domingo, 11 de setembro de 2016

A cor da ausência

* Por Pedro J. Bondaczuk


As cores, metaforicamente, simbolizam coisas e situações. Por exemplo, o verde representa a esperança; o vermelho, paixão; o rosa, felicidade e assim por diante. Esse expediente é bastante utilizado pelos poetas em seus versos. Uma das cores mais ambíguas, porém, nessa simbologia, é o azul. Para uns, simboliza o sonho. Para outros, é a cor da tristeza. Para outros, ainda, tem o significado da tranqüilidade. Concordo, todavia, com os que a utilizam para figurar a ausência. Por que? Não saberia explicar.

Mas na minha mente, sempre que esta cor surge, penso de imediato nas pessoas que gostaria de ter ao meu lado – a amada ou os amigos (você, por exemplo) – mas que estão comigo somente na lembrança. Outros poetas que conheço têm idêntica percepção.

É preciso saber construir pontes de estrelas (em vez de muros de pedras) que nos conduzam à casa da pessoa que amamos, mesmo que esta não corresponda (ou aparente não corresponder) ao amor que lhe dedicamos. Façamos o mesmo em relação às amizades que prezamos. Busquemos o que temos em comum, para aprofundar e expandir, e esqueçamos diferenças e divergências que nos separem. Apaguemos de nossas vidas a triste cor da ausência.

Somente dessa forma, teremos chances de conquistar os mais empedernidos e aparentemente refratários corações e nos completar, através da magia do amor ou da mística da amizade. Quase nunca (eu diria que nunca mesmo) existe uma lógica que nos leve a nos apaixonar por determinada pessoa, e não por outra que, aparentemente, lhe seja até superior em diversos predicados, como beleza, inteligência, pureza etc.

Não raro temos a oportunidade de amar alguém de imensa beleza – que nos ama e que até nos atrai fisicamente – mas que, para nós, lhe falta aquele “algo mais” (que sequer sabemos definir o que seja). Todavia, o amor, na verdade, não é para ser explicado ou entendido, pois não tem explicação. Tem é que ser vivido! Cabe-nos a irrestrita entrega a esse misterioso chamamento, sem questionarmos a razão dessa irresistível e mútua atração.  

Nada é mais triste e desolador, mais digno de pena e de lamentações, do que uma vida de solidão, sem a magia do amor. Não ter com quem compartilhar alegrias e tristezas, risos e prantos, sonhos e ideais e os próprios corpos, é a forma mais cruel e desumana de abandono. A cor da ausência se impõe, então, com avassaladora força: sombria, dolorosa e triste.

Essa necessidade de partilha, de afeto e de cumplicidade é essencial, não somente para a perpetuação da espécie (no que é imprescindível), mas para uma vida equilibrada, produtiva e feliz. Podemos nos comparar a uma casa. Se nela houver a chama do amor, ela se mostrará sempre bela, viva, habitável e aquecida, mesmo que envelhecida. Se este fogo não existir, porém, mesmo que se trate de mansão, será como estes castelos-fantasmas, mal-assombrados, que a tradição garante que existem, sobretudo na Inglaterra: sombrios e decadentes. E, diria, azuis...

Nada é mais amargo e doloroso do que o drama de um amor que chega ao fim. É uma situação conflitante em que sempre alguém sai ferido. Dói demais, por exemplo, ver que os beijos, as carícias e as palavras meigas e deliciosas que nos eram destinadas, têm por alvo, agora, uma outra pessoa. Não se pode nunca afirmar, é verdade, que se trate de situação sem volta.

O amor perdido pode ser recuperado, mas as marcas dessa eventual separação não desaparecem. Permanecem para sempre a envenenar o relacionamento que, dificilmente, voltará a ser o mesmo de antes. Sei como é isso. Curti muita música, classificada pelo povo como de “dor-de-cotovelo”, nas vozes de Maysa Matarazzo, de Dolores Duran, de Elisete Cardoso, de Tito Madi, de Silvinha Teles e tantas outras, que tem como tema amores fracassados ou maculados, nas várias perdas de pessoas que amei. Nessas ocasiões, à minha revelia, minha alma se vestia de azul...

Já que estou no terreno das negações, afirmo, sem medo de errar, que nada, absolutamente nada no mundo é mais veloz quando estamos distantes da pessoa amada e queremos, ardentemente, estar ao seu lado, para gozar das delícias da sua companhia, dos seus carinhos e da sua atenção do que a imaginação.

Reitero, para ressaltar a força da absoluta ausência, que não há nada, nada mesmo que se lhe compare em rapidez, diria, até, em instantaneidade. Nem a lua, nem os pássaros, nem o vento, nem o sol e nem mesmo a luz, o elemento mais veloz que se conhece, conseguem ser mais rápidos. Quem ama, sabe disso, de sobejo, por ter passado inúmeras vezes por essa mágica experiência.

O amor... ah, o amor! O poeta e professor Benedito Sampaio disse tudo isso, com mais graça e beleza do que eu, nestes inspirados versos do poema “Tangolomango”:

“Mas lua, tu não sais do teu sobrado!
E tu, que é das tuas asas, passarinho?
E o vento, o lerdo vento está parado,
e o sol se arrasta tão devagarinho...

Ah, só meu sonho – estás a percebê-lo?
voa e já está brincando em teu cabelo”.

Nesses vôos velozes, minha alma despe-se do azul, torna-se furta-cor e oscila entre o verde, o vermelho e o rosa. Reveste-se de luz. Vira poesia pura!

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
   


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