Sobre a avareza e os avarentos
* Por
Mouzar Benedito
Pão-duro, fominha,
filárgiro, munheca, mão de vaca, ridico (corruptela de ridículo), vinagre,
casca, socranca, somítico, gaveteiro, sovina, forra-gaitas, muquirana, mofino,
agarrado, usureiro, morrinha, avarento, avaro, cobiçoso, unha de fome,
miserável, mão fechada, mesquinho, sórdido, munheca de samambaia, sovelão, resmelengo,
muxiba, fuinha, morto de fome, tacanho, sovina, unhaca, tranca, mão-de-vaca…
São muitos os sinônimos que identificam as pessoas obcecadas por acumular
dinheiro.
Pensei neles ao
assistir a um programa de TV chamado “Os muquiranas”, num canal por assinatura.
É produzido nos Estados Unidos, e dedica um programa inteiro a um personagem,
para mostrar como ele economiza tudo o que pode, e se orgulha disso. Entre os
programas que vi, horrorizado, um foi de uma moça que nunca comprava comida, ia
ao lixo dos supermercados e pegava tudo o que jogavam fora. Ela disse que os
funcionários dos supermercados não gostam, mas ela se vestia de mendiga, com
trapos sujos, e aí eles não ligavam. Vi no programa que ela havia convidado o
casal para jantar e por isso precisava pegar bastante comida no lixo. Eram não
só alimentos com data vencida, mas também frutas, legumes e verduras
estragados, de que podia aproveitar parte. Vestiu-se de mendiga e foi catar
tudo entre as coisas jogadas fora por um supermercado. Não precisava disso,
tinha dinheiro, mas contava que assim economizava não sei quantos dólares por
mês.
Nos casos que vi,
havia um sujeito que, depois de usar o fio dental, o lavava e punha para secar,
para usar de novo. Lá usa-se muito levar roupas para lavar em lavanderias, em
que se coloca uma moeda numa máquina e ela faz o serviço. Um pão-duro desses ia
para essas lavanderias, via as pessoas que não levavam roupas suficientes para
encher uma máquina e pedia para colocar as suas com as delas. “Assim, economizo
dois dólares”, dizia.
Conheci muitos do
tipo, e acho que todo mundo conhece.
Já publiquei, antes de
conhecer esse programa televisivo, uma crônica numa revista, sobre isso, com o
título “A alegria dos herdeiros”. Lembrei-me de alguns casos, mas não vou me
ater a eles aqui.
Meu interesse é tornar
público o “capital” de frases e ditados sobre o assunto, que acumulei durante
um bom tempo. Porém, acho que, antes das frases vale contar umas historinhas
bem resumidas:
1.
Na minha infância,
praticamente todas as casas da cidade tinham fruteiras no quintal, e seus donos
deixavam apanhar frutas nelas. Muito poucos “ridicavam”, mas aí tínhamos um
prazer especial em roubar frutas deles.
Lembro-me de um que
tinha várias laranjeiras que ficavam carregadas de frutas maduras e boa parte
delas apodreceriam sem ser consumidas, mas ele não dava a ninguém. De vez em
quando algum menino se arriscava a pedir autorização para apanhar laranjas e o
diálogo era sempre o mesmo:
— Seu Fulano, tem
muita laranja madura no seu quintal…
— Dois cruzeiros a
dúzia — respondia ele antes que o menino pedisse.
2.
Quando cheguei em São
Paulo, fui morar numa pensão que tinha nos fundos um terreno com jeitão de
abandonado, cheio de pés de mamona, com um barraco no meio. Nele, morava um
velho carroceiro, seu Pepino. Vivia sujo e maltrapilho, não tinha água corrente
no barraco e nem vaso sanitário. Fazia as “necessidades” atrás dos pés de
mamona. Um dia o vi chegando todo feliz porque ganhou um par de sapatos usados
já bem velhos, mas que ele achava que estavam bem bons ainda. Perguntei sobre
ele aos donos da pensão (que era num casarão bem grande na rua Lisboa, bairro
de Pinheiros). Aí fiquei sabendo que a casa da pensão era desse velho, que
tinha também umas dez casas alugadas na rua dos Pinheiros e o prédio onde
funcionava uma padaria, hoje é uma farmácia, na esquina da rua Teodoro Sampaio
com a Henrique Schaumann. Recebia uma nota braba por mês em aluguéis.
3.
Nessa pensão, um rapaz
chamado Justino nunca pegava ônibus para ir ao centro da cidade. Ia sempre de
bonde, que era um pouquinho mais barato. E o ônibus era barato na época. Para
completar, só atravessava a roleta na hora de descer, pois quando havia algum
carro quebrado ou acidentado em cima dos trilhos, o motorneiro — “motorista”
daquele tipo de veículo — abria as portas para todo mundo descer, porque às vezes
demorava para tirarem o carro que impedia que o bonde continuasse a viagem.
Assim, quem não tinha passado pela roleta descia sem pagar a passagem. Quando
faltava um quilômetro para chegar no ponto em que ia descer, o Justino ficava
torcendo para que houvesse algum carro quebrado nos trilhos. E ele era bem de
vida, ganhava muito bem. Morava na pensão, com várias pessoas num quarto, por
puro pão-durismo.
4.
Ainda São Paulo, numa
república de amigos, tinha um sujeito com mania de inglês que tomava chá todos
os dias às 5h da tarde. Só que era mate, que ele comprava e mantinha num
armário trancado, não dava chá a ninguém. E pior, procurava sempre não pagar a
sua parte das despesas da república. Um dia comprou um rádio, mas quando ia
trabalhar levava o fio dele, pra ninguém ouvir. Até que um dia o proibiram
ouvir o rádio também: “O rádio é seu, mas a luz nós todos pagamos”. Mereceu.
5.
No interior paulista,
conheci uma mulher riquíssima que lavava, secava e reutilizava coadores de
café, de papel teoricamente não reutilizável.
6.
Um dos homens mais
ricos de uma cidade do interior mineiro gostava muito de ler jornal, mas sempre
lia o do dia anterior, que alguém lhe dava de graça. E soube-se que ele andou
“pegando uma boia” em instituições que davam comida para pobres.
7.
Falando em jornal, um
colega de trabalho de escritório me esperava ansioso, todos os dias, para ler o
jornal que eu comprava. Comecei a ficar invocado, perguntei porque ele não
comprava. A resposta foi que o jornal só falava mentiras. Mas lia o que eu
comprava. Um tempo depois, eu soube que ele não tinha despertador em casa
(naquela época um despertador custava um pouquinho mais do que hoje, mas não
era caro). Contou que ele se levantava todos os dias às 6h da manhã. Um vizinho
que saía de casa nesse horário para trabalhar tocava a campainha e ele se
levantava. Fiquei pasmo, perguntei o que acontecia quando o vizinho ficava
doente ou saía de férias. Não respondeu, ficou resmungando sobre pessoas que
desperdiçam dinheiro.
8.
Enfim, não estranho
quando vejo notícias de prefeitos ricos canalhas que colocam a mulher e os
filhos na bolsa família, pra ganhar um dinheiro que deveria ir para famílias
pobres. São pessoas desprezíveis, ridículas mesmo.
Algumas considerações
A palavra avaro
origina-se do latim, e significa ávido por cobre.
Pão-duro é de origem
carioca: um homem que mendigava e suplicava às pessoas que lhe dessem qualquer
coisa, mesmo que fosse um pedacinho de pão duro, e por isso pegou o apelido de
Pão-Duro. Quando ele morreu, descobriu-se que ele era bastante rico, tinha
muito dinheiro em depósitos bancários e várias casas de aluguel nos subúrbios
do Rio. Amaral Gurgel escreveu uma peça que teve muito sucesso inspirada nele,
e o personagem Pão-Duro foi representado por Procópio Ferreira.
Mas muito antes disso
já existia um provérbio espanhol que diz: “A pão duro, dente agudo”, e Miguel
de Cervantes usou um personagem chamado Panduro, no “Entremez da Eleição dos
Alcaides de Daganzo”.
A palavra pleonexia,
em grego, significa o desejo exagerado de ter riquezas. Jesus teria falado aos
seus apóstolos sobre a presunção do avarento de que as pessoas e as coisas,
tudo e todos, enfim, existem para o benefício dele. Os textos escritos pelos
apóstolos foram traduzidos para o grego e para o latim. Na tradução dessa fala
para o grego, o termo usado para a avareza foi esse, pleonexia.
*
Jornalista
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