A necessidade de um projeto
Qualquer empreendimento – não importa se a construção de uma
casa ou de algum outro objeto, ou a
redação de um livro, por exemplo – para ser viável e, portanto, bem-sucedido,
requer, antes e acima de tudo, que o empreendedor saiba com exatidão o que de
fato quer. Isso vale, claro, também para o estudo e, principalmente, para
pesquisa, notadamente da filosofia. Há outros tantos requisitos a considerar,
mas este que citei é absolutamente essencial e imprescindível. Ou seja, é
indispensável que haja um “projeto” prévio, logicamente factível, para
viabilizar tais empreendimentos O norueguês Jostein Gaarder deixa isso claro no
livro “O mundo de Sofia”, ao tratar das teses levantadas pelos filósofos da
Antiguidade grega, nos primórdios da Filosofia, na tentativa de explicar os
fenômenos da natureza.
O escritor explicita, a certa na altura do seu romance – que
simultaneamente é uma aula de filosofia – ao se referir às instruções dadas à
jovem adolescente, personagem do seu livro, desafiada a responder à questão: “pode
algo surgir do nada?”, referindo-se á origem do universo: “ (...) Como a maior
parte dos filósofos viveram em outra época – e talvez numa cultura
completamente diferente da nossa – é importante nos determos um pouco no que
seria o ‘projeto’ de determinado filósofo. Isso quer dizer que devemos procurar
entender exatamente o que aquele filósofo tentava descobrir. Um filósofo podia
estar investigando o surgimento das plantas e dos animais. Outro queria saber
se existe um Deus ou se os homens possuem uma alma imortal (...)”.
Faz todo o sentido, não é mesmo? Por mais genial que o
sujeito fosse, precisaria saber o que pretendia pesquisar especificamente.
Buscar explicações pára a “origem” e funcionamento de TUDO seria o mesmo que
não querer sair do lugar e não explicar coisíssima alguma. Jostein, na pele do
até então ainda misterioso personagem, o mestre – do qual Sofia Amudsen, aliás,
não conhecia nada e que jamais vira e nem ouvira sua voz, mas apenas recebera
mensagens dele pelo correio, e que se
propusera a lhe ensinar princípios de Filosofia – explica dessa forma a
necessidade do estabelecimento de um tema definido, de uma estratégia de
raciocínio específica para seguir: “(...) Quando finalmente conseguimos definir
qual o projeto de determinado filósofo, torna-se mais fácil acompanhar a sua
linha de pensamento. Porque nenhum filósofo se preocupa em responder a rodas as
questões filosóficas (...)”. Reitero: nem poderia! Se tentasse, certamente
daria com os burros n’água. Não chegaria a lugar algum.
E o misterioso mestre prossegue, no texto de um extenso
calhamaço que havia enviado pela manhã, pelo correio, em um envelope pardo, á
estupefata e intrigada adolescente de 14 anos, às vésperas de completar 15: “(...)
Não vou passar lição de casa para você – muito menos vou lhe ensinar fórmulas
matemáticas complicadas. Como se
conjugam os verbos, também está muito distante do meu interesse. Mas de vez em
quando vou lhe pedir que faça um pequeno exercício. Se você aceitar estas
condições podemos continuar (...)”. Certamente, o ainda misterioso mestre
presumiu que a menina aceitaria a tarefa que disse que lhe passaria. Porquanto,
de imediato, passou a se referir a um grupo específico de filósofos, com uma
linha de pensamento definida.
Gaarder, sempre travestido do personagem, escreve: “(...) Os
primeiros filósofos gregos costumam ser chamados de filósofos da natureza,
porque foram eles que primeiro se interessaram pela natureza e pelos processos
naturais. Já nos indagamos de onde vêm todas as coisas. Muitas pessoas
acreditam hoje que, num determinado momento do passado, as coisas surgiram do
nada. Esse pensamento não era muito difundido entre os gregos. De uma maneira
ou de outra eles acreditavam que ‘alguma coisa’ sempre existiu. Como tudo podia
surgir a partir do nada não era a pergunta mais importante, aliás. Os gregos
frequentemente se intrigavam com o fato de peixes poderem viver na água e com o
fato de árvores imensas e flores multicoloridas nascerem da terra sem vida.
Para não mencionar o fato de um pequeno bebê surgir para o mundo de dentro da
mãe (...)”.
É preciso levar em conta que naquele remotíssimo passado não
havia o mínimo vestígio disso que hoje denominamos de “ciência”. As tentativas
das pessoas de explicarem os fenômenos mais triviais da natureza, que hoje uma
criança semi-alfabetizada é capaz de entender sem grandes dificuldades, eram
todas baseadas em mitos, atribuídas a exóticos deuses, entendidas como “magia”
e, claro, tudo não passava de um conjunto de superstições, que hoje nos pasrece
risível. Jostein Gaarder prossegue: “(...) Os filósofos testemunhavam com seus
próprios olhos como ocorriam constantemente as transformações na natureza. Mas
como essas transformações eram possíveis? Como uma substância poderia evoluir
de uma coisa para algo totalmente diferente – uma forma de vida, por exemplo?
Os primeiros filósofos concordavam que deveria haver uma ‘substância primordial’
por trás de todas as transformações. Como chegaram a essa conclusão não é fácil
explicar. Nós sabemos apenas que existia a noção de que deveria haver ‘algo’ que
a tudo originava e para onde tudo se voltaria (...)”. Descobrir essa ‘coisa’,
então sumamente misteriosa, todavia, era o grande projeto desses filósofos da
natureza. Voltarei a tratar dele.
Boa leitura.
O Editor.
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Gostei dessa ideia da "substância primordial".
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