segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sem mais premências


* Por Daniel Santos


Com a ruína financeira, a fome humilhava. Mas um homem, após homicídio em legítima defesa, decidiu alimentar-se do cadáver que, logo, apodreceria. Pois, fartou-se, proveu os seus e teve idéia de formar estoque.

Em nome da família, claro, se bem abatesse indefesos com rancor do excluído que anseia pela revanche. Alimentava-se secretamente dessa ira, pois, de remediado, chegara à penúria. E quem pagaria por isso?

Com a bonança, alimentos de volta à mesa, ele não precisou mais da ruína para estimulá-lo ao abate – agora, um hábito que a prudência recomendava com a gravidade e a sabedoria dos fatos que se repetem.

E, assim, tem sido. Sem prejuízos nem credores, sem amargar passivos na sua privilegiada contabilidade, tornou-se respeitável. Sai altas horas de restaurantes e vagueia de carro pela cidade à cata de provisões.

Se encontra, veste luvas e avental para evitar respingos, contabiliza mais um dígito no patrimônio. Do contrário, dá de ombros. Afinal, não há mais premências. Aprendeu, também ele!, a repassar  prejuízos.


* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.

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