Coisas de ontem
* Por
Núbia Araujo Nonato do Amaral
Lembro-me que todo o
carnaval íamos para a casa de minha tia o que para nós era uma viagem. Morávamos
em São Gonçalo e minha mãe com aquela renque de meninas seguia para o outro
lado da baía.
O que para mim era uma
aventura, para ela poderia se tornar uma tortura, sozinha com cinco meninas pouco
dinheiro na bolsa e muita lábia, ela levava a gente no bico direitinho.
Não havia fricote por
nada, ninguém reclamava e íamos nós e Deus. Chegávamos na casa da minha tia
completamente extenuadas mas a recepção valia a pena: biscoitos, leite com
achocolatado, gomas e o carinho do Dindo que tinha para cada uma de nós um
apelido.
O meu apelido? Não
acredito na relevância da informação e nem de que forma isso seria um acréscimo
ao texto. O apelido? Tsc...porquinha. Como assim o motivo?
Afffff, o Dindo que
aliás era padrinho da minha irmã, mas o Dindo de todas, nos apelidou por
características peculiares. Japinha, amarelinha, zoiuda, Martinha (essa era
afilhada, se safou).
Ele dizia que meu
nariz era de batata e na verdade nem era, mas ele gostava de implicar comigo.
Dindo já se foi há muitos anos, cheguei a visitá-lo no hospital, mas aquela
alma alegre já não estava mais lá, somente uma carcaça frágil, ainda toquei de
leve o seu grande nariz de batata.
Deixei pra chorar
depois, sozinha. Armazenei lembranças e a gargalhada dele quando me deixava
enfezada. Percebo neste exato momento que o Dindo chegou de mansinho e
apertando de leve o meu nariz de batata (palavras dele), me roubou um suspiro
daqueles.
* Poetisa, contista, cronista e colunista do
Literário
Um objeto qualquer nos traz o passado como um sopro, geralmente quente e benfazejo. Tão bom. Quanto ao apelido, nariz. de batata...Como diz Pedro Bondaczuk, "ora, ora, ora".
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