domingo, 28 de agosto de 2011







Conflito e interação

*Por Pedro J. Bondaczuk

O relacionamento harmonioso entre as pessoas é o fator determinante do grau de civilização de um povo. Quanto mais respeito existe entre os indivíduos, sem que os diferenciais da posição social, da intelectual e da idade (entre outros), interfiram, mais civilizada é a sociedade. Esse entendimento, evidentemente, não pressupõe ausência de conflitos, mas sua sábia administração, naquilo que os sociólogos denominam de "interação".
A humanidade, na presente geração, está muito avançada, neste aspecto, em relação a um passado não tão remoto. A escravidão de pessoas era um fato normalíssimo no Brasil, por exemplo, até recentemente (1888). Hoje, embora exista, é tida como atitude abominável.
Mas a espécie humana ainda está extremamente atrasada se atentarmos para o ideal, para o ápice da civilização (a absoluta liberdade dentro dos limites democráticos, ou seja, onde a nossa termine no ponto em que a do próximo comece), a espontânea fraternidade entre todos os indivíduos e a solidariedade total, que talvez jamais venha a ser alcançado, mas que deve ser incansavelmente perseguido.
Enquanto houver dominadores e dominados, exploradores e explorados, privilegiados e excluídos, estaremos distantes "milhões de anos-luz" da absoluta racionalidade, que por enquanto continua sendo apenas aspiração e não realidade. O predomínio dos instintos sobre a razão está muito longe de ter acabado.
A diversidade de opiniões (seja a respeito do que for) é sempre salutar. Em raríssimos temas duas pessoas, livres para pensar e externar o que pensam, concordam integralmente. Até sobre o conceito que a lógica diz que deveria ser óbvio para todos e absolutamente consensual, o da existência de Deus, há discordâncias. Uma parte considerável dos quase seis bilhões de indivíduos que povoam o Planeta nega que haja qualquer divindade.
E entre os que crêem que ela exista, há profundas divergências, que vão desde a sua unicidade (muitos acreditam em muitos deuses), até sua forma, extensão e poder. E é bom que seja assim. É o homem exercendo sua racionalidade. Irracional é tentar fazer, a força, com que alguém pense como nós. E o número de vítimas de guerras, que tiveram por pretexto razões religiosas (envolvendo um grupo tentando impor seus pensamentos e conceitos a outro através de armas) ascende a milhões ao longo da história.
Claro que tais guerreiros não podem ser enquadrados na definição de "civilizados". As divergências (sejam de que natureza forem), em vez de conduzir as pessoas à confrontação e até ao homicídio (como ocorre), deveriam agir no sentido da sua aproximação, enquanto seres inteligentes e livres.
Os verdadeiros democratas sabem que democracia não é a ausência de conflitos. Esta só ocorre nas mais ferozes ditaduras, onde o pensamento do tirano conta com exclusividade. O ditador é o único "dono da verdade", até por definição. Sente-se senhor da vida e da morte dos que estão submetidos à sua tirania, amparado, é claro, na força bruta, tendo a cumplicidade de seguidores fiéis (que só mantêm fidelidade enquanto seus interesses são satisfeitos).
A história provou inúmeras vezes que sociedades desse tipo nunca prosperam. As maiores potências da atualidade são aquelas onde os conflitos não são extintos, mas administrados com sabedoria e relativa justiça por instituições criadas para esse fim. É o caso específico dos Estados Unidos. Ou dos países que integram a União Européia.
Mesmo ali, no entanto, ainda há muito, muitíssimo, exagerado autoritarismo, que nasce dentro da família (com a ausência de diálogo em casa de pais que "mandam" e não "ponderam") e se espraia por toda a sociedade.
O escritor britânico H. G. Wells destaca: "O estimulante conflito das individualidades é o fim último da vida pessoal e todas nossas utopias não são senão esquemas para melhorar essa interação".
O dramaturgo Nelson Rodrigues tem uma forma mais direta e saborosa de dizer isso. Afirma que "toda unanimidade é burra". E é mesmo. Na maioria dos casos, reflete unicamente "preguiça de pensar". Ou domínio de alguém sobre muitos, na maioria das vezes determinado por ameaças (sutis ou ostensivas, não importa).
A Carta Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, muito mencionada e pouquíssimo cumprida, sentencia que "todos os homens nascem livres, com igualdade de direitos e obrigações". Mas não é preciso ser nenhum gênio para perceber que isto não passa de "letra morta". Por incrível que possa parecer, e por maiores que tenham sido os avanços no relacionamento entre os indivíduos, ainda há escravidão --- explícita e disfarçada --- em várias partes do Planeta.
Estima-se por volta de 200 milhões o número de pessoas que têm sua liberdade e sua dignidade covardemente violadas, sem que ninguém faça nada para coibir ou evitar. Uma geração que age dessa maneira, que tolera tal comportamento, não pode ser considerada civilizada. Que todos os homens deveriam ser iguais em direitos e deveres é bastante óbvio, embora nem todos (ou raríssimos) entendam isso. Até porque, há um fator biológico que atua como argumento decisivo e que suprime na prática eventuais veleidades de superioridade: a morte. Quem pode contra esse nivelador?

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

Um comentário:

  1. Noto que no Orkut de seis anos atrás as pessoas brigavam mais do que agora no Facebook. Xingavam nomes e era um horror. Será que nos civilizamos?

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