Fuga e união
A
realidade, muitas vezes, se nos afigura tão horrenda, violenta,
injusta, sem sentido e sem esperanças de que mude para melhor, que
nos sentimos tentados, nessas ocasiões, a fugir dela, a nos
distanciarmos do que acontece conosco e/ou ao nosso redor e fingir
que nada disso está acontecendo. Mas como fazer isso? Fugir para
onde?
Há,
é verdade, circunstâncias que são o oposto. Existem momentos tão
sublimes e gratificantes que gostaríamos que não acabassem nunca.
Sonhamos que o mundo todo venha a ser tão maravilhoso, como aquilo
que vivenciamos, mas que temos convicção de que irá passar. Tudo
passa, o bom e o mau. Mas como fazer isso? Como tornar esse sonho
pelo menos minimamente realizável, se não concreto?
Só
conheço uma única resposta para todas essas questões. Podemos
fugir da realidade horrenda que nos assola, ou que nos rodeia,
através da arte. E só podemos mudar o mundo para melhor também por
meio dela. Não ria, amigo leitor, se você for artista saberá do
que estou falando.
Esse
ato de criação, essa forma de expressão de sentimentos,
pensamentos e observações – como que num desabafo –
proporciona-nos o meio mais seguro e eficaz para a fuga do horror, da
violência, das injustiças e de tudo o que transforma o mundo –
que poderia e deveria ser um paraíso para todos – em sucursal do
inferno. E fugir para onde? Para um lugar em que tirano algum poderá
nos alcançar e atingir: para o nosso próprio interior.
Creio,
piamente, no poder regenerador da arte. Ademais, ela não é, apenas,
veículo de fuga de uma realidade aziaga e má. Em mãos peritas
tende a se transformar na concretização de sonhos e de ideais que
de outra forma seriam irrealizáveis. O talento do artista é varinha
mágica que transforma os cenários, atos e pessoas mais horrendos em
protótipos de beleza, de grandeza e de transcendência.
Um
compositor talentoso, tendo por matéria-prima dissonâncias que
ferem e machucam o ouvido, é capaz de elaborar, apenas com
estrondos, gemidos, urros e estridências, melodias harmoniosas e
suaves, que nos embalam o espírito e fazem nossa alma dançar.
Pintores
hábeis reproduzem em suas telas – apenas com pincéis e tintas, às
quais misturam com perícia para dar-lhes todos os tons da natureza –
não só o concreto e belo, mas o mundo ideal que trazem em seus
corações e mentes.
Escultores,
tal como Deus modelando o primitivo Adão, fazem da pedra rústica e
suja perfeições de formas e de movimentos, de maneira que só eles
sabem fazer, mediante a força, a perícia e a grandeza do seu
talento.
Escritores
expressam a beleza, a magia, o poder e a transcendência dos magnos
ideais que movem o homem tendo por ferramentas, apenas, a
ambigüidade, a indigência e a fragilidade das palavras, que
manipulam com a perícia de um tecelão a tecer seus panos.
Vocês
já imaginaram um mundo sem artes? Já pensaram como seria tão mais
sombrio, horrendo, violento, injusto, sem graça e sem esperanças de
que mudasse para melhor? A fria realidade se tornaria superlativa, ou
seja, gélida.
Não
teríamos como expressar nossos mais acalentados sonhos e magníficos
ideais. Seríamos uma fera a mais em um mundo povoado apenas por
feras, na mera e selvagem luta pela sobrevivência, sem que esta,
todavia, tivesse o menor sentido ou graça.
Não
sei o que você pensa a esse propósito, estimado leitor e esteja
certo que, mesmo que não concorde com seu pensamento, respeitá-lo-ei
às últimas conseqüências. Da minha parte, porém, não saberia
viver sem arte. E não viveria. Abriria mão, liminarmente, desta
fascinante e simultaneamente perigosa aventura que sei quando e como
começou, mas não tenho a menor noção de quando e como irá
terminar.
Para
mim a arte, qualquer arte, é tão fundamental como o ar que respiro,
o alimento que me mantém, a veste que me aquece ou o abrigo que me
acolhe. Este sempre foi meu credo desde que tomei consciência de
mim, do que me rodeia e dessa incompreensível e misteriosa imensidão
que é o universo.
Mesmo
correndo o risco de ser mal interpretado e tido como piegas ou
alienado, não tenho vergonha e nem receio de declarar, aos quatro
ventos, peito estufado e plenamente convicto do que digo: creio na
beleza, na grandeza e na transcendência do homem!!! E expresso essa
minha crença, apenas, através da arte, que é meu DNA, minha vez e
minha voz!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A arte é o caminho. Quanto ao Homem, torço o nariz.
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