E Deus deu à mulher...
* Por Anna Lee
Corre por aí uma história sobre uma
conversa entre Deus, Adão e Eva. Lá pelas tantas, o criador do mundo disse ao
casal que tinha duas habilidades para dar a eles, uma para cada um: “A primeira
é a capacidade de urinar em pé, a segunda...”. Adão não deixou Deus concluir a
frase e gritou: “Essa é minha, essa é minha! Eu quero poder urinar em pé”.
Eva, diante da manifestação efusiva do
companheiro, não questionou: “Tudo bem. Não tem problema, eu fico com a
segunda”. Ao que Deus respondeu: “Se é assim, minha filha, a segunda habilidade
– a que lhe será atribuída – é a de ter orgasmos múltiplos”.
E assim Deus deu à mulher a
possibilidade de orgasmos múltiplos.
Mas
parece que grande parte das descendentes de Eva não aprovou sua resignação e
muitas delas, até hoje, dizem ter inveja dos homens. A frase “eu gostaria de
poder fazer xixi em pé” tem sido dita e repetida há muitas gerações, por
mulheres de raças, credos e condições sociais distintas, como se esse atributo
fizesse dos homens seres superiores. Mais que isso. A realização de tal desejo,
às vezes, é tomada como a condição que determinaria a igualdade definitiva
entre os sexos, superando as principais bandeiras sustentadas pelo feminismo
durante anos: o emprego fora do lar, o direito de utilizar métodos
anticoncepcionais, de praticar aborto e à livre opção sexual.
Muito foi alcançado desde que a
escritora norte-americana Susan B. Anthony se engajou na luta feminista em 1851
e teve como primeira conquista a regulamentação do direito à propriedade. Isso
numa época em que as mulheres não podiam registrar nenhum bem em seu nome, nem
podiam votar, não tinham autoridade sobre os próprios filhos e deviam
obediência aos homens da família.
Sim, muitos direitos foram conquistados
desde então. Dá até para dizer que hoje a mulher está ali, quase páreo a páreo,
com o homem no mercado de trabalho. Mas fazer xixi em pé não teve jeito. E,
quer saber, nunca vai ter.
Está certo que a indústria farmacêutica
até inventou um apetrecho – uma espécie de condutor urinário – que promete uma
revolução: “Enfim, chegou o dia em que as mulheres não precisam mais se abaixar
para urinar”, diz a publicidade. Tudo bem, não deixa de ser uma alternativa,
mas no fundo, no fundo, sempre se saberá que é apenas um artifício. E nós
mulheres sabemos o quanto é frustrante ter de se conformar com uma cópia por
impossibilidade de possuir o original. Tem coisa pior do que se sujeitar a
comprar a imitação de uma bolsa de grife por não ter dólares suficientes para
adquirir uma autêntica?
O fato é que aconteça o que acontecer,
para o bem ou para o mal, as mulheres jamais poderão fazer xixi em pé. Pelo
menos não naturalmente. Tem alguém preocupada aí? Pois eu não. Sinceramente,
não troco meu direito a orgasmos múltiplos por poder fazer xixi em pé de jeito
nenhum. Nem pensar.
*Jornalista,
mestranda em Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O
Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre outros
livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e nas revistas
Quem/Ed.Globo e Manchete.
Nenhum comentário:
Postar um comentário