Grande é pensar pequeno
* Por
Marcelo Sguassábia
Telescópio: Veja bem,
microscópio (veja bem é ótimo, não?)... Você deveria ter inveja de mim. Fica aí
de cabeça baixa, no seu mundinho minúsculo, como que olhando para o umbigo,
enquanto eu vagueio noite adentro por desavisadas janelas abertas, na busca de
mulheres sem roupa. Uma melhor que a outra, você nem imagina. Pô, mas que falta
de educação, levanta esse pescoço enquanto eu falo com você, caramba!
Microscópio: Pois é,
primeiro o prazer, depois o dever. Ou melhor, as fatais obrigações da
paternidade responsável. O sujeito te usa sim, telescópio, se deleita com as
beldades horas sem fim. Até que o instinto faz com que ele não se aguente e
bata à porta de uma delas. Papo vai, papo vem, rala e rola, ele faz um filho
nela. E quem é que enfia a cara nas hemácias, bastonetes, glóbulos brancos,
células epiteliais e não sei mais o quê, tanto da mãe quanto do pimpolho? Pois
é, eu mesmo, né? Depois da farra, do casamento não planejado e do parto, vem a
rotina doméstica e você fica definitivamente esquecido. Anos e anos. Isso até
que o pimpolho - se for macho - te descubra escondido num fundo de armário e,
naquela mesma janelinha indiscreta de outrora, demonstre que herdou o velho
vício do pai...
Telescópio: Concordo,
meu colega de lente, concordo. Mas, convenhamos: que vidinha melancólica é esta
sua. Só te procuram nessas horas. Pra ver se tem doença, confirmar diagnóstico,
que horror. Prefiro ficar socado num fundo de armário anos a fio e ser
procurado movido pelo instinto e pela curiosidade do que ser usado todo dia por
motivações tão frias. E muitas vezes mórbidas.
Microscópio: Tudo bem.
Sua opinião não altera em nada a minha visão de mundo.
Telescópio: Nas
escolas, me usam para estudar os planetas, asteroides e galáxias. E você, pra
ver célula de cebola. Umas porcarias de células de cebola. Isso é vida?
Microscópio: Não se
esqueça que a felicidade está nas mínimas coisas. De que adianta se meter a
desvendar o universo sem se conhecer primeiro? Mais vale a humildade da minha
cabeça baixa do que a arrogância do seu nariz sempre empinado, apontando o
tempo todo para as estrelas.
Telescópio: Eu não sei
por que ainda insisto em discutir com você.. Não adianta, você nasceu pra
pensar pequeno. O mundo inteiro conhece as grandes descobertas de Kepler,
Copérnico, Galileu Galilei. Mas será que alguém sabe o nome do descobridor do
citoplasma?
Microscópio: Só que é
sabendo o que sabe sobre o citoplasma que a ciência garante razoável sobrevida
à legião dos distraídos e lunáticos astrônomos, essa turminha que vive te manipulando.
Pode ver: qualquer resfriadinho põe os seus amigos todos de cama. Não fosse por
mim e minhas lâminas, até hoje milhões de seres humanos estariam morrendo de
tuberculose, febre amarela,tifo, caxumba, rubéola...
Telescópio: No seu
lugar eu me sentiria um capacho, um subalterno de quinto escalão. Não te
chateia gastar a vida entre hamsters de laboratório? Não se envergonha da
biografia mesquinha que vai legar à sua prole?
Microscópio: De jeito
nenhum. Da minha prole eu tenho orgulho. Na condição de microscópio, posso
escolher qual dos meus espermatozoides vai fecundar o óvulo da minha senhora.
Um privilégio para poucos, meu querido telescópio. Agora, se me der licença, eu
tenho muito resultado pra entregar.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Um no micro e outro no macrocosmo, cada um com sua importância, mas aqui, ganhou o microscópio. Um assunto sério para risadas.
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