Agnes
* Por
Assionara Souza
Agnes é mulher.
Ovula. Dá esporro.
Sofre. Esquece. E de novo. E dá esporro. Ovula. Chora e sorri misturadamente.
Considera algumas palavras dificílimas de serem pronunciadas. Na hora do gozo,
escandaliza o nome de Deus repetidas vezes. Inventa meios.
Ontem, às nove horas
da noite. Voltou para casa com um buraco enorme no peito. O coração é um
músculo muito desenhado por crianças e adolescentes. Agnes tem exatamente
trinta e três anos e sente como uma cachorra perdida. Por isso, ontem, às nove
horas da noite. Os pés doíam. E a casa era longe. O caminho deserto. Voltar pra
casa é sempre longe. Mulheres compram roupas e calçados. As lojas gostam de
mulheres. Os homens menos. Se as mulheres sentem isso: mais roupa; mais
calçados. O que quer que sirva ao corpo. Se o amor não servir. Agnes não
escolhe. Pega e leva pra casa. Homens e roupas. Os pés gritam.
Segundo pesquisa,
Agnes distingue-se para melhor. Distingue-se para melhor, dizia a matéria: de
quase 70% das mulheres. A maioria das mulheres não consegue sentir. Na revista,
ao virar da página. Lá estava. A maioria das mulheres. Ler esse texto na sala
de espera do dentista faz algumas mulheres descolar um sorriso nos lábios.
Aproximadamente 30% das mulheres sorriem quando lêem. Outras, 40%, não conhecem
alguns sentidos. E mais 30% suspeitam de que as que sentem não sabem muito o
que sentem.
Agnes tem estado mal
como uma cachorra perdida. As cachorras fogem de buzinadas de carro. Pendem o
corpo. Um correr indeciso. E farejam sem critério. Mal põem na boca, percebem
na língua a frustração. Tarde demais. E lambuzam-se com ódio. Recolhem o corpo
e prosseguem. Vadia esperança canina. Agnes é uma estatística. Antes que
mandem, baba-se toda à espera.
Agnes acredita que há
um número finito de variações de desgraças. Assim como as letras do alfabeto.
Combinadas, os padrões são infinitos. Algumas categorias são invariáveis. O
triângulo. Figura que se distingue. O triângulo causa um círculo vicioso. Em
alguns casos, faz o sol nascer quadrado. Último vértice, depois do Verbo e do
Espírito: a Carne. O homem atinge o centro do triângulo com sua lança
pontiaguda. Humano e Divino. E golpeia em nome de Deus repetidas vezes.
Aos dezessete anos, a
presença de Deus provocava em Agnes um forte regozijo. Então compreendeu as
coisas da carne. Deus era o amante secreto e confidente de inquietações.
Exibir, após orar, o corpo nu marcado. Quarto encerrado. Velas acesas. Nudez e
fé. Confessar ao pai. Confessar sobre os pecados da mãe. Igualmente canina.
Deixou que mão alheia roçasse o entrepernas. Na noite em que foi entregue à
paixão. Atingir fundo a umidade. Diante do pai e de Agnes, negar tudo. Era
outra. Era outra mulher que Agnes vira. Uma outra mulher. Agnes compreendia o
amor em sangue e febre. Outra mulher. Por isso sangrar pela mãe. Dor e prazer.
Por isso também ser uma outra. Pacto. O pai lhes suspeitava. Sendo, em ordem de
vértice, segunda amante e confidente de Agnes. A coisa nem nomeada. A coisa
sentida. Em nome de Deus.
Na sexta-feira, a
cachorra perdida lançou seu olhar para a vida. Esperou, o osso veio suculento.
Arfando uma trama de encontro em beco certo. Rabo entre as pernas. Língua estirada. Vida da boca de outro para a boca dela. No
escuro: o molhado. Sexta-feira e para sempre. Cara que olha cara e quer às
escâncaras. Olho. Pele. Entrega-se a presa às pressas. Dá-se desdobradamente.
Peso e movimento. Onde o corpo suportasse. Falentrasse. Singrasse. Sangrasse. O
bom cheiro mal do corpo. Uivo e desejo cão. Até que a morte.
Agora um pedaço podre
de desgraça. Na manhã do Terceiro Dia. Lavar-se mil vezes. Imundície do mundo
nos ossos. Limpar-se mil vezes. Imundície do mundo no espírito. Voltar ao
sábado. Um buraco no meio do peito. Ao domingo: vida morte ressurreição.
Chegar à casa do pai
carregando na pele a memória da noite. Os médicos de branco espalhados pela
casa. Os que curam as doenças do corpo. E também o padre para bem encaminhar o
espírito. Vestido de negro. Ignóbil. Vontade de coçar as partes na frente de
todos. Grunhindo. "Eu sei de tantas verdades, meu pai!". Chamaram-na.
"A mãe tem sede, Agnes". Preparar a água. Deixar escorrer pela mão.
Água benzida do que viveu o corpo na calada noite. Despejar no copo. A língua
da mãe esperava. Para a mesma boca entregar seu corpo. Agora nesta agreste hora
da morte.
Mais tarde demais.
Voltar pra casa com um buraco no peito. O dia inteiro com a mãe. O amor nunca.
E a morte na madrugada. Pés doídos do caminho. Peso do passo em falso. Para
quem o seu quente humor? Segundo as estatísticas, 30% das mulheres são cadelas
vadias. Corpo silencioso golpeado. Brutalidade afiada em centro perfeito. Ímpia
solidão. A mãe morrendo na madrugada. Buraco no peito. Atravessar a noite.
Portas e janelas abertas. Nenhuma cortina. A noite da salvação. O nome de Deus
habitava sua pele e sentidos. A cova aberta onde o corpo morto. Rezem,
senhores. Ela espalhou vinho por toda a casa dentro da madrugada. Ela bebeu da
mesma água sagrada. Corpo dentro da terra. Enterrando-se dentro da terra.
Rezem, em nome de Deus. Em nome do pai. Em nome do filho. Em nome de todas as
cadelas parideiras. Rezem todos.
Eco infernal.
De volta para o ventre
de Agnes. Renascer. Agnes prenhe da serpente a lhe sibilar palavras. O ser e o
sim. No ventre da mãe flutuar. Líquido florir. Inteira ágil e calma. Pernas e
braços. Carne e osso. Frutos flores raiz. Ao último ancestral. Ciclo eterno.
Depois. Longe dali.
*
Assionara Souza nasceu em Caicó (RN), em 1969. Mora em Curitiba. Leciona
Literatura Brasileira e Produção Textual. É mestranda em Estudos Literários
pela UFPR e estuda trânsitos entre literatura e artes plásticas na obra de
Osman Lins. Em 2005, publicou o livro de contos Cecília Não é um Cachimbo, pela
editora 7Letras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário