Esqueça sua ideia da FLIP
* Por
Mara Narciso
Quem imagina que a
FLIP possa ser uma feira de livros na praça de uma cidade histórica a
beira-mar, na qual crianças sejam estimuladas a leitura e escritores falem e
vendam seus livros, abandone essa pálida ideia da Festa Literária Internacional
de Paraty. Ao chegar à festa, caso não mergulhe em cultura, a cultura
mergulhará em você. A contaminação acontece sem sua vontade expressa. A cultura
em Paraty é uma febre que não passa. Toda a cidade fervilha a mesma doença:
fome e sede de saber. Para onde se olha, em todos os lugares, a festa cultural
acontece. Todos somos platéia de múltiplos espetáculos. A programação oficial
consta de trinta páginas, e há até sete acontecimentos simultâneos, fora os
eventos paralelos, ditados pelos visitantes.
Na sua 13ª edição, é
natural que a cidade fique superlotada, e que seja, nos horários de pico,
difícil se deslocar pelas ruas charmosas, planas e pedregosas. Mas, fora esse
possível desconforto, nem de longe há tensão ou insegurança. Anda-se sem
apreensão em qualquer horário. O policiamento ostensivo não incomoda, ainda que
os policiais estejam ao lado de carros com luzes piscantes. A coleta de lixo é
impositiva, e, caso haja algo fora da lixeira, uma camionete o recolhe
invisivelmente.
A multidão festiva e
diversificada com suas inúmeras e estranhas tribos desgarradas não para. A
festa é internacional e várias línguas são ouvidas. Os argentinos e peruanos,
depois dos brasileiros, por óbvio, são os mais numerosos. Veste-se ou não se
veste, do jeito que se quiser, pois, ainda que faça frio, indígenas são vistos
portando saiote de palha e corpo pintado.
As casas coloniais bem
conservadas são multicoloridas em suas fachadas barrocas, misturando-se com a
cor das roupas dos transeuntes, gente contida, gente de leitura, que, até na
fila do banheiro, outra coisa notável pela limpeza e fluidez em engolir gente,
prova como a educação, bem mais do que o dinheiro, tem poder transformador.
A festa deste ano gira
em torno da vida e obra do escritor paulista Mário de Andrade (1893 - 1945),
cuja morte completa setenta anos. O polêmico professor de piano e autor de
“Paulicéia Desvairada” e “Macunaíma”, o herói sem nenhum caráter, tem sua vida
dissecada nas mesas de discussão. Estas acontecem na tenda principal, cujo
acesso é restrito a um público pagante, mas podem ser vistas nos telões
externos. Quando se faz necessária a tradução simultânea - palestrantes
estrangeiros -, estão disponíveis fones retiráveis com documento.
Mário de Andrade, um
mulato cuja sexualidade ainda é motivo de discussão, foi protagonista da famosa
“Semana da Arte Moderna” de 1922, e após uma viagem ao norte e nordeste do país
escreveu “Turistas aprendizes”. Foi montada, sobre essa informação, assim como
as demais, uma mesa de discussão com duas escritoras estrangeiras, uma
portuguesa, Alexandra Lucas Coelho, jornalista que cobriu guerras no oriente
médio e que morou no Brasil e escreveu “Vai, Brasil”, e a crítica literária
argentina Beatriz Sarlo, que também escreveu um diário de viagem. Cada autora é
apresentada e depois fala da obra de Mário de Andrade e da sua própria viagem e
livro.
A programação mostra
aspectos históricos e os traz para os dias atuais, com análises sociais,
econômicas e políticas em seus diversos matizes. Nomes conhecidos falam das
suas convicções para um público, muitas vezes boquiaberto, ainda que não
concorde com o que é falado. Ouvi-los faz a platéia abrir os sentidos,
principalmente quando contradizem o que pensam. Saborear conhecimento e
inundar-se de saber são prazeres que podem ser testados por uma multidão de
devotos da Literatura.
Outras atividades
culturais não literárias, como exposição de mandalas móveis e recambiáveis,
capoeira, dança, canto, músicas tocadas ou cantadas em cada esquina ou janela,
música clássica na Matriz (show que lotou a igreja e fez chorar) e
apresentações circenses e teatrais estão à disposição.
Após os debates, a
conversa elevada na fila de autógrafos é digna e proveitosa. A apresentação
musical na Casa Folha por três músicos, sendo Moreira Júnior um deles, mostra
por duas noites música popular nacional e estrangeira, desmanchando guitarras,
que falam entre si. O vinho aquece o coração de um público civilizado, dando
vontade de amarrar o tempo naquelas cordas e viajar na música, para sempre.
Diante da boa comida,
do público educado, dos bons profissionais que recebem, a harmonia corre solta.
Acabada a festa de cinco dias, a gente larga Paraty, mas Paraty não larga da
gente. Um pedaço dela vem junto, assim como o passaporte carimbado para a
próxima festa.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Muito bom, Mara. Com seu texto, também estive em Paraty e também não quis voltar. Abraços!
ResponderExcluirAno que vem vamos montar um grupo bem expressivo, e se saúde tiver, não faltarei. Obrigada, Marcelo.
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