Eu
também já fui ladrão
* Por
Urariano Mota
Eu
também já fui ladrão, confesso.
Eu
e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco
privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais
cedo, e terminávamos por volta das 20 horas. Melhor dizendo:
fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando
não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a
jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o
pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não
dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos,
porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma
coisa ganhávamos, como veremos.
Nada
direi sobre Hermann, um descendente de empresário sueco, um
descendente bastardo já se vê, um sujeito deserdado, que estendia
olhos mui nobres para o que os seus dedos finos não alcançavam. A
saber, tudo: cervejas, cigarros, e, luxo dos luxos, almoço, janta e
ceia. Nada direi. Importa saber que em uma fatídica noite Hermann
estendeu sua cobiça para uma direção. Acompanhei-o, não bem por
solidariedade, mas por experiência. Os seus olhos sempre se dirigiam
para o que eu também ambicionava. E vejo e vi então o grupo dos
quatro gerentes que entrava em nossa última sala, próxima à
cozinha (mirem como o diabo nos queria). Ali se encontrava o
refrigerador, que de ordinário abrigava somente água, nada mais que
água. De sede, portanto, não morreríamos.
Entram
os gerentes. À frente, como sempre, o gerente geral, obeso, bon
vivant, cheio de ideias positivas sobre o crescimento material das
pessoas. Ele era a tese, antítese, síntese e realização dos
princípios positivos. Atrás, o vice-gerente, fiel discípulo. E
depois, em ordem cadenciada de passos e postos, os outros em escala
descendente de hierarquia e salários. Como apareciam todos de
ternos, com o paletó aberto a mostrar seus ventres redondos,
dir-se-ia uma fila de pinguins a caminhar para a neve – o
refrigerador ao lado de nós. Mas isso, para aquele instante, não é
novo.
O
novo, o que os olhos de Hermann identificam com precisão e
necessidade, são as caixas que eles portam, objetos oblongos, cujo
conteúdo pelo cheiro e forma adivinhamos. Olhamos e baixamos a
vista: são caixas de sorvete, preciosos sorvetes de frutas
tropicais. Um quilo de sabor infernal em cada uma. Cajá, mangaba,
caju... Se um gênio nos perguntasse àquela hora das 21 horas, em
1981:
– Homem,
o que desejas? Vida eterna, tesouro, ser amado pela maja de Goya....
Nós
responderíamos, sem dúvida e sem vacilar:
– Primeiro
o sorvete, gênio. Depois, conversamos com mais calma e firmeza.
Um
dos gerentes, o mais afoito e arrogante, passa de volta e assim nos
saúda, como sempre nos saudava:
– Meninos...
– Com esse tratamento ele apenas nos põe no lugar de subalternos,
ainda que sejamos mais velhos que ele. – Meninos...
E
passa, com o seu largo traseiro. Deixa atrás de si, além da cauda
que parece arrastar, um cheiro de cu, álcool e perfume estragado
pelo álcool da noite e banquetes. Saem. Batem a porta. O banco
mergulha em silêncio, aquele mesmo silêncio que antecede a
madrugada e permite a maior liberdade aos ratos. Eu e Hermann nem nos
olhamos mais. Enquanto somamos valores de cheques, enquanto amarramos
papéis em lotes, não nos sai da cabeça a tentação dos frutos
proibidos. Então eu me levanto e vou olhar, somente olhar e mais
nada, a cara, somente ver a cara dos sorvetes. E pelo nome na tampa,
percebo que um deles é de cajá. Ora, ver é permitido. Ver não
dói. Somente ver, Senhor. Ora. Com artes de arrombador de cofres eu
retiro a tampa da caixa. E vejo a cor amarela.
Ver
dói. Dá um sabor, um aroma, um travo de recordação na língua. O
dicionário Aurélio informa que o cajá é fruto da cajazeira, que
por sua vez é árvore de produzir uma drupa elipsóide amarela,
aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos
e sorvetes. O que o dicionário não ensina é que o sorvete de cajá
na altura das nove da noite, em dois bancários com fome, é qualquer
coisa mais que irresistível. E com aquela raiva que nos possuía,
com aquele ódio de classe acumulado pelo "meninos", eu
lhes digo, o cajá tem uma força maior que a do sexo para marujos
perdidos. E por isso, eu, o almirante sem esquadra, comando um rápido
assalto e abordagem.
– Hermann
– eu oriento o deserdado – Hermann, se a gente fizer assim, eles
não vão notar.
E
com isso dou o exemplo. Com uma colher faço raspagens, retiro
lâminas da superfície do cajá, rebaixo o tamanho delicadamente
(tão delicado quanto um homem com fome assalta uma presa), de forma
e de formas a deixar o volume do sorvete bem distribuído, em uma
mesma altura.
Olhem,
mirem e escutem, eu não quero incriminar outra pessoa. Mas eu
acredito até hoje que Hermann foi o culpado. Ele acabou com o
sorvete! Ele, sem seguir a minha orientação, fodeu todo o cajá! O
animal esvaziou todo o conteúdo suculento próprio para refrescos e
sorvetes. Disse-me ele depois que não poderia seguir as minhas
instruções de calma, "vá com calma, Hermann, atenção,
cuidado", enquanto aquela drupa amarela, melhor que as majas de
Goya, era devorada em profundas horizontais por este orientador. O
certo é que restou a caixa vazia, que tampamos atenciosos, e com
recomendações de estima fizemos retornar ao mesmo lugar e
temperatura. Amada, dorme em paz, queríamos dizer.
Chega
o outro dia. Mais uma vez entra a fila dos pinguins, em ordem.
– Buon
giorno – saúda-nos o gerente geral. Os demais pinguins tentam
repetir o italiano do chefe:
– Bom
giorno, bom giorno...
Eles
se dirigem, como um dia antes, à neve do refrigerador. Eu e Hermann
de cabeças baixas, extremamente concentrados em nossas somas e
subtrações de valores. Temos que bater o balanço, ora, por favor,
não nos distraiam do nosso ofício. Em torno de nós, melhor
dizendo, em nossas costas ouvimos o silêncio, aquele silêncio do
cinema dos filmes western, o mesmo silêncio que vem antes do ataque
dos índios. Súbito, um grito. É agora. Eu não posso nem olhar
Hermann. Ele também não me vê. Mergulhamos a cara nos relatórios
de conta corrente.
– Quem
foi que roubou o meu sorvete? Quem foi?!
Se
no mundo explodisse a bomba fundamental, não a ouviríamos. O ventre
que entrevemos, por baixo dos olhos, pelo cheiro com que arrasta a
cauda, adivinhamos. É do yuppie, que nos trata por meninos. O cajá
era dele. Os inimigos se percebem sem palavras, porque ele se dirige
a mim, com toda assistência dos pinguins em torno. Juro por Deus que
tive então a minha última hora de coragem. Fitei-o com a cara mais
cínica e despudorada e repleta de surpresa que um ator pode ter. O
meu ser, a minha expressão, pelo menos eu me esforcei para isso,
quis dizer:
– A
quê o jovem se refere? Na verdade, eu não sei nem se existe no
mundo algo parecido com cajá.
As
evidências nos apontavam como autores do crime. Eu e Hermann éramos
os últimos a sair. Talvez também os de pior condição social e
financeira. Em vez do cherchez la femme, e a fêmea era aquela
maravilhosa polpa amarela, os sinais anunciavam: busquem os fodidos.
E por isso o pinguim mais jovem nos recrimina, olhando ora para mim,
ora para Hermann:
– Quem
rouba sorvete é ladrão. Quem rouba sorvete, assalta um banco!
Isso
foi o mais duro de ouvir. Se houvesse uma catilinária de classe a
nosso favor, e se essa catilinária não nos empurrasse para o olho
da rua.... baixamos a cabeça e engolimos.
Muitos
anos depois, um belo dia soubemos: aquele gerente, aquele pinguim
mais jovem se transformou em um criminoso procurado pela polícia
federal, porque tomou conta, com excessivo zelo, de valores de
clientes. Ou seja, aplicações em papéis, em bolsa de valores, que
investidores lhe confiavam, deixaram de ser feitas nos dias e
períodos solicitados. Pior: assim como a fome sobre a caixa do
sorvete de cajá, que começou pela superfície e foi até o fundo, o
nosso Catão havia comido toda a aplicação, e por isso fugiu para
lugares menos perigosos.
Não
sei se existe moral nesta breve história, mas se houver, passa por
esta recomendação: se não for seu, não comece jamais a comer um
sorvete de cajá. É irresistível.
*
Escritor, jornalista,
colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La
Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no
Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário amoroso de
Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O Caso Dom
Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
Moral ou amoral, pouco importa. O cajá e seu sorvete são ótimos, assim como o fato narrado. A culpa é do pinguim. Eu ofereço-lhe a liberdade.
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