Abridores e fechadores
* Por
Marcelo Sguassábia
- Quando eu entrei por
concurso no serviço federal, acumulava função. Olha o absurdo! Naquele tempo,
quem abria tinha que fechar a porta também. Era uma escravidão, a gente ficava
sobrecarregado. Depois de muita luta do sindicato, conseguimos criar a função
comissionada de fechador de porta. Mas antes, não era mole. Tinha dia que
encarava três, quatro maçanetas no horário do expediente. Dá pra imaginar?
Chegava esgotado em casa, queridão. Só de lembrar daquela época, já me ataca a
gastrite.
- Tenha dó, não queria
estar na sua pele. Quatro maçanetas pra abrir num dia só, tem que ter Jesus na
causa. É a treva.
- E além do desumano
desgaste físico, já reivindicávamos mais segurança no desempenho da função.
Isso sempre esteve na pauta da categoria. E convenhamos: nós, abridores,
estamos muito mais expostos a riscos do que vocês, fechadores. É quando a
autoridade entra em um ambiente novo que o risco é maior. Quando está saindo do
recinto é tudo mais fácil. O evento, a audiência, a recepção ou sei lá o quê,
já foi. É a hora da dispersão, se tivesse que ter algum atentado, já era pra
ter acontecido.
- Não acho, não. O
risco é o mesmo. Nosso adicional de insalubridade tinha que ser igual ao dos
abridores. Isonomia já!! E tem outra, que o senhor está esquecendo: o que mais
acontece por aqui é reunião a portas fechadas. E aí quem tem que dar conta de
hora extra atrás de hora extra, varando conchavo de madrugada sem pregar o
olho, são os tontos dos fechadores. Vocês, abridores, já estão em casa faz
tempo.
- E a culpa é nossa? É
o descanso dos guerreiros, meu amigo. Nós merecemos. Quantas vezes fizemos
piquete na porta do Alvorada reivindicando puxadores de porta ergonômicos, para
prevenir LER? E quantas vezes acampamos na porta da Presidência do Senado
fazendo campanha pelo fim das portas automáticas, que tanto ameaçam o digno
exercício da nossa função?
- E continuam
ameaçando, né... Aquele senador, como é mesmo o nome dele? Vive falando lá na
tribuna que a nossa função não tem cabimento, não tem amparo constitucional,
não tem isso, não tem aquilo. Pois não é que o Dodô, o sub-tesoureiro do
sindicato, levantou a ficha do bacana e descobriu que ele tem uma fábrica de
sensores de presença, em Diamantina? Tá explicado o interesse do cara em querer
acabar com a gente. Se ele ganha licitação pra automatizar portas, imagina
quanto vai faturar só no Palácio do Planalto!!!
- Pensa que somos
figuras decorativas. Imagina o Presidente da República, da Câmara ou do Senado
ter que ficar abrindo e fechando portas por onde passa, e a vergonha para o
país em ter essas imagens veiculadas pela mídia internacional! E no dia em que
faltar energia elétrica? Serão centenas de portas que não abrem e nem fecham.
- E nós, aposentados
compulsoriamente, não estaremos lá pra resolver a parada. Aí sim é que eu quero
ver!
- Não é só isso. Veja,
por exemplo, a tal H1N1, essa gripe que vira e mexe ameaça todo mundo. Maçaneta
de porta é um verdadeiro depósito desse vírus aí, e é mais um risco de vida que
corremos. Tinham que criar a função de passador de álcool gel, para desinfetar
tudo antes da gente chegar com a comitiva.
- Escutou? Acho que
estão batendo na porta. Será que tinha alguém escutando a nossa conversa?
- Abre logo de uma
vez.
- Quem tem que abrir é
você. Eu só fecho, esqueceu?
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Palmas para o fechador de portas e passador de álcool gel em maçaneta!
ResponderExcluir