Personagens femininas de Monteiro
Lobato
O escritor Monteiro Lobato criou alguma personagem feminina
inesquecível? Esta é a pergunta, em tom de “pegadinha”, que mais tenho ouvido
de uns tempos para cá. Esse questionamento acentuou-se notadamente desde que
passei a abordar o tema referente ás mulheres protagonistas de grandes
romances, contos e novelas na literatura mundial. O assunto, por si só, é tão
polêmico como este homem de letras, adorado por gerações que leram seus livros
voltados à faixa infantil quando crianças e odiado por políticos e por pessoas
que não aceitam opiniões contrárias às suas e que tentam destruir quem as
emite. A biografia de Monteiro Lobato é tão rica que renderia uma infinidade de
comentários que, certamente, gerariam acalorados debates, com opiniões
favoráveis e contrárias ao que foi e, sobretudo, às suas ações. Esse, porém,
não é o tema destas minhas considerações.
Possivelmente algum dia eu trate desse assunto, comentando
seus êxitos e fracassos, seus acertos e erros, que dão “pano para muita manga”.
Por ora, todavia, me restringirei em responder ao questionamento, em tom de “pegadinha”,
que mitos me têm feito de uns tempos para cá. Minha resposta à indagação é
SIM!!! Monteiro Lobato criou personagens femininas inesquecíveis, sobretudo em
seus livros voltados ao público infantil, que se constituem, apenas, em metade
ou pouco menos de sua vasta, eclética e copiosa obra literária. Por uma série
de razões, que não irei sequer mencionar (cada qual conclua por si), apenas suas
histórias pára crianças se impuseram e se popularizaram. A tal ponto que, os
que nada sabem a seu respeito, ou conhecem muito pouco, acham que ele não
escreveu e não publicou mais nada que não fosse literatura infantil.
E quais seriam essas personagens femininas inesquecíveis?
Quem leu a obra de Monteiro Lobato ou assistiu às várias séries de televisão
que ela ensejou (foram seis, se não me falha a memória) cita-as de imediato,
sem pestanejar. Aliás, à exceção de Pedrinho, do Visconde de Sabugosa e do
Marquês de Rabicó, nenhum outro protagonista masculino ocupou posição que não
fosse a de “meros figurantes”. Minha dúvida é uma só: qual das quatro
personagens femininas, presentes na quase totalidade das histórias infantis que
criou, é “mais” inesquecível?
É Dona Benta, a avó dos meninos, que se destacou por seus
educativos, edificantes e inteligentes serões? É Tia Nastácia, em torno da qual
girou (e ainda gira) absurda polêmica sobre pretenso racismo do escritor, o que
levou muitos a defenderem o banimento dos livros de Monteiro Lobato das escolas
públicas do País? É Lúcia, tratada pelo apelido de Narizinho, por ter um nariz
um tanto (e graciosamente) arrebitado e que por isso passou a ser tratada
assim? Ou é Emília, a boneca de pano, feita por Tia Nastácia, que não só falava
pelos cotovelos, mas tinha e emitia surpreendentes opiniões, que à primeira vista
pareciam enormes disparates, mas que se revelavam de cristalina sabedoria? Para
mim, não se trata, sequer, de escolha. Por que tenho que escolher apenas uma,
se as quatro são absolutamente inesquecíveis?!!.
Os que fizeram o citado questionamento, com intenção de que
fosse “pegadinha”, exigem-me a exclusão de Emília desse rol. Discordo. Meus
questionadores argumentam que essa protagonista não se trata de pessoa, mas de
uma boneca de pano. Ora, ora, ora. O tema em questão é sobre personagens femininas
e não especificamente sobre “mulheres”. Teriam razão, portanto, se essa
protagonista fosse um “boneco” (poderia ser, por que não?). Mas não é. Ademais,
Emília tem todas as características psicológicas femininas. Incluo-a,. sim,
nessa relação. E mais do que isso: destaco-a. Talvez (e notem bem, digo,
apenas, “talvez”) a intenção do escritor fosse a de destacar Narizinho.
E por que cheguei a essa conclusão? Porque tudo começou para
ele com o livro “A menina do narizinho arrebitado”, que publicou em 1920, A
partir daí, deu continuidade à sua fantasia, dada a aceitação da história
original pelas crianças, e deu no que deu: a imortal saga (e não reluto em
tratá-la assim) que foi a coleção “Sítio do picapau amarelo”. Foi o sucesso junto
à meninada que motivou Monteiro Lobato a explorar, mais e mais e mais, esse
tema. Deu no que deu, reitero. Li, pela primeira vez, seus livros quando tinha
por volta de dez anos de idade, na biblioteca da escola em que estudava. Desde
então, fiz tantas releituras, em épocas as mais diversas de vida, que não
saberia especificar quantas foram. Li, por exemplo, cada um dos livros para
meus quatro filhos. E planejo fazê-lo para meu neto mais novo, o João Vítor,
que já mostrou interesse pelas histórias quando lhe mencionei o assunto.
Pra quem contesta que Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho e
Emília sejam personagens femininas inesquecíveis, proponho que façam um teste.
Perguntem às crianças que leram os livros ou que assistiram à série “Sítio do
picapau amarelo” na televisão, o que elas acham destas quatro. Duvido que não tenham
opinião semelhante, ou parecida, ou igualzinha (o que é mais provável) à minha.
Elas não irão mentir. E nem dar a entender que sejam o que não são. A meninada
tende a ser sincera. Por isso, Monteiro Lobato decidiu escrever
prioritariamente para elas. São elas, e não o público adulto, que o tornaram “imortal”
no cenário literário. O escritor explicou, em certa ocasião, o motivo dessa
opção: "De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas
para crianças um livro é todo um mundo". E estava errado? Eu também, se
tivesse 1% do seu talento, agiria da mesmíssima forma. Escreveria para a
meninada e conquistaria seus corações e mentes para sempre.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Li na casa do meu avô, a partir dos onze anos de idade todos os livros de Monteiro Lobato para crianças. O que mais me impressionou e que me fez relê-lo (ao contrário de você não releio livros, exceto alguns, como Dom Casmurro, por exemplo) tamanho foi me encantamento. Para mim, uma obra prima inesquecível. Sobre a personagem, Emília na cabeça. Espetacular na sua falação e implicâncias.
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