O papel da Filosofia
O filósofo, poeta e ensaísta português George Agostinho Baptista
da Silva – que assinava sua obra apenas como Agostinho da Silva – definiu, com
meridiana clareza, qual é o verdadeiro papel e o real objetivo da Filosofia. Muitos
desconhecem-nos ainda hoje. Esperam dela o que nunca lhe coube fazer: dar
respostas para os enigmas da vida e do universo. Agostinho da Silva, no
entanto, observou: “Filosofia é provocação e dúvida: jamais certeza e ensino.
Platão se perdeu quando fundou a Academia. Virou dono da verdade e aprendiz de
tirano”. Foi esse caráter provocador, sempre apresentando novas perguntas
quando tudo parece já ter sido respondido, que fez dela “a mãe de todas as ciências”.
Esse eminente pensador, autor do instigante livro “Sete
cartas a um jovem filósofo”, nasceu no início do século XX, em 13 de fevereiro
de 1906 e morreu, aos 84 anos de idade, em 3 de abril de 1994. É um autor que
recomendo a quem queira conhecer alguns dos caminhos para o conhecimento e a
criação. É imperdível. O ponto de partida, o “estopim” para qualquer cogitação
filosófica, começa, portanto, com perguntas. E com as mais elementares e
básicas, que homens e mulheres de todas as partes e lugares vêm fazendo há
milênios: O que sou? De onde venho? Para onde vou? Onde estou? E vai por aí
adiante.
Filosofar, portanto, consiste em tentar responder a estas e
a infinitas questões. Não esperem, no entanto, encontrar respostas definitivas,
claras, objetivas, exatas e indestrutíveis, o que, aliás, ninguém, jamais,
logrou conseguir. E obtê-las sequer é o objetivo da Filosofia. Nunca foi. Ela
lida é com dúvidas e não com certezas. É provável (pelo menos plausível) que
estas foram as primeiras perguntas feitas por nossos remotíssimos ancestrais
(que provavelmente ainda habitavam as cavernas e mal começavam a fabricar
rústicas “ferramentas” de pedra lascada) tão logo descobriram que podiam “pensar”. Quando
isso ocorreu? Ninguém sabe e certamente jamais saberá. Não há como saber. Só
podemos especular a propósito. Essas quatro perguntas originais, essa dúvida
primária que ainda persiste e que não creio que algum dia venha a ser dirimida,
que gerou e vem gerando milhares e milhares de especulações, constituem o alicerce,
a base, o fundamento da Filosofia.
Pois foi trazendo à baila essas questões antiqüíssimas e
simultaneamente atualíssimas que o escritor norueguês Jostein Gaarder iniciou
sua obra-prima, “O mundo de Sofia”. Com inusitada maestria e habilidade, ele
conseguiu escrever um livro que é, ao mesmo tempo, atrativo romance (que se
presta, portanto, ao entretenimento) e magna aula de filosofia, que induz o
leitor à reflexão. Intitulou o primeiro capítulo de “O Jardim do Éden”, com
este complemento: “... no final das contas, algo teria que ter surgido a partir
do nada”. Cabe, aqui, uma explicação, para melhor entendimento do enredo. A
história começa com a apresentação da personagem central, em torno da qual tudo
gira.
Às vésperas de completar quinze anos de idade,
Sofia Amundsen começa a receber misteriosos bilhetes e cartões postais no
mínimo bastante estranhos. As mensagens são anônimas e não dizem nada, apenas “perguntam”.
As duas primeiras questões apresentadas à adolescente, que receberia muitas
outras, são: “quem é ela e de onde vem o mundo em que vivemos”. Os postais são
tão misteriosos e enigmáticos quanto os bilhetes. Procedem do Líbano, enviados
um major desconhecido, que serve às forças de paz da ONU naquele país que, na época
em que o livro foi escrito (1990), vivia longa guerra civil que já durava mais
de uma década. Ademais, nem eram endereçados a Sofia, mas para outra
adolescente, que também completaria 15 anos no dia seguinte, chamada Hilde
Knag, jovem que a garota não tinha a mais remota idéia quem era.
O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de
partida deste fascinante romance, best-seller internacional, inclusive no
Brasil. Sofia tinha um recanto particular que para ela era revestido de magia e
de encantamento: o jardim de sua casa. Considerava-o seu mundo, um lugar todo
seu, onde se refugiava em momentos de dúvidas ou de aflições. Mas... acho
melhor dar “voz” a Jostein Gaarder, neste trecho revelador de seu romance:
“(...) Sofia sempre achou que o jardim era um mundo
inteiro para ela. Toda a vez que ouvia falar do Jardim do Éden mencionado no
mito da criação, ela se lembrava de estar sentada no seu esconderijo, observando
seu próprio paraíso.
- De onde vem o mundo?
Como ela poderia saber? Sofia tinha ciência de que
a Terra era apenas um pequeno planeta no universo. Mas de onde vinha o próprio
universo?
Podia-se é claro pensar que o universo era algo que
sempre existira, portanto não seria necessário achar uma resposta para aquela
questão. Mas esse algo poderia ter sempre existido? Dentro dela crescia uma
sensação a essa idéia. Pois o universo tinha, de algum modo, que ter surgido a
partir de alguma coisa.
Mas se o universo subitamente tivesse surgido a
partir de outra coisa essa outra coisa também teria que ter surgido de mais
outra coisa. Sofia sentia que estava apenas roçando um problema maior. No fim
das contas, algo teria que ter surgido a partir do nada. Mas isso fazia
sentido? Não seria também impossível imaginar que o universo sempre existira?
(...)”.
Atualmente, é uma espécie de consenso no mundo
científico e acadêmico a “Teoria do Big-Bang”. Ou seja, que no princípio, tudo
o que constitui o universo – galáxias, estrelas, planetas etc.etc.etc. – estava
absurdamente comprimido em algo do tamanho menor do que o ponto final deste
texto. E que, por causas não explicadas, ocorreu uma incomensurável explosão,
que redundou nisso tudo que aí está: em galáxias, estrelas, planetas etc.etc.etc.
Embora hoje constitua-se virtualmente em dogma, não há a mais remota
comprovação de que essa foi a origem universal. Ademais, se as coisas ocorreram
assim mesmo (no que não creio), onde estava esse superaglomerado, que resultou
no universo, que entendo infinito? Afinal, estava em algum lugar. Em qual?
Co9mo esse lugar surgiu? Perguntas, perguntas e perguntas. E é bom que assim
seja, posto que o papel da Filosofia não é o de trazer respostas ou apresentar
conclusões comprovadas, que devam ser ensinadas às pessoas. É, e sempre será,
PROVOCAÇÃO e DÚVIDAS!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Filosofia são perguntas e não respostas. As especulações persistirão para todo o sempre.
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