O frio de fora e o de dentro
* Por
Marcelo Sguassábia
Que coisa chata
amanhecer no domingo com chuva e frio fustigando a janela. Um dia desse jeito é
meio perdido, mal resolvido e defeituoso, meteorológica e produtivamente
falando. O que influi no meu humor. Melhor dizendo, no mau humor.
Tem quem goste,
achando que dias assim convidam à introspecção, balanço da vida, essas coisas.
Outros se sentem mais dispostos para o trabalho. Esse negócio de frio tem sim,
seus poucos momentos compensadores. Mas são delícias fugazes, que não pagam as
penas de sair do banho tiritando, de pular da cama de má vontade e de espaçar,
muito compreensivelmente, as ocasiões para a prática daquela milenar e
prazerosa modalidade.
Imagina o inverno pra
turma do circo. O vento a 80 por hora arriando a lona. A agonia dos faquires,
na gélida cama de pregos. A responsabilidade dos trapezistas e atiradores de
faca, tendo que manter a precisão com as mãos trêmulas.
E limpar gaiola de
passarinho? Primeiro tem que lavar no tanque aquele fundo de zinco, cheio de
caca. Empedernido pelo vento impiedoso, o dejeto só sai com palha de aço ou
espátula. Pior é quando você roeu todas as unhas na véspera, deixando as
cutículas em carne viva. Aí sim, fica gostoso mesmo.
Gosto de tomar um
uísque no fim de semana. Não mais que uma dose - cavalar, é verdade - o
suficiente pra relaxar sem ficar xarope. E uísque sem gelo, não dá. É mais uma
triste limitação do inverno, essa estação odiosa. Tendo que renunciar ao meu
trago domingueiro, comecei a fuçar nuns álbuns de fotos, do começo dos 90. Umas
férias onde estou de passageiro num barco, passeando pela baía de Camamu. Olho
as fotos e, claro, acesso o registro correspondente na cabeça, ele existe, está
lá. Porém é tão frio quanto o dia lá fora.
O fato sobrevive em
linhas gerais, mas sem as sensações correspondentes. A foto não me traz de
volta a brisa no rosto, o barulho do motor da embarcação, o azulado da água, o
que sentia e pensava naquele instante. E assim acontece com outras coisas.
Passo em frente de uma casa onde morei por cinco anos. E nada, só um flash
nebuloso e em preto e branco vem à mente, condensando meia década num impreciso
borrão de lembranças. Em seguida bate aquele paradoxo existencial - viver pra
quê, se o que se vive agora será esquecido daqui a pouco? Você comenta com um
amigo sobre isso e ele vem com a máxima, presente em 10 entre 10 manuais de
auto-ajuda: "viva intensamente cada momento, como se fosse o último.
Preste atenção ao presente, sem se agarrar ao passado ou se preocupar com o
futuro. Assim você estará mais receptivo a reter o que acontece agora".
Pior ainda é constatar
que a sua memória recente também é uma retardada, incapaz de lembrar do que
você jantou ontem. Livros às centenas, filmes aos milhares. Não os reconheço,
nem pela caixinha e nem pelo conteúdo. Para mim são eternos lançamentos. Olho
para a estante, leio os títulos nas lombadas, sei que um dia os devorei a
todos. Atenta e silenciosamente, a cada um deles dediquei dias e mais dias. Pra
chegar agora e não lembrar de nada - nem da história, nem do assunto, nem dos
nomes dos personagens, nem de coisa nenhuma. Dizem os psicólogos e
neurologistas que é o consciente que não lembra, e que o subconsciente guarda
tudo em detalhes. E é aí, inclusive, que eles entram com suas ferramentas e terapias.
Penso: é a idade. Errado: aos 14 já era assim. Chego a aventar a hipótese de
distúrbio cognitivo. Herança genética? Talvez. Meu avô estacionava o carro e
esquecia os vidros abertos, a chave no contato e - inacreditável - o motor
ligado.
Mas por que é que eu
vim parar aqui mesmo? Sei lá. Esse frio deixa a gente meio assim, de miolo
duro.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário.
Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Gostoso e quente desabafo onde encontro alguém que não gosta do frio. Também não vejo vantagem alguma no período. O banal e rotineiro são doloridos. Como faz pouco frio e por tempo limitado (norte de Minas), não temos os aquecimentos adequados, por exemplo, para sair do banho e não congelar os pés na cerâmica. Em que isso pode ser bom? Agradeço a graça e a solidariedade, Marcelo.
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