domingo, 1 de janeiro de 2017

Paulinho do Bandolim


* Por Risomar Fasanaro

Quando ele estava ausente, minha mãe sempre se referia a ele como “Paulinho, meu filho”...Ele era o seu predileto, embora ela negasse isso de pés juntos, mas nós, os outros três, sabíamos que ele era tudo pra ela.

E mesmo quando  já bem doente, e era eu  que cuidava dela 24 h por dia, era assim que a ele, ela  se referia: “Paulinho meu filho é muito bom, todos os domingos vem me visitar...” E eu tinha de engolir aquilo calada, mesmo porque sou talvez sua fã número 3, já que ela era a número um e Dalmar, a mulher, a número dois.

Acho que até hoje, lá no céu, onde sempre nossas mães estão, ela não nos cede seu lugar. Uma prova? Sabia todos os nomes dos choros que ele tocava.

Mas a ligação de  Paulo com o bandolim começou com uma brincadeira. Todas as tardes, quando todos nós, crianças, nos juntávamos para brincar, na Vila Militar de Socorro, Pernambuco, íamos à casa do seu Bonfim, um dos sargentos que moravam na Vila.

Seu Bonfim tinha um cavaquinho, e não me perguntem a razão, porque não tocava nada, nem a esperança de ter algum descendente que viesse a tocar havia, já que ele não tinha filhos, nem sobrinhos, nem nada. Era só ele e a mulher, dona Luci, um casal gaúcho maravilhoso...

Ele tinha o hábito de todos os dias  presentear o cavaquinho a um de nós. Só que no dia seguinte pedia o instrumento de volta. Assim, o cavaquinho passou por umas oito, dez mãos, passeou por umas dez casas, mas sempre voltava ao lar: a casa do seu Bonfim.

Há coisas inexplicáveis: por que diariamente ele dava aquele cavaquinho a um de nós e no dia seguinte o pedia de volta? Eu sempre lhe dizia: quando for minha vez, não vou devolver, vou ficar com ele pra sempre e aprender a tocar.

E aquele dia chegou: ele me deu o cavaquinho de presente. E fiz metade do que havia prometido. Levei o instrumento para casa. Creio que já naquele tempo meu anjo Guerrilheiro cochichava  coisas, inspirações em meu ouvido.

No primeiro dia tentei “tocar” alguma coisa, mas em poucos instantes ficou provado que eu não tinha o menor  talento para a música. 

Durante alguns dias o instrumento ficou em cima do guarda-roupa sem que ninguém mexesse nele. Sempre acreditei que os objetos confeccionados com matéria viva também têm alma, e que alguns se destinam ao seu dono desde sua fabricação. Aquele cavaquinho talvez soubesse disso. Não sei. Ali ficou, como se precisasse de algum tempo se preparando para a missão que viera cumprir.

Lembro-me de que meu pai foi falar com o colega, “preciso devolver o cavaquinho que minha filha levou...” mas  seu Bonfim o sossegou: “pode deixar, eu dei o instrumento a ela”.
Depois daquele estágio em cima do guarda-roupa, meu irmão Paulo começou a arranhar o instrumento. Ficávamos encantados ouvindo-o tocar as primeiras notas de “É com esse que eu vou...”

Como se tudo estivesse premeditado, alguns dias depois Bernardo, um primo de minha mãe que viera de Natal, foi morar conosco  e disse ao meu irmão que aquela afinação não era bonita. Que afinação bonita era a de bandolim. Afinou o instrumento e ensinou   uns sete acordes ao meu irmão, que a partir dali começou a achar que tocava. Mal, mas tocava. Paulo estava com catorze anos naquela época.

Um dos amigos dele, Everaldo, era metido a cantor, e assim o grupo de meninos criou o “Divina Poeira”. Grupo que hoje se chamaria de banda. Uma banda musical de quinta categoria, e que recebeu aquele nome porque  tocava embaixo de um poste em frente à nossa casa em meio a poeira da rua, porque o som era tão ruim que ninguém agüentaria aquilo dentro de casa, atrapalhando os programas da estação de rádio  cujo slogan era: Rádio Jornal do Comércio de Pernambuco falando para o mundo. No caso, o mundo não chegava  nem à beira do rio São Francisco, mas que dava um orgulho danado ouvir aquilo na voz  de um apresentador eloqüente, dava...

Enquanto isso meu irmão  Paulo ia tocando seu cavaquinho com afinação de bandolim.

Vendo  seu interesse por música, sargento Albuquerque, maestro da banda do quartel, pediu a ele que tocasse alguma coisa, e após a execução lhe disse: “menino, você tem que tocar é bandolim. Bandolim tem um som mais grave, mais cheio, as cordas são duplas... Tocar cavaquinho com afinação de bandolim não é o ideal...”

O sonho de ter um bandolim passou a ocupar a cabeça do meu irmão. Naquela época ele estudava no Ginásio Pernambucano  e quando saía do colégio, ia até a rua da Imperatriz ver os instrumentos musicais na  Casa Moderna, uma  loja de instrumentos  que ficava na esquina da rua Nova com a Praça Joaquim Nabuco. Na vitrine, seduzindo-o, brilhava um bandolim de cuia, que custava R$ 550,00 (mil réis,cruzeiros?...não sei dizer).

O que sei é que o preço daquela cuia mágica de onde emanava a promessa de muitas canções custaria  muitos vestidos, blusas e saias costuradas por minha mãe, até altas madrugadas; pois o salário de sargento do meu pai, mal dava para as despesas normais.  E todos nós sabemos, já naquela época o que é essencial para o artista é supérfluo para as demais  pessoas. Ainda mais quando esse artista é apenas semente que sequer germinou.

Enquanto isso, durante a semana ele ia a Piedade, onde se juntava a Miruca, Baixinha e Zé do Carmo, três grandes músicos, e nos finais de semana  saía com os outros integrantes do “Divina Poeira” para ir à Curva do Caranguejo, em Jaboatão. Lá existia um casarão imenso com umas oito janelas na frente. Os garotos ficavam na janela que dava para um salão onde Tia Amélia (Amélia Brandão)  tocava piano e  Aprígio de França bandolim. Aquelas audições acirravam mais e mais seu desejo de ter um instrumento.

Todos os dias  pedia um bandolim à minha mãe, e um dia ela conseguiu juntar o dinheiro e os dois foram à Loja, no Recife,  comprar o instrumento que veio sem capa, mas ela costurou uma de brim azul para protegê-lo.

Por essa época, o bandolinista da família andava mal em matemática, por isso meus pais contrataram um professor particular para ele em Coqueiral, bairro próximo do Recife.  Um dia, saindo da aula de matemática, “Paulinho meu filho” passou em frente a uma casa de onde saía o som de um bandolim. Encostou-se à janela e ali ficou ouvindo o instrumento. A partir daquele dia todas as vezes que saía da aula particular, passava por aquela casa para  ouvir Aprígio de França.

Aprígio não só tocava todas as composições de Luperce Miranda, um dos maiores bandolinistas do país e que faleceu há  poucos anos,  como era também exímio em sua arte. E curioso: ele fazia parte da banda musical da polícia de Pernambuco e lá o instrumento que tocava era prato.

Paulo um dia criou coragem e pediu  a ele que o ensinasse, mas ele alegou não ter tempo para dar aulas, e indicou o livro de Jacó Tomás, recomendando que ele estudasse aquele livro. Para decorar a posição das notas, meu irmão colou etiquetas com os nomes de cada uma, no braço do bandolim, e assim aprendeu.

O tempo passou e viemos para São Paulo. Aqui meu pai contratou um professor de música para  lhe dar aulas. Lembro-me de que um mês depois meu pai chegou todo orgulhoso contando que o professor lhe havia dito: Fasanaro, eu não tenho mais o que ensinar ao seu filho. Ele já é um músico, sabe tudo. Daqui a pouco ele é quem  vai me ensinar...” E de todas as lições que recebeu a mais importante talvez tenha sido a daquele  professor, tenente músico do 4° RI de Quitaúna (onde Lamarca serviu),  que lhe disse: “vá para o canto da parede e fique tocando até que não ouça o mínimo barulho da palheta. Quando você conseguir isso pode se considerar um bandolinista. “É só isso que lhe falta.”

Só agora, depois que ele me contou essa lição que recebeu naquela época, é que me dou conta de que achava estranho ver meu irmão pelos cantos da sala, de frente para as paredes, quase grudado a elas, tocando. Pensava com meus botões: “como os artistas são estranhos...”

A verdade é que ele passava todo tempo livre agarrado àquele instrumento. Já era rapaz, quando às vezes chegava de madrugada, dava umas batidas leves na porta do meu quarto e perguntava: “você está dormindo?” e eu que tenho um sono levíssimo, já acordada dizia que não e ele: “eu quero te mostrar um acorde novo que eu descobri. Quer ouvir?” Eu dizia que sim e ele sentava aos pés da minha cama e me mostrava.

Paulo comprava todos os discos de choro de Jacó do Bandolim, de Pixinguinha e de vários outros. Quando já tocava muito bem, fundou, com mais dois violonistas e um pandeirista o Conjunto Odeon. Com esse grupo ganhava o primeiro lugar em todos os programas de calouros que participavam.

Além de instrumentista Paulinho do bandolim tem mais de oitenta composições. Entre elas “Um piano e uma saudade”, valsa composta assim que aqui chegamos, “Caxangá” e “Gaibu”, choros, a valsa  “Flauta de Ébano” e “Um maxixe para Elisa”, entre outras. Suas composições atualmente são executadas por vários dos seus amigos, mas apenas “Bandolins também choram” está gravada  em uma faixa do CD de Arnaldo do Cavaquinho, músico que ele considera um dos maiores do país.

Tem entre seus compositores prediletos  Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Rossini Ferreira, Luperce Miranda, Marco César, Waldir Azevedo e Ernesto Nazareth.

No final dos anos setenta ele viajava daqui pro Rio de Janeiro. Descia no aeroporto e seguia direto para o MIS. Lá copiava à mão partituras inéditas dos seus compositores favoritos. Nos últimos anos em que fez isso, de tanto freqüentar o museu dois funcionários passaram a copiar as partituras, também a mão, e enviar-lhe pelo correio.

Hoje  possui um dos maiores arquivos de partituras do país. Partituras que ele repassa aos amigos que, como ele, amam a música, e  em especial, o choro.

Atualmente toca em casa e aos sábados na Loja Contemporânea, onde se reúnem músicos de todo o país. Lá é conhecido como Paulinho do Bandolim ou Fasanaro.

Mas de todo seu repertório o mais emocionante pra mim, é ouvi-lo tocar “Asa Branca” em dueto com a filha Simone ao piano. Emoção só superada ao vê-lo  executar “Gaibu.

Pra mim talvez seja esta sua composição mais importante, já que  ele se inspirou naquilo que não viveu, é a composição da ausência, porque quando em 45 meu pai foi transferido para lá, todos nós fomos, mas ele ficou na casa dos meus padrinhos. É possível  que  aquela separação o tenha marcado para sempre, daí a razão desse choro. Composição que poderia ser uma valsa, mas a que ele imprimiu o ritmo de choro.  


* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora,  autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.



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