O poeta
* Por
Francisco de Castro
Na jaula das selvas sentindo-se escravo
Rugido medonho soltara o leão,
Bem como se acaso no peito do bravo
Cratera estalasse de aceso vulcão.
Os montes, na aresta de enormes barrancos,
Tremeram erguidos no seu pedestal,
Talvez que batesse seus túmidos flancos
A clava invisível do gênio do mal!
Corria nos ares fatal pesadelo,
A terra gelava mudez tumular,
A noite era um antro cercado de gelo,
E os astros dormindo caíam no mar.
Entanto vagava naquela paragem,
Mais mudo que a terra, mais frio que a noite,
Romeiro perdido de ignota viagem,
Sem ter nos desterros aonde se acoite.
Quem é que sabia de que astro ele vinha?
E o triste a que portas iria bater?
Sua alma profundos mistérios continha,
E nela o infinito podia caber.
Chamaram-no - gênio; chamaram-no - louco;
Viveu de utopias,- loucura do céu!
Passou e sumiu-se: caiu dentro em pouco
Nas fauces hiantes de negro escarcéu.
Auréola de mártir a fronte lhe cinge
Possui do destino funesto condão;
Da vida nos transes, a dor - essa esfinge,
Suspende nas garras o seu coração.
Passou qual bacante de orgia encantada,
Gastara um tesouro de crenças celestes,
Foi pobre na terra de vícios manchada,
Trocou por andrajos as cândidas vestes.
Foi alma tão funda que embalde se a sonda;
Jamais o interesse domara-lhe os brios...
Foi alma fecunda: - foi luz e foi onda:
Brilhou com os astros, correu com os rios!
(Harmonias errantes, 1878)
*
Médico, professor, orador e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras.
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