A volubilidade feminina
* Por
Alberto Faria
A Raul Soares
Certa ocasião
meteu-se-nos em cabeça uma ideia extravagante (as ideias cruzam no ar, como
farelos iluminados, fingindo piscas de ouro): descobrir quem primeiro acoimara
de volúvel a mulher.
Devia ter sido algum
poeta, mais ou menos molestado, pensamos, porque os alunos de Apolo avultam o
número dos infelizes no trato amoroso, desde recuadas eras.
E, presto, resolvemos
consultar os idos, invocando-lhes os espíritos ao arrepio da corrente dos tempos.
Vieram à baila... nem sabemos quantos uns, nacionais; outros, portugueses, ou
espanhóis: estes, de França; aqueles, de Itália... enfim, uma Babel de sombras
falantes!
Não esperaram rogos J.
Xavier de Matos e Bocage. arcades ambos.
Disse Albano Eritreu,
ainda tendo entre dentes a Jônia:
"Mas
se lhe era costume o ser traidora,
Fez
muito bem, obrou como quem era;
Que
não fora mulher, se assim não fora".
E Elmano Sadino, com
vista a Anarda:
"Triste
quem ama, cego quem se fia
De
feminina voz na vã promessa".
Cláudio Manuel da
Costa, também sob máscara arcádica, a de Glauceste Satúrnio, cançoneteou logo,
à la moda metastasiana:
"Folle
chi crede
Trovar
fermeza
Nella
crudezza
D’una
beltá.
Or
da se scaccia,
Or
a se chiama,
Altro
non brama
Ch’el
variar".
Mas, receiando que
Nise o não entendesse, tornou em pátrio idioma:
"Quem
se fia de amor, quem se assegura
Na
fantástica fé de uma beleza,
Mostra
bem que não sabe o que é firmeza,
Que
protesta de amante a formosura.
Anexa
a qualidade de perjura
Ao
brilhante esplendor da gentileza,
Mudável
é por lei da natureza
A
que por lei de amor é menos dura".
E, a poucos passos,
rouquejou o áspero Antônio de Sousa Macedo:
".............
efeito foi da natureza
Mais
mudável em peito feminil".
Lope de Vega,
quebrando por um momento a linha das gravidades, dirigiu-se a uma bichana,
heroína da Gatomaquia, como se o fizesse a uma senhora:
"¿En
qué mujer habrá firmeza alguna?
¿
Quien tendrá confianza?
Si
quien dijo mujer, dijo mudança?"
Tomou-lhe a mão o luso
seiscentista Jerônimo Corte Real, contente com a novidade dos versos brancos em
sua terra, assinalando o despeito de um namorado sem ventura:
"................
a mudança
Em
peitos feminis é sempre certa".
Depois, todo cheio
ainda da radiosa visão de Eleonora, exclamou Tasso:
"Femmina
é cosa garrula e fallace.
Vuole
e disvuole: è folle uomo che sen fida".
Francisco I, que
enrugara a fronte ao ouvi-lo, limitou-se a dizer a frase, céptica e brutal, que
teria escrito numa vidraça do castelo de Chambord:
"Toute
femme varie".
frase que Victor Hugo
poetizou à distância de séculos, emendando-a a sabor do doudo de Ferrara:
"Souvent
femme varie,
Bien
fol est qui s’y fie
Une
femme souvent
N’est
qu’une plume au vent".
nos metros que, para
as notas de Verdi, foram assim italizanizados por Piave:
"La
donna è mobile
Qual
piuma al vento,
Muta
d’accento
E
di pensier..."
Findo este recitativo,
musical e remoto, Camões, o Adamastor da paixão, incentivou de soslaio a
Catarina, a anagramática Nactercia dos olhos verdes:
"Nunca
ponha ninguém a esperança
Em
peito feminil, que de natura
Somente
em ser mudável tem firmeza".
E Angelo Poliziano
expandiu-se numa estância inteira:
"Quanto
è meschin colui che cangia voglia
Per
donna, o mai per lei s’allegra o dole!
E
qual per lei di libertà si spoglia,
O
crede a’ suoi sembianteo a sue parole!
Che
sempre è più leggier ch’al vento foglia,
E
mille volte il dì vuole e disvuole:
Segue
chi fugge, a chi la vuol s’asconde;
E
vanne e vien, come alla riva l’onde".
Vagaroso, deu parecer
também o solitário de Valchiusa:
"Femmina
è cosa mobil per natura:
Ond’io
so ben ch’un amoroso stato
In
cor di donna picciol tempo dura".
Dante falou, de
seguida a Petrarca:
"Per
lei assai di Meve si comprende
Quanto
in femmina fuoco d’amour dura,
Si
l’occhio o’l tatto spesso nol raccende".
Como censurando o
discípulo amado, que, talvez por gratidão a Beatriz, alterara um pouco o
documento antigo, acudiu supercilioso o cisne de Mântua:
"Varium
et mutabil semper
Femina".
Virgílio não se
afastara muito de Terêncio:
"...........
novi ingenium mulierum.
Nolunt,
ubi velis; ubi nolis, cupiunt ultro".
Nós ríamos já a pano
solto do congresso de plagiários célebres.
Mas, deveríamos ouvir
também os gregos, até Homero...
Nisto, apareceu um
ancião, fortemente acurvado, com largas barbas alvas sobre o peito nu, a
gaguejar que fora ele quem antes de qualquer pusera coima de volúvel à mulher.
No intruso, que viera
desmanchar a festa, sem fazer versos, mas dizendo verdade, reconhecemos o pai
Adão.
Parecia ainda
engasgado com a maçã da mãe Eva...
De quando data a
volubilidade feminil!
NOTA ÚNICA
Neste artiguete de há
dois lustros, objetivando risonhamente um lugar-comum da poesia, limitaramo-nos
à simples cópia dos exemplos respectivos, em geral pela ordem inversa de sua
produção, conforme advertência prévia.
Assim, não
contribuímos para um equívoco, o de Medeiros e Albuquerque em Souvent femme
varie..., bela e instrutiva conferência de 1909, ora reunida a outras do autor
no volume O silêncio é de ouro, Rio de Janeiro, 1916:
"Tasso
tinha dito:
Femmina,
cosa mobile per natura.
Veio
Petrarca e repetiu a mesma sentença, com as mesmas palavras:
Femmina
è cosa mobile per natura".
Atribuir a Petrarca o
uso de um decassíbalo de Tasso, quando este nasceu 170 anos depois da morte
daquele, constitui anacronismo, que só se explica por lapso de pena. O
contrário estaria na mente do conferencista ilustre: Petrarca tinha dito, etc.
Veio Tasso e repetiu, etc. Aliás, o verso empregado por ambos, Petrarca, In
vita de Madonna Laura, soneto CXXXI, Tasso, Aminta, a. I. c. II, pertence
originariamente a Virgílio, sendo uma tradução da Eneida, 1. IV, versos 569-70,
em prosa direta e comprida: mulier (res est) semper varia et mutabilis.
Parafrasearam Virgílio, através de Petrarca, Camões, Lusíadas, c. IX, est. 46,
ou, mais caracterizadamente, soneto XIV e glosas ao mesmo; através de Camões,
Cláudio, soneto LXXIII, Macedo, Ulyssipo, c. X. est. 58, Corte-Real, Naufrágio
de Sepulveda, c. II, versos 230-1. Na Jerusalém libertada, c. XIX, est. 84, de
que nos serviramos, Tasso preferiu imitar Terêncio, Eunuco, a. IV, c. VIII,
através de Poliziano, Stanze, L. I, 14, cujo adminículo "Che sempre è più
leggier ch’al vento foglia", aproveitaria também ao secundário Piave, no
"mobil qual pluma al vento", que se acredita apenas derivado do
"Volubil sempre come foglia al vento, de Boccaccio, Filostrato, p. VIII.
Esta edificante nota crítico-bibliográfica
deve pôr de sobreaviso os habituados ao auxílio, às vezes confuso e não raro
falho, de Fumagalli...
(Aérides, 1918).
*
Jornalista, professor, crítico, folclorista e historiador, membro da Academia
Brasileira de Letras.
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