Quem nasceu primeiro?
O escritor norueguês Jostein Gaarder afirmou, no segundo
capítulo de sua obra-prima, “O mundo de Sofia”, que a religião precedeu a Filosofia
como tentativa dos nossos remotíssimos ancestrais de darem uma explicação que
consideravam lógica sobre o que eram, de onde vinham, onde estavam e, para onde
iam. Escreveu: “Essas explicações religiosas foram transmitidas de geração em
geração através dos mitos”. A referida afirmação comporta, porém, contestação.
Gaarder relativizou a questão, ao escrever: “Por filosofia queremos dizer uma
maneira completamente nova de pensar que surgiu na Grécia aproximadamente em
600 a.C.”. Ou seja, referiu-se, especificamente, ao suposto princípio dessa que
é a “mãe de todas as ciências”.
Se atentarmos, porém, para a proto-história, essa relação se
inverte. Ou seja, a religião surgiu para explicar o que um princípio filosófico
básico anterior, ou seja, o da dúvida e do questionamento, lançou previamente
no ar. Portanto, segundo entendo, a Filosofia, posto que primaríssima, precedeu
os mitos. É uma questão comparável à famosa e tão popular indagação: “quem
nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Você, certamente, paciente leitor, deve
estar perguntando aos seus botões: o que os mitos têm a ver com religião? Têm
tudo! E não sou eu que afirmo, são doutos, reputados e experientes pensadores.
O ilustre jurista Paulo Queiroz, que escreveu profundos
ensaios a respeito, afirma: “Religião é mitologia com outro nome”. Estabelece,
porém, importante distinção. Escreve: “Todo discurso religioso é um discurso
mitológico. Mas... nem todo discurso mitológico é um discurso religioso”. Há
mitos que nada têm a ver com deuses e seu imaginário relacionamento com os
humanos. Pitoresca (e esclarecedora) é a definição dada pelo poeta e
classissista (especialista nos clássicos) norte-americano, Cedric Whitman, expert
na obra de Homero. Em carta escrita para Edward Tripp, em 1969, declarou: “Mitologia
é aquilo no que os adultos acreditam. Folclore é aquilo que eles contam para
seus filhos. E religião é ambos”.
Jostein Gaarder escreveu, em “O mundo de Sofia”: “(...) Em
todo o mundo, ao longo de milênios, uma profusão de mitos floresceu como
resposta às questões filosóficas. Os filósofos gregos tentaram mostrar às
pessoas que essas respostas não eram confiáveis (...)”. E o escritor norueguês
prosseguiu em seu raciocínio: “(...) Para compreender o pensamento dos
primeiros filósofos, nós devemos compreender o que seria uma visão mitológica
do mundo. Não é preciso ir tão longe, até a Grécia para isso. Vamos tomar
algumas concepções mitológicas da Escandinávia como exemplo (...)”.
A essa altura, Gaarder discorre sobre o mito de Tor e seu
martelo. Explica como os vikings entendiam o mundo e seus fenômenos. Cita
outros tantos mitos referentes sobre Odin, Frey e Freya, Hod e Balder, com suas
peripécias. E escreve: “(...) Explicações mitológicas semelhantes (às
escandinavas) floresceram por todo o mundo antes que os filósofos começassem a
questioná-las. Pois os gregos também tinham sua visão mitológica do mundo antes
do surgimento do primeiro filósofo. Durante séculos, geração após geração, eles
contavam histórias dos deuses. Na Grécia, os deuses se chamavam Zeus ou Apolo,
Hera ou Atena, Dionísio ou Asclépio, Héracles ou Hefesto, apenas para citar
alguns (...)”.
Para refrescar-lhes a memória, lembro que essas lições sobre
a origem da Filosofia eram transmitidas, no livro de Jostein Gaarder, a uma
menina de catorze anos (às vésperas de seu décimo quinto aniversário) chamada
Sofia Amudsen, que vivia na Noruega em 1990, na companhia da mãe, do seu gato
Sherekan, de seu peixinho dourado e de uma tartaruga. O pai da adolescente,
capitão de um petroleiro, nem aparece no livro, além dessa única referência
feita a ele.
Sofia torna-se aluna do filósofo Albert Knox, de cinqüenta anos,
que no começo do enredo aparece apenas pelas fichas, com as indagações
filosóficas para a adolescente, sendo, portanto, anônimo. Na sequência da
história, no entanto, revela cada vez mais detalhes a seu respeito. Atentem,
porém, ao fato de que esses dois personagens vão surpreender os leitores mais
adiante, na narrativa. Todavia, pelo menos por enquanto, não revelarei em que
aspecto isso vai acontecer. Fica no ar a pergunta: quem nasceu primeiro, o ovo
ou a galinha? Ou, melhor, quem surgiu antes, a religião ou a filosofia?
Boa leitura.
O Editor.
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Vamos dizer que, em civilizações incipientes, possam Filosofia e Religião terem surgido simultaneamente. Como você gosta de falar: nunca saberemos.
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