A trágica “Julieta” dos trópicos
A Literatura brasileira é, sem favor algum, uma das mais ricas e expressivas do mundo.
Sempre que afirmo isso, sou criticado e tachado de “ufanista”. Por quem? Por
pessoas que se acham “entendidas” no assunto, mas que não são. Creiam-me, não
sou nenhum Conde Afonso Celso contemporâneo. Sou, sim, estudioso das nossas
letras e dotado, sim, de um espírito crítico, mas que tento exercitar com
equilíbrio. Porém despido de preconceito, tão comum aos tantos que consideram
que tudo o que é nosso é inferior, é defeituoso e é incompleto. Depois dos 7 a
1 para a Alemanha, até as conquistas do nosso futebol passaram a ser
desprezadas, como se fossem coisas triviais, de somenos. Para estes, só nossos
fracassos contam.
A Literatura brasileira não é inferior a nenhuma outra. É,
isso sim, subvalorizada. E tal subvalorização se dá não no exterior, é mister
que se frise (na Europa ou nos Estados Unidos), mas justamente, onde não deveria
ser e que se esperava que fosse cultivada, com afinco e com cuidado, mas que
não é: no próprio Brasil. Por que isso acontece? Por uma série de razões que
pretendo, oportunamente, trazer à baila. Estas considerações vêm a propósito de
um dos nossos escritores mais criativos e argutos, no entanto pouco conhecido,
a despeito de haver produzido uma obra consistente e rica, entre ensaios,
memórias e romances e ter sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Refiro-me ao Visconde de Taunay (Alfredo Maria Adriano d’Escragnole Taunay),
autor de onze livros, dentre os quais essa obra-prima da ficção que é “Inocência”.
E por que destaco essa obra, em particular, das outras que
ele produziu, todas excelentes e dignas de figurar nas melhores e mais seletas
bibliotecas? Porque dela emerge uma das personagens femininas realmente inesquecíveis:
justamente a que dá título ao romance. O livro, aliás, é um marco na Literatura
brasileira, por se constituir numa transição entre o Romantismo e o
Naturalismo. A história se passa no sertão do então vasto Estado do Mato
Grosso, antes da criação do Mato Grosso do Sul. O foco da ação é a cidade de Paranaíba.
Comparo (guardadas as devidas proporções) “Inocência” a “Grande Sertão, veredas”,
de Guimarães Rosa. Taunay, a exemplo do escritor mineiro, descreve, com enorme
precisão, não somente o ambiente onde situa seu enredo, mas também os
personagens, suas vestimentas, seus costumes, suas ações, seus gostos e tradições
e, principalmente, sua forma de se expressar.
Trata-se de um drama de amor, permeado de certas cenas
cômicas, a cargo do personagem Meyer, um pesquisador (naturalista) alemão,
perdido naqueles sertões selvagens e bravios, com suas trapalhadas na maneira
de falar e de se comportar. Muitos consideram “Inocência” uma espécie de “Romeu
e Julieta sertanejo”. A comparação, posto que um tanto exagerada, até faz certo
sentido. A história trata de um caso de amor sem nenhuma possibilidade de “happy
end” para os amantes. A exemplo dos personagens da peça de William Shakespeare,
o “affaire” amoroso do casal apaixonado termina em tragédia para ambos. Quem
leu o romance, sabe do que estou falando.
Inocência (a nossa “Julieta dos trópicos”) é uma bela sertaneja,
simples, carinhosa e meiga, que após ter completado 18 anos, foi prometida, á
sua revelia, em casamento ao rústico Manecão. Seu “noivo” era um comerciante de
gado, que estava sempre viajando, sujeito atrasado e meio selvagem. Ele foi escolhido,
sabe-se lá por que, pelo pai da moça, Pereira, sujeito de comportamento rude e
autoritário, conservador tanto no que se
referia a costumes, quanto aos rígidos padrões morais da época. Em sua casa,
todos, sem exceção, deviam-lhe irrestrita obediência.
Certo dia, Inocência cai muito doente, praticamente
desenganada. Desesperado, o pai ficou sabendo de um “médico”, que andava pelas
redondezas curando doentes, e resolveu recorrer aos seus préstimos. Tratava-se
de Cirino, moço de bom caráter, que se valendo de seus conhecimentos
farmacêuticos, adquiridos em curso incompleto de Farmácia que fizera em Ouro
Preto, curava os enfermos daquele sertão bravio. Como fazia? Por intuição. Não
era médico coisa nenhuma. Mas... curou a moça.
Convidado por Pereira, passou a morar naquela casa, na
companhia da sua “paciente”. Não tardou, todavia, para apaixonar-se pela linda
adolescente, sendo correspondido por ela. Mas... era um amor impossível de
terminar bem. Inocência estava prometida a Manecão. Por este tempo, o naturalista
alemão Meyer também foi acolhido como hóspede. O pai de Inocência desconfiou
que o estrangeiro estivesse de olho na filha e pediu a ajuda do suposto médico
para vigiá-lo. Ou seja, nomeou a raposa para tomar conta do galinheiro. Em
suma, Pereira finda por descobrir a verdadeira paixão da moça e dá-lhe uma
grande surra. E Cirino acaba morto por Manecão, a pretexto de “lavar sua honra
com sangue”. Inocência, todavia, não resiste a tanto drama. Morre de tristeza
por haver perdido o amado e por ter de se casar com o rude comerciante de gado
que desprezava e pelo qual tinha repulsa. Nessa história toda, só Meyer se sai
bem.
Talvez o alemão nem amasse a moça, ou se amasse, fosse um
amor “diferente”, caracterizado apenas pela admiração, sem nutrir a mínima
expectativa romântica. De volta para a Alemanha, conquista um importante prêmio
científico, por haver descoberto nova
espécie de borboleta, que batizou de “Inocência”, ou, no jargão científico, de “Papilio
Innocentia”. O romance do Visconde de Taunay, publicado inicialmente em
fascículos (e só em 1872 transformado em livro), consta de 30 capítulos, cada
um deles introduzido por citações de alguns clássicos da literatura universal,
como Goethe, Rousseau, Cervantes, Ovídio, Molière, Walter Scott, Eurípedes, até
mesmo Shakespeare e muitos outros. É uma obra-prima de ficção. E Inocência, que
só queria poder amar quem seu coração elegesse, é, por qualquer critério que se
adote, de fato e de direito, grande personagem feminina, e inesquecível, da
Literatura brasileira.
Boa leitura.
O Editor.
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Queria saber mais sobre Inocência. O que ela tinha de tão especial?
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