Da
série As Mais Belas Histórias
* Por
André Falavigna
Trata-se
de meu tema mais recorrente, eu sei. Inclusive, terei que repetir
algumas histórias, nesta crônica, que já estiveram presentes em
outras. E muitos dos personagens. Mas, compreendam: nas ocasiões em
que foram citadas, foram-no acessoriamente. Ainda que tenham
consistido no ponto alto de certas crônicas, em nenhuma se as
utilizou, se não como eixo da narrativa, ao menos como principal
assunto. Mesmo por ocasião da apresentação do prêmio André
Falavigna, oferecido ao autor da mais despropositada, todavia justa
grosseria do ano, concentramo-nos muito mais na idéia motivadora do
evento do que nas cafajestadas em si. É chegada a hora de corrigir
tal distorção. O rompante baixo é a anedota em tempo real. Não é
possível que todo o potencial humorístico da realidade convertida
em piada seja objeto apenas de reprimendas morais, por mais que
cabidas. Eu, pelo menos, não consigo mais negligenciar a faceta
cômica, mas reveladora, desses episódios plenos daquela natureza
prática capaz de purgar todo caráter caricatural, tão típico da
piada tornada a própria vida e que, assim, fede a enxofre, da vida
que inspira a piada e que tem, portanto, qualquer coisa de ironia
celestial.
Exemplos,
senhores, exemplos. Já lhes contei da tia de meu pai que, no início
dos anos 80, aproveitando-se de período de certa prosperidade
familiar cujo melhor resultado fora a aquisição de uma pequenina
propriedade rural, cismou de tratar a coisa como se fôssemos parte
de um empreendimento turístico-hoteleiro. A parentada toda ia
bastante e tudo era muito divertido. A referida senhora, das mais
assíduas, desde logo se comportou de maneira – como direi? –
mais ou menos imprópria. O mulherio cozinhando, lavando louça, às
vezes auxiliado pela criançada que ajudava a pôr ou tirar a mesa e
ela lá, curtindo a fantasia de madame. Sua filha, que sempre viajava
consigo mas que, por seu turno, mostrava-se disposta a tomar parte
tanto dos prazeres como das tarefas relacionadas a ocasiões assim,
passava pelos maiores constrangimentos. A cada tentativa de socorrer
a quem fosse, a mãe a repreendia.
Onde
já se viu? Eram visita, não é mesmo?
Minha
mãe azucrinava meu pai por conta da desídia da outra. Afinal, a tia
era dele e, por isso, uma mangia
polenta. As dela,
ajudavam – aquela velha arenga do sul que trabalha e que a Itália
rica chama de "Norte da África". Diante dessa pequena
reprodução, inconsciente aliás, de revanchismos importados (e,
sejamos justos: cada dia mais nos aperfeiçoamos na altamente
progressista arte de importar ódios) o Gordo foi se enfezando.
Proibiu aquele assunto em casa, brigou com a minha mãe. Mas sabia
que, daquela vez pelo menos, ela estava certa. Só estava também,
daquela vez como em todas as demais, muito mais preocupada em
permanecer irritada do que em debelar verdadeiramente os focos de
irritação.
Bom,
o homem agüentou tudo até o feriado mais próximo, deixando escapar
diversas oportunidades que, ao menos em aparência, seriam perfeitas
para liquidar a fatura. Compensou, acreditem. Na ocasião, a tal tia
cometeu o aguardado erro grave, aquele que abriria as portas pelas
quais o corretivo poderia ser completamente atravessado como um móvel
incômodo, mas tão bonito que não se quer ver arranhado: apareceu
sem a filha, prima do meu pai, ausente talvez porque estivesse
envergonhada demais para se permitir o prazer de uma piscininha, dum
pomar, talvez dum trote. Era a deixa para que aquele homenzarrão
enganosamente pachorrento pusesse-se a postos: com toda a calma de
que era capaz, conseguiu deixar chegar a hora exata. E ela veio no
almoço de qualquer dia (eram todos iguais, os dias e os almoços -
ensolarados aqueles e nababescos estes) e, desinteressado,
entremeando esforços para fatiar um pernil monumental, perguntou a
tal tia porque a prima Fulana não havia aparecido. A gorda senhora,
bastante afetada, intercalou dois goles de Cuba
Libre gemendo algo
como "Ah,
Joscar
(contração
curiosa de José com Oscar, muito utilizada por parte da família
dele),
não
sei o que deu nela; saúde sabe? Estava muito, muito indisposta, a
tadinha".
Foi
então que o Gordo levantou o tronco, antes debruçado sobre a
travessa gloriosa, passou o pano pela testa encharcada, zelando pela
integridade da peça de resistência, e, entre chupadelas cafajestes
nos dedos melados de gordura de porco, disparou:
_
Ah, tia, não se
preocupa. O pior do verão está aí chegando e, com aquele calorão
todo, o corrimento dela seca.
Tive
um chefe que se tornou meu amigo, mais velho do que eu em algumas
décadas. Camarada pequenino e inspirado, ao ouvir de mim que certo
conhecido nosso transbordava os mais horripilantes e olorosos
hormônios toda vez que via alguma moça enfiada em inocentes calças
brancas respondeu-me que, de sua parte, compreendia mais do que bem a
tara:
_
Amiguinho, calça
branca até no varal me deixa de pau duro.
Isso
porque conhecêramos-nos há três dias. Depois, melhorou. Com
freqüência, tersóis incomodavam esse meu amigo. Nessa passagem é
que descobri que há muitos tipos de tersol e inúmeras maneiras de
combatê-los: há colírios certos para os de origem infecciosa,
outros para os alergênicos, outros ainda para os
psicossomáticos; trata-se duma verdadeira festa. E, nas farmácias,
não se pode os vender assim, como se fossem colírios não
alucinógenos: o sujeito tem de ir ao oftalmologista para
verificar qual providência cabe para o seu mal, sob pena até
de sair cego da auto-medicação. Impaciente, meu então chefe
chamou-me a acompanhá-lo para a farmácia mais próxima, donde,
perninhas rápidas, passos curtos e movimentos antigos de jogador
aposentado, solicitou a atenção da titular da casa:
_
Minha querida, o que você tem aí para isto aqui? Eu sei, eu sei,
o oftalmo é quem sabe. Mas, minha linda, ajude este pobre homem
desenganado e de saco cheio, muito cheio, cheio de dar dó. Diga lá
o que tenho que comprar que compro em outro lugar e não lhe causo
problemas. Você me ajuda, eu não te preocupo. Pelo amor, pelo amor
de Deus...
A
moça, sabe-se lá por que louca para ceder, dispôs no balcão,
entre desconfiada e ousada, três ou quatro produtos de diferentes
naturezas. E explicou-os lindamente, ainda que sem oferecer-nos a
dica precisa, a chave fatal que arruinaria o maldito tersol. Seu
elegante adversário insistiu com jeito, sempre renovando as
promessas de não complicação. Após poucos, mas intensos minutos,
veio a capitulação denunciada pela direção de um dedinho salvador
e apetitoso de tão trêmulo:
_
Veja bem... No seu caso, está bem claro que é este que vai
servir...
Infiel
às próprias palavras, meras promessas de campanha, o sujeito
estendeu a mão lépida, tomou a caixinha para o bolso da camisa e
disparou, tergiversando, mal disfarçando a cara-de-pau numa
simulação de pressa executiva:
_
E pra disfunção erétil, o que você tem aí?
Embrulhada
pelo diversionismo, nossa nova amiguinha pôde apenas esboçar um
acanhado “Como?”, enquanto não se impedia de ir aflorando
simpática curvinha dos lábios bem desenhados. Ao que lhe
responderam, acrescendo-se assim alguma galanteria ao grotesco:
_
Só o seu sorriso né, meu amor?
Esta
série é interminável, renderia muitos e valiosos volumes. Quando
puder, aliás, levarei-a adiante. Material não falta: apenas duas
historietas ganharam-me a semana. Interesse propedêutico, muito
menos - num tempo cada vez mais ominosamente cheio de medo e
prevenção como o nosso, a divulgação deste tipo de incidente é
quase um exercício de moralidade altaneira. Eu sei, há quem se
chateie.
Já
é um começo, afinal.
(*)
André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e
crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal,
http://ofalavigna.blog.uol.com.br,
no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance. Colabora
com diversas publicações eletrônicas.
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