Questão subjetiva
Um dos maiores problemas enfrentados pelos profissionais do
texto (incluindo, aqui, e diria que “principalmente”, o escritor) é a maneira
como quem lê interpreta o que escreveram. Muitas vezes você defende determinada
tese e o leitor entende que a atacou e vice-versa. Na maior parte desses casos,
o fato se deve à falta de clareza do redator. No entanto... nem sempre.
Há casos em que você é conciso, direto, claro e objetivo e
ainda assim lhe atribuem intenções que você, na verdade, nunca teve. Não há
como evitar. É um dos riscos que você corre ao partilhar pensamentos,
sentimentos e, sobretudo, opiniões, com pessoas que você não conhece (e que
provavelmente jamais conhecerá). Na maior parte das vezes, essa interpretação
equivocada não lhe traz nenhum prejuízo (a não ser um ou outro pequeno
aborrecimento). Contudo... há ocasiões em que isso se torna grave, gravíssimo.
Farei com vocês uma pequena provocação intelectual. Responda,
sem precisar justificar: quem, no seu entender, foi melhor escritor, Leon Tolstoi ou Fedor Dostoievski? Estendo a
pergunta para o plano local. Qual, a seu critério, é o melhor romancista
brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis ou Guimarães Rosa? Acho uma
covardia esse tipo de pergunta. Em Literatura, considerando os nomes mais
representativos e consagrados dessa nobre atividade, não há esse negócio de “melhor”
e “pior”. Cada qual tem lá seus méritos
e seus deméritos. Ademais, depende do gosto de quem julga. E este não se
discute. O que há é escritor bom (criativo, original, de estilo atrativo e
perito no manejo do idioma) e escritor
ruim (que não dispõe de nenhuma dessas virtudes). E este último, salvo
raríssimo acaso, é logo esquecido e não “emplaca” seu nome e nenhum livro para
posteridade. É verdade que muitos bons também findam por serem esquecidos.
Mas... Deixa pra lá!
O jornal Folha de S. Paulo,
mais especificamente seu caderno “Mais!”, em uma edição especial que circulou,
se não me engano, em dezembro de 1999 (lá se vão bons dezesseis anos e cinco meses), fez
uma enquete com vários intelectuais
conhecidos (e respeitados por sua vasta cultura, notadamente a literária). Perguntou-lhes
quais eram, no seu entender, os dez livros mais marcantes de todos os tempos.
Como seria de se esperar, não houve consenso a propósito (e nem poderia haver,
óbvio).
Foram relacionadas diversas
listas, uma de cada consultado. Raros foram os livros que apareceram em todas
as relações. Dos que foram citados, nenhum merece a menor restrição. Todos são
obras consagradas, hoje tidas e havidas como clássicos da literatura mundial. O
que me chamou a atenção não foram os livros mencionados, mas os omitidos.
Milhares e milhares deles foram
esquecidos por parte dos pesquisados. E tenho absoluta certeza que, tão logo a
edição especial foi publicada, os que participaram dela se deram conta da
omissão e ficaram aflitíssimos por isso. Fosse feita uma relação pelo menos minimamente justa, dos livros que
mereceriam destaque nessa pesquisa, o caderno “Mais!” circularia com milhares e
milhares de páginas o que, óbvio, seria absolutamente inviável.
Entendam, não estou criticando a referida enquete, embora
não veja nenhuma utilidade dela.Eu não a faria. Estou apenas demonstrando os
riscos de se utilizar os adjetivos “melhor” ou “pior” para avaliar livros (e
seus autores, claro). Por várias razões, sou visceralmente
contrário a esse tipo de enquête. Creio que elas nada acrescentam à cultura
literária e apenas geram controvérsias. Claro que em papos informais, em mesas
de botequim, esse assunto rende magníficas discussões, regadas a chope bem
gelado acompanhado de
tira-gostos. Mas jamais se chegará a uma conclusão objetiva, consensual e minimamente justa.
A utilidade prática, portanto,
desse tipo de consulta é zero. E é bom que assim seja. Como curiosidade... vá lá... Mas...
Afinal, quem sabe o seu livro, caríssimo escritor que acompanha atentamente
esse meu bla-bla-blá, não mereça (ou não venha a merecer algum dia) constar de alguma lista dos melhores e não conste de nenhuma? E
você, certamente, não gostaria
que isso acontecesse, de se sentir injustiçado. Afinal, essa
é uma sensação horrível e intragável!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Deixando de lado o sempre e o nunca, que são palavras limitantes, essas listas, além da mencionada inutilidade, citações despropositadas e esquecimentos injustos,servem pelo menos para levantar a bola de alguma obra esquecida.Duas observações interessantes e suas: dificuldade de interpretação e mil analistas, mil listas.
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