Abbey Road
* Por
Marcelo Sguassábia
LADO 1
- Vou começar bem fácil, depois a gente vai
esquentando.
- Manda.
- Faixa dois do Let it Be?
- Dig a Pony.
- Quantas músicas tem o Álbum Branco?
- Trinta.
- Qual o fotógrafo da capa do Rubber Soul?
- Robert Freeman.
- Quem era a Martha, da música Martha My dear?
- A cadela do Paul McCartney.
- Quem inspirou Something?
- Pattie Boyd.
- O que Tia Mimi disse para John Lennon, quando ele
comprou a primeira guitarra?
- "Você nunca vai ganhar a vida com
isso".
Não tinha jeito, ele sabia tudo. Era capaz de dizer
nome completo e endereço dos avós da Barbara Bach, mulher do Ringo.
Gabava-se de conhecer e catalogar, num caderninho
surrado com o selo da Apple na capa, todas as mensagens cifradas e alusões a
drogas do Revolver e do Sargeant Peppers. As bem manjadas e as que ele,
sozinho, jurava ter descoberto. Sabia também que Paul estava vivo, e bem vivo.
Ele mesmo o tinha visto num show em 1990 no Maracanã. Ainda assim conhecia 72
pistas que indicavam o contrário.
Tal pai, tal filho. E o menino, de 8 anos, ia pelo
mesmo caminho.
- Quanto é 64 dividido por 16?
- Four. Como os Beatles.
- A capital da Inglaterra?
- Londres, uma cidade que fica perto de Liverpool.
- Dê um exemplo de sujeito simples.
- George Harrison.
- E de sujeito composto?
- Lennon & McCartney.
Dos discos todos, o favorito era Abbey Road - o
célebre álbum com os quatro na rua homônima, passando pela faixa de pedestres.
Se além de tocar o seu Abbey Road falasse, teria muito o que contar. Idas e
vindas, festinhas na garagem, quedas nas mãos de bebuns, mudanças de casa. No
tempo da faculdade, foi com ele pra república. Fiel escudeiro, trilha sonora de
bons momentos e maus bocados. Era com ele que espantava o sono nas vésperas de
prova e embalava os sonhos nas vésperas dos encontros. Cheio de estalinhos,
riscado no começo do "Come Together" e no fim do "Golden
Slumbers", era sempre ele que encabeçava a pilha, com o papelão da capa já
esfarelando. Uma marca de copo, em cima da cabeça do Ringo, formava uma espécie
de auréola. Santo Ringo, que soube segurar a onda nas brigas e ameaças de
separação. De tanto entrar e sair do prato da vitrola, o furo foi abrindo,
laceando, ficando quase oval. Lá pelos anos 80, quando tinha aquele 3 em 1 da
National, cansou de gravar suas músicas em fitas cassete para os amigos. Uma
vez foi de empréstimo pra casa de uma paquera. Voltou com uma carta perfumada
dentro. Almíscar. O perfume durou pouco, a paquera menos ainda. Mas o velho
Abbey continuou lá, igual aos Beatles - forever. Com o tempo, foi virando
relíquia. Era a primeira prensagem brasileira, edição rara. Passou a guardá-lo
no fundo do maleiro e comprou uma outra cópia mais recente. Em vinil, é claro.
LADO 2
Londres, 2004.
- Não é essa a rua,
pai. A gente deve ter errado o caminho.
- Como não? Olha o
mapa, é aqui mesmo. Abbey Road, aqui estamos nós!
Não queria dar o braço
a torcer, mas a dúvida do menino era sua também.
Viu que o lendário
fusca branco, placa 28 IF, estacionado à esquerda na foto da capa, não estava
mais lá. Ele pensou alto:
- E nem poderia
estar...
- Falou alguma coisa,
pai?
- Nada não, filho.
Notou que faixa de
segurança era igual a todas as que ele já tinha visto. Que quase nada restava
daquele cenário mítico. A maçaneta da porta do estúdio, que a Rita Lee lambeu
com adoração devota, provavelmente já tinha sido várias vezes trocada. Com a
capa do bolachão nas mãos, ele comparava a foto com aquilo que via agora. As
árvores certamente deviam ser outras, o trânsito era mais intenso. O céu também
não era azul como naquele agosto de 35 anos atrás. Tirou os sapatos, para
sentir a textura do asfalto e alcançar o estado de graça que tanto ansiava.
Estava lá, exatamente onde eles estiveram. Em frente ao estúdio onde gravaram
quase toda a sua obra, e nada de atingir o nirvana. O coração não disparou, ele
não suou frio, as pernas não tremeram. Percebeu que perto da sua casa existiam
ruas mais parecidas com a Abbey Road do que a própria Abbey Road. Por alguns
minutos ficou ali, parado, como que esperando uma resposta ao próprio
desencanto. E deu-se conta que Abbey Road era uma rua que ele mesmo havia
pavimentado, ligando os Beatles às suas vísceras.
Entregou a câmera para
o filho e pediu que ele clicasse no momento em que atravessasse a rua.
Esperaram que alguns carros passassem e fez o mesmo com o menino. Mas bem
rápido, porque um bando de turistas barulhentos, trazidos por um guia de
sobretudo marrom, já tomava conta de toda a faixa.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Uma coisa são os nossos sonhos juvenis e outra coisa a vida atual. Uma pena, mas uma pena que valeu ser vivida.
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