Talento é obrigação
Muito se fala sobre essa questão do talento e quase tudo o que se diz a respeito se resume num grande lugar-comum. Todos, todavia, nascem com alguma aptidão, nem que seja, apenas, para quebrar pedras.
Ocorre que alguns amam o que sabem fazer de melhor, sem se
importar se isso é importante ou não, e investem nisso, se tornando excelentes.
Outros tantos, talvez porque seu talento não seja fonte de riquezas, não
proporcione oportunidades para ganhar dinheiro com fartura (ou eles acham que
não proporcione) abrem mão dele e não se acertam em nenhuma outra atividade.
Acabam se tornando pessoas medíocres, obscuras, descartáveis no mercado de
trabalho, transformando-se em pesos mortos para a família, a sociedade e para
si próprios.
Talento, portanto, não é um privilégio, um prêmio da
natureza, um galardão, mas uma obrigação que cada qual tem em relação ao mundo.
A espaçonave Terra, embora pareça gigantesca, é, de fato, pequena e está
superlotada. Não comporta, pois, passageiros, que se limitem a contemplar a
paisagem, sem nada fazer. Todos os que a adentram são tripulantes e por isso
precisam conhecer (e têm que exercer) uma função.
Máximo Gorky, num documento que legou à posteridade,
intitulado “Carta aos jovens escritores”, constatou o seguinte, a propósito: “O
talento desenvolve-se no amor que pomos no que fazemos. Talvez até a essência
da arte seja o amor pelo que se faz, o amor pelo próprio trabalho”.
É isso o que o aspirante a escritor (ou mesmo o escritor já
feito) precisa ter: amor pelo que faz. Tem que amar a literatura. Só assim seu
talento inato irá aflorar e será desenvolvido até quase a perfeição. Mas esse
desenvolvimento apenas irá ocorrer mediante o exercício permanente,
disciplinado, inteligente, cotidiano, incansável da sua arte.
Há alguma idade ideal para se
manifestar o talento para a Literatura, escrevendo um livro, e dando início,
dessa forma, a uma carreira literária? A resposta é: não! Tudo vai depender de
uma série de fatores, como a cultura, a capacidade de observação, a
autodisciplina, a força de vontade e, principalmente, a realidade de vida de
cada um. E tudo isso não depende de idade.
Castro Alves, Álvares de
Azevedo e tantos outros jovens brilhantes, que cursavam Direito na
tradicionalíssima faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo , em meados do
século XIX, por exemplo, já eram escritores “veteranos”, mal completaram a
maioridade. O mesmo ocorreu em Coimbra, com uma geração que se notabilizou pela
boemia, mais ou menos na mesma época, conforme Eça de Queiroz nos retrata tão
bem em alguns de seus livros, notadamente em “A Correspondência de Fradique
Mendes” e “Cartas da Inglaterra”.
Em compensação, conheço um escritor
que produziu seu primeiro livro somente aos 66 anos, um após sua aposentadoria
em uma empresa multinacional. Sua intenção era a de escrever suas memórias (que
nem sonhava em publicar), agora que os filhos estavam criados, que era avô, e
que dispunha, além de talento inato para a Literatura (sufocado por tantos
anos), o fator experiência. Além de bastante tempo livre (que ele achava que
seria de mais quatro anos de vida, no máximo). Acabou escrevendo, e publicando,
um romance, de muito sucesso de vendas, com críticas altamente favoráveis.
Bastou “abrir as torneiras da alma”, para que
jorrassem idéias em
profusão. E os livros foram se sucedendo: um, dois, cinco,
dez. Publicou, até a presente data, quinze e já está escrevendo o décimo sexto.
Ele, que achava que viveria mais quatro anos, se tanto, acabou de completar
oitenta anos, em pleno vigor físico e mental. Trata-se de figura bastante
conhecida nos meios literários e culturais, que não revelarei quem é, porquanto
ele não me autorizou a isso.
Como se vê, o talento pode se
manifestar em qualquer idade, bem como o sucesso (ou o fracasso que,
infelizmente, é mais comum). Quem escreve seu primeiro livro, digamos, aos
vinte anos, encontra alguma dificuldade na falta de vivência. Não é nada,
porém, que não possa suprir com argúcia e capacidade de observação. Por outro
lado, tem, a seu favor, o entusiasmo característico da juventude. Ele é
suficiente para lhe assegurar êxito? Talvez sim, talvez não.
Já quem se dispõe a escrever em
idade, digamos, provecta, tem como aliada uma vasta experiência de vida. Já viu
e viveu muitas coisas e tem tudo para tornar seus textos reflexivos, profundos
e, caso se trate de ficção, verossímeis. Há o risco, todavia, de sequer
completar sua obra. O tempo, implacável e tirano, cobra um preço às vezes
duríssimo de quem viveu intensamente.
O filósofo norte-americano,
Ralph Waldo Emerson, fez as seguintes ponderações a esse propósito, no livro
“Old Age”: “Nós adiamos o nosso trabalho literário até que tenhamos maturidade
e técnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento literário
não passava de uma efervescência juvenil que perdemos”.
Pense nisso, meu caro escritor,
tenha você recém-completado vinte anos e esteja com a cabeça repleta de sonhos
e de projetos ou seja da eufemisticamente chamada “Terceira Idade”, com medo
que seu tempo de vida se esgote antes que manifeste seu talento, que escondeu
do mundo (por falta de coragem ou de oportunidade) por tantos e tantos anos.
Se você, querido leitor, sentir que tem alguma vocação para
as letras, se amar a literatura, se escrever lhe der satisfação, exercite essa
pontinha de talento. Verá que ele irá crescer, crescer e crescer à medida que
você exercitá-lo com constância. Exiba sua produção e afira sua evolução.
Participe. Não se acanhe. Aposte no seu talento. Afinal, queira ou não, admita
ou deixe de admitir, esta é a sua obrigação, para com você mesmo, e para com o
mundo.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Aos 13 anos fiz, em parceria com uma colega de ginásio, Cristina Mesquita, um longo poema para o Clube Atlético Mineiro. Tinha uma estrofe que dizia assim: "No começo de 69, no Torneio Robertão, Atlético e Cruzeiro, jogam no Mineirão". Aos 14 anos eu tentei escrever um conto, que ficou horrível. Eu mesma o descartei. Estava embalada pelo livro Clarissa, de Érico Veríssimo, que eu tinha acabado de ler. A pouca idade foi limitadora. A experiência ajuda, mas o senso de observação vale mais.
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