Mistura perigosa
Há uma tendência, que começou a ganhar
corpo em meados dos anos 70 do século XX, e que hoje está bastante disseminada:
a de misturar realidade e ficção em um só caldeirão, notadamente em contos e
romances.
Não me refiro à ambientação, que sempre
existiu. Ou seja, ao recurso de situar a história inventada em determinado
período da História real, trazendo à baila um ou outro fato realmente ocorrido.
Isso já vem sendo feito há muito, muitíssimo tempo. A novidade (não mais tão
nova assim, convenhamos) é tomar figuras públicas de grande notoriedade e
projeção como personagens e fazê-las “viver” enredos fictícios.
Ron Brown, entre outros tantos, faz
isso muito bem. Não desaprovo esse procedimento, mas ele envolve certos riscos,
aos quais convém que se esteja atento. Por exemplo, o escritor não pode colocar
esse personagem de carne e osso em situações vexatórias, em que ele, de fato,
nunca esteve e nem nas que impliquem em atos de burla à lei. Se o fizer, corre
o risco de levar um baita processo por calúnia, injúria ou difamação (ou os
três juntos). E, nesses casos, sequer adiantará argumentar que a Justiça está
lhe tolhendo a “liberdade de expressão”. Não estará. Essa só é válida quando se
trata de “fatos”, de verdades, de acontecimentos e ainda assim quando se tem a
devida comprovação do que se afirma.
Utilizo muito esse recurso de misturar
ficção e realidade, mas apenas em relação à ambientação das minhas histórias.
Quando escrevo, por exemplo, algum conto que situo, digamos, no Carnaval de
2001, coloco meus personagens no Sambódromo do Rio de Janeiro, em um desfile
real de escolas de samba, com os enredos e fantasias da ocasião. Ou em algum
dos tantos salões que promovem bailes carnavalescos, com as fantasias que os
participantes de fato usaram, as músicas que as orquestras tocaram e a
decoração verdadeira que havia.
Quando a história que me proponho a
contar ocorre em 1964, menciono o golpe militar e até recorro a manchetes de
jornais da época, que noticiaram esse fato (na versão deles, da qual, hoje,
muitos certamente se envergonham, mas que não podem alterar).
Mesmo não utilizando personalidades
verdadeiras como personagens, via de regra ocorrem equívocos por parte de
leitores que às vezes me assustam e outras me constrangem. Exemplo? Recentemente,
publiquei um conto em uma revista de grande circulação em que meu personagem
central integra uma quadrilha de ladrões de relógios da marca “Rolex’. O bando
realmente existiu e agiu como o descrito. O personagem em questão, porém, e
tudo o que ele fez no enredo, saíram da minha imaginação. Não foi assim que
muitos leitores interpretaram. Recebi várias manifestações positivas, mas, uma,
em particular, causou-me grande surpresa e uma certa aflição..
A pessoa que me escrevia
cumprimentava-me pela “detalhada reportagem” que havia acabado de ler. Ora,
ora, ora. Não era reportagem coisa nenhuma! Tratava-se de puríssima ficção.
Junto com o conto, havia, até, uma observação, no rodapé do texto, ressaltando
esse caráter ficcional. Não adiantou. Pelo menos o leitor que me escreveu,
certamente, passou batido por essa nota. Minha história era tão verossímil (no
entender dele) que lhe pareceu mera reportagem (sem demérito nenhum, claro,
para este tipo de matéria que é o coração e a alma do bom jornalismo).
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tais equívocos de interpretação são comuns e você bem sabe disso. Uma vez, na primeira pessoa, contei sobre a desesperança. Recebi telefonemas de apoio de algumas pessoas que não me conheciam. Pareciam muito preocupadas comigo.
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