Você vai querer muiiiito
* Por
Marta Barcellos
Henry Ford costumava
dizer que, se tivesse perguntado aos consumidores o que queriam, ouviria como
resposta: um cavalo mais rápido. Da mesma forma, é difícil imaginar que algum
usuário da internet conseguisse antecipar, há alguns anos, o sonho de passar
horas navegando em redes sociais usando um tablet. Não é à toa que a palavra
inovação é uma espécie de mantra nas empresas, especialmente nas de tecnologia:
descobrir ou inventar uma nova necessidade humana se tornou a chave da riqueza
no capitalismo da sociedade da informação.
Mas, afinal, o que
quer o ser humano? Ou melhor: o que ele não sabe que vai desejar muito no futuro?
Em busca da resposta de um bilhão de dólares, as companhias se debruçam sobre
pesquisas comportamentais, projetam cenários, compram empresas de garagem onde
jovens descompromissados podem estar criando uma nova onda, investem na
contratação de profissionais com conhecimento tecnológico e criatividade para
ver o que ninguém vê. Enquanto um novo Henry Ford ou Steve Jobs não surge, os
departamentos de inovação recorrem desde ao psicólogo que compreende a dimensão
mais profunda do consumidor até ao matemático capaz de fazer associações
incomuns a partir da imensa base de informações agora disponível sobre cada
usuário. É de processos assim, ensina a prática, que surgem as ideias.
“As ideias podem vir
de qualquer lugar”, afirma o diretor de inovação da Microsoft, Paulo Iudicibus.
Com 800 Ph.Ds. contratados no mundo, a empresa está prestes a lançar o Windows
8, com pretensão de ser, mais que inovação, uma revolução no sistema que se
tornou sinônimo de computador pessoal há 20 anos. Se na verdade tenta hoje
superar inovações da Apple e do Google, a companhia fundada por Bill Gates faz
questão de desmistificar o processo de como se dá a invenção no mundo da
tecnologia, de certa forma romantizado pelas duas concorrentes. Para a
Microsoft, não basta uma ideia vinda de um cérebro genial e visionário: “Ter
ideias é relativamente simples”, diz Iudicibus. “Inovação é a transformação da
ideia em valor.”
Capturar a ideia do
consumidor
A Microsoft investe em
antigas e novas formas de estudar o comportamento dos consumidores – focus
groups, painéis de consumo, visita à casa dos clientes, pesquisas online,
análise das estatísticas de uso de seus produtos. Sugestões de clientes e
parceiros podem ser consideradas boas ideias, mas a busca por inovações
radicais costuma acontecer em “territórios mais desconhecidos”, como nas
parcerias com as chamadas startups, pequenas empreendedoras que se aventuram em
projetos exóticos, ou com cientistas e universidades que desenvolvem pesquisas
de ponta.
Assim nascem projetos
como o de uma lente de contato que monitora o nível de glicose em diabéticos
que perderam a visão a partir da lágrima, desenvolvida em conjunto com a
Universidade de Washington, que agora está sendo testada com a sobreposição de
imagens digitais. Como num filme de ficção científica, o usuário da lente
consegue ver setas de identificação virtuais e reconhecer pessoas na rua pelo
nome. Outro exemplo é o sensor Kinect, que “enxerga” em três dimensões os
jogadores de um videogame, reconhecendo gestos, faces e vozes, que também
começa a ter outros usos estudados: “Depois que foi lançado na primeira versão
aberta, em janeiro, surgiram vários cenários em que nunca tínhamos pensado”,
conta o diretor.
O cenário pode ter
sido vislumbrado, por exemplo, por um cirurgião/jogador, que imaginou utilizar
o Kinect para evitar a retirada das luvas em determinadas situações de uma
operação. Esse tipo de parceria, fruto da interatividade com clientes, é fundamental
para incrementar funcionalidades e tornar produtos e serviços mais
“intuitivos”. No entanto, se a pretensão é avançar com mais ousadia no campo da
invenção, como nos casos do automóvel industrial ou do iPod, a “leitura” do
usuário deve ir além do que ele diz. “O mais difícil é capturar a ideia do
consumidor”, admite Iudicibus.
Obsessão pela
“usabilidade”
“Quanto mais avançada
a tecnologia, mais profundo deve ser o conhecimento do ser humano”, afirma o
psicólogo Alessandro Vieira dos Reis, analista do comportamento e consultor de
empresas de tecnologia. Recentemente, Reis passou uma semana fingindo-se de
hóspede em um grande hotel que queria testar sua tecnologia de iluminação
inteligente e seu sistema de internet grátis baseado em quiosque. “Se entrevistasse
hóspedes, camareiras e o gerente, teria respostas enviesadas ou contaminadas”,
conta. “Para estudar e prever comportamentos, é preciso ser um ótimo
observador.”
Como funcionam a
percepção, a motivação, o aprendizado e a memória do usuário diante de uma
“interface” – entendida não apenas como tela, mas até como um serviço bancário
prestado por telefone – são alguns dos comportamentos estudados em projetos
cada vez menos technology push (gerados e “empurrados” pela área tecnológica) e
mais human centered. “Na medida em que a tecnologia se torna commodity, o
diferencial dos projetos passa a ser a compreensão que se tem do usuário, como
no caso de um conteúdo interativo, por exemplo”, diz Reis, que desenvolve no
momento três projetos na Fundação Centros de Referência em Tecnologias
Inovadoras (Certi), em Florianópolis.
O psicólogo é um
profissional raro no mercado. Primeiro porque ainda há resistências na inserção
de pessoas da área de humanas em ambientes tecnológicos (Reis fez dois anos de
computação antes da faculdade de psicologia): “O engenheiro-padrão da área de
computação só quer saber do software, não ouve alguém que não entende daquilo”,
diz Reis. Além disso, afirma, no Brasil os psicólogos não se interessam por
tecnologia: “Quem está aproveitando a demanda por profissionais do
comportamento humano, por mais estranho que pareça, são os designers.” Ele se
refere à especialização surgida com o propósito de melhorar a “usabilidade” de
computadores e dispositivos e fez os antigos webdesigners estudarem disciplinas
da psicologia para tornar as interfaces mais “amigáveis” ou “intuitivas”.
Muitos especialistas atribuem o sucesso da Apple à obsessão pela “usabilidade”.
“Mas falta a compreensão teórica aos designers”, diz o psicólogo.
Inovação proposta
Os estudos
universitários sobre a interação entre homem e tecnologia estão fazendo as
empresas pagarem mestrados nessa área para seus funcionários, afirma Simone
Bacellar Ferreira, professora de interação humano-computador do departamento de
informática aplicada da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
(UniRio): “O objetivo das empresas é aumentar a usabilidade e também a
acessibilidade”, explica, ressaltando a importância de conquistar pessoas mais
velhas ou com algum tipo de deficiência para as novidades tecnológicas.
A adesão a uma rede
social, por exemplo, pode ser ‘motivada por um detalhe que sensibilize essas
pessoas mais arredias, como o vocabulário adotado. Simone conta que uma senhora
de 81 anos resistia a utilizar sua conta no Facebook, aberta pela filha, até o
dia em que não conseguiu acessar as fotos da festa de 15 anos de uma parente.
Por telefone, sua filha explicou: “É que a senhora não é amiga dela.” Indignada
com a afirmação, ela tratou de aprender a adicionar amigos. E como as pessoas
lidam com as sucessivas atualizações e novas funções introduzidas pelos sites?
“A resistência é do pessoal mais velho, os jovens aceitam bem as novidades”,
diz Simone. “O segredo é não mudar de repente o que já é conhecido, dar a opção
de utilizar a versão antiga por um tempo, como faz o Facebook.”
Na prática, as
disciplinas ligadas à “usabilidade” não escondem a ambição da tecnologia, hoje,
não apenas de descobrir as necessidades íntimas do ser humano, mas também de
influenciar seu comportamento – por meio de facilitações, incentivos,
restrições, punições, feedbacks –, para que ele aja da forma desejada, até
mesmo aderindo a uma inovação proposta. No livro Persuasive Technology, o
psicólogo e professor da Universidade de Stanford B.J. Fogg mostra a eficácia
do chamado design for behavior change (design para mudança de comportamento),
mas prega que ele seja usado para influenciar positivamente as pessoas por meio
de recompensas, evitando-se a coerção.
Ideias “fora da caixa”
“Não existe isso de
manipular. As pessoas são inteligentes”, diz Victor Ribeiro, diretor de
produtos do Google. “Só temos sucesso se conseguimos adicionar valor à vida
delas. Se tentar manipular, perde a sua confiança.” A formação de Ribeiro é
bastante típica dos profissionais garimpados pela companhia no mundo todo: com
sólido conhecimento técnico (bacharelado em matemática aplicada pela Unicamp e
mestrado em ciências da computação pela UFMG), ele se destacou na carreira pelo
empreendedorismo e pela criação do buscador Miner, que seria vendido ao UOL.
Entre os seus colegas de Google, hoje, há desde o antigo agitador do centro
acadêmico até o tocador de cavaquinho. “Nossa cultura é baseada em
profissionais com boa formação, mas também questionadores e criativos”,
comenta.
Criativo o suficiente
para ver sozinho o que ninguém vê? Mais ou menos. De fato todos ganham uma
espécie de licença para utilizar 20% de seu tempo de trabalho para “perseguir
seus sonhos” em projetos próprios, mas a empresa não acredita propriamente que
um de seus cérebros privilegiados terá de repente a ideia de um bilhão de
dólares. “As melhores ideias vêm do cafezinho”, diz Ribeiro, lembrando que a
máxima na realidade é da academia e apenas encontrou no Google seu melhor
ambiente. “O Adsense [software de publicidade] é exemplo de ideia surgida na
cafeteria”, conta. Para levar adiante o projeto dos sonhos, o engenheiro
precisa convencer e envolver colegas de outras áreas.
Mas não basta investir
nos próprios funcionários. Assim como a Microsoft admite que 54% das ideias que
geram suas inovações vêm de fora da companhia, o Google não esconde que sua
aposta é cada vez mais externa: só em 2011, foram feitas 57 aquisições de startups.
A busca por ideias “fora da caixa” se tornou tão importante para a inovação
tecnológica que o setor foi o destaque do movimento de fusões e aquisições no
ano passado. Segundo estudo da consultoria Ernest & Young Terco, os
negócios anunciados até setembro no setor somaram US$ 139,3 bilhões, 17% mais
do que em todo o ano anterior. Isso apesar da crise financeira.
O impacto das
biotecnologias
Por trás da corrida
pelos “empreendedores de garagem” está o dilema das companhias de tecnologia:
quando se tornam bem-sucedidas e gigantescas, tudo conspira para que, enquanto
ocupam seu tempo “resolvendo problemas”, na ilusão de estar buscando inovações
para um consumidor supermonitorado por pesquisas, os executivos ignorem uma
parcela de clientes aptos a experimentar algo que pode destruir o mercado
construído por eles próprios. A cegueira é quase inevitável, e foi descrita em
detalhes no best-seller Dilema da Inovação, do professor de Harvard Clayton
Christensen. "Isso acontece quando a empresa está, sim, inovando, mas não
percebe aquilo que o seu consumidor não sabe que quer", analisa Ribeiro.
“Por isso a regra do Google é focar sempre no usuário, mesmo que percamos
receita durante um tempo.”
A análise de dados
sobre usuários e consumidores é cada vez mais estratégica, e também exige
profissionais qualificados. “Tirar significado do volume gigantesco de
informações que existe hoje é fundamental para entender hábitos, padrões de
consumo e tendências”, diz Bruno Magrani, professor do Centro de Tecnologia e
Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).
Um exemplo de
movimento nesse sentido foi a aquisição, pela HP, da britânica Autonomy,
especializada em buscas por dados não estruturados, como e-mails, ligações
telefônicas e tweets que não se encaixam em bancos de dados tradicionais – uma
transação de US$ 12 bilhões concluída em outubro. Os profissionais mais
indicados para lidar com essa massa bruta de dados, gerada automaticamente por
sistemas que rastreiam dia e noite os usuários, não são da área de comportamento,
mas os matemáticos, acredita Magrani. “Eles estão disputadíssimos no mercado,
porque conseguem avaliar padrões e promover cruzamentos com dados de outras
bases, fazendo associações fora do comum. É a união do raciocínio lógico com a
criatividade que gera a inovação.”
Para o sociólogo da
tecnologia Laymert Garcia dos Santos, o capitalismo “pós-virada cibernética” se
baseia justamente no valor gerado a partir dessa massa de informações. “Para
ser bem-sucedido nesse capitalismo, é preciso fazer a melhor gestão possível
dos rastros deixados por nós nos sistemas informacionais”, diz o professor
titular do departamento de sociologia da Unicamp, que tem doutorado em ciências
da informação pela Université de Paris VII. Nos últimos anos, Santos tem se
dedicado a estudar as implicações sociais da informação digital na sociedade
contemporânea e o impacto das biotecnologias sobre o conceito de natureza
humana.
“É um jogo que todos
estão jogando”
“O processamento
finíssimo da informação permite às empresas saber até quando muda o estado de
espírito do jogador de um videogame ou como ele reage à competição”,
exemplifica o sociólogo. Assim, do ponto de vista estatístico, seria possível
fazer a leitura emocional de uma pessoa e conhecê-la melhor do que seus
parentes ou ela própria, como imaginou o escritor de ficção científica William
Gibson no livro Idoru, de 1996, inspirador da trilogia cinematográfica Matrix.
“Não é que exista um comitê formado por empresas interessadas em controlar a
vida das pessoas deliberadamente”, diz Santos. “Até porque as pessoas não
entram nisso como indivíduos, mas como recortes, para gerar diagramas de
comportamento e extrair padrões.”
A questão que vem
mobilizando o pesquisador é o impacto dessa interação na própria natureza
humana, que estaria sendo reconstruída a partir dos novos interesses, já que as
empresas de tecnologia acessam um estrato de informação profunda do ser humano
e o reduzem à sua dimensão de consumidor. “Se recebo uma propaganda de
restaurante japonês porque o sistema conhece a minha preferência, fico feliz e
penso estar escolhendo aquilo. Mas na verdade a minha escolha se deu dentro
daquilo que já fui programado para escolher.”
Sem um “julgamento de
valor”, diz o professor, o fato é que o ser humano cujos desejos e necessidades
são estudados hoje por companhias interessadas em seu potencial de consumo não
é mais “aquele do referencial humanista do século 17”. “É outro”, diz. E está
em mutação. “A informação digital permite que a vida ou a linguagem tenham
outro sentido.” Isso não quer dizer que um profissional altamente qualificado,
capaz de agenciar adequadamente as informações do consumidor e prever seus
impulsos, consiga empurrar qualquer novidade tecnológica para ele. “Mas
demandas são suscitadas por esse conhecimento”, aponta Santos. “É um jogo que
todos estão jogando.”
*
Jornalista, trabalhou nos veículos “O Globo”, “Gazeta Mercantil” e “Valor
Econômico”, e hoje consegue conciliar realização no trabalho com qualidade de
vida. Já escreveu três livros jornalísticos, encomendados por empresas. Presta
serviços de conteúdo por meio da Contexto Final, é colaboradora do Valor
Econômico e mantém colunas fixas na revista Capital Aberto e no site Digestivo
Cultural, além de manter seu blog "Espuminha de Leite"
http://blog.contextofinal.com.br/perfil/
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