Restaurante Leite
*
Por José Calvino
“Sou
negra, e daí? Que tenho eu agora de diferente na história? Virei campo de
estudo...” Rosália Cristina)
A forma como o
preconceito racial se expressa em cada região do Brasil é curiosa. Aqui em
Recife, por exemplo, conheço muitos pernambucanos que têm preconceito de cor.
Independentemente, alguns casos aconteceram no tradicional restaurante Leite.
Fundado em 1882 pelo português Manoel Leite, é o mais famoso restaurante
recifense. O mesmo fica na esquina da Praça Joaquim Nabuco com a rua da
Concórdia.
Freqüentavam com
assiduidade o badalado restaurante alguns intelectuais e figuras proeminentes
da região. Por lá, o visitaram o presidente de Portugal, general Craveiro Lopes
(1957), o Ministro da Guerra, general Henrique Duffles de Teixeira Lott (dizem
até que o peito do general estava mais decorado do que a mesa do banquete),
Juscelino Kubitschek, a condessa Maurina Pereira Carneiro, a Miss Brasil (a
baiana Marta Rocha), Cordeiro de Farias, Miguel Arraes, entre outros
políticos...
O restaurante Leite,
com todos os movimentos políticos e crises que afligiram nosso país, chega ao
século XXI com outro tratamento do que diziam ser diferente. Segundo um amigo
ex-combatente, disse que certa vez um capitão do Exército, por ser negro, não
foi atendido, ficando revoltado após discutir com o garçom, que ameaçou chamar
a polícia. Como ficava próximo ao restaurante um ponto de táxi, o motorista
negro recusou levar o capitão, alegando que só conduzia clientes brancos, por
ordem do dono do Leite. O então capitão atravessou a ponte da Boa Vista e foi
até o Quartel-General (hoje Hospital Militar), no Parque Treze de Maio, chamar
a Polícia do Exército (PE), onde ficava uma patrulha de prontidão à disposição
do IV Exército.
Foram presos o garçom
e o motorista, tendo o dono do Leite evadido-se. Finalizando, transcrevo o
comentário da poesia “Sou Negra, e daí?”, de Rosália Cristina. O valor da raça
negra, em sua poesia, retrata a mulher negra e sua inteligência...
“Talvez,
sendo eu, objeto de suas teses
percebam-me
cultura viva, em pele,
antropologicamente
em vida
não
apenas mais uma remanescente”.
*Escritor,
poeta e teatrólogo.
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