Sucessos efêmeros
* Por Rosana Hermann
O vídeo ‘Tapa na Pantera’, disponível
no YouTube, foi do zero ao sucesso total
em menos de uma semana, um arranque de mídia poucas vezes registrado na
história das comunicações, principalmente por ter sido totalmente espontâneo. O
próprio diretor da pequena peça surpreendeu-se com o número de visitas e
comentários que a cena interpretada por Maria Alice Vergueiro provocou na
audiência. Não houve nenhum estímulo, nenhuma divulgação. O vídeo foi
disponibilizado no site, como todos os outros milhões que lá estão e, em
questão de dias, já era o mais comentado entre adolescentes e jovem adultos do
Brasil.
Jornais impressos e online
entrevistaram seus criadores e realizadores, fóruns debateram seu conteúdo,
emails, comunidades e mensagens eletrônicas se multiplicavam em progressão
geométrica divulgando seu link.
Mas, assim como a onda que se ergueu no
mar que se ergue em segundos, estoura na areia e acaba, a onda da Pantera
também passou. Passou como a do sanduíche-iche, a Katilce beijada pelo Bono Vox
e todos os outros sucessos instantâneos da Internet que seguem a velocidade da
vida online. À medida que a largura da banda cresce, diminui o tempo de sucesso
no instável equilíbrio do apogeu.
Hoje, o sucesso na rede é como a chuva
que cai e passa. Dependendo do volume da precipitação, pode causar inundações
de acessos, derrubar servidores e isolar pessoas em ilhas de solicitação. Mas
em pouco tempo, o nível da água desce, a água é absorvida pelo solo, evapora e
acaba.
Nada disso é novidade, mas há uma
vertente nova na interpretação desses fatos: a nossa necessidade desses
sucessos efêmeros. Precisamos destas ondas como precisamos da chuva. Essas
pequenas bobagens transitórias, esses acontecimentos, temperam nosso cotidiano,
às vezes amargo, às vezes sem sal e sabor. Esse mesmo papel é representado pelas novelas, na vida de muitos brasileiros
que têm mais tempo de ficar em casa e acompanhar uma obra que dura meio ano.
Mas para as pessoas de vida mais agitada, essas pequenas chuvas são canapés de
informação, pequenos bocados de emoção, que substituem a importância dos
personagens da novela de forma descartável, sem compromisso.
Precisamos saber o que acontece, qual a
boa do momento, para discutir com colegas de trabalho ou puxar assunto no
elevador. Porque hoje, a vida é assim: fazemos contato com muita gente, mas nos
relacionamos de fato com poucos. Não temos assuntos comuns, próprios, a não ser
falar mal do chefe e dos colegas de mercado. Os assuntos, então, são esses, as
figuras da mídia, as chuvas passageiras, que umedecem e refrescam nossas vidas
tão secas.
*Rosana Hermann
é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão,
humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora
de televisão.
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