Baile
de Carnaval
* Por Eduardo
Oliveira Freire
Era tempo de carnaval. O dia estava
muito quente; muitos mascarados pela rua faziam algazarra. A menina ia à matinê
perto da casa da avó; estava fantasiada de Chapeuzinho Vermelho e carregava uma
cesta de doce para a avó e os primos.
Quando se sentou no ônibus, apareceu um homem mascarado de lobo. Tinha
uma camisa estampada e uns cordões grossos de ouro pendurados no pescoço
peludo. Tirou a máscara e se sentou ao lado da garota. Começou a falar carinhosamente com ela:
– Oi, vai pro baile?
– Desculpa, a minha mãe falou que não posso falar com estranhos.
– Você se parece com uma menina que conheci. Ela era... Deixa pra lá.
Essa cesta tem doces de verdade?
– Tem, qué um?
– Não. Olha, não precisa ter medo de mim. É que me lembrei de uma pessoa,
quando a vi.
– Toma um docinho. Tá gostoso.
A menina lhe deu um doce. "Ele é bonito e forte...", pensou. O
homem gostou da guloseima. Antes de ir embora, disse para a menina:
– Tchau, menina, divirta-se bastante.
– O senhor também.
Ele ia encontrar-se com os amigos. Tentava se divertir, mas não conseguia
esquecer a dor de ter perdido sua filhinha, naquele acidente...
Os amigos disseram que Laura os iria encontrar no baile. Estava ansioso
por recomeçar com a mulher. Deram um tempo, depois da morte da filha.
Surgiu nele uma esperança: "Tenho que recomeçar". Começou a rir, vendo a menina fantasiada ir à casa da avó, para
brincar com os primos na matinê. "Quando crescer, essa menina vai ser de
parar o trânsito...".
Tinha que escrever um conto sobre o Carnaval,
mas não tinha inspiração. Relembrou dos tempos de crianças. A cada ano, a mãe
lhe fazia lhe fazia uma fantasia diferente: pirata, índio, bate-bola e mágico.
No baile infantil e na escola, ficava correndo com os amigos pra lá e pra cá.
Inventavam jogos e histórias.
Já adolescente, saía pelas matinês
perto de casa e lá começou a ficar com as moças de sua idade. No início, não
sabia beijar; babava sua companheira. Com o tempo, e outros carnavais, ficou
mais experiente e aprendeu a seduzir uma mulher.
Adulto, saía com os amigos e beijava
várias moças numa noite. Depois, ele passou o Carnaval com as namoradas
e as protegia para que nenhum homem safado e bêbado tirasse alguma
casquinha delas.
Anos seguintes, casou e saía com a
mulher para levar os filhos aos bailes infantis, mas quando os filhos
cresceram, ele e esposa ficavam até de madrugada a esperá-los. "Ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais", pensava na música de Belchior
e cantada por Elis Regina.
De repente, ficou contente. A
inspiração de escrever um conto sobre o Carnaval veio. Ao terminar o texto,
enviou, por e-mail, para a revista. Trabalho concluído. Poderia ir para a
Sapucaí e realizar um sonho antigo de sua mulher.
* Eduardo Oliveira Freire
é formado em
Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está
cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é
aspirante a escritor. Blog: http://duduoliva.blog-e.com.br/blog/conteudo/home.asp?idblog=13757
Conto de Carnaval por vias indiretas e em pleno "clima de Natal". Deu seu recado, e com alguma dose de surpresa.
ResponderExcluir