Dilma, Exu e os índios: o tempo
* Por
José Ribamar Bessa Freire
"Exu
matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”.
(Oriki citado por Pierre Verger em "Orixás")
Dilma não é Exu, mas
com uma pedra que atirou hoje matou um pássaro em 2011. É que ela decidiu
acelerar as demarcações das terras indígenas, o que já devia ter feito no seu
primeiro mandato, quando foram criadas apenas 11 terras, a marca mais baixa de
todos os governos desde a ditadura militar. Antes tarde do que nunca. No
anúncio feito na cerimônia de instalação do Conselho Nacional de Política
Indigenista, nesta quarta (27), o ministro da Justiça, Eugênio Aragão,
reconheceu que as falhas nesse campo se devem às alianças construídas com o
Congresso Nacional - atualmente desfeitas - que amarravam as mãos da
presidente.
Dois dias depois, o
pássaro morto ressuscitou? Dilma havia prometido homologar algumas áreas
indígenas em cerimônia programada com os índios no Palácio do Planalto nesta
sexta-feira (29). Mas na última hora, ela bateu fofo e preferiu assistir a
senadora Kátia Abreu na TV Senado, esvaziando o ato que foi transferido para o
Palácio da Justiça, com dança dos índios no salão negro, mas sem Dilma e sem as
medidas suspensas por "pendências técnicas", segundo o ministro
Aragão que, no entanto, garantiu a publicação de algumas delas no Diário
Oficial deste 2 de maio. Tomara.
Quanto tempo Dilma
ainda tem para presidir o país com as mãos desatadas, mas ainda com um nó de
travagem da Kátia Abreu? Dez dias? Dois anos? No prazo tão curto que lhe resta,
quantas pedradas pode dar para corrigir as omissões de ontem? Além das horas
para se defender dos temerários abutres que bicam com voracidade sua carcaça,
terá tempo hábil para matar outras aves do passado? Depende da noção de tempo
com a qual ela vai trabalhar. Se for com o tempo do relógio e do calendário,
não. Mas terá tempo de sobra, caso use o tempo dos orixás ou do mundo andino.
Na cordilheira dos
Andes, todo mundo sabe que o passado está sempre na frente, é por isso que nós
podemos vê-lo. O passado é de múltipla escolha. Já o futuro, que a Deus
pertence, é misterioso, vem atrás da gente, na rabiola, por isso não somos
capazes de avistá-lo. Nesse sentido, Michel Temer, o traíra, tem razão quando
diz que marchamos para o futuro. Efetivamente, com a dupla Temer-Cunha estamos
retrocedendo de volta para o futuro, andando para trás no tempo, com algumas
conquistas sociais seriamente ameaçadas.
O velho Chico
O futuro está
chegando. Os índios que preparem seus arcos, flechas e bordunas, porque vem
chumbo grosso se Dilma cair. Ruim com ela, pior sem ela. Foi justamente a chapa
Temer-Cunha e seus aliados que ataram as mãos da presidente. Embora a
Constituição, tão impropriamente invocada pela encapirotada Janaína Paschoal,
garanta aos índios o usufruto das terras imemoriais, o Estado nacional tem sido
incapaz de fazer cumprir o preceito constitucional e ninguém é acusado por
crime de responsabilidade. Além disso, uma Comissão do Congresso do Cunha acaba
de aprovar e encaminhar ao plenário a PEC 215/2000 que inviabiliza a demarcação
de terras indígenas.
Enquanto a democracia
agoniza sepultada por um congresso desmoralizado que dá um golpe comandado por
um réu no STF, quatro índios Guajajara da Terra Indígena Arariboia, no
Maranhão, que defendiam suas terras invadidas por madeireiros, foram
assassinados no último mês, entre 26 de março e 22 de abril: Aponuyre, um
menino de 16 anos, morto a tiros; Genésio, 30 anos, com pauladas e um tiro no
tórax; Isaías, 32 anos, morto a facadas
e Assis, 43 anos, morto a pauladas. Um quinto índio, Joel Gavião Krenyê,
morreu, ao que tudo indica vítima de uma emboscada.
O CIMI - Conselho
Indigenista Missionário - denunciou que "há anos, os cerca de dez mil
indígenas Guajajara e Awá que vivem na TI Arariboia, sofrem com a extração
ilegal de madeira e com a violência dos madeireiros da região". Por isso,
os Guajajara criaram, em 2008, o grupo dos Guardiões para proteger seu território
invadido por serrarias e carvoarias. De lá para cá já foram assassinados 21
índios e incendiado criminosamente 45% do território da TI Arariboia.
Todos esses crimes
permanecem tão impunes quanto os praticados por Eduardo Cunha. "As
instituições não estão cumprindo seu papel. Até agora nenhuma investigação foi
aberta e a sensação que fica é de impunidade" - afirmou Gilderlan
Rodrigues, missionário do CIMI. Quem comanda o Brasil é o coronel Saruê, do
Velho Chico. O JN virou novela e a novela virou telejornal.
O tempo mental
Suluene Guajajara se
queixou:
- "Muitas
mulheres idosas não conseguem mais dormir. Algumas passam noites inteiras
rezando para não acontecer o pior. Queremos um retorno das autoridades. É nosso
sangue que está sendo derramado".
Resta saber se Dilma
pode, hoje, antes de deixar o governo, evitar os assassinatos de ontem e fazer
cessar o choro das viúvas e das mães Guajajara. Ela tem ainda tempo para evitar
esse derramamento de sangue?
Talvez possam nos
ajudar a responder tal pergunta as aulas de literatura na Universidade da
Califórnia, em Berkeley, ministradas em 1980, por Júlio Cortázar. Lá, ele discutiu, entre outros temas, a arquitetura
do conto, sua dinâmica e uma série de conotações, de aberturas mentais e
psíquicas, dedicando um bom espaço para refletir sobre o tempo.
Ninguém sabe o que é o
tempo. Kant considera que o tempo em si mesmo não existe objetivamente, é uma
categoria exclusiva da razão, somos nós os que construímos o tempo. O tempo só
existe, porque nós o inventamos. "O tempo é um problema que vai muito além
da literatura e que envolve a própria essência do homem" - diz o escritor
argentino, que exemplifica com quatro contos que evidenciam a possibilidade de
diferentes tempos. Dois deles são de sua autoria.
O primeiro - "O
perseguidor" - narra a história de um músico de jazz, baseada numa
experiência vivida no metrô de Paris. Nos dois minutos entre uma estação e
outra, Cortázar rememorou em detalhe uma longa viagem feita, em 1942, pelo
norte da Argentina. Como podem caber em apenas dois minutos fatos vividos ao
longo de semanas, de meses? "Meu tempo interno, o tempo em que tudo isso
havia acontecido em minha mente, de maneira alguma poderia caber em dois
minutos" - concluiu. Mas coube.
O segundo conto -
"A ilha ao meio-dia" - narra a história de um comissário de bordo de
uma companhia de aviação que da janela do avião vê sempre, em sucessivos voos,
uma ilha grega no mar Egeu, habitada por pescadores. Decide mudar de vida, pede demissão e vai
morar na ilha pela qual ficara fascinado. Um belo dia, vê da terra o
"seu" avião passar desgovernado e cair no mar. Ele se atira na água e
puxa um homem ferido gravemente que se debatia. Quando os pescadores chegam,
encontram o cadáver do nosso comissário. Ele morreu no acidente, sem nunca ter
pisado na ilha, a não ser no tempo utópico.
O outro conto -
"O milagre secreto", de Borges - relata a história de um escritor tcheco na Segunda Guerra que vai ser
fuzilado pelos nazistas. Diante do pelotão, ele lamenta morrer sem ter tido
tempo para escrever sua obra-prima, que lhe tomaria pelo menos um ano de
trabalho. É aí que começa a criar personagens, a imaginar situação até
concluí-la. Quando ele abre os olhos feliz pela conclusão do ato criativo, os
tiros são disparados. O que havia durado para os soldados dois segundos, para
ele durou um ano de tempo mental, no qual finalizou sua obra.
No último conto -
"Aconteceu na ponte do Riacho da Coruja" - Ambrose Bierce narra um
episódio da Guerra da Secessão. Soldados decidem enforcar um prisioneiro,
passam-lhe uma corda no pescoço e o obrigam a pular da ponte para que ficasse
suspenso no ar. Ele pula, a corda se rompe, ele cai no rio e nada para bem
longe. Começa demorada viagem por terra até sua casa, onde chega a ver sua
mulher. A última frase do conto é: "O corpo do executado balançava no
extremo da corda". Em sua agonia, ele viveu a suposta ruptura da corda que
lhe permitiu ir em busca de sua família. Uma vez mais o tempo se estica e se
alonga - escreve Cortazar.
Qual o tempo de Dilma
e o que ela fará diante do pelotão de fuzilamento ou da forca? A chapa
Temer-Cunha anulará as demarcações porventura feitas, alegando que elas não
existiram?
*
Jornalista e historiador.
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