Quando filosofia resulta num best-seller
O que você pensaria, meu caro e fiel leitor, se eu lhe
dissesse que um dos livros mais vendidos, nos últimos vinte anos, nas
principais praças culturais do mundo, trata, especificamente, de filosofia? É
quase certo, se quiser ser gentil e educado (como a maioria que me prestigia
com sua leitura é), que você ache que fui afoito, que estou mal informado e
que, portanto, me equivoquei. Já aquele sujeito ranheta e mal educado, de
bronca com a vida, que critica até vírgula que ache mal colocada em meus textos,
mas que ainda assim insiste em acompanhar o que escrevo, provavelmente dirá, em
tom irônico, se não raivoso: “Esse cara está maluco!!! Ora, filosofia... Só lê
livros a respeito quem tenha formação cultural específica. E estes são
pouquíssimos. Será que esse cara não sabe? Não venha, portanto, com esta!”
Pois é, meus preciosos e imprescindíveis leitores – tanto os
amigáveis e gentis, quanto os ranhetas, ávidos por me pilharem em equívoco – desta
vez não me enganei, embora assim pareça, não estou mal informado e nem estou
exagerando. Um dos livros mais vendidos na Europa, nos Estados Unidos e
(pasmem) no Brasil, tem, mesmo, como pano de fundo, a Filosofia. Mais especificamente,
a história dessa “mãe de todas as ciências”. E não foi o escrito pelo inglês
Bertrand Russell, uma espécie de clássico no assunto, cujas vendas, todavia,
estão longe de caracterizar sua obra como best-seller. Esse, intitulado “História
da filosofia ocidental” também li e, aliás, tenho-o agora em mãos. Considero-o,
no entanto, teórico demais para o meu gosto. Está eivado de jargões
característicos da “mãe de todas as ciências”, que sempre tive dificuldades para
entender e memorizar.
O livro a que me refiro é outro, é de um norueguês. Trata-se
de um professor de filosofia – que, todavia, não se considera filósofo –
nascido em Oslo, em 8 de agosto de 1952. Seu nome? Jostein Gaarder. Desde que
lançou, em 1986, seu primeiro romance, intitulado “O pássaro raro”, tomou gosto
pela Literatura. Tanto que largou o magistério para dedicar-se, exclusivamente,
em tempo integral, às letras. Não sei se fez bem, mas... pelo visto, tomou a
decisão correta. No entanto, o livro com o qual conquistou a fama, no
competitivo e complicado cenário editorial internacional, ao qual me refiro,
não foi esse que citei antes. Foi “O mundo de Sofia”. Há tanta coisa a ser dita
a propósito dessa publicação, tanta, tanta e tanta que precisarei de vários
comentários para abordá-lo de forma minimamente decente.
Para o leitor ter uma idéia da aceitação desse livro,
escrito em norueguês, mas traduzido para 53 idiomas e lançado na Europa em
1991, informo que, até 2005, já haviam sido vendidos 26 milhões de exemplares.
Apenas na Alemanha, mais de três milhões de cópias tinham sido adquiridas.
Agora, passados dez anos desse levantamento, tais números são muito maiores.
Não sei a quanto andam, mas suponho que sejam o dobro. E pensar que, no fundo,
no fundo, é a história da filosofia ocidental!!! Mas tem grande diferença em
relação a livros congêneres. O relato é feito através de ficção. E sem os
jargões da disciplina, necessários, mas que dificultam a leitura dos leigos e
impedem que obras sobre o assunto sejam minimamente populares.
Diz-se que o brasileiro não gosta de ler. E considerando a
nossa população e o tanto de livros vendidos anualmente, parece não gostar de
fato. Imaginem quando o assunto é filosofia!!! Pois bem, pasmem! “O mundo de Sofia”
foi lançado no Brasil (pelo selo jovem “Seguinte”, da Editora Companhia das
Letras) em 2005, traduzido, diretamente do norueguês, por Leonardo Pinto Silva.
Sabem quantos exemplares já haviam sido vendidos até o início de 2014? Mais de
um milhão!!! O volume que tenho em mãos, por exemplo, foi impresso no ano
passado. Trata-se (pasmem de novo), da 90ª reimpressão!!! É um livro que não
encalha de jeito algum nas prateleiras das livrarias. Vem esgotando edições e
mais edições. E tem por foco a filosofia!!! Mais especificamente, a sua
história.
Para que o leitor tenha pálida idéia do conteúdo dessa obra,
reproduzo o trecho que consta da contracapa, que é o seguinte: “(...) Às
vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber
bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e
perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do
Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Moller Knag, garota a
quem Sofia também não conhecia. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto
de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores
em todos os países onde foi lançado. De capítulo em capítulo, de ‘lição’ em ‘lição’
o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao
mesmo tempo em que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente
(...)”. É dessa preciosidade literária (e filosófica) que tratarei na
sequência.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Só posso ficar boquiaberta diante da linha que principia da história, assim como a maneira estimulante com a qual você iniciou suas considerações.
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