A Copa
do
Mundo é gorda
* Por
Gustavo do Carmo
A FIFA anunciou no mês
passado que vai aumentar o número de seleções da Copa do Mundo de
32 para 48 países a partir de 2026, ainda sem sede definida. Uma
medida claramente política, principalmente para beneficiar a África
e a Ásia, que com 9/10 e 8/9 vagas, respectivamente, terão mais
países que a América do Sul.
Beneficiar a Ásia é até
compreensível, pois aumentar o número de vagas pode trazer países
árabes dos petrodólares que a FIFA adora, como Catar (sede da Copa
de 2022), Bahrein, Emirados Árabes (que não disputa uma Copa desde
1990, sob o comando do brasileiro Parreira) e Arábia Saudita. Ah,
claro, tem a China também, que não é árabe, mas é rica.
Já a África não merece esse
populismo. Não é por racismo, mas por questões técnicas e
políticas dentro do próprio continente. Primeiro, porque em quase
cem anos e vinte edições de Copa do Mundo os africanos só chegaram
três vezes às quartas-de-final: com Camarões em 1990, Senegal em
2002 e Gana em 2010. Além disso, em quase todas as Copas, há um
time fazendo greve com a federação local às vésperas do embarque
para o evento. Já a América do Sul tem 9 títulos. Como podem os
africanos ficarem com até 10 vagas e nós apenas 6 ou 7? A Ásia,
pelo menos, chegou à semifinal com a Coreia do Sul em 2002.
Pela proposta de distribuição
de vagas, a Europa ficaria com 16, a África com 9 mais 1 da
repescagem, Ásia 8+1, América do Sul 6+1, Américas do Norte e
Central (CONCACAF) 6+1 e, finalmente, uma vaga direta para a Oceania
(que a Austrália tanto queria, mas como não foi atendida se mudou
para a federação asiática), além do país-sede. Os famigerados
play-offs intercontinentais seriam mantidos.
Eu até aumentaria o número
de vagas para a África e a Ásia. Desde que a América do Sul tenha
mais países. Minha distribuição seria assim: 16 vagas para a
Europa, 8 para a América do Sul, 7 para a África (2 a mais do que
já tem), 7 para a Ásia (ganharia mais 3 vagas diretas), 6 para a
CONCACAF (atualmente com 3 diretas), 1 para a Oceania, o país-sede,
devolveria a tradicional vaga para o último campeão e daria uma
vaga para o campeão da Copa das Confederações do ciclo anterior,
ou seja, da edição de 2021. Pois este torneio tem que servir para
alguma coisa além de evento-teste para o ano seguinte e iludir os
torcedores do país campeão, como o Brasil, que meteu 3x0 na então
badalada Espanha no Maracanã lotado para no ano seguinte tomar de 7
da Alemanha no Mineirão. E acabaria com essas repescagens mundiais,
abrindo espaço no calendário para continentes decidirem as suas
últimas vagas.
Se uma Copa do Mundo tiver
duas ou mais sedes, a segunda desconta do continente (por exemplo, em
2002, a Ásia teria uma vaga a menos). Caso inventem de ter dois
países sedes em continentes diferentes, haveria um playoff entre as
sedes. O continente perdedor fica com uma vaga a menos.
Da mesma forma que não
adianta eu ficar reclamando da “amarelona” África ter mais
países que a vitoriosa América do Sul e sugerir a minha
distribuição de vagas, também não adianta me posicionar contra o
aumento de vagas na Copa do Mundo. Não adianta falar que o nível
técnico dos jogos vai cair, que vão surgir mais “clássicos”
como Filipinas x Panamá, que o tempo de descanso para manter os 32
dias vai diminuir, que a combinação de resultados vai aumentar, que
os países sem tradição vão continuar sendo prejudicados, pois
deverá acontecer mais jogos simultâneos nas duas primeiras rodadas
e as TVs vão priorizar os jogos mais rentáveis, etc... o Infantino
só quer saber de dinheiro na sua conta da Suiça.
Não sou tão velho quanto
pensam. Quando comecei a acompanhar a Copa do Mundo da FIFA ela já
tinha 24 seleções. Foi a de 1990. Da de 1982 só lembro do clima de
torcida pelo Brasil, com as decorações verde-e-amarela pelas ruas e
ações de marketing (como o compacto do Café Pelé com os hinos dos
clubes cariocas com a Xuxa modelo na capa). E a de 1986 só torcia
pelo Brasil. E ambas já tinham 24. Na última Copa com 16 países,
em 1978, eu era um bebê e não tinha nem um ano.
Já era um adolescente e fã
de futebol quando finalmente vi o Brasil ser campeão e estava na
faculdade quando foi disputada a primeira Copa com 32 países. Voltei
para a faculdade quando vi o Brasil ganhar pela segunda vez, desta
vez conquistando o penta. Já terei quase cinquenta anos na primeira
Copa com 48 times.
A Copa do Mundo vai engordando
como a Copa São Paulo de Futebol Júnior (que começou com apenas 4
clubes, comecei a acompanhar com 36 e em 2017 teve 120) e o meu peso
corporal. E a Eurocopa vai pelo mesmo caminho (eram 4, 8, 16 e agora
24). Eu preciso fazer um regime. Dona FIFA e Dona UEFA vão fazer
também?
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu
blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é
bastante freqüentado por leitores
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