sua responsabilidade
social. Pela sua própria condição cultural, deveriam ser os líderes naturais
das grandes causas. Poucos atualmente são. O que temos são lideranças
medíocres, pouco imaginativas, quando não corruptas e dogmáticas. São raros,
raríssimos, por exemplo, os verdadeiros estadistas no comando dos países.
Espera-se dos intelectuais, pela condição que ostentam, que como homens de
raciocínio, com grande preparo intelectual, sejam os balizadores dos caminhos
que conduzam aos avanços políticos, econômicos e sociais de seus respectivos
povos, de forma a que correspondam aos progressos tecnológicos ocorridos no
decorrer de todo o dramático século XX, o das luzes e das trevas, todo ele
manchado de sangue, mormente de duas guerras mundiais e de mais de duas
centenas de conflitos regionais. E, sobretudo, deste século XXI, repleto de
promessas e de perigos. Não o são.
Uma parte, a ligada aos ideais de
esquerda, decepcionada com o colapso do comunismo, perdeu sua bandeira
predileta de luta. Por causa disso, abriu mão da utopia de uma sociedade sem
classes e fechou-se em si mesma, como que numa concha, ao invés de procurar
alternativas, como seria de se esperar. E não uma única, mas dez, vinte, cem,
mil. Quantas a sua capacidade fosse capaz de engendrar. Não fazem isso, porém,
por serem obcecadamente dogmáticos.
A outra parte, mais conservadora,
transformou o mito do "mercado" numa panacéia universal. Apregoa, aos
quatro ventos, o próprio "fim da história", no sentido da prevalência
absoluta do liberalismo, alçado, desde a extinção da União Soviética, à
categoria de dogma. Jura que este é a solução para tudo. Evidentemente não é.
Basta que se olhe ao redor, para a evolução da miséria, para a desagregação da
família, para o desemprego, para a crescente violência, para mostrar que isto
que aí está não é ideal nem mesmo para o mais frenético dos masoquistas.
Esses intelectuais – de esquerda e de
direita – omitem-se, cada um por razões próprias, a maioria por pura teimosia,
por aferrarem-se a dogmas, de que não abrem mão, mesmo quando lhes provam, por
a + b, que suas idéias são equivocadas e, portanto, são inoportunas. Preferem,
em vez disso, encerrar-se em uma "torre de marfim", agindo como
intocáveis. Evitam envolver-se em qualquer causa que não seja a da
autopromoção. Olham para o próprio umbigo como se fosse uma preciosidade,
admirando-o, idolatrando-o, deificando-o.
A palavra-chave é envolvimento. É cada
pessoa fazer a sua parte, dar a sua contribuição, de acordo com a sua
capacidade, à comunidade a que pertence. Este é o único sentido que a vida pode
ter: o da participação. Ninguém é auto-suficiente a ponto de não precisar dos semelhantes.
E tudo tem um preço. Esperam de nós a recíproca. Nosso ideal deveria ser o de
nos tornarmos elos da cadeia evolutiva do homem. Não faz sentido vivermos só
para nós mesmos.
O envolvimento, tanto com pessoas,
quanto com causas, implica em
riscos. Isto é óbvio. O escritor Michael Drury escreve a
respeito: "Ninguém pode negar que envolver-se em coisas significa
arriscar-se. A pessoa de que nos enamoramos pode magoar-nos terrivelmente; os
amigos que discutem e que tentamos reconciliar poderão voltar-se contra nós com
a sua cólera conjugada; o homem que se afoga e tentamos salvar pode
arrastar-nos consigo para o fundo. Contudo, evitando dissabores e
desapontamentos, tornamo-nos frios, desumanos".
O estranho é ver intelectuais
comprometidos com o acúmulo de riquezas pessoais, empenhando o que de melhor
possuem em um objetivo tão pífio. Ninguém mais do que eles tem capacidade para
perceber o quanto essa meta é vazia e até absurda. Sequer é necessário
mencionar a razão. Tais pessoas sabem. Conhecem-na de sobejo. Albert Einstein,
em seu livro "Como Vejo o Mundo", expressa: "Tenho a firme
convicção de que nenhuma riqueza de bens materiais pode fazer progredir o
homem, mesmo que ela esteja nas mãos de homens que demandam uma meta superior.
Pode alguém imaginar Moisés, Jesus ou Gandhi armados com um saco de
dinheiro?"
A resposta à questão é óbvia. O jovem
(tem apenas 36 anos de idade) escritor rondoniense Nazareno Vieira de Souza,
que assina seus textos com o pseudônimo de Augusto Branco, fez a seguinte
constatação, um alerta para o mal que determinados intelectuais fazem ao
difundirem dogmas ostensivamente equivocados e, portanto, nocivos ás massas
ignaras: "As pessoas vivem uma
vida que não é delas. Perseguem objetivos que disseram para elas perseguirem.
Compram coisas que disseram para elas comprarem. Desejam o que fizeram elas
desejarem. Fazem o que a maioria se põe a fazer e, por fim, seguem repetindo
idéias que não são suas e morrem por ideais que não são seus". Ou seja,
são guiadas para o abismo da nulidade e do fracasso por líderes suicidas (ou
homicidas?)..
Ainda há, felizmente, intelectuais
empenhando prestígio e credibilidade nas grandes causas sociais, embora em um
número aquém do que seria desejável. Enquanto tivermos líderes conscientes
seguindo o exemplo deixado por Betinho, preocupados em acabar com a fome de
milhões de brasileiros (e de africanos, asiáticos etc.etc.etc.) mundo afora e
em obter o resgate da cidadania para estes excluídos, nem tudo estará perdido.
"Utopia", dirão os céticos e os medíocres, além dos acomodados e dos
poltrões. Pode ser! Mas não deixa de ser um sonho digno de se tentar
conquistar. E a vida do homem só tem sentido quando seus ideais, seus objetivos
pessoais, suas expectativas, deixam de ser individuais e se tornam
compartilhados, altruístas, coletivos.
Já que mencionei Albert Einstein e seu
lúcido livro “Como Vejo o Mundo”, cito, para encerrar estas descompromissadas
reflexões, o seguinte trecho dessa mencionada obra:
"A vida é como jogar uma bola na
parede: Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul; se for jogada uma bola
verde, ela voltará verde; se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca; se a
bola for jogada com força, ela voltará com força.
Por isso, nunca ‘jogue uma bola na vida’ de forma que você não esteja pronto a recebê-la. A vida não dá nem empresta; não se comove nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos".
Pense nisso, paciente e inteligente
leitor. E ofereça à vida o que você tiver de melhor. Seja idealista. Seja
participativo. Jamais se omita. Fuja dos dogmas. E não tenha receio de mudar de
direção quando lhe demonstrarem, com fatos concretos e provas irrefutáveis, que
suas convicções são equivocadas. Enfim, “ENVOLVA-SE!!!!”.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Mais fácil mudar radicalmente de vida do que opinião, mas vamos tentando evoluir.
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