A
canção do monjolo
* Por
Cassiano Ricardo
O
arco-íris já se pôs debruçado no morro
como
um fantasma, sete cores na cabeça,
contando
histórias pela boca do trovão...
O
monjolo, a bater na encosta do grotão,
soca
o pilão.
Passa
correndo por um vão de serra braba
a
sucuri de rabo azul que é o ribeirão.
Os
ecos em redor ficam de boca aberta
e
fazem o sinal da cruz por todo o boqueirão.
Tenho
a doida ilusão de que todos os ecos
e
o próprio arco-íris que casou com a solidão
estão
pasmados de chapéu na mão.
O
monjolo, a bater na encosta do grotão,
soca-pilão,
soca-pilão.
Meu
pangaré trotão de olhos azuis como turquesas
põe-se
a cismar na tarde roxa e quer parar
antes
do tempo,
quando
lhe dou a rédea a subir o grotão:
é
a eterna música do pilão
que
está batendo como um coração...
A
minha namorada, uma trigueira
de
treze anos em flor, lábios cor de pinhão,
vai
buscar a canjica loura que ele soca
e
pára a ouvi-lo junto às águas da barroca,
como
a um relógio de repetição.
E
fica-lhe no ouvido a música que ele toca,
socapilão,
socapilão!
A
enxada brilha nas tigueras do espigão.
O
lavrador que anda a estalar duas espigas
vai
arrancar cruas mandiocas cor de terra
ao
roxo terra que anda roxo pelo chão.
Os
cafeeiros qual soldados muito verdes
marcham
de dois, de dois em dois contra o sertão.
A
enxada brilha nas tigueras do espigão...
Sooooooooóóóca-pilão!
*
Jornalista, poeta e ensaísta, membro da Academia Brasileira de
Letras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário